O homem que amava as mulheres


Ele morava sozinho num apartamento de um velho edifício perto da Usina do Gasômetro, na rua Washington Luís, que ele insistia em chamar de Pantaleão Teles.Quando perguntei porque esse saudosismo, ele disse que nem sabia quem era o tal Pantaleão, mas não gostava do Washington Luís, “aquele representante da elite paulista varrida pela Revolução de 30”.- Depois a Pantaleão era a rua de muitas mulheres, uma rua de meretrício, por isso mudaram o nome.

-Esses caras têm horror das mulheres.

Mulheres, era por isso que eu estava agora naquele apartamento. Ele soubera que eu havia escrito alguns livros – livros que a bem da verdade, poucos leram – e agora queria que eu escrevesse sua biografia.
E tinha até pronto o título do livro:
O Homem que amava as mulheres.
Falei para ele que já havia o livro do Leonardo Padura fazendo sucesso – O Homem que amava os cachorros – mas ele disse que não tinha lido e era de mulheres e não de cachorros que ele queria falar.

Disse também que havia um filme do François Truffaut de 1977, com este título.

-Eu vi esse filme. Acho que ele não vai se incomodar se eu aproveitar seu título para o livro.
Como não tinha dinheiro para pagar meu trabalho, me ofereceu sua biblioteca com centenas de livros e uma coleção de garrafas de uísque intocadas.
– Os livros não posso ler mais porque estou quase cego e em relação a bebidas, só tomo vinho.
Essa explicação ele me deu, enchendo meu copo com um malbec argentino.
Passamos a tarde juntos. Eu tinha levado o gravador e registrara suas histórias, prometendo que depois que escrevesse alguma coisa, voltaria para conversar com ele.
Nunca mais o vi. Ou vi, apenas nas páginas policiais quando encontrei a notícia de que um ancião que vivia sozinho num apartamento da Washington Luís havia sido encontrado morto e seus vizinhos disseram que era um sujeito muito estranho.

O jornal o classificou de misógino. O jornalista imbecil que escreveu isso, deve ter pensado que o termo de origem grega significava um sujeito solitário, quando o significado verdadeiro era de um homem que odeia as mulheres.
Logo ele, que, acima de tudo, amava as mulheres.
Fui então procurar o velho gravador de pilha e comecei a relembrar as frases entrecortadas do seu depoimento.
O livro, não vou escrever mais, mas algumas das frases que ele disse, gostaria de dividir com vocês:
– O homem só existe por causa de uma mulher
– Mesmo quando não valem nada, elas são maravilhosas
– As mulheres me deram tudo, inclusive a vida
– Amei centenas de mulheres. Muitas delas nunca ficaram sabendo. A maioria me traiu, mas nunca tive ódio delas.
– Amei desde as estrelas do cinema, até àquela menina de óculos que frequentava a missa das 10 na Igreja São João e nunca soube da minha existência.
– Sempre fui eclético nos meus amores cinematográficos. Sonhei com os seios da Jane Russel no Proscrito, com aquelas italianas exuberantes como o Gina Lolobrigida e a Silvana Pampanini e as metidas intelectuais, todas francesas, como a Jeanne Moreau, a Michele Morgan e a Simone Signoret.
– Tem os que não gostam das mulheres. Tenho pena deles. Li uma vez que, quando o pai não consegue impor limites ao filho, que está literalmente grudado na mãe, ele interioriza as características femininas da, inclusive seu objeto de desejo, o homem. Seria um novo triângulo, pai passivo/mãe dominadora/ filho efeminado. Meio complicado isso. Prefiro o Analista de Bagé, daquele menino, o Luís Fernando, filho do Érico
– Amei mais de uma mulher ao mesmo tempo e fui fiel a todas elas nessas ocasiões. Elas, não.
– Vou confessar. Sou polígamo por natureza, mas gostaria que as minhas mulheres fossem monógamas. Bobagem. Elas são o que elas são.
– Traição? Nunca trai nenhuma. Claro que eu não falava da existência das outras. Mas quando estava com elas, não pensava nas outras. Elas, sim, pensavam em outros. Uma delas, uma vez, trocou meu nome numa hora bem imprópria.
– Chamou de quê?

-Acho que de Maicon, ou coisa que valha. Um nome americano, desses de cantor de rock. Logo eu que tenho um nome bem brasileiro.

– Vou te dar o nome de uma mulher famosa que conheci biblicamente. Na Bíblia é assim: David conheceu Sara e ela deu a luz a Jacó. Ou seja, na Bíblia, conhecer é sinônimo de transar.
_ Nome dela é ….

Vocês não vão acreditar, mas a fita se rompeu exatamente nesse momento e não vamos ficar sabendo que mulher era essa.
Acho que vou organizar todo esse material e ver se existe algum editor disposto a publicar. Minha ideia é pedir para a Carmen Cecília fazer uma de suas lindas ilustrações para este livro sobre o Homem que Amava as Mulheres, porque ela, além de ser uma grande artista, acredita no amor.
Eu, depois de ouvir o que ficou no meu gravador, também começo a acreditar.

