Democracia, quem pode falar em seu nome?

 

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A democracia não é uma vaca sagrada que não pode ser tocada e deve ser conservada num altar para ser reverenciada como se fosse um deus. Pelo contrário, ela deve ser discutida e vista sempre por sua perspectiva histórica. Os gregos, que dizem ter sido seus inventores, a combinavam com um sistema escravagista.

Só para ressaltar a contradição com um exemplo: o que os nossos jornais chamam de ditadura cubana, deve ser muito melhor, social e politicamente para o seu povo, do que a democracia paraguaia, para os paraguaios, para ficar apenas numa comparação entre latinos.

Os saudosos da ditadura, implantada no Brasil em 1964, sempre presentes na grande mídia, dizem que os oponentes dos governos militares pretendiam derrubá-la para instalar outra ditadura, só que de esquerda.

Talvez tenham um pouco de razão, embora essa perspectiva fosse bastante inviável na época. O máximo que era possível conseguir, pela correlação de forças existentes, era o retorno de uma democracia formal em que o Brasil vivia desde 1945.

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É interessante notar como as classes dominantes mudam o sentido das palavras. Depois da Revolução de 30, o novo governo assumiu o título de ditadura sem qualquer pejo. Citado por Lira Neto no segundo volume do seu livro sobre Getúlio Vargas, o Presidente dizia aos seus ministros que era preciso dirigir o país sem precisar recorrer à fórmula caduca do liberalismo e da democracia representativa.

Quem se intitulava de democratas era a elite paulista, que junto com seus pares de Minas Gerais, governara o Brasil durante toda a fase republicana anterior, sem olhar uma vez sequer para os interesses populares.

Os revolucionários de 30 eram os antigos tenentes da Coluna Prestes e dos levantes militares, que representavam o progresso e o avanço social, lutando contra as oligarcas representantes da política do café-com-leite. Eles falavam em instaurar uma ditadura no Brasil, mas eram muito mais democratas, no sentido literal da palavra, do que os paulistas que tentaram a contra revolução de 32.

Getúlio Vargas se referia aos políticos da República Velha como carcomidos.

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O general Góes Monteiro, que seria a principal sustentação militar de Vargas durante a ditadura, dizia na linguagem pomposa da época, justificando a derrubada do regime anterior a 1930: “Era um regime abstrato que nos devia reger até a morte porque assim convinha ao bizantino e inviolável espírito do liberalismo, fonte de todos os males sociais e pátrios, forjado para que a todos se permita a liberdade de se encarniçarem na prática do mal contra o bem, aumentando o babelismo ( uma palavra inspirada na mitológicas confusões da Torre de Babel, inventada pelo general para caracterizar o que ocorria na época)  e as complicações do problema de organização nacional”.

Quinze anos depois, ele comandaria o golpe militar que derrubou Vargas, a pretexto de que o Brasil não poderia mais conviver com um regime autoritário depois da sua participação na Segunda Guerra Mundial, justamente quando Vargas convocara eleições presidenciais para o mesmo ano.

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O general Eurico Gaspar Dutra seria o Presidente da República até 1950, quando Vargas voltaria ao poder através do voto popular. Dutra, um antigo admirador do regime nazista antes da guerra, seria formalmente o governante de um regime democrático, embora durante a sua presidência se cometessem atos típicos de uma ditadura, como o fechamento do Partido Comunista Brasileiro, uma importante força política na época e a cassação dos mandatos dos seus parlamentares; o fechamento de sindicatos e a prisão de sindicalistas que faziam oposição ao governo; o rompimento das relações diplomáticas com a União Soviética, por pressão americana e a proibição de qualquer tipo de jogo de azar no País.

Em 64, os herdeiros daqueles militares que ajudaram a construir o Governo Vargas e até mesmo alguns participantes importantes daquela época, como Castelo Branco, Cordeiro de Farias e Mourão Filho, diziam defender a democracia contra as possíveis intenções golpistas do Presidente João Goulart e seus apoiadores, mas deram um novo golpe que instaurou uma ditadura anti-popular no País por mais de 20 anos.

Mudou o Brasil e mudaram os generais. Até a Segunda Guerra, a maior influência sobre as lideranças militares vinha do positivismo francês e a partir de 30 da disciplina dos exércitos germânicos. O convívio com os norte-americanos nos campos de batalha da Itália e os acordos militares com Washington, transformaram os generais brasileiros em ardorosos fãs do modelo político dos Estados Unidos, a democracia liberal que tanto criticavam antes.

Mais do que isso, as elites militares brasileiras adotaram os conceitos de Washington sobre a guerra fria e passaram a ver em todos os movimentos populares do Brasil o dedo de Moscou.

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Os antigos tenentes nacionalistas se transformaram em ferrenhos anti-comunistas, prontos a conspirar contra os governos que se apresentassem como defensores de propostas nacionalistas e populares. Foi assim contra Vargas, levado ao suicídio em 54, contra Juscelino durante todo o seu governo, contra a política externa de Jânio Quadros e finalmente contra João Goulart, derrubado em 64.

As palavras democracia e ditadura continuaram sendo usadas aleatoriamente para definir ambições de grupos vencedores e vencidos, tanto em 1945, quando os militares derrubaram Vargas, quanto em 64, quando a vítima foi João Goulart.

Depois de 20 anos da ditadura implantada em 64, que ao contrário daquela de Vargas, nunca se assumiu como tal, o Brasil passou, através de uma transição consentida pelos militares, para um sistema de democracia formal, sustentado pela possibilidade de que o povo possa periodicamente eleger seus governantes, ainda que pouco tenha mudado na correlação de classes em relação ao exercício do poder.

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O ano de 2016 marca um novo retrocesso nesse processo. Em vez do uso da força militar para mudar a correlação de forças políticas no poder, os segmentos mais retrógrados da sociedade brasileiros montaram uma inusitada combinação de novos agentes políticos para derrubar um governo legitimamente eleito.

Setores hegemônicos dentro do Parlamento, do Judiciário e da mídia se mobilizaram para levar à Presidência um títere, cujo triste papel é o de comandar o desmonte das poucas conquistas que o povo obteve durante os governos Lula e Dilma.

Vivemos no mundo inteiro a consolidação do poder da burguesia, a serviço do capital monopolista internacional, através de parlamentos cada vez mais submissos aos seus interesses.

Será o fim do processo, como já pretenderam alguns teóricos do desenvolvimento político, ou ainda há etapas a serem alcançadas?

O aumento das injustiças sociais em todo o mundo; o crescimento da miséria em níveis até hoje desconhecidos, com populações inteiras desalojadas de seus lares e transformadas em tribos de nômades, rejeitadas por todas as nações; a destruição acelerada de bens naturais e o espectro da fome assustando milhões de pessoas, têm trazido de volta o socialismo como alternativa a este atual modelo baseado nas chamadas democracias parlamentares, que de democracia, tem cada vez menos.

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A possibilidade de se chegar a uma sociedade sem antagonismos de classes, baseada numa associação de pessoas, onde o livre desenvolvimento de cada um é condição de livre desenvolvimento de todos, como previa Marx no seu Manifesto Comunista, seria apenas uma utopia?

Responder a esta questão talvez seja mais importante do que definições acadêmicas e maniqueístas sobre democracia e ditadura

A semana passada …a limpo

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A semana começou da pior maneira possível para nós – os colorados  – com a confirmação de que vamos amargar em 2017 uma segunda divisão no futebol  brasileiro, coisa que só os gremistas tinham experimentado, graças a incompetência de uma direção, que finalmente foi embora; técnicos ultrapassados e jogadores desinteressados.

Um novo treinador – Antônio Carlos Zago  – foi anunciado, o que gera alguma esperança de melhoria para o próximo ano, mas o nome do primeiro adversário do Inter na Copa do Brasil – Princesa dos Solimões – da cidade de Manacapuru, no Amazonas, traz mais motivo de piadas, do que grandes estímulos para os torcedores.

