A vida e a arte: quem imita a quem?

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Os primeiros anos da década de 1960, com seus grandes conflitos políticos e culturais, foram fundamentais para o caminho seguido pela história do mundo ocidental.

Em nenhum outro lugar, o mundo esteve tão perto de acabar com a ordem burguesa capitalista dominante e construir uma sociedade socialista e libertária, tarefa na qual os russos tinham falhado, como na França daquela década.

E, se hoje quisermos recuperar o espírito da época, nada melhor do que nos socorremos do cinema francês daquele período, onde pontificaram os grandes diretores incluídos no que se chamou da Nouvelle Vague Francesa.

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A derrota do nazismo, nos campos de batalha da Europa após a segunda grande guerra fez nascer a possibilidade de que, apoiados pela força material e o prestígio moral alcançado pela União Soviética, a grande vencedora da guerra, os partidos comunistas e socialistas europeus pudessem chegar ao poder até mesmo pela via parlamentar.

Logo se viu, porém, que isso era uma ilusão. O estalinismo dominante na União Soviética e nas chamadas Repúblicas Populares, transformou em letra morta a solidariedade internacional com os operários do resto da Europa e mergulhou o mundo, com a guerra fria, no medo de um conflito nuclear.

Em vez de partir para a ofensiva, os partidos comunistas adotaram como uma única bandeira de luta, a defesa da paz, uma estratégia que interessava basicamente a União Soviética, que precisava de tempo para se rearmar equilibrando, a balança militar com os Estados Unidos.

O cinema francês dessa época reflete de alguma maneira, na sua linguagem chamada de Realismo Poético, um pouco desse sentimento de insegurança e de falta de perspectivas, nos filmes dos seus grandes diretores da época, de Jean Renoir e Marcel Carné a André Cayatte

O mundo começava a sofrer uma nova e acelerada mudança a partir dos movimentos de rebeldia dentro das repúblicas populares contra o burocratismo soviético. O mais importante dele foi a chamada Revolução Húngara, de 1956, sufocada pelas tropas do Pacto de Varsóvia.

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Independentemente do fato de que o episódio tenha sido amplamente estimulado e apoiado pelos Estados Unidos, é fora de dúvida que começava a se esgotar a imagem de heroísmo e dedicação às causas políticas, criada pela vitória contra o nazismo na Europa, e um movimento fortemente individualista estava surgindo.

A nouvelle vague francesa reproduziu no campo das artes toda essa nova perspectiva. Oriundos da famosa revista sobre cinema, Cahiers des Cinéma, fundada em 1951 por André Bazin, seus mais importantes críticos se transformaram em diretores.

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A partir de 1959, com o filme Nas Garras do Vício (Le Beau Serge), de Claude Chabrol, surge o chamado “Cinema de Autor”, preocupado em levar para a tela as angústias e as alegrias de pessoas comuns, pondo de lado os grandes temas que mobilizavam os diretores do passado.

Assim surgem filmes memoráveis de diretores polarizados, entre os que não faziam nenhuma concessão ao social, como Jean Luc Goddard, com O Acossado (A Bout de Souffle) e aqueles que incluíam seus dramas dentro de um certo contexto político, como Alain Resnais, com o seu memorável Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima, mon amour). No centro ficaria, talvez o mais importante de todos, François Truffaut, cujos filmes eram capazes de agradar críticos e públicos, como Os Incompreendidos (Le Quatre Cents Coups).

O Rio Sena, dividia esses personagens, formando o Grupo de Margem Direita  (Goddard, Truffaut e Chabrol) e o Grupo da Margem Esquerda ( Renais e Agnes Varda).

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Ao adotar essas novas temáticas, Trufautt aborda pela primeira vez a possibilidade de uma relação aberta e sem culpas, entre uma mulher (Jeane Moreau) e seus dois amigos, vividos pelo alemão Oskar Werner e o francês Henry Serres.  O filme Jules e Jim (em português recebeu o acréscimo óbvio de Uma Mulher para Dois) pode ser visto como uma visão inaugural no cinema, de uma concepção ainda hoje avançada do feminismo sobre o sexo.