A Matadora

Outro dia contei a história do Alcebíades e algumas amigas me chamaram de machista.
Agora vou contar a história de Maria Helena, a Matadora.
O hospital fica em frente a uma grande praça. Quando me sinto um pouco melhor, como hoje, consigo chegar à janela e posso ficar olhando à praça. São 5 horas da tarde e nessa hora, ela começa a ficar cheia de pessoas fazendo exercícios, muitas crianças brincando, gente puxando seus cachorros e principalmente casais nos bancos, namorando.
Meu olhar sempre procura estes casais, num misto de inveja e também de pena. Alguns são mais pudicos nos carinhos que trocam, mas outros, sem maior atenção com seus vizinhos, estão começando uma relação sexual, que certamente não se dará aqui, mas num dos motéis que agora existem em praticamente todos os bairros da cidade.
Minha atenção maior se dirige para estes casais, que quase não conseguem suportar a ansiedade e o desejo sexual. Fico pensando se eles se sentirão gratificados depois que consumarem seu desejo ou terão muitos motivos para se arrependerem como aconteceu comigo.
Minha história, que está terminando agora na janela desse hospital para doentes portadores de HIV, começou há pouco menos de um ano e seus primeiros momentos foram extremamente distantes do drama que estava se armando e do qual eu não percebi nenhuma indicação do que iria acontecer.
Durante anos fui professor de comunicação numa faculdade onde o sexo feminino era predominante, ou, pelo menos, era o mais visível aos meus olhos. Eu tinha pouco mais de 30 anos e o mundo era uma festa e as mulheres pareciam, a cada semestre, mais interessadas no professor do que na matéria que ele ensinava.
As coisas foram acabando aos poucos, até que terminaram. Eu era agora um velho que vivia de lembranças. Para continuar olhando para aquele passado do jeito que ele era na época, me recusava sempre a participar daquelas festas que as turmas antigas sempre organizavam, mas naquela vez não consegui resistir ao argumento que a Lourdinha, agora brilhante publicitária, acrescentara ao convite.
– Lembra da Maria Tereza?
Claro que lembrava. Foi uma paixão que durou um semestre e terminou de uma maneira bem desagradável, com ela me acusando de machista, qualificativo que outras iriam repetir muitas vezes, Soube depois que ela casara com um sujeito que era ator da Globo e mais tarde morreu num acidente de avião, ainda jovem
– Pois a filha dela quer te conhecer.
Como resistir a esse argumento, Como seria a filha da MariaTereza?
Era uma morena alta, esguia, rosto anguloso, lábios carnudos, seios grandes, tudo que eu gostava aos pedaços, reunido num só corpo.
Eu estava constrangido. Ela não. Disse que sua mãe sempre falava de mim.
– Mal? Perguntei.
Ela não respondeu. Apenas sorriu.
Meia hora depois ela disse que tinha um compromisso e perguntou se eu não me dispunha a levá-la em casa.
Tudo parecia fácil de mais. Apesar das mil fantasias que passavam pela cabeça, lembrei que não era mais o jovem professor, mas um senhor com mais de 60 anos e que precisaria estar sempre prevenido para qualquer emergência. Ainda bem que tinha uma caixinha de Viagra no bolso.
– Para onde vamos? Perguntei.
– Um motel, como nos velhos tempos.
Confesso que fiquei um pouco assustado com a ousadia dela. A conquista parecia muito fácil, mas acabei encontrando uma explicação psicológica para o interesse dela: inveja da mãe.
Fiquei ainda mais preocupado. Ela vai querer superar a mãe e não sei se estou preparado para tanta responsabilidade.
Fomos para o motel em Ipanema e logo estávamos prontos para uma sessão de sexo, quando me lembrei que os novos tempos exigiam o tal sexo seguro. Ainda bem que o motel oferecia os preservativos.
Aí, ocorreu a segunda surpresa. Nada de camisinha. Ela queria sexo mais natural.
Natural, fiquei pensando, não parece a palavra adequada, mas para mim ficava até melhor.
As lembranças do passado e o Viagra fizeram efeito e passamos a noite no motel.
Ao acordar, lembrei que quando nos apresentamos na festa, ela disse se chamar Maria Helena, mas que tinha um apelido que talvez me contasse um dia.
– Você ainda não disse o seu apelido
– Matadora.
– Por quê?
– Porque minha meta é matar todos os homens promíscuos. Um deles, uma vez, me transmitiu essa doença infernal. Eu agora me vingo, transmitindo-a para homens bem vestidos que querem usar camisinhas para se preservar, machistas como você.
Ela explicou que era portadora da doença, mas imune às suas conseqüências.
– Eu agora sou uma arma mortal para vingar a todas as mulheres contaminadas por homens egoístas. Sou a Matadora. Entendeu o porquê do apelido?
Na hora, pensei que era brincadeira, mas um mês depois o diagnóstico médico foi devastador.
– O senhor está contaminado pelo vírus do HIV.
Era a Aids que me trouxe para este hospital e agora da janela fico imaginando se a Matadora não é uma daquelas mulheres que enxergo de longe namorando num banco da praça.

Amor e ódio num apartamento da Azenha

Deu na página policial do Diário Gaúcho.

O sujeito se chamava Alcebíades, tinha 25 anos e estava casado há seis meses com a Maria Madalena, 21 anos.

Naquele dia quente de janeiro, caiu uma tempestade na cidade, faltou luz no escritório, na Rua 7 de Setembro e os computadores da financeira só voltariam a funcionar no dia seguinte.  Por isso, os funcionários foram dispensados.

Antes de voltar para casa, o Alcebíades resolveu fazer uma surpresa para a Maria Madalena e passou no mercado, onde comprou meia dúzia de quindins, que ela adorava.

Quando abriu a porta do pequeno apartamento na Rua Botafogo, na Azenha, logo ouviu os gemidos que vinham do quarto. Percebeu na hora do que se tratava. Pôs os doces sobre a mesa e abriu a gaveta do armário onde guardava o revólver 32, que ganhara do pai e nunca usara.

Entrou no quarto e mandou aquele sujeito todo tatuado arrumar suas coisas, se vestir e dar no pé. Explicou num bilhete que a polícia encontrou depois, que ele não tinha nada a ver com a história.

O sujeito, que soube-se depois, chamava-se Arnaldo Cesar, saiu quase correndo e foi direto na delegacia.

Enquanto isso, o Alcebíades  não disse uma palavra. Deu dois tiros na Maria Madalena, ainda nua sobre a cama.

Depois sentou junto à uma mesinha e escreveu um bilhete, dizendo que não aceitava a traição, mas também não podia viver sem aquela mulher, a única que conhecera na vida, e que muito amava, como deixou escrito. Em seguida, deu um tiro na cabeça.