Os três jogadores da Chapecoense, resgatados com vida no acidente aéreo da Colômbia – o goleiro Folhman, o zagueiro Neto e o lateral Alan Ruschel, já estão de volta ao Brasil, onde continuam o processo de recuperação. O Ruschel, o que está em melhores condições físicas dos três, já fala em voltar a jogar futebol em seis meses.

O governo Temer conseguiu aprovar em segundo turno no Senado a tal PEC 55, que congela os investimentos em saúde e educação por 20 anos. O Brasil e os brasileiros, com isso, vão ver piorar mais seus índices de qualidade de vida.

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A semana trouxe ainda mais pressão sobre Temer e seus ministros, cada vez mais envolvidos em denúncias de corrupção pela operação Lava Jato. Observadores políticos acreditam que o governo está sendo mantido em banho maria até a virada do ano e que em 2017 seu impeachment é inevitável.

Caso fosse afastado ainda esse ano, seria obrigatória a convocação de eleições diretas para substituir o Temer, o que não interessa os golpistas que derrubaram Dilma. Em 2017, o novo presidente seria escolhido de forma indireta pelo Congresso e o PSDB, que sonha em chegar ao Planalto sem eleições populares, já tem até candidato, o ex-presidente Fernando Henrique.

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No cenário internacional, enquanto na Síria, o governo garante ter retomado o controle da cidade de Alepo, com a ajuda dos russos, a situação interna da vizinha Turquia é cada vez mais crítica. Bombas continuam explodindo em Istambul e outras cidades do interior, matando dezenas de pessoas. O governo de Recep Erdogan atribui tudo ao Estado Islâmico e ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão, mas desde que assumiu poderes quase ditatoriais, a partir de uma tentativa de golpe de estado, contra ele, nunca bem explicado, a resistência interna ao seu governo só aumentou.

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Finalmente, para encerrar, um lamento: terminou um dos poucos programas interessantes da Rede Globo. Depois de ter feito 14.426 entrevistas, foi ao ar pela última vez esta semana,  o programa de Jô Soares, o Show do Gordo. Inicialmente no SBT, a partir de 1988 e depois do ano 2.000, na Globo, Jô Soares comandou o programa de entrevistas mais inteligente e criativo da TV brasileira.

Boa semana para todos que nos acompanham no Sul 21.

 

A Bolívia está muito próxima

 

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Onde muita gente vê semelhanças, nós, os brasileiros, vemos diferenças. Como os argentinos se consideram parte da Europa no hemisfério sul, nós nos imaginamos os norte-americanos do sul do Equador, diferentes de paraguaios, colombianos, peruanos e bolivianos, principalmente os bolivianos.

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Os verdadeiros norte-americanos parecem não pensar assim. Quando visitou o Brasil em 1982, durante o último governo da ditadura, o de João Figueiredo, o presidente Ronald Reagan, no jantar de despedida, levantou sua taça para saudar o povo …boliviano.

Uma boa parcela de brasileiros não gosta de ser confundida com bolivianos porque se acha mais branca e importante do que eles.

Uma pena, porque eles têm muitas coisas para nos ensinar.

Em 2.015, fiz com a família, um longo périplo pela Bolívia, de carro, partindo de Puerto Suarez, na fronteira com Corumbá e seguindo por milhares de quilômetros, em direção a Santa Cruz de la Sierra, Cochabamba, El Alto, Copacabana, no Lago Titicaca, e saindo pelo Peru no rumo do Oceano Pacífico.

Na fronteira, o policial brasileiro, mostrando como o preconceito é grande, nos alertava para o perigo que existe em andar “no meio desses índios” pouco afeitos à civilização, em meio a uma grande corrupção de seus policiais.

É verdade, a cada posto de pedágio, a cada barreira policial, vem sempre o mesmo pedido –  “uma propina para el té”.  Parece ser uma instituição nacional.

A propina é pedida sem o disfarce comum em estradas brasileiras, argentinas ou uruguaios, onde ela só é “sugerida”, depois de cansativas enumerações de todas as infrações hipoteticamente cometidas pelo motorista.

Na Bolívia, o pedido é feito abertamente, sem constrangimentos, sempre com um sorriso de quem conta com a tal propina como um complemento salarial.

Fora isso – que não parece muito grave – só encontramos gente hospitaleira, sempre pronta a ajudar, vivendo uma democracia social dificilmente encontrada em outros lugares.

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Se, nós tivemos um presidente operário, Lula, quebrando a hegemonia de uma elite política que durou séculos, eles tinham (e têm ainda) um presidente indígena (Evo Morales) da etnia dos Uru-Aimarás, líder sindical dos cocaleros, agricultores que cultivam a coca para fins medicinais.

Depois de enfrentar as intenções norte-americanos de erradicar a coca do Bolívia, como tentaram fazer na Colômbia, provocando uma guerra interminável, Morales conduz um país pacífico e democrático, com amplas possibilidades de um grande desenvolvimento nos próximos anos.

As maiores reservas de lítio do mundo – material fundamental para a produção de baterias para celulares e computadores – se encontram na grande salina de Uyni, enquanto o manganês, outro material de alto valor estratégico é abundante em Mutun, na região de Puerto Suarez.

Obviamente, todo esse potencial econômico, tem feito com que o grande capitalismo internacional volte seus olhos para a Bolívia, como faz no caso do petróleo na Venezuela e tente desestabilizar o governo de Morales, tarefa na qual é amplamente ajudado pela mídia, inclusive do Brasil.

A Bolívia e seus governos devem ficar atentos, porque é o país sul americano que mais sofreu com os interesses imperialistas sobre suas grandes riquezas minerais.

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De 1879 a 1883, a Bolívia, ao lado do Peru, foi amplamente derrotada pelo Chile, então armado pelos ingleses, na chamada Guerra do Pacífico. Mineradoras chilenas, de capitais ingleses, que exploravam as riquezas minerais – cobre e salitre – do deserto do Atacama, então território boliviano, se recusaram a pagar os impostos cobrados pela Bolívia e armaram as causas para a guerra, no qual o Peru participou por força de acordos militares com a Bolívia.

No final do conflito, toda a região de Tarapaca, do Deserto do Atacama até a área litorânea, onde estavam as cidades de Antofagasta, Arica e Iquiqui, ficou em mãos do Chile.

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Numa guerra iniciada em 1989 e terminada em 2003, aventureiros como Luiz Galvez Rodrigues Arias e o gaúcho Plácido de Castro, formaram exércitos privados e derrotaram os bolivianos no Acre e criaram uma efêmera República Acriana.

O motivo da guerra foi o controle das seringueiras, quando o preço da borracha deu um salto enorme no mercado internacional.

Quando o conflito terminou, o governo brasileiro entrou em ação e forçou os bolivianos a abrirem mão de seu território em troca de uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas (200 milhões de dólares) e a promessa de construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Com isso a Bolívia perdeu mais uma parcela de seu território.

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Uma última grande perda ocorreu durante a chamada Guerra do Chaco, com o Paraguai, de 1932 a 1935, pelo controle do acesso ao Rio Paraguai, que permitiria a exploração comercial de possíveis jazidas de petróleo no sopé da Cordilheira dos Andes.

Nesse caso, a Bolívia – que seria mais uma vez derrotada – iniciou a guerra estimulada pelo Standard Oil, que cobiçava entrar nessa nova área petrolífera, controlada então pela Royal Dutch Shell.

Depois de tantos conflitos, a Bolívia e seu povo, merecem construir em paz um futuro melhor e nós brasileiros devemos estar ao seu lado, livres de quaisquer preconceitos.

 

 

A síndrome da nostalgia

 

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A partir de certa idade, as pessoas mais velhas são atacadas, irremediavelmente pela doença da nostalgia do passado e precisam falar sobre isso sem parar.

Tudo era melhor nesse passado idílico, mesmo que saibam racionalmente que, na maioria dos casos era bem pior.

Não se trata de uma doença nova, gerada por uma sociedade consumista que despreza os mais importantes valores morais, como esses doentes costumam afirmar para justificar suas crises de incompatibilidade com o presente.

