A fórmula mágica do Dr. Roberto

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– Deixe o Dr. Roberto cuidar de você!

– O Dr. Roberto vai fazer você feliz!

– Tudo vai ficar melhor na sua vida quando o Dr. Roberto chegar!

O Dr. Roberto tem muitos nomes. Ele é aquele carro zero, o novo celular, a viagem de férias, a máquina de lavar roupa ou o cartão de crédito.

Sem eles, sua vida não tem graça e você será um homem ou mulher muito infeliz.

Mas, atenção, eles, são muito volúveis. Não vão ficar com você por muito tempo. Você precisará trocá-los todos anos.

Estamos falando da grande alquimia da vida moderna, a publicidade que transforma objetos em medicamentos que curam instantaneamente as dores da alma.

Ela é a grande sustentação da sociedade capitalista.

No seu livro “O fim do homem soviético”, Svetlana Aleksiévitch conta que a União Soviética começou a desmoronar quando os apelos em favor da pátria, do humanismo e da amizade foram substituídos por slogans publicitários.

A grande mídia que armou o cenário para a derrubada do Governo Dilma e que faz a lavagem cerebral diária que mantém os mais pobres conformados com a sua situação, só existe porque a publicidade a sustenta.

Antigamente, ela era simples e direta:

– Rim doente? Tome Urudonal e viva contente.

– Detefom é que mata, moscas e mosquitos, pulgas e baratas.

Hoje, ela se sofisticou.

O celular não é um telefone móvel que lhe permite falar com outras pessoas. Ele é um sinal de distinção. Sem ele, vou é um homem ou mulher de segunda classe.

O cartão de crédito, como as pessoas, também dá status diferentes aos seus donos.

Excluindo a grande massa dos sem cartão, os que são admitidos no clube dos “com cartão”, não são todos iguais. Até chegar ao estágio do Cartão Platina Plus, devem cumprir um longo percurso.

Um carro de 2.015 já virou uma velharia que não projeta nenhum status de poder ao seu proprietário. O modelo do ano, já está nas ruas meses antes de terminar o ano anterior para ficar menos tempo em uso.

Os publicitário e marqueteiros inventaram uma expressão para explicar isso: obsoletismo programado.

A profissão desses mágicos, que transformam pedra em ouro, também se sofisticou. O reclame virou comunicação publicitária.

Quando você vê aquele filme na televisão, o jingle no rádio ou o anúncio no jornal, talvez você não saiba, mas ele adquiriu a sua forma, depois de um longo trabalho de estudos e pesquisa.

Hoje, até mesmo a neurociência está sendo usada para saber exatamente qual é o som, qual é a cor e até mesmo qual é cheiro que mais agradam ao consumidor.

E não é um consumidor em geral. É o chamado público-alvo. Aquele segmento de público que se identifica não apenas pela idade ou sexo, mas pela forma como expressam seus sentimentos.

Pode crer, você faz parte de um desses grupos e não é apenas o de torcedor do Inter, eleitor do PT ou advogado. Você um “heavy user” para algum novo tipo de sabão em pó.

É melhor, então, você deixar suas resistências de lado, e chamar o Dr. Roberto.

Relaxe e goze, enquanto puder.


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1 pensamento em “A fórmula mágica do Dr. Roberto”

  1. Muito interessante.
    Aliás, penso que os publicitários estão entre os profissionais mais irresponsáveis com relação às consequências de seu trabalho. Vivem de manipular as mentes das pessoas menos capazes de defender-se da influência midiática. Vendem falsos modelos de vida ideal, o consumismo desenfreado e irracional. Ao serem questionados defendem-se sob a égide da liberdade de expressão. “Se uma coisa existe e está à venda, porque não posso vender?” “Não estou fazendo mal a ninguém, só estou oferecendo algo que as pessoas são livres para escolher”. Simplificam e idiotizam o debate.
    Recomendo um documentário chamado “Muito Além do Peso”. Fala dos problemas da má alimentação infantil e o efeito da publicidade de alimentos industrializados, principalmente voltados à crianças. Há um momento em que um publicitário é questionado sobre forma irresponsável que estes alimentos são vendidos pela publicidade, bem interessante ver sua forma egoísta de pensar e a hipocrisia com que responde. Depois, vem um contra argumento esmagador.

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