A delegada  Elvira Eneida, titular da Décima Nona Delegacia,  contou todo o caso para a jornalista Yvanilda Quadros, que assinou a matéria no Diário Gaúcho, sob o título “Morta após uma tarde de amor”.

Ao contar a história a jornalista concluiu com aquela frase que  tinha ouvido na televisão, dita  Globo num programa da Fátima Bernardes : “quem ama, não mata”.

Realmente, a televisão simplifica tudo. A vida é muito mais complicada. Amor e ódio são irmãos siameses. Por isso andam sempre juntos, principalmente quando são muito intensos.

Precisamos falar sobre suicídios e suicidas

 

Um ato que exige extrema coragem ou uma demonstração de covardia de quem teme enfrentar as agruras da vida?

Não importa. Quem ainda não pensou em suicídio?

Segundo o psiquiatra Roosevelt Cassoria, especialista brasileiro em suicídio, “todos já pensamos em suicídio em algum momento na vida. É um pensamento humano. Se não desejamos nos matar, ao menos cogitamos morrer – morrer para escapar do sofrimento, para nos vingar, para chamar a atenção ou para ficar na história”.

 O filósofo e escritor franco argelino Albert Camus (1913-1960) diz que só há um problema filosófico verdadeiramente sério sobre o qual o homem deve refletir: o suicídio. Segundo ele, a questão fundamental da filosofia é responder se vale a pena ou não viver.

Camus decidiu que vale a pena.

Já o escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950), 12 anos antes de se matar com barbitúricos, tinha escrito: “Ninguém, nunca deixa de ter um bom motivo para se matar”.

Na era da comunicação, o suicídio pode também ser uma forma de enviar uma mensagem aos que ficam. No seu livro “Suicídio – Testemunhos do Adeus”, a psicóloga Maria Luiza Dias Garcia diz que, como vivemos numa rede de relacionamentos, a nossa morte significa algo para as outras pessoas.

As estatísticas parecem provar que existe muita gente no mundo querendo se comunicar dessa forma radical.

Segundo o mais recente relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 804 mil pessoas se mataram no ano 2012 em todo o mundo – uma taxa de 11,4 para cada 100 mil habitantes. Isso significa um suicídio a cada 40 segundos. A “violência autodirigida”, como o suicídio é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é hoje a 14ª causa de morte no mundo inteiro. E a terceira entre pessoas de 15 a 44 anos, de ambos os sexos.

No Brasil são aproximadamente 12 mil casos por ano, o que significa 32 suicídios por dia, ou seja, uma média de 4,5 suicídios por 100 mil habitantes nos últimos 20 anos. Na Finlândia, esse percentual é de 23,4 casos em 100 mil pessoas. As taxas brasileiras de suicídio se elevam conforme a idade dos indivíduos, até atingir sua máxima expressão na faixa de 70 anos ou mais, quando chegam a 7,3 suicídios em 100 mil. A média de suicídios aumentou no mundo inteiro em 60% nos últimos 50 anos.

Os psiquiatras e psicólogos dizem que pensamentos suicidas são mais comuns nas mulheres, mas taxas de suicídio masculino são mais elevadas. Certamente porque eles usam métodos mais definitivos e violentos, como arma de fogo e enforcamento. Em média, ocorrem cerca de três suicídios masculinos para um feminino.

Algumas mulheres, porém, são mais determinadas na busca do seu objetivo. A poetisa americana Sylvia Plath (1932-1963) tentou se matar duas vezes antes de concretizar o suicídio. As duas experiências fracassadas serviram para escrever o romance A Redoma de Vidro.

Os sinais do seu inconformismo com a vida, podem ser lidos no que ela escreveu:

“Meu Deus, a vida é solidão, apesar de todos os opiáceos, apesar do falso brilho das festas alegres sem propósito algum, apesar dos falsos semblantes sorridentes que todos ostentamos

A vida de Sylvia Plath foi contada no cinema, com Gwyneth Paltrow recriando a sua vida e seus amores em “Sylvia – Paixão Além das Palavras”.

O tema suicídio já foi mostrado inúmeras vezes no cinema, mas talvez os que mais avançaram na sua discussão foram “Mishima, uma vida em 4 tempos”, sobre o escritor japonês Yokio Mishima (1925/1970), que cometeu um suicídio ritual e “Os Últimos dias”, sobre Kurt Cobain (1967/1994), vocalista do Nirvana, feito por Gus Van Sant.

Os dois falavam muito sobre a morte:

Nos últimos cinco anos eu desejei a morte todos os dias. Às vezes cheguei bem perto”. (Kurt Cobain)

“A vida humana é finita, mas eu gostaria de viver para sempre” (Mishima)

As artes buscaram muitas vezes inspiração no ato de suicídio, outras vezes o inspiraram como dizem ser o caso da música “Gloomy Sunday”, Domingo Sombrio, criada na década de 1930 pelo húngaro Rezso Seress. Ela teria estimulado, segundo essa lenda urbana, mais de 100 suicídios por volta de 1935, quando estava no auge do seu prestígio.

Seress, nascido em 1889, também se suicidou em 1968. Mas para isso teve que tentar duas vezes, primeiro saltando da janela do seu apartamento, depois se enforcando com uma corda, no hospital, para onde foi levado depois da primeira tentativa.

Mas, por que as pessoas se suicidam?

As respostas são muitas.

“Existem causas imediatas predisponentes – como perda do emprego, fracasso amoroso, morte de um ente querido ou falência financeira – que agem como o último empurrão para o suicídio”, segundo a psicóloga Blanca Guevara Werlang, da PUCRS.

Pode ser uma alteração no metabolismo da serotonina. O psiquiatra Pavel Hrdina, diretor do Laboratório de Neurofarmacologia da Universidade de Ottawa, Canadá, descobriu que pacientes depressivos, portadores de uma mutação no gene responsável por codificar um dos receptores da serotonina, apresentavam duas vezes mais chances de cometer suicídio que aqueles sem a mutação.