Quase diria que é uma doença congênita. Nascemos com seus genes e a partir de certa idade, na maioria dos casos por volta dos 50 anos, eles começam a se desenvolver rapidamente.

Como um dos portadores dessa síndrome, sei de experiência própria, que a nossa geração de nostálgicos não inventou essa doença. Ela bem antiga e dou um exemplo pessoal para comprovar a tese.

Quando criança, na casa de meus avós, ouvia um lamento permanente sobre as agruras do presente.

– Bom, era antigamente.

Antigamente era melhor em tudo, principalmente no valor dos objetos. Absolutamente todas as coisas eram melhores e mais baratas nesses tempos que compunham o que chamavam de antigamente.

Tanto falaram que me convenceram – então um menino de 6 ou 7 anos – que os tempos de antigamente eram melhores e eu comecei a sonhar com sua volta.

Um dia me deram uma cédula, provavelmente de uns 10 cruzeiros, ou talvez 10 mil reis, para comprar o boné que eu tanto queria.

Quando, depois, me perguntaram se eu tinha comprado o tal boné, respondi, demonstrando, já em tão tenra idade, um comportamento extremamente prudente, que iria esperar pela volta do “antigamente”, quando certamente me sobrariam alguns trocados, depois de comprar o boné, possivelmente para comprar um sorvete, que obviamente seria também melhor que os atuais.

Os pacientes dessa doença têm a característica de estabelecer relações com outros que padeçam de sintomas semelhantes, para se dedicar a manifestação mais clássica de sua presença insidiosa: falar do passado.

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Com meu amigo Ibsen, falamos sobre os velhos times do Internacional e formamos grandes seleções simbólicas misturando duas ou três gerações que existem hoje em nossas lembranças:  Ivo, Nena, Salvador, Oreco, Tesourinha e Adãozinho  (na foto), Chinesinho, Ávila e Carlitos.

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Com o Luís Augusto, percorremos, com os velhos bondes da Carris, os bairros da cidade, enumerando um a um os cinemas de cada avenida, começando pelo centro até o fim da linha Auxiliadora.  Do Central, Vera Cruz, Ópera e Imperial, até o Rosário, Rival, Orfeu, Eldorado, Colombo e Ipiranga, sem esquecer o Carlos Gomes, Ritz e Teresópolis.

Nos melhores dias, lembramos o Gioconda, o Rio Branco o Navegantes, o Atlas, o América, o Rei  o Talia e o inesquecível Vogue (foto), o nosso cinema de arte na Avenida Independência.

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Nessa linha cinematográfica, mas aí entrando nos cinemas para ver os filmes, com o Hélio Nascimento, quem infelizmente encontro muito pouco, falamos de Einsentein (na foto), Bergmann, De Sica, Renais, Visconti, Kurosava e Kubrick como grandes amigos que conhecemos nas sessões do Clube do Cinema, juntos com o P.F.Gastal.

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Com o Sérgio Gonzales, são dos publicitários e jornalistas, incrivelmente mais inteligentes e criativos que os atuais, sobre os quais falamos, enumerando suas qualidades e idiossincrasias, mas acima de tudo, nos lembrando dos bons tempos da MPM no Morro Santa Tereza. O nosso “M” era o do Mafuz (a direita na foto com o outro “M’, o Macedo e o “P”, do Petrônio)

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Com o Batista Filho, os diálogos são sobre políticos, chegando sempre a invariável conclusão que nunca existiu nenhum tão corajoso ,correto e na frente do seu tempo como o doutor Leonel Brizola.

Com o Werner Becker, é a desconstrução das biografias de personagens conhecidos da vida pública desde os tempos da TV Piratini.

Com o Pintaúde, buscamos no baú da memória, figuras que conhecemos no passado e as transformamos em personagens para uma grande comédia que um dia, se ainda estivermos vivos, pretendemos divulgar correndo todos os riscos imagináveis.

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Com o Dr. Franklin, as memórias vão desde época em que os gaúchos sonhavam em ser aviões da Varig e a gente acreditava piamente que o socialismo estava a um passo, logo ali dobrando a esquina, até o Pitigrilli, da Loura Dolicocéfala, (em Portugal é Dolicocéfala loira) que as pessoas hoje nem advinham quem seja.

As mulheres parecem sucumbir menos a esta moléstia, mas as vezes também podemos diagnosticar nelas alguns traços da doença.

Uma amiga, a quem perguntei de modo galhofeiro se a nossa amizade incluía alguma chance de uma “trepadinha” rápida, se queixou depois para uma conhecida, que os homens não eram mais como os de antigamente, que, no máximo, convidavam as mulheres, primeiro para um cineminha e depois, no melhor dos casos, para uma pizza.

Caso ao ler essa crônica, que é mais um desabafo, você tenha percebido que também é portador de algum desses sintomas, por favor aproveite o espaço no final do blog e fale de alguma coisa importante que se perdeu no seu passado.

Curar essa doença, não cura, mas ajuda a passar o tempo…pelo menos, aquele  que ainda nos resta.

O capitalismo selvagem e a indústria da guerra

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No Polo Naval de Rio Grande, 3.200 trabalhadores foram demitidos essa semana pela Engevix.

Considerando que cada trabalhador representa em média uma família de 4 pessoas, são mais de 10 mil pessoas que, repentinamente vão engrossar as estatísticas sobre a pobreza no País.

Rapidamente, os meios de comunicação trataram de circunscrever o problema à uma crise setorial. No polo, se fabricavam cascos de navios petroleiros para Petrobrás e a estatal está em crise, os preços caíram no mercado internacional de petróleo e a Engevix está em processo de recuperação judicial.

Poderíamos lembrar que este é um efeito perverso, ainda que secundário, da Operação Lava Jato, que em vez de só perseguir políticos e empresários corruptos, está também destruindo empresas, o que no caso da Petrobrás parece atender também ao plano de privatizar a empresa.

Só que o problema é muito mais amplo: ele indica uma crise estrutural no sistema capitalista global, que age descontroladamente destruindo milhões de postos de trabalho no mundo.

O milagre capitalista dos anos 70 se esgotou e ele hoje ele é composto de voláteis mercados de capital, garantidos pela força militar dos Estados Unidos.

Em 1961, ao deixar a Presidência dos Estados Unidos, o general Eisenhower denunciou o crescimento da indústria de guerra, criando um neologismo aplicado até hoje, o complexo industrial-militar.

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É sobre ele que o capitalismo tem hoje suas bases. Um estudo do Stockholm International Peace Research (SIPRI) mostra que a indústria das armas absorveu em 2014, a espantosa soma de 1 trilhão e 800 bilhões de dólares no mundo inteiro, mais da metade em favor das forças armadas americanas. Nesse ranking perverso, China e Rússia ficam em segundo e terceiro lugares, bem distantes dos Estados Unidos. Surpreendentemente, um pequeno país, a Arábia Saudita fica em quarto lugar, possivelmente porque é usada pelos Estados Unidos como testa de ferro dos Estados Unidos em suas ações no Oriente Médio.

Segundo o SIPRI, o Brasil, figurou em 2014 em décimo primeiro lugar, gastando 31,7 bilhões de dólares com suas forças militares, o que corresponde a 1,4% do PIB do País, o que talvez explique um pouco a opção do governo Temer de cortar despesas nas áreas da saúde e educação como compensação.

Esta semana, os jornais anunciaram que o orçamento militar dos Estados Unidos, que havia decrescido um pouco nos últimos 2 anos, voltará a subir em 2017, com a previsão de gastos de 583 bilhões de dólares.

Isso significa para todos os países citados, inclusive o Brasil, menos investimentos em programas sociais, na saúde e na educação.

Os estados do bem-estar social europeu de alguns anos atrás vão desaparecer rapidamente, sucumbindo diante das hordas de milhões de desesperados migrantes que fogem de suas terras de origem para invadir um mercado de consumo que se esgota rapidamente, quando não morrem pelo caminho.