Essa fantástica conjugação de um passado de lutas políticas, vindo desde a Revolução Francesa de 1789, com uma nova visão do mundo que o cinema reproduzia e ao mesmo tempo estimulava, levou à França em 1968 ao mais importante movimento popular dos últimos 100 anos, o chamado Maio de 1968.

Poderíamos englobar esse grande movimento como a última grande oportunidade perdida de se instaurar no mundo uma sociedade socialista, muito mais ampla e radical do que a Primavera de Praga, que Alexander Dubcek iniciara em janeiro daquele ano.

Tudo começou com os estudantes universitários, nos primeiros dias de maio, se rebelando contra certas medidas administrativas na Sorbonne e logo se transformou em seguidos conflitos com a polícia no Quartier Latin.

A mudança radical no processo se deu, quando os operários de Paris anunciaram uma greve geral, passando por cima de seus sindicatos e da grande central operária, controlada pelo Partido Comunista.

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Nos cartazes de rua se confundiam os lemas anarquistas ( É proibido, proibir e Seja realista, exija o impossível), com as propostas de luta dos trabalhadores ( (Governo Popular, O Patrão precisa de ti, tu não precisas dele) numa combinação explosiva que a França ainda não tinha visto.

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Dez milhões de operários de braços cruzado levaram o Governo de Charles De Gaulle ao desespero. Ao embaixador norte-americano, De Gaulle disse que o jogo estava acabado e logo os comunistas iriam estar no poder.Com sindicatos de policiais se solidarizando com os grevistas, com notícias sobre defecções nas forças armadas, De Gaulle foge de Paris e vai a Alemanha, onde estava estacionado o exército comandado pelo General Massu, em busca de apoio

Na volta a Paris, dissolve a Assembleia Nacional e convoca novas eleições, ao mesmo tempo que negocia com o Partido Comunista uma trégua. Depois de 15 dias de greve, os trabalhadores começam a vacilar e são tentados a aceitar as propostas dos patrões negociadas com CGT, como aumentos salariais, abonos, e garantia de empregos.

Os trabalhadores voltam ao trabalho e um mês depois começam as demissões das lideranças grevistas

Em junho, o movimento está quase acabado.

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Em 1917, Kamenev e Zinoviev e as lideranças dos mencheviques tentaram convencer Lenin de que, depois de derrubar o Czar e instalar um governo parlamentar com Kerenski, deveria se esperar um tempo para dar o passo seguinte rumo à revolução socialista.

Lenin não aceitou.

Na guerra civil espanhola, de 1936 a 1939, foi a União Soviética quem garantiu a maior parte das armas para os republicanos, mas não o suficiente para derrota, os franquistas, apoiados abertamente pela Alemanha Nazista.

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Por que? Porque Stalin temia a antecipação do conflito com a Alemanha, se Hitler fosse derrotado na Espanha por causa do apoio soviético.

Em maio de 1968, o Partido Comunista Francês se preocupava em apoiar a política internacional da URSS, toda ela voltada para não desafiar o poder norte-americano no Ocidente. Depois que Kruchiov foi obrigado a retroceder na questão da base militar soviética em Cuba, o novo dirigente soviético, Leonid Brejnev, jamais apoiaria um governo comunista na França. que pudesse levar a um confronto com os Estados Unidos.

A oportunidade de uma revolução socialista foi perdida em 1968. A partir daí, nas próximas eleições na França, o Partido Comunista foi perdendo sua grande força, sendo substituído pelo Partido Socialista na liderança das esquerdas.

Os anos seguintes, mostrariam uma recuperação do mundo capitalista e com ela, uma melhoria nas condições de vida dos trabalhadores, fazendo com que parecesse novamente uma longínqua utopia, o sonho socialista.

Hoje, quando novamente, o capitalismo mergulha em mais uma crise estrutural e à margem dos partidos se organizavam novamente grupos libertários, o sonho de um socialismo nos moldes daquele pregado nas barricadas de 1968 volta a aparecer.

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Um dos principais teóricos dessa nova abertura é o filósofo marxista húngaro Istvan Meszaros, que prega a necessidade das forças socialistas saírem da defensiva e partirem para a ofensiva, liberadas que estão hoje dos aparelhos

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