Doenças mentais podem provocar uma vulnerabilidade maior ao suicídio. Estudos de autópsia psicológica, feitos com base em entrevistas com amigos, familiares e médicos do suicida mostram que mais de 90% das pessoas que se mataram no mundo tinham alguma doença mental.

Para a doutora Maria Cecília de Souza Minayo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro, a adolescência e a velhice são os dois momentos mais propícios tanto para a ideação e as tentativas de suicídio quanto para concretização do ato, por razões diferentes. Na velhice, os motivos se devem à depressão, sentimentos de rejeição e abandono e à dificuldade de aceitar certas enfermidades dolorosas e incapacitantes.

O problema parece tão grave que a Organização Mundial da Saúde (OMS), lançou, em 1999, o SUPRE, um programa mundial para a prevenção do suicídio. O objetivo é reduzir as taxas de mortalidade de “violência autodirigida”, acabar com o preconceito em relação ao tema e prestar assistência técnica aos países para a formulação de políticas públicas e programas de prevenção.

Outros pensam diferente. O caso mais famoso é do médico e patologista americano Jack Kevorkian, chamado o Dr. Morte (1928/2011) que defendia o direito dos pacientes terminais a um suicídio assistido. Ele deu essa assistência em mais de uma centena de casos nos Estados Unidos, criando inclusive uma máquina, a Thanatron, que permitia ao próprio paciente se injetar uma droga mortal, para fugir das acusações de assassinato que a justiça americana levantou contra ele.

Em 2010, a HBO contou a história do Dr. Morte no filme “You Don´t Know Jack”, com Al Pacino e Susan Saradon.

Depois da morte de Kevorkian, a Thanatron foi a leilão nos Estados Unidos e por 200 mil dólares ficou nas mãos de um colecionador.

Em alguns países do mundo, com graus diferentes de exigências legais, se permite a prática do suicídio assistido. Os mais tolerantes são Holanda, Suíça, Bélgica e Alemanha. Nos Estados Unidos, ela é permitida em cinco Estados: Washington, Oregon, Vermont, Novo México e Montana. Na Colômbia já foi dada autorização judiciária para um caso.

No Brasil, é considerado crime.

A construção e a morte de um sonho

(A morte da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século. Vladimir Putin)

A História não é uma luta entre mocinhos e bandidos como num filme de faroeste ou numa novela do Globo. O bem e o mal costumam se misturar dialeticamente na vida de personagens e nos fatos históricos.

Uma leitura dos três maiores movimentos sociais do século XX, as Revoluções Russa, Chinesa e Cubana, fornecem material suficiente para comprovar essa tese.

Tomemos, por exemplo, a Revolução de 1917 na Rússia, a mais importante de todas elas, porque além da mudança que provocou na geografia do mundo ocidental, tinha como sustentação toda uma teoria política construída desde que Marx publicou, junto com Engels, o Manifesto Comunista de 1848.

Mesmo que na cabeça dos seus principais líderes, principalmente Lenin, estava clara a ideia de que ela seria o primeiro passo para a construção da tão sonhada ideia do socialismo, para a maioria da população o que os bolchevistas ofereciam era, primeiro a paz e depois pão e terra.

Depois que os revolucionários bolchevistas tomaram o Palácio de Inverno, em São Petersburgo e proclamaram o caráter socialista do movimento, os mencheviques e socialistas revolucionários, que junto com os bolchevistas tinham derrubado o regime do Czar, queriam que revolução parasse no estágio capitalista democrático, porque a Rússia não estaria preparada ainda para o passo seguinte.

Foi quando Lenin fez sua famosa pergunta: vocês querem que se interrompa a revolução e se chame o Czar de volta?

Ninguém queria chamar o Czar de volta.

Lenin foi o grande herói da revolução proletária porque era acima de tudo um humanista que sonhava com um mundo onde as pessoas teriam todas as mesmas oportunidades e ninguém viveria do trabalho dos outros.

Mas, quando a guerra civil irrompeu e as intervenções estrangeiras pretenderam destruir a nascente república soviética, lançou o chamado “terror comunista” contra os “brancos” e os que sabotavam a revolução.

Defensor da propriedade estatal dos bens de produção e do uso comum da terra, não titubeou em lançar uma nova política econômica, a NEP, em 1921, que durante algum tempo incentivou a propriedade privada, para superar um período de fome intensa e a sabotagem dos agricultores.

Foi Lenin, também, quem não concordou com a chamada “guerra revolucionária” contra a Alemanha e depois aceitou  a Paz de Brest Litovsk, mesmo com as condições draconianas impostas pelos alemães.

Outro grande personagem da Revolução Russa foi Leon Trotsky. Menchevique de origem, crítico de Lenin, se tornou depois seu aliado.

Sua tese de “nem paz, nem guerra” nas negociações com os alemães, para a saída dos russos da guerra e a desmobilização das tropas, se mostrou catastrófica.

Foi, porém Trotsky que organizou o Exército Vermelho, que no caos da Rússia pós 1917, foi quem sustentou o regime socialista.

Foi Trotsky, sempre visto como defensor da liberdade e do direito à democracia em todas as instâncias do Partido Comunista, quem defendeu a militarização dos sindicatos e ordenou o ataque à Fortaleza de Kronstadt, em 1921, pondo fim a revolução dos marinheiros, que reivindicavam o cumprimento das promessas feitas em 1917 de mais liberdade e democracia.

Finalmente, Josef Stalin, o mais longevo dos revolucionários soviéticos, que se dizendo seguidor das ideias universalistas de Marx, defendeu a estranha proposta do socialismo num só país.

Que se dizendo um humanista, instaurou uma das ditaduras mais cruéis da História.