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Países colonialistas como a Inglaterra, França, Bélgica, Espanha e Portugal, que durante décadas exploravam as riquezas da Ásia e da África, estão quase explodindo, atacados por ondas humanas vindas dos confins desses espoliados continentes.

Num primeiro momento, ainda podem resistir a Alemanha, a Rússia, a China os Estados Unidos, mas até quando?

Eles dependem de um mercado de consumo, que tende a desaparecer, porque os consumidores estão desaparecendo como tais, já que, cada vez mais, seus empregos se evaporam.

Os avanços das novas técnicas de produção, provocam a demissão cada vez maior de trabalhadores e o estreitamento do mercado de trabalho.

Istvan Meszaros lembra com razão, que o grupo etário da “geração útil” (aquela que ainda está em condições de ser absorvida pelo mercado de trabalho) está encolhendo para uma faixa entre 25 e 50 anos.

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Milhões de jovens não conseguem conquistar as cada vez menores vagas disponíveis nesse mercado, enquanto as gerações mais velhas são aposentadas precocemente, engrossando os grupos de dependentes da previdência social, onde ela ainda existe, ou são simplesmente entregues à marginalidade.

Para o filósofo húngaro, essa geração intermediária, comprimida entre jovens e velhos inúteis, vai também se tornar também supérflua, logo que assim determinar os interesses do capital.

As relações entre capitalistas e trabalhadores na busca de um objetivo comum, que os partidos reformistas de esquerda pregavam depois da guerra, não existem mais.

Um mercado de trabalho quase escravo se formou no sudeste asiático para atender a sede de lucros dos grandes capitalistas e adiar o possível fim do sistema.

Hoje, o tênis Nike que você pode estar usando, foi costurado por vietnamitas, possivelmente filhas e netas de algumas daquelas vítimas dos bombardeios de napalm que americanos usaram no Vietnam.

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Durante 20 anos, os Estados Unidos comandaram a guerra mais selvagem que o mundo já viu contra um povo quase desarmado, provocando mais de 3 milhões de mortos.

A guerra, que as forças armadas americanas perderam em 1975, está sendo ganha pelo capitalismo ainda que apenas por algum tempo

Algum tempo, porque sua crise é estrutural e não tem mais como ser resolvida por guerras. Mesmo as guerras localizadas, que permitiam manter funcionando segmentos de produção, são hoje arriscadas, na medida que podem se ampliar repentinamente, sem que os interessados possam circunscrevê-las a uma determinada região.

Veja-se o caso da Síria, que de repente envolve questões que interessam a todo o Oriente Médio.

Repetindo então aquela pergunta que Lenin fez há quase 100 anos: o que fazer?

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O remédio seria simples – fim do capitalismo e criação de um sistema socialista –  não fosse a atual correlação de forças no cenário internacional.

Desde a Revolução Soviética de 1917, as esquerdas no mundo inteiro abandonaram o caminho da insurgência radical ao sistema, passando a lutar por algumas vantagens pontuais dentro do sistema parlamentar e através de seus partidos de classe.

Um fracasso atrás do outro –  o “compromisso histórico” do PCI com o PDC, na Itália; a estalinização do Partido Comunista Francês; o fracasso da “terceira via”, com o Partido Trabalhista Inglês, ainda não ensinaram que o caminho parlamentar está fechado para as esquerdas.

Hoje, transformados em grandes centros de corrupção, como parece ser o melhor exemplo o parlamento brasileiro, os parlamentos viraram balcões de negócios, onde os empresários dão as cartas nas questões mais importantes.

Os que imaginaram que governos de tendências populares, como o PT, no Brasil, pudessem fazer uma grande reforma social, já perderam as esperanças. Foram tolerados, com suas políticas assistencialistas, durante os anos de prosperidade relativa, dentro da grande crise estrutural do capitalismo, mas logo que a ela recrudesceu, foram afastados.

Hoje, o grande capital é quem comanda os parlamentos no mundo inteiro – no caso brasileiro, com poucas exceções senadores e deputados chegam à Brasília, com um compromisso com os empresários que financiaram suas campanhas – e qualquer questionamento sobre a continuidade do atual sistema espoliativo, se perde nos discursos de uma minoria, tolerada, para ilustrar a falsa imagem de que se vive num sistema democrático.

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Um exemplo: Cláudio Melo Filho, que chegou às manchetes essa semana como o grande delator da Odebrecht, implicando nas suas denúncias, desde Temer até o mais obscuro dos deputados, foi em 2.012, agraciado com a Medalha do Mérito Legislativo, iniciativa do então líder do PSDB, Bruno Araújo, não coincidentemente, hoje Ministro das Cidades de Temer.

O único caminho possível para reversão desse quadro está nas ações extras parlamentares. Infelizmente, hoje a direita, parece mais competente para mobilizar a classe média para movimentos moralistas e conservadores, do que a esquerda, para movimentos revolucionários, embora o grande teórico do socialismo atual, Istavan Meszaros, veja como uma atualidade histórica, a ofensiva socialista no mundo inteiro

 

 

 

A linguagem dos sinais chegou à política.

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A semiótica, a chamada ciência de interpretação dos signos, nascida com os estudos de Charles Pierce nas primeiras décadas do século passado e continuada com nomes como Umberto Eco e Roland Barthes, tem uma versão mais popular, muito presente na política, nos esportes e em outras atividades do dia a dia.

Quando um Presidente da República diz ao seu ministro, que cometeu uma gafe, que ele está garantido na sua função, a crônica política já sabe que uma alteração ministerial está a caminho.

No futebol, é a mesma coisa. Quando um diretor diz que o técnico do time, apesar das derrotas, está prestigiado, todo mundo sabe que ele não dura além do próximo jogo.

No folclore da história universal se criou inclusive uma “ciência” destinada a interpretar os sinais que vinham de um dos regimes mais fechados do mundo, a Rússia do estalinismo. Em alusão ao seu centro difusor dos sinais, o Kremlin, essa “ciência” passou a ser conhecida como a “Kremlinologia”.

A afirmação de determinada coisa podia ser um sinal a ser interpretada numa determinada direção ou no sentido totalmente oposto.

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Uma história clássica sobre o tema, verdadeira ou não, ficou famosa por envolver o então Ministro de Relações Exteriores, Wyacheslav Mikhailovich Molotov, considerado um dos políticos mais próximos de Josef Stalin.

No processo contra Leon Trotsky, Gregori Zineviev e Lev Kamenev, o grupo político do qual os três faziam parte, foi acusado pelo promotor Andrei Vichinski de tramar a morte de Stalin, Serguei Kirov e Andrei Jdanov, mas não incluiu Molotov nessa lista das prováveis vítimas.

Molotov teria ficado extremamente chocado com essa ausência, que poderia significar um aviso de que seu prestígio junto a Stalin estava diminuindo e que o próximo acusado poderia ser ele.

Dizem que quando Anastas Mikoyan foi a Budapeste para informar a Mátyás Rákosi, que os russos não o queriam mais como primeiro ministro da Hungria, ironizou este processo de sinais: “Os líderes soviéticos decidiram que o senhor está doente e precisará de tratamento em Moscou”.

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No dia 24 de fevereiro de 1964, no Palácio do Planalto, em Brasília, Sereno Chaise, então prefeito de Porto Alegre, avisou ao Presidente João Goulart que soube que alguns generais estariam tramando um golpe. O presidente chamou imediatamente o Chefe da Casa Militar, general Argemiro Assis Brasil e este afirmou que não haveria golpe porque o seu “dispositivo militar era sólido”. Nem o Presidente Jango, nem o Prefeito Sereno e muito menos o general Assis Brasil, perceberam os sinais de que o golpe estava muito próximo.

Quem sabe já exista também uma “Planaltologia” a espera de que alguém comece também a interpretar os sinais envolvendo Temer e sua equipe.

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A Presidenta Dilma, tão valente na hora de enfrentar os seus torturadores, era péssima decifradora de sinais. Quando o Temer abandonou o posto de “articulador político” entre a Presidência e o Parlamento, ela deveria ter entendido que ele estava assumindo o lado dos golpistas.

Ela pensava que o Temer deveria ficar agradecido por ter sido tirado do anonimato duas vezes para ganhar de presente a vice-presidência da República. Esqueceu que desde Judas, os traidores sentam na mesa, junto com seus protetores, para traí-los mais facilmente logo a seguir.

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Dizem que Michel Temer é versado em direito constitucional, mas sabe pouco de semiótica. Caso soubesse, já teria decifrado os sinais explícitos de que sua hora está chegando. Os sinais se acumulam, mas nada foi mais explícito do que a foto do juiz Sérgio Moro e do Aécio Neves cochichando as suas costas durante uma solenidade em são Paulo. Foi mais que um sinal, foi quase um aviso.

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Outro problema do Temer é que ele não deve ter visto muitos filmes de faroeste, senão saberia que nunca se dá as costas para o inimigo. O John Wayne sabia e por isso escapou ileso dos bandidos mais famosos do faroeste durante toda sua carreira no cinema.

Acho que todos nós devemos prestar atenção nos sinais, tanto na meteorologia, para não sairmos à rua sem guarda-chuva, quanto na política, para não ficarmos tão pessimistas quanto ao futuro do País.

Quem sabe, os primeiros sinais de que o povo logo vai chegar ao poder já apareceram e nós não estamos nos dando conta.

Lembrando Marx, o que hoje parece ser muito sólido, amanhã pode esboroar-se no ar.

 

As respostas estão nos livros

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Os judeus eram chamados de O Povo do Livro.

O livro era o Torá, parte da Bíblia cristã.

Isto talvez explique um pouco, o poder político e econômico que alcançaram no mundo civilizado.

Os muçulmanos têm o Corão.

Mais do que armas, são os livros que organizam os povos, formam as nações, projetam as grandes mudanças da história.

As ideias não estão no ar para que possam ser alcançadas por qualquer um. Elas precisam ser lentamente digeridas, transformadas em frase e palavras e depois difundidas com vagar, num lento processo que vai dos mais hábeis na sua leitura, até chegar aos mais toscos, muitas vezes transformadas em simples palavras de ordem.

Quando alguém ergue um cartaz dizendo # Fora Temer, ele estará provavelmente sintetizando um pensamento político que começou com uma longa análise dos interesses envolvidos num processo que terminou com um golpe de estado de 2.016.

Os juízes dizem que o que não está escrito nos códigos de leis, não existe.

É pouco. Os códigos representam a fossilização do pensamento.

Existem livros e livros.

Alguns servem apenas para deixar registrado o presente, como os códigos de leis.

Outros apontam o futuro.

É sobre esses últimos, que vamos falar.

Nem sempre assumem o formato tradicional de livros. São impressos, muitas vezes, numa folha de jornal ou num panfleto de rua.

Estes é que são perigosos.

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O famoso “J´´Accuse” de Emile Zola ocupou apenas a primeira página do jornal parisiense L´Aurore, em defesa de Albert Dreyfus, em 1896, mas é hoje citado como uma das peças mais importantes contra o preconceito racial no mundo inteiro.

 

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O documento social mais importante do mundo moderno, o Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, escrito em 1848, que serve desde então como orientação para os movimentos socialistas do mundo inteiro, foi originalmente uma publicação com não mais do que 30 páginas.

 

Embora o pensamento mais retrogrado do século XX esteja contido também num livro – Minha Luta (Mein Kampf) de Adolf Hitler – de um modo geral, os ditadores e principalmente os que representam a direita política, temem os livros.

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A queima de livros em praça pública, em maio de 1933, em Berlim, de autores como Freud, Einstein, Stefan Zweig, Thomas Mann e Erich Maria Remarque, é desde então, um símbolo do ódio dos nazistas ao novo.

Quantas pessoas no mundo inteiro, se confessaram socialistas e humanistas, depois de lerem Les Thibault, de Roger Martin de Gard?

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Milhares de pessoas leram o romance, ambientado na França às vésperas da Primeira Grande Guerra e aprenderam com Jacques Thibault, que as disputas capitalistas levam sempre às guerras.  Em 1937, nas vésperas de uma nova guerra movida pelos interesses do capital, Roger Martin de Gard ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.

 

Quem transformou Luís Carlos Prestes no Cavaleiro da Esperança, foi um livro de Jorge Amado, que começa assim:

“Te contarei a história do Herói, amiga, e então não terás jamais em teu coração um único momento de desânimo. Como naquelas noites em que o seu nome, balbuciado por vezes a medo, afastava a amargura e o terror, agora eu falarei dele pra que tu e o povo do cais que me ouve, saibam que podem confiar que a noite não é eterna”

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O livro foi publicado em espanhol, em Buenos Aires, em 1942, e trazido clandestinamente para o Brasil. A primeira edição brasileira apareceu em 1945, mas a partir de 1964, foi proibido novamente, só voltando a ser editado em 1979, porque os ditadores da ocasião sempre temeram a força de um livro.

 

 

Talvez, o que esteja faltando hoje no Brasil, sejam políticos que leiam mais livros. A pobreza dos argumentos apresentados, mesmo em defesa de posições mais progressistas, é constrangedora.

Talvez a única grande exceção a essa regra seja o ex-governador Tarso Genro, que semanalmente, em seu espaço no Sul21, analisa a situação política do Brasil a partir de uma posição intelectual solidamente embasada nos ensinamentos de grandes autores, não só da política, como também em outras áreas do conhecimento humano mais avançado.

Como ele parece, ainda assim, acreditar que a retomada do caminho, que um dia levará o Brasil a se libertar do capitalismo financeiro predatório internacional, esteja dentro das regras da sociedade democrática ocidental e não numa opção mais radical, não custa lembrar a ele, o que diz István Mészáros em seu livro Atualidade Histórica da Ofensiva Socialista:

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“O discurso político tradicional geralmente proclama o sistema parlamentar como o centro de referência necessário de toda a mudança legítima. Sem o estabelecimento de uma alternativa radical ao sistema parlamentar não pode haver esperança de desembaraçar o movimento socialista da sua atual situação, à mercê das personificações do capital que existe em suas próprias fileiras“

Mészáros é radical na crítica às opções reformistas feitas no passado por partidos comunistas e trabalhistas, principalmente o Partido Comunista Italiano, com o seu fracassado projeto de “compromisso histórico” e o Partido Trabalhista Inglês com a sua ilusória “terceira via”. Sobra também,  nas suas críticas, para Gorbachov, que segundo ele fechou o Partido Comunista da União Soviética com um decreto.

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Segundo ele, “o movimento socialista não terá sucesso, a menos que se rearticule como um movimento revolucionário de massas, ativo de maneira consciente em todas as formas de luta política e social: local, nacional, global/internacional. Um movimento revolucionário de massas capaz de utilizar plenamente as oportunidades parlamentares, quando disponíveis, ainda que limitadas nas atuais circunstâncias, e, acima de tudo, sem medo de afirmar as demandas necessárias da ação extraparlamentar desafiadora”

A semana passada…a limpo.

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O fato da semana, documentado em várias fotos, foi sem nenhuma dúvida, a do juiz Sérgio Moro e o senador Aécio Neves, cochichando alegremente nas costas de um impassível Temer. O flagrante foi feito numa solenidade em que a Revista Isto É homenageava o Temer e o Moro. Diga-se de passagem, que a revista sempre foi um dos canais usados pela Lava Jato para vazar notícias que pudessem prejudicar o PT. A jornalista Rosane Oliveira, de Zero Hora, considerou normal a foto, mas o ex-presidente Lula, não. Tanto isso é verdade, que seus advogados anexaram as imagens no processo que movem contra Moro pela sua parcialidade no julgamento dos casos que envolvem o partido.

Como dizia aquele velho ditado, à mulher de Cesar, não basta ser honesta, ela precisa provar que é. Moro, que preside um julgamento muito mais político do que jurídico, não deveria aparecer publicamente, trocando gentilezas com o Presidente do PSDB, o partido ao qual mais interessa as perseguições ao PT.