Que, teorizando sobre a importância do companheirismo e lealdade entre os revolucionários, foi abatendo um a um, todos eles, em processos forjados que envergonham até hoje os que no passado defendiam seu governo.

Foi Stalin, que mesmo sendo advertido para as ambições expansionistas dos nazistas em relação ao Leste europeu, promoveu um enorme expurgo no Exército Vermelho nas vésperas da segunda guerra, permitindo que os alemães, quando a guerra foi declarada, chegassem às portas de Moscou.

Mas, foi Stalin quem, a ferro e fogo, transformou a economia russa para produzir em curto espaço de tempo tanques, aviões e canhões, mobilizou um povo inteiro para resistir aos ataques nazistas e depois comandou a ofensiva que só terminou em Berlim.

Foi também Stalin quem, depois de negociar com americanos e ingleses as zonas de influência na Europa de pós-guerra, usou o Exército Vermelho para garantir a construção de sistemas socialistas de fachada na maioria dos países do Leste Europeu, colocando no poder políticos sem qualquer identificação com seus povos.

O sistema que os socialistas criaram na Rússia em 1917 e que transformou o País na única grande potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos, com grandes conquistas tecnológicas e dispondo de um poderia militar assombroso, ruiu como um castelo de cartas, sem tiros, nem derramamento de sangue, em 1991.

Como isso foi possível?

Uma boa maneira de tentar entender como isso aconteceu é lendo o livro “O fim do homem soviético” de Svetlana Aleksiévitch, Prêmio Nobel de Literatura em 2015.

Usando uma técnica de entrevistas, a autora dá voz, desde as pessoas mais simples, até outras, que mesmo não sendo o que se convencionou chamar de figuras históricas, influenciaram de alguma maneira os acontecimentos políticos da Rússia.

Através desses depoimentos, recuperamos os tempos difíceis da guerra; depois, o orgulho de pertencer a uma grande nação respeitada no mundo inteiro e ao mesmo tempo o medo de um estado policial, que prendia e torturava (suprema ignomínia de um estado que se dizia socialista) os que se atreviam a contestar suas normas; mais adiante as esperanças surgidas a partir de 1985, com a perestroika e a glasnost de Gorbatchóv, que prometia um modelo europeu de consumo para os russos e a decepção que vai se seguir, com as concessões que ele vai fazendo para agradar os americanos ; o fim da União Soviética, com os tempos tempestuosos de  Iéltsin, marcando a volta de um capitalismo selvagem, com uma inflação que chega a mais de 2.000 ao ano, a presença das máfias disputando a ferro e fogo o controle dos negócios e finalmente a retomada de uma certa estabilidade com Putin e junto com ela a nostalgia do velho comunismo igualitário.

A autora toma cuidado em não assumir um lado em meio as divisões frontais que separam seus entrevistados porque, como diz, não pergunta sobre socialismo, mas sobre o amor, o ciúme, a infância e a velhice.

Leia como um romance e você vai aprender muito sobre essa aventura imensa que foi a construção e a destruição da União Soviética.

 

O perigo que mora nos sites de relacionamento

Mulher, 30 anos, viúva, profissional liberal, procura senhor com 30 anos a mais, no máximo, branco, com formação superior, para relacionamento sério.

A foto na rede social mostrava uma mulher bonita, loura, de olhos azuis. Minhas credenciais só não batiam na questão da idade exigida. Mas, como as amigas sempre me davam uns 10 anos menos na avaliação física que faziam a meu respeito – eram pessoas muito gentis comigo – resolvi arriscar, já que atendia as outras exigências. Era branco, formado em Filosofia e estava mesmo a fim de um novo relacionamento sério, depois que meu quinto casamento terminara, como terminaram os quatro primeiros, quando fora expulso de casa.

Marcamos um encontro no Mahomé, ali na Bonfim. Quando cheguei, levei um susto: quem me esperava era uma mulher com traços que me lembravam a foto da rede social, mas era seguramente uns 20 anos mais velha.

Antes que reclamasse de propaganda enganada, a mulher se apresentou:

– Sou Odete, mãe da Valdete.

Fui informado então que a Valdete era muito tímida, que seu casamento anterior com o Ferreti, um velho diretor classe B de comerciais de varejo, fora muito ruim, e que depois da morte dele, afogado no Campeche , ela se recusava a ter um novo relacionamento. O anúncio na rede social fora posto pela Odete, que se dispusera a analisar pessoalmente todos os candidatos.

Simpatizei com a Odete e ela comigo. Logo ficou acertado que ela conversaria com a Valdete, que era dentista com consultório no Sarandi, e montaria um esquema para nos aproximar.

Dois meses, iniciamos, eu e a Valdete, um relacionamento sério. Ela veio morar no meu apartamento na Zona Sul e trouxe junto a mãe, Odete, um cachorro pequinês, o Joubert.

Eu tinha um gato malhado e castrado, chamado Hermenegildo.

Enquanto meu relacionamento entre eu, a Odete e a Valdete ia às mil maravilhas, o do Joubert, que a Odete se recusava a castrar, com o Hermenegildo, quase virara uma guerra aberta, nos obrigando a estabelecer zonas de exclusão no apartamento para o cão e o gato.

Valdete saia cedo para o seu consultório no Sarandi, a Odete passava o dia vendo os programas da Globo na televisão, enquanto eu ficava escrevendo para sites que ninguém lia ou conversando no feicibuque com o Pintaúde e o Sérgio Gonzales, sobre um pocket show que pretendíamos montar com o Roberto Callage e o Beto Soares, contando a história da MPM.

Um dia, faltou energia elétrica na Zona Sul e como não dava para ver televisão, nem escrever no computador, acabou acontecendo o que qualquer um pode imaginar que aconteceria entre a Odete e eu.

A Valdete não se incomodou muito com o ocorrido, a Odete publicou um novo anúncio nas redes sociais e ela logo encontrou um outro senhor para um novo relacionamento sério.

Era um sujeito chamado Sepé de los Angeles, muito simpático, apelidado de Foguinho, que tinha uma pet shop na Cavalhada. Os dois foram morar num condomínio na Otto Niemayer e a Valdete, felizmente levou junto a Joubert.

Como a Odete não saia da frente da televisão e eu do computador, ela sugeriu que trouxéssemos sua irmã gêmea, a Marlete, que se separara do marido, em Esteio, o Albano, para morar conosco e ajudar na cozinha e na limpeza do apartamento

Estamos juntos, os três, há quase um ano e por enquanto vai tudo bem, principalmente depois que sugeri que fizéssemos um “ménage à trois”.

Inicialmente as duas ficaram um pouco incomodadas com o uso desse galicismo, mas quando traduzi para os nossos hábitos, ficou tudo bem.

A Odete e a Marlete gritaram quase ao mesmo tempo.

– Ah… é a nossa tradicional suruba.

Por enquanto vai tudo bem. Passo o dia no computador, a Odete na televisão e a Marlete na cozinha. À noite, dividimos a mesma cama, a única que temos. O Hermenegildo recuperou o domínio de todo o apartamento.

Só quem não vai bem é a Valdete, que anda ameaçando abandonar o Albano.

Falei para a Odete e a Marlete que onde comem três, comem quatro, mas por enquanto elas ainda não aprovaram o tal “ménage à quatre”.

A fórmula mágica do Dr. Roberto

– Deixe o Dr. Roberto cuidar de você!

– O Dr. Roberto vai fazer você feliz!

– Tudo vai ficar melhor na sua vida quando o Dr. Roberto chegar!

O Dr. Roberto tem muitos nomes. Ele é aquele carro zero, o novo celular, a viagem de férias, a máquina de lavar roupa ou o cartão de crédito.

Sem eles, sua vida não tem graça e você será um homem ou mulher muito infeliz.

Mas, atenção, eles, são muito volúveis. Não vão ficar com você por muito tempo. Você precisará trocá-los todos anos.

Estamos falando da grande alquimia da vida moderna, a publicidade que transforma objetos em medicamentos que curam instantaneamente as dores da alma.

Ela é a grande sustentação da sociedade capitalista.

No seu livro “O fim do homem soviético”, Svetlana Aleksiévitch conta que a União Soviética começou a desmoronar quando os apelos em favor da pátria, do humanismo e da amizade foram substituídos por slogans publicitários.

A grande mídia que armou o cenário para a derrubada do Governo Dilma e que faz a lavagem cerebral diária que mantém os mais pobres conformados com a sua situação, só existe porque a publicidade a sustenta.

Antigamente, ela era simples e direta:

– Rim doente? Tome Urudonal e viva contente.

– Detefom é que mata, moscas e mosquitos, pulgas e baratas.

Hoje, ela se sofisticou.

O celular não é um telefone móvel que lhe permite falar com outras pessoas. Ele é um sinal de distinção. Sem ele, vou é um homem ou mulher de segunda classe.

O cartão de crédito, como as pessoas, também dá status diferentes aos seus donos.

Excluindo a grande massa dos sem cartão, os que são admitidos no clube dos “com cartão”, não são todos iguais. Até chegar ao estágio do Cartão Platina Plus, devem cumprir um longo percurso.

Um carro de 2.015 já virou uma velharia que não projeta nenhum status de poder ao seu proprietário. O modelo do ano, já está nas ruas meses antes de terminar o ano anterior para ficar menos tempo em uso.

Os publicitário e marqueteiros inventaram uma expressão para explicar isso: obsoletismo programado.

A profissão desses mágicos, que transformam pedra em ouro, também se sofisticou. O reclame virou comunicação publicitária.

Quando você vê aquele filme na televisão, o jingle no rádio ou o anúncio no jornal, talvez você não saiba, mas ele adquiriu a sua forma, depois de um longo trabalho de estudos e pesquisa.

Hoje, até mesmo a neurociência está sendo usada para saber exatamente qual é o som, qual é a cor e até mesmo qual é cheiro que mais agradam ao consumidor.

E não é um consumidor em geral. É o chamado público-alvo. Aquele segmento de público que se identifica não apenas pela idade ou sexo, mas pela forma como expressam seus sentimentos.

Pode crer, você faz parte de um desses grupos e não é apenas o de torcedor do Inter, eleitor do PT ou advogado. Você um “heavy user” para algum novo tipo de sabão em pó.

É melhor, então, você deixar suas resistências de lado, e chamar o Dr. Roberto.

Relaxe e goze, enquanto puder.

Nós, os ateus

 

Os grandes discriminados na sociedade brasileira não são os gays, os negros ou as mulheres, são os ateus.

Vejamos o que acontece com os homossexuais, por exemplo, incluindo todo os componentes da sigla LGBT, lésbicas, gays, bissexuais e travestis

Meu amigo, o psiquiatra Telmo Kiguel, diz que eles são 8% da população mundial nas estatísticas, mas incluindo os que ainda habitam os armários, podem chegar a 10%.  Segundo o Dr, Telmo trata-se de um desvio genético. O sujeito nasce gay (ou pelo menos com tendência a ser gay) como outro nasce com um desvio (desvio fica por minha conta) que vai fazer que ele escreva com a mão esquerda, ao contrário da maioria que é destro.

Já o meu outro amigo, Franklin Cunha, ginecologista e escritor, dia que o problema é cultural. Ninguém nasce gay. Ele se torna gay e se durante muito tempo essa opção foi demonizada pela civilização judaico-cristã, por razões econômicas e sociais, na civilização grega e romana, ela era aceita como normal. Segundo o Dr. Franklin, dos 10 Césares, 7 eram gays e 3 bissexuais.

Não sei se cito corretamente meus dois amigos médicos, mas no final desse texto existe um espaço para comentários e correções. Por favor, doutores Telmo e Franklin, use-o à vontade.