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Fora isso, semana começou com o Temer anunciando mais um pacote de maldades contra os trabalhadores, com sua proposta de reforma previdenciária. A idade para os homens se aposentarem subiu para 65 anos e tempo de contribuição para 49.

Temer que tem aposentadoria integral desde os 50 anos, poderia tomar para si aquele provérbio: façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço

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Para provar que é uma pessoa que agradecida aos seus amigos, o deputado Alceu Moreira, relator da emenda na Câmara, deu parecer favorável à medida e ainda fez piada, dizendo que é The Flash pela rapidez com que tratou o tema. Na eleição 2010, Alceu foi um dos dois candidatos à deputado federal agraciado com uma doação de 50 mil reais de Temer para sua campanha. Quando presidente da Assembleia Estadual, Alceu foi investigado pela Polícia Federal nos escândalos da Operação Rodin e Merenda Solidária. Hoje é réu no Supremo, no inquérito 3076, por corrupção passiva e violação da lei das licitações.

Quem também está mais uma vez envolvido com a Justiça é o ministro de Temer, o nosso conhecido Eliseu Padilha, acusado de usar sua influência junto ao então Ministro Edson Lobão para obter vantagens indevidas numa briga de terras em Palmares de Sul, onde seria construído um Parque Eólico.

Numa área que ficaria melhor nas páginas policiais do que nas da política, sobrou também para as três figuras mais importantes do PSDB. A Folha reuniu numa só matéria, as denúncias contra Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra.

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Aécio, o amigo do Moro, foi acusado pelo ex-deputado Pedro Correa, de bancar Irani Varela numa diretoria da Petrobrás, no final do governo de FHC, para gerenciar a distribuição de propinas a políticos; por Sérgio Machado, ex- presidente da Transpetro de ter sua campanha para presidência da Câmara, em 2001, irrigada com 7 milhões de reais não declarados e pelo ex-senador Delcídio do Amaral, de receber propinas de Furnas.

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Serra foi acusado na delação premiada da Odebrecht de ter recebido 23 milhões de reais não declarados para a sua campanha presidencial de 2010.

 

 

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Na mesma delação, é dito que Alckmin teria recebido no caixa dois da sua campanha para o governo de São Paulo, em 2010, 2 milhões de reais. Seu cognome na lista de propinas seria Santo.

 

 

E a semana não poderia terminar pior para Temer. A Folha divulgou trechos da delação premiada de Cláudio Melo Filho, ex-diretor de Assuntos Internacionais da Odebrecht. Ele disse que, em maio de 2014, no Palácio Jaburu, com a presença de Temer e de Marcelo Odebrecht (hoje preso) foi acertada a distribuição de 10 milhões de reais para o Caixa 2 do PMDB distribuir entre seus filiados. A distribuição teria sido coordenada por Eliseu Padilha. O curioso são os apelidos dados aos beneficiários. Padilha seria o Primo; Moreira Franco, o Angorá; Romeiro Jucá, o Caju; Rodrigo Maia, o Botafogo e Renan Calheiros, o Justiça.

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Quem provou que manda e não pede, foi o Presidente do Senado. Afastado da Presidência por um ato do Ministro Marco Aurélio, porque é réu, acusado de corrupção no Supremo, Renan Calheiros se recusou, na terça-feira, a receber a intimação de um oficial de justiça. Na quarta, por 6 a 3, ganhou o direito de continuar sentado na sua cadeira, do colegiado do STF. Renan é peça chave para aprovar as medidas de arroxo que o governo pretende obter do Parlamento e sua salvação envolveu, de Temer a Gilmar Mendes, passando também, segundo se disse, pelo vice-presidente do Senado, Tião Viana, do PT do Acre.

Temer também não teve vida fácil na semana. Sua intenção de cooptar o PSDB, indicando o baiano Antônio Imbassay para a Secretaria de Governo, no lugar do demitido Geddel Vieira, encontrou resistência do Centrão, que ameaçou não aprovar a reforma previdenciária. Enquanto Temer corteja o PSDB, esse se faz de rogado e não quer apenas uma secretaria de governo, quer o governo.

O que Lula já havia insinuado – de que o PSDB pretende provocar a saída de Temer em 2017, com a eleição indireta do novo presidente e que já teria Fernando Henrique como candidato – o senador Humberto Lucena repetiu com todas as letras.

Em Porto Alegre, os professores anunciam greve para a próxima semana contra as medidas do Governo Sartori, que pretende vender bens do Estado e não paga em dia os salários do funcionalismo, nem o décimo terceiro.

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Em matéria pouco comum em suas páginas, Zero Hora mostrou para onde vai o dinheiro que falta para pagar o funcionalismo. A empresa Videolar-Inova recebeu 343 milhões de reais do Governo do Estado em incentivos fiscais, com o compromisso de gerar 5 novos empregos. Isso mesmo, 5 empregos. É a primeira no ranking de incentivos, segundo matéria de Marcelo Gonzatto. A terceira colocada, John Deere Brasil, recebeu 250 milhões para gerar 500 empregos. A desculpa do governo para dar incentivos fiscais às empresas é estimulá-las a gerar mais empregos. A Videolar é do empresário Lino Parisotto, envolvido com a justiça de São Paulo por agressão a ex-modelo Luiza Brunet.

Ainda na quarta-feira, como era esperado, o Grêmio ganhou a Copa do Brasil, empatando com o Atlético. Como não podia deixar de ser, toda a imprensa promoveu o jogo, o campeão e as muitas homenagens prestadas ao Chapecoense antes da bola rolar.

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Com isso, sobrou pouco espaço para registrar o gol de Casalis, por cobertura, numa bola chutada a partir do campo do Atlético, num lance que Pelé tentou mais de uma vez e não conseguiu e a luta livre, que se seguiu ao final do jogo entre o argentino Kenemann, do Grêmio e o equatoriano Erazo, do Atlético. Possivelmente porque não são brasileiros, os dois não se sentiram na obrigação de entrar no clima de solidariedade entre os jogadores que imperou desde o início.

Aliás, no Brasil tudo vira espetáculo, mas alguns passam do limite do suportável. O exemplo: as homenagens à Chapecoense antes do jogo. Aqueles jornalistas balofos, todos de verde, entrando em campo com os jogadores, os closes nas lágrimas dos torcedores, o toque de silêncio, tudo isso pareceu uma dramatização coreografada para emocionar as pessoas e fazerem elas esquecer seus problemas pessoais. O melhor seria deixar as famílias dos mortos viverem o seu luto em paz. Para os outros a vida prossegue.

Ainda na área esportiva, enquanto tudo são flores para o Grêmio, a vida só reserva espinhos para o Internacional. Embora tenha ficado claro, principalmente depois que o Estadão revelou a troca de e-mails entre a CBF e o Vitória da Bahia, que a inscrição do jogador do Vitória, contestada pelo Inter era ilegal, o tribunal esportivo não recebeu a denúncia dos gaúchos. Espera-se agora que, pelo menos no campo jurídico, o Inter jogue melhor do que nos gramados e não desista da defesa dos seus direitos.

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O caso teve um novo desdobramento no final da sexta-feira quando a CBF denunciou o Internacional sob acusação de que teria anexado documentos falsos ao processo contra o Vitória.

O Inter reagiu e disse que vai até o fim nas acusações contra o Vitória e agora a CBF. Considerando o passado da instituição – o ex-presidente preso nos Estados Unidos e o atual impedido de sair do Brasil com medo de também ser preso – não fica difícil escolher o lado de quem deve estar dizendo a verdade.

O campeonato termina nesse domingo no campo, mas deve ir longe ainda nos tribunais.

Sobre a ótica de um esquerdista e colorado, foi isso que sobrou de mais importante na semana que termina.

Soltando os bichos numa conversa de boteco.

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A reunião no boteco, com o Pintaúde, era para decidir o que faríamos com os nossos personagens criados no Facebook.

Minha ideia era deixar onde eles já estavam, mas o Pintaúde queria fazer deles um evento.

– Cada um deles representa uma parte desse mundo canalha em que vivemos.

– Eles só fazem algum sucesso entre amigos que pensam como nós. Eles vivem o ridículo de uma classe média alienada e ninguém quer se ver como classe média.

– Grande África, descobristes a América.

Foi nesse momento em que interrompemos nossa reunião para discutirmos o significado dessas expressões.

Lembrei que tinha publicado no blog um texto sobre o livro do Câmara Cascudo que falava a respeito de provérbios brasileiros.

Aí, o Pintaúde queria saber se o Cascudo explicara o significado e quem disse a frase: “truvisca no fedor”.

O que salvou a discussão sobre o que fazer com nossos personagens, foi que eu sabia a resposta;

_ Foi o “seu” Gomes, um senhor gordinho que foi lateral de direito do São José, na década de 50 e truviscar no fedor significava centrar a bola para a pequena área.

Voltamos então ao problema sobre o que fazer com nossos personagens.

– Vamos chamá-los para o palco, apresentá-los

– E se alguém se sentir representado por um deles e reclamar.

– Eles são só personagens. Como nos velhos filmes americanos, vamos colocar um aviso na abertura: qualquer semelhança com fatos ou pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

– Vamos então soltar a bicharada.

O garçom trouxe outra rodada de chopes que não havíamos pedido, enquanto nós íamos chamando à ribalta nossos personagens

Edgay. Antigo diretor de comerciais classe B. Mora no Campeche, pintou os cabelos de rosa carmim para participar da última passeata dos coxinhas da Ilha.

Carlito Ferroso – Um amigo nosso contou que ele é argentino, chegou em Floripa, vindo com um grupo de turistas de Comodoro Rivadávia e foi ficando. Hoje ganha a vida cantando tangos num bar de Canasvieiras. Seu maior sucesso continua sendo “Por una cabeza”.

A Doutora – Foi fazer turismo em Madri com o marido e quis conhecer a Universidad Complutense. Como era dia de visita, pode entrar e tirar fotos na sua biblioteca. Na volta se assumiu como egressa da tal Universidade, o que não deixa de ser verdade.

Gaudêncio, o gaúcho gay. Incompreendido em sua terra, Alegrete, mora na Zona Sul de Porto Alegre e quer criar um CTG alternativo.

Mr.Bed – Um empresário americano que vive há muitos anos no Brasil trabalhando em importação e exportação. Quando alguém pergunta o que ele importa e o que exporta, diz que tem dificuldades de entender a nossa língua e pede logo uma “ceva estupidamente gelada”.

Dra. Tá  – Advogada, trotskista, defensora de causas perdidas, dos fracos e dos oprimidos.

Bung Lung  – Cibernético e músico. Apesar do nome, nasceu em Coronel Bicaco. Sabe tudo, de tudo. Dizem que quando o Google não consegue responder uma pergunta, manda logo para o Bung Lung que ele resolve.

Berto Só – Artista plástico, sambista e ventríloquo. Fez muito sucesso em Pelotas na década de 60 e hoje vive em Urussanga, onde ganha a vida como artesão na praça da cidade.

Sempé dos Anjos – Nunca revelou seu nome de batismo. Cantava no coro da igreja metodista, quando foi descoberto por um caçador de talentos. Fez carreira como dublador em São Paulo. Seu trabalho mais conhecido é a dublagem, em um comercial de sabão, da voz do Frank Sinatra.

Yva dos States – Quando jovem, era bonita e corajosa, ainda que pobre. Casou com empresário rico e hoje vive em Fort Lauderdale. Só vem ao Brasil para participar das passeatas dos coxinhas.

Ignácio Gravina  – Jornalista venezuelano. Foi expulso pelo Maduro. Montou uma empresa de pesquisas eleitorais em Viamão, mas até agora não acertou nenhuma previsão.

Lauro Sargento – Nasceu na Paraíba, mas é pesquisador de folclore gaúcho, subdivisão do Litoral Norte e cantor de música nativista numa pousada em Tramandaí.

Juan Solido – Formado em direito, não se lembra mais em que faculdade, resolve qualquer problema jurídico, sentimental ou fiscal.

Litle Fire – Já foi publicitário, mas hoje vive de rendas. Não gosta de brincadeiras com o seu nome. Tem na carteira um retrato do Bolsonaro e diz que o melhor argumento é um tapa bem dado na raiz do ouvido.

Fernando Salafra – É disparado o personagem mais rico nessa galeria. Só entrou na lista, porque prometeu duas passagens de primeira classe a Paris para os autores. Começou com um armazém se secos e molhados em Galópolis e uma balança viciada. Hoje é dono de uma rede de “freeshops” na América do Sul.  Guarda no seu escritório a velha balança, com a qual tudo começou e diz que é seu talismã. Importava vinhos da Argentina e Chile, quando se deu conta que ganharia mais, só importando os rótulos para colar nos vinhos que um tio produzia em Guaporé. Diz que são melhores que chilenos e argentinos e muito mais baratos. Em janeiro, diz que vai voltar a um lugar que ele chama de “Noroégua”, porque ficou encantado com os tais “fordis” que viu por lá.

O garçom trouxe mais uma rodada de chopes que não havíamos pedido e como já estava ficando tarde e o Pintaúde tem que estar na cama antes da meia-noite, resolvemos deixar tudo para outro dia, fiel ao nosso lema: não faça hoje o que você pode deixar para amanhã.

Certo mesmo é que os nossos personagens vão ganhar vida própria nos próximos dias, tudo por conta do Pintaúde, que meu papel é emprestar o espaço desse blog para contar a novidade.

Temer é um Maria Vai com as Outras

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Comentando a política nacional, um amigo me disse – “esse Temer é um Maria Vai com as Outras e transformou seu governo na Casa da Mãe Joana”.

Concordei com ele, mas depois fiquei me perguntando: e se tivesse que explicar para um estrangeiro o significado desses comentários, o que diria?

Hoje, quem tem dúvidas, vai no Google.

Foi o que fiz.

Ali deparei com uma relação de ditados e provérbios brasileiros, catalogados por Luís da Câmara Cascudo, inclusive o que fala da tal Maria e tal Joana, e achei isso tão interessante que resolvi dividir com meus poucos leitores a descoberta.

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Antes de lembrar algumas dessas expressões, é preciso falar alguma coisa sobre o autor.

Câmara Cascudo nasceu e viveu sempre em Natal, no Rio Grande do Norte, de 1898 a 1986. Foi historiador, antropólogo e jornalista. Sua obra mais conhecida é o Dicionário do Folclore Brasileiro. É um dos poucos brasileiros, foi homenageado com sua estampa numa cédula do nosso dinheiro.

Sete anos depois da sua morte, em 1993, ele apareceu numa cédula de 50 mil cruzeiros.

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Aqui vão algumas expressões coletadas e comentadas por Cascudo em seu livro Locuções Tradicionais no Brasil.

Bicho-de-sete cabeças. Usado, normalmente, na forma negativa. Não é um bicho-de-sete- cabeças. Significa que uma tarefa não é assim tão difícil. Referência ao mito grego da Hidra, cujas cabeças foram decepadas por Hércules.

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Com o rei na barriga. Sujeito que se acha importante. Alusão às rainhas que quando grávidas eram tratadas com mais deferência ainda.

 

Ver passarinho verde. Significa estar apaixonado. No passado, conta lenda, jovens adestravam passarinhos para levar no bico uma carta de amor a sua apaixonada.

Com a corda toda. Pessoa agitada, que não para quieta. A origem está em velhos brinquedos animados com uma mola chamada corda.

Favas contadas – Disputa que já tem um vencedor previsto. No passado, se votava sim ou não, usando favas brancas ou pretas.

Fazer ouvidos de mercador – Fingir que não está ouvindo. Mercador seria uma corruptela de Marcador, o carrasco encarregado de marcar suas vítimas e que deveria fingir que não estava ouvindo seus gritos.