Embora o racismo contra os negros possa ainda ser cultivado em alguma mente mais tacanha, ele é que cada vez mais um sentimento execrado pela maioria da população.

Quanto às mulheres, esse é um preconceito que ficou no passado. Machista de carteirinha, hoje é peça de museu.

Sobram então, os ateus, como os grandes discriminados atualmente.

Uma pesquisa citada essa semana no site UOL, diz que apenas 1% dos consultados votariam num candidato a Presidente da República que se declarasse ateu. Isso explica porque o Fernando Henrique Cardoso (que uma vez se declarara ateu) fugia como o diabo da cruz, quando lhe faziam a pergunta se acreditava em Deus, nos debates eleitorais.

Segundo essa pesquisa, 84% dos entrevistados votariam num negro para a Presidência, 57%, numa mulher e 32% num gay.

Isso mostra que realmente os grandes discriminados são os ateus.

Segundo outra pesquisa, essa feita há poucas semanas pela Datafolha, os que se declaram católicos no Brasil correspondem a 56% da população. Os evangélicos pentecostais (essas igrejas dos tele pastores) correspondem a 27%: os evangélicos tradicionais a 7%; os kardecistas e os umbandistas têm 2% cada um, nas preferências dos crentes.

Apenas 1% dos entrevistados se declara ateu.

Eu não fui ouvido na pesquisa, mas se fosse, declararia com orgulho que sou ateu e considero que o Deus que a maioria das pessoas cultua, foi criado à nossa imagem e semelhança para responder a perguntas para as quais a ciência ainda não encontrou respostas, mas que certamente as terá um dia.

O mito bíblico da criação da humanidade foi arquivado pela teoria da evolução das espécies. As respostas que não temos hoje, nossos filhos e netos terão amanhã.

O Portal do tempo

PORTAL DO TEMPO

Carta ao Luís Augusto Cama

Você tinha razão, Cama, existe realmente em Porto Alegre um portal que te permite visitar o passado.

Depois de longas pesquisas, acabei descobrindo que o acesso é uma porta enferrujada, há muito sem uso, embaixo do Viaduto Otávio Rocha, hoje transformado em dormitório para os moradores de rua de Porto Alegre.

É preciso uma daquelas grandes chaves de ferro que usávamos para abrir o portão das nossas casas no passado. Não existe uma específica, você precisa ir tentando com várias até acertar. Eu tive sucesso na quinta.

Quando consegue abrir a porta, você entra numa sala extremamente iluminada com apenas dois equipamentos: um computador e uma máquina denominada Portal do Tempo.

Você deve então colocar seus dados no computador – que vai se fazer, Cama, até para visitar o passado é preciso se valer da mais moderna tecnologia – e ele vai informar se você tem direito a esta viagem e por quanto tempo você pode visitar o passado.

Antes de acessar meus dados, precisei ler as instruções:

  • A máquina, por enquanto programa viagens só até o ano de 1950
  • Só pode acessar a máquina, pessoas que nasceram de 1939 em diante e que tenham visitado, no passado, várias vezes, os lugares a que pretendem voltar.
  • Na primeira viagem o tempo disponível é de três horas e o viajante só pode escolher três lugares
  • As pessoas poderão fazer apenas uma viagem a cada 30 dias e a partir da segunda, elas são limitadas a uma hora de duração.
  • O visitante precisa garantir que não revelará detalhes da sua visita, nem a localização do portal a não ser para pessoas previamente sugeridas como visitantes em potencial.

Antes de seguir adiante, quero te informar, que coloquei teu nome como visitante em potencial, o que me permitirá continua contando a minha experiência.

Minha primeira escolha foi voltar àquela noite em 1961 em que o Brizola anunciou das janelas do Piratini que o Terceiro Exército apoiava a Legalidade. Eu voltei a me emocionar na Praça da Matriz e mais uma vez tive certeza de que, se não fosse as vacilações do Jango e a esperteza de Tancredo Neves, que já negociava com os militares, iriamos para o confronto e como o Brizola confessou depois, estaria aberto o caminho para o socialismo no Brasil. Mesmo um conservador como tu, iria acabar concordando que essa seria a melhor escolha para o nosso País.

Desci depois para a Rua da Praia e fui cumprir meu segundo pedido. Voltei ao Cinema Cacique – lembra Cama, que nas laterais da sala haviam duas grandes pinturas de índios, acho que do Glauco Rodrigues – para assistir de novo aquela comédia do Dany Kaye, o Bobo da Corte. Escolhi a sessão das 10, para dar tempo antes de passar pela confeitaria no mezanino do Cacique. A confeitaria depois desapareceu, quando fizeram uma segunda sala de cinema, o Scala. Uma pena, porque a confeitaria era um lugar onde você podia paquerar (acho que não se usa mais essa palavra) as moças que faziam footing (outra que saiu de moda) na Rua da Praia.

Não vais acreditar – Cama – mas eles transformaram aquele templo do cinema num supermercado.

Como o meu tempo já estava terminando, fui comer um bauru com uma taça de café com leite no Matheus da Praça da Alfândega. Quando trabalhei na redação de Última Hora, na 7 de Setembro, passava sempre no Matheus antes de ir na sessão das 9,30 num dos cinemas do centro.

Depois fui ver o que passava nos cinemas. No Central, para variar, tinha um dramalhão da Pelmex, com Maria Feliz, Agustin Lara e Maria Antonieta Pons. No Ópera, felizmente, passava Hiroshima, meu amor, do Resnais. No Imperial e no Guarani, não cheguei a ver porque meu tempo estava acabando. No Largo dos Medeiros, o pessoal ainda estava reunido e imaginei que tivesse visto o Ibsen de relance. Não deu tempo para conferir porque meu tempo acabou e logo estava de volta naquela máquina do Portal do Tempo.