Tapar o sol com a peneira. Esforço inútil de esconder alguma coisa. Expressão originária de uma experiência prática.

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O pomo da discórdia – Pessoa ou objeto que dá origem a uma disputa. Sua origem é uma lenda grega. Hera, Afrodite e Atena, as mais importantes deusas gregas, disputavam a Maça de Ouro, jogada por Éris, a deusa da discórdia. Zeus atribuiu a Páris, filho do rei de Troia, a missão de fazer a escolha. O príncipe concedeu o título a Afrodite em troca do amor de Helena, casada com o rei de Esparta. A rainha fugiu com Páris para Tróia, os gregos marcharam contra os troianos e a famosa maçã passou a ser conhecida como “o pomo da discórdia.

Afogar o ganso –  Ato sexual. No passado, os chineses costumavam satisfazer as suas necessidades sexuais com gansos. Pouco antes de ejacularem, os homens afundavam a cabeça da ave na água, para poderem sentir os espasmos anais da vítima.

Ave de mau agouro – Pessoa portadora de más notícias. Os romanos usavam a águia, a coruja, o corvo e gralha para levar para Roma as notícias da guerra distante.

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Santa do pau oco –  Pessoa falsa. Nos séculos XVIII e XIX, contrabandistas usavam imagens de santas, ocas por dentro, para esconder ouro em pó e pedras preciosas.

 

Mais vale um pássaro na mão que dois voando – Não correr risco. Antigos caçadores tinham o hábito de segurar nas mãos as aves feridas, antes de tentar caçar outras que ainda estivessem voando.

Apressado come cru – Não fazer as coisas direito por causa da pressa. Quem não espera que a comida fique no ponto certo, não vai gostar do que irá comer.

Chorar as pitangasEstar a se lamentar. Quando, por descuido, as pitangas tocam os olhos de uma pessoa, elas provocam lágrimas.

Farinha do mesmo saco –  Pessoas que tentam aparentar diferenças, mas que no fundo são iguais. Sua origem seria uma expressão latina: “Homines sunt ejusdem farinae”

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Aquela que matou o guarda – Usada para identificar uma aguardente muito forte. Segundo Alberto Campos de Moraes, num livro sobre a família real no Brasil, uma mulher chamada Canjebrina (sinônimo de cachaça) teria matado um guarda que trabalhava para D. João VI.

 Colocar panos quentes – Esconder algo errado. Vem do costume de usar compressas panos quentes para provocar sudorese em pessoas com febre alta.

Cor de burro quando foge – A frase original era “Corra do burro quando ele foge”. Tem sentido porque, o burro enraivecido, é muito perigoso. A tradição oral foi modificando a frase e “corra” acabou virando “cor”. Usa-se também no Sul, a expressão Cor de burro quando chove.

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Pagar o pato – Assumir a culpa. A origem está num antigo jogo em Portugal. A cavalo, os jogadores deveriam arrancar um pato preso num poste. Quem perdia, tinha que pagar a aposta.

 

É de pequenino que se torce o pepino Educar as crianças desde cedo. Os plantadores de pepino têm o hábito de arrancar as suas pontas para que eles cresçam mais bonitos.

Salvo pelo gongoPessoa que livra de um problema no último minuto. O ditado teria surgido na Inglaterra no século XIX para evitar que se enterrassem pessoas ainda vivas (catalepsia). Um cordão, ligado a um congo, era colocado no caixão para que, se fosse o caso, o candidato a ser enterrado, que “acordasse” a tempo, o pudesse ser salvo pelo gongo.

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Elefante brancoAlgo que não serve para nada. Seria um costume de antigos reis da Tailândia de dar de presente para alguém que caísse em desgraça um elefante branco. Como não poderia desprezar um presente do rei, o agraciado ficava com um enorme problema em sua casa.

Amigo da onça – Pessoa falsa. Um caçador contava a história que, sem armas, espantou uma onça apenas com seu grito. Como seu ouvinte duvidou, o caçador perguntou se essa pessoa era seu amigo ou da onça.

Com a corda no pescoço – Enfrentar problemas financeiros. Veio do fato de alguns condenados à forca terem sido salvos no último momento por algum tipo de perdão.

Como sardinha em lataViajar em condução lotada. A origem é da Sardenha, onde as sardinhas eram muito abundantes e eram enlatadas superpostas umas às outras.

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Pior cego é o que não quer ver. Pessoa que se recusa a ver a realidade. Sua origem seria em 1647, em Nimes, na França, onde o doutor Vicent de Paul D’Argenrt fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel. Foi um sucesso da medicina da época, menos para Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via e pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos. O caso foi acabar no tribunal de Paris e n Vaticano. Angel ganhou a causa

Quem não tem cão caça com gato – Se você não pode fazer algo de uma maneira, se vira e faz de outra. A expressão, com o passar dos anos, se adulterou. Inicialmente se dizia “quem não tem cão caça como gato”, ou seja, se esgueirando, astutamente, traiçoeiramente, como fazem os gatos.

Deixar de Nhenhenhém –  Conversa fiada. Na língua Tupi “nhee” significa falar. Como os índios não entendiam o que os portugueses falavam, diziam que eles faziam nhen-henh-nhém.

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Casa da mãe Joana –  Lugar confuso e sem ordem. Joana condessa de Provence (1326/1386) liberou os bordéis em Avignon, na França e foi por eles homenageada.

Onde Judas perdeu as botas– Lugar muito distante. Depois de trair Jesus, Judas teria perdido suas botas e os 30 dinheiros num lugar que os soldados romanos procuraram sem sucesso.

Jurar de pés juntosAfirmação definitiva sobre o assunto. Durante a Santa Inquisição, as pessoas tinham os pés e mãos amarradas juntas e deveriam jurar obediência à Igreja.

Dá pá viradaPessoa criadora de casos. A pá virada tem pouca utilidade prática.

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Não entender patavinaNão entender nada. A origem seria o fato de Tito Lívio, natural de Patavium (hoje Pádova, na Itália), usava um latim horroroso, originário de sua região, que poucos entendiam

 

Testa de ferro Exercer o poder em nome de outro. O Duque Emanuele Filiberto di Savoia, conhecido como Testa di Ferro, foi rei de Chipre e Jerusalém. Mas tinha somente o título e nenhum poder verdadeiro.

Erro crassoAlguém que comete um erro enorme. Crasso, integrante do primeiro triunvirato romano, com Júlio Cesar e Pompeu, foi derrotado pelos Partos pelos enormes erros militares que cometeu.

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Lágrimas de crocodiloChoro falso. O crocodilo, quando devora uma presa, faz uma força tão grande com suas mandíbulas, que pressiona as suas glândulas lacrimais, provocando lágrimas.

Passar a mão na cabeçaPerdoar alguém. Vem do costume judaico de abençoar cristãos-novos, passando a mão pela cabeça e descendo pela face, enquanto se pronuncia a bênção.

Gatos pingados Pouca gente assistindo algo. Sua origem seria japonesa e se referia a um tipo de tortura – pingar óleo fervente em pessoas e animais, principalmente gatos – que poucas pessoas queriam assistir.

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Queimar as pestanasEstudar muito. Antes da descoberta da eletricidade, as pessoas liam à luz de velas. Quando se aproximavam muito da chama, poderiam queimar as pestanas.

 

Sem papas na língua –  Ser franco, dizer o que sabe, sem rodeios. A expressão vem da frase castelhana “no tener pepitas em la lengua”. Pepitas, diminutivo de papas, são partículas que surgem na língua de algumas galinhas, é uma espécie de tumor que lhes obstrui o cacarejo. Quando não há pepitas (papas), a língua fica livre.

Maria vai com as outras –  Pessoa sem opinião. Dona Maria I, a mãe de D.João VI, chamada a Rainha Louca, foi declarada incapaz de governar e afastada do trono. Passou a viver recolhida e só era vista quando saía para caminhar a pé, escoltada por numerosas damas de companhia. Quando o povo via a rainha levada pelas damas nesse cortejo, costumava comentar: “Lá vai D. Maria com as outras”.

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