Já estou fazendo a lista das minhas próximas visitas. Quero voltar aos Eucaliptos, na final de 55, quando o Inter meteu 3 a 1, no grêmio. Quero rever aquele ataque: Luzinho, Bodinho, Larry, Jerônimo e Chinesinho. Depois daquele campeonato, só fomos ganhar novamente em 61.

Tenho que dar uma volta no bonde Floresta, saindo do abrigo da Praça XV, até a Igreja São João. Depois levaram o final da linha até a vila do IAPI e mudou o nome da linha do bonde para a IAPI. Os bondes que não iam até o fim-da-linha, tinham outros nomes. Tinha o Cel. Bordine, que ia até o Cinema Orfeu e o Dom Pedro II, que voltava da Benjamin, onde hoje tem aquele horrível viaduto.

Sei que o especialista em bondes é tu, Cama, mas não custa lembrar que maravilha eram aqueles bondes. Tinha o motorneiro e o cobrador, mas a grande figura era o fiscal com a sua planilha, anotando o número de passageiros e saltando do bonde ainda em movimento para pegar outro em sentido contrário. E quando chegava ao fim-da-linha, sempre tinha algum guri querendo ajudar o cobrador a abaixar uma antena que se ligava aos fios elétricos e levantar a outra. O encosto dos bancos também precisava ser invertido no fim-da-linha, mas isso sempre ficava por conta dos passageiros.

Acho que devia ter feito uma viagem de bonde Floresta já no primeiro dia.

Preciso assistir ao menos uma sessão do Clube do Cinema e ficar conversando com o Gastal e o Hélio Nascimento na saída sobre o último filme do Kurosava.

Se der, quero voltar ao Teatro de Equipe, na General Vitorino, para conversar com o Mario de Almeida e o Peréio.

Quem sabe, uma passadinha na redação de Última Hora, ali em cima do cinema Rex, na 7 de setembro, para pegar uma pauta com o Flávio Tavares?

Seria bom que sobrasse tempo para uma visita ao Julinho, não a esse novo, mas aquele que funcionou no Arquivo Público da Riachuelo. Eu estudei nos três prédios do Julinho. Comecei naquele, onde hoje está a Faculdade de Economia, que se incendiou, depois fui para o prédio do Arquivo e fiz o último ano no prédio novo da Azenha. Minhas lembranças maiores estão no da Riachuelo, que deveria ser provisório, mas durou o ginásio e o científico quase inteiro. Sua grande vantagem é que ele estava próximo da Rua da Praia e dos cinemas.

Bom, Cama, essas são as notícias. Vai preparando a tua lista para a próxima viagem a Porto Alegre, e não esquece a chave de ferro.

A batalha pelos corações e mentes dos gaúchos

No lançamento do livro do jornalista Marco Weissheimer, Governar na Crise, um Olhar sobre o governo Tarso Genro, mais uma vez se perguntou, começando pelo autor, como foi possível que os gaúchos, na eleição de 2014, tenham escolhido José Ivo Sartori como governador em vez de reeleger Tarso Genro.

Seriam os gaúchos uns masoquistas, querendo escolher um governador, que como se vê agora, só traz sofrimentos à maioria da população?

Tarso Genro, em seu breve discurso, lembrou que Sartori nunca revelou que seu projeto de governo era a privatização do Estado. Realmente foi isso que aconteceu, mas no confronto de ideias, enquanto Sartori não tinha nada para dizer, Tarso tinha todas as realizações do seu governo, um dos melhores da nossa história, para apresentar.

Por que não funcionou?

Porque o inimigo não era Sartori, que dizia que seu partido era o Rio Grande, e sim um outro partido muito mais poderoso, que ele nunca nomeou, mas que estava por trás da sua candidatura, a RBS.

Essa sigla, RBS, representa o nosso maior partido regional. Ela tem hoje dois senadores e um deputado federal saídos diretamente do seu quadro de altos funcionários. Ajudou a eleger um governador e na última eleição para prefeito de Porto Alegre eliminou os dois candidatos de esquerda (Luciana e Raul) já no primeiro turno e ficou na confortável posição de se dizer isenta no segundo turno. Ganhasse Melo ou ganhasse Marchezan, estava tudo em casa.

Mas, mesmo na esquerda, em nome de uma estranha ética, não se aponta a RBS diretamente como o grande inimigo, talvez acreditando que ela ainda guarde algum resquício de uma certa ética jornalística que, no passado, fazia parte da história gaúcha.

A esquerda deve se dar conta que os tempos são outros. A mídia é hoje a grande ponta de lança do capitalismo para afastar qualquer ideia socializante. E ela não brinca em serviço. Basta ler uma edição qualquer de Zero Hora para ver que nada é de graça. Tudo faz sentido, desde transformar a questão dos presídios no grande problema do Brasil, até a jogar, escondida numa página interna, o fórum de resistência democrática que se realiza em Porto Alegre.

Mais uma vez, vai surgir nas esquerdas, alguma voz dizendo, esqueçam a RBS e seu jornal, vamos nos apoiar nas redes sociais, e ela estará apontando, outra vez o caminho errado.

Não que as mídias sociais não sejam importantes. São, mas o problema é que elas são também, pautadas pelos grandes veículos. São eles que têm uma estrutura profissional para buscar as informações, para moldá-las depois de acordo com seus interesses de classe. As mídias sociais são alimentadas por estes grandes veículos, para aplaudir ou criticar. E, todos nós sabemos, como a grande mídia escolhe a versão que vai publicar.

Embora toda e qualquer luta contra o status quod seja válida, o importante hoje é definir o grande alvo a ser atacado. No Rio Grande do Sul, o grande alvo é a imensa estrutura (não apenas de informações, mas também de cultura e entretenimento e que usa inclusive profissionais da nossa esquerda mais esclarecida), da RBS.

A batalha pelos corações e mentes dos gaúchos tem que ser travada contra ela.