A semana e o ano passados a limpo

2016

Termina a semana, termina o ano e como as pessoas gostam de fazer nessas ocasiões, chegou a hora de dar um balanço nos fatos e lembrar o que de mais importante aconteceu em 2016.

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Para nós gaúchos foi a reafirmação de um dos governos mais medíocres da história do Estado, o de José Ivo Sartori. Incapaz de propor alguma solução inteligente para resolver os problemas de saúde, educação e segurança em que vive o Rio Grande, optou por eleger os funcionários públicos como os grandes culpados e as fundações como vilãs.

A força policial, omissa na hora de oferecer segurança à população, foi mobilizada para agir com violência contra uma parte da população que estava apenas exercendo seu direito de protestar, sob as ordens de um Secretário de Segurança que, a cada manifestação pública, se revelou mais inadequado para o cargo.

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Porto Alegre, uma cidade de tradições democráticas e de defesa de conquistas populares, deu um passo atrás em sua história, elegendo Nelson Marchezan seu prefeito.

No cenário nacional, o grande acontecimento foi o golpe de estado, urdido no Parlamento, com o apoio de uma parte do Judiciário, para afastar uma presidenta legitimamente eleita, Dilma e colocar no seu lugar um sujeito, que como disse o Luís Fernando Veríssimo, tem mais cara para o papel de mordomo, o Temer, do que para o de presidente.

Brasil, Brasília, DF, 02/03/2015. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ)convoca reunião com a Mesa Diretora para rever a cota de passagens aéreas para cônjuges de parlamentares. "Reconheço que a repercussão foi muito negativa", afirmou o peemedebista. O benefício foi aprovado na reunião da Mesa Diretora no dia 25 de fevereiro. - Crédito:DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Código imagem:180989Eduardo Cunha, que como Presidente da Câmara, conduziu aquele grotesco espetáculo da cassação de Dilma, foi descartado como um laranja podre e preso pela Operação Lava Jato, em Curitiba.

 

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A Lava Jato, por sinal, não teve um ano muito tranquilo. Seu viés político, foi mais do que nunca percebido por segmentos cada vez maiores da população, em episódios como a tentativa de levar coercitivamente Lula para depor, a apresentação do power point dos procuradores confessando que não precisam de provas para agir e a foto mais reveladora do ano, com o juiz Moro e Aécio Neves trocando amabilidades às costas de Temer.

O ano será lembrado sempre nos esportes pela tragédia da Chapecoense, que perdeu seus jovens atletas num criminoso acidente aéreo na Colômbia, mas teve outros destaques como o sucesso das Olimpíadas no Rio e a queda do Inter para a série B, depois de grandes trapalhadas dos seus diretores, técnicos e jogadores.

Republican presidential candidate Donald Trump speaks to supporters as he takes the stage for a campaign event in Dallas, Monday, Sept. 14, 2015. (AP Photo/LM Otero)

 

No cenário internacional os principais acontecimentos foram a vitória do republicano Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos; a prometida saída do Reino Unidos do Mercado Comum Europeu; o crescimento da influência russa no Oriente Médio, com a sua vitória no conflito da Síria e o crescimento das ações terroristas em grandes cidades da Europa Ocidental.

A melhor ou pelo menos a mais dramática imagem da insegurança em que vive hoje a Europa talvez seja o assassinato do embaixador russo em Ancara, Andrei Karlov, por um segurança, num evento cultural, tudo visto ao vivo e a cores por milhões de pessoas.

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Das mortes em 2016, nenhuma deve ser mais lamentada do que a do grande líder latino americano Fidel Castro. Felizmente, suas entrevistas estão disponíveis na internet para permitir que possamos continuar a absorver seus ensinamentos de revolucionário e humanista.

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Muita gente importante foi notícia ao morrer em 2016 ( João Havelange, Ivo Pintaguy, Hector Babenco)mas quase sempre os mais lembrados foram os artistas, como David Bowie, Prince, Cauby Peixoto, Elke Maravilha, Domingos Montagner e praticamente no mesmo dia, Carrie Fischer, do Star War e sua mãe, Debbie Reynolds.

Os que conseguiram terminar vivos o ano, certamente nos darão notícias, boas e ruins, para comentar na próxima semana.

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Esperamos estar de volta em 2017.

De Getúlio a Lula, frases de um Presidente

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Quando o gaúcho Getúlio Vargas, nascido em São Borja, se matou com um tiro no peito em 1954, no Rio de Janeiro, o pernambucano Lula, nascido em Caetés, ainda não era conhecido por este apelido e tinha 9 anos e se chamava apenas Luís Inácio da Silva.

Além de terem sido os presidentes do Brasil mais populares de sua história, os dois têm em comum uma habilidade política que nenhum outro político brasileiro mostrou até hoje e um repertório de frases incomuns.

Getúlio, segundo ele mesmo dizia, era capaz de transformar um inimigo político de hoje num futuro correligionário amanhã e disso deu provas várias vezes em seu mandato.

Homem da fronteira, criado nas lides do campo, foi buscar no seu passado a melhor imagem para definir a paciência qual se deve tratar as questões políticas:

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“Política é esperar o cavalo passar

 

Chegou à Presidência em 1930 a frente de um movimento militar que representava as aspirações nacionalistas da oficialidade jovem do exército, contra o domínio dos conservadores paulistas e mineiros, mas logo conseguiu convencer seus antigos adversários, chamados pejorativamente de “os carcomidos”, que era a pessoa mais indicada para dar ao País uma estabilidade política que iria garantir a continuidade de seus grandes negócios.

Agradou e desagradou sucessivamente aliados e adversários, jogando com as vaidades e o apetite de poder de cada um deles, para se manter no comando do País durante 15 anos. Flertou com o fascismo italiano e até mesmo com o nazismo alemão, mas acabou levando o Brasil a uma aliança com os Estados Unidos para combater as potências do Eixo.

Mas nada era feito sem uma contrapartida. Para o apoio aos americanos, cobrou investimentos que permitiram a construção de Volta Redonda.

Usava o poder da Presidência para conquistar as metas que se propunha, mas nunca se soube de que tirasse proveito pessoal do seu cargo, embora o mesmo não se possa dizer de outros componentes do seu governo e os amigos a quem protegia.

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“Aos amigos tudo. Aos indiferentes, a lei. Aos inimigos, os rigores da lei”

 

A política econômica atendia os interesses das oligarquias rurais brasileiras, mas isso não impediu que Getúlio montasse as bases do desenvolvimento industrial brasileiro e desse ao trabalhador brasileiro o primeiro conjunto de leis que lhe garantiu a existência com uma dignidade até então desconhecida.

Embora fosse uma unanimidade junto ao povo brasileiro, as elites nunca confiaram muito nele, nem ele, nelas.

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Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem”.

 

Foi derrubado em 1945 pelos mesmos generais que promovera durante seus quinze anos de governo, mas voltou cinco anos depois, quando numa manobra política de mestre, conseguiu o apoio dos dois partidos que criara, o PTB, representando os trabalhadores, e o PSD, dos conservadores mineiros e os coronéis nordestinos, isolando seus adversários abrigados na UDN.

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“As vezes vencer é saber esperar”

 

 

A manobra se completou com a cooptação de Adhemar de Barros, governador paulista, com quem se comprometeu a apoiá-lo na eleição seguinte, conseguindo com isso neutralizar as resistências de São Paulo, um lugar sempre hostil a Getúlio.

O PSD, embora tivesse candidato próprio, Cristiano Machado, votou ao lado de Getúlio. A traição ao seu candidato próprio deu origem inclusive ao neologismo político “cristianizar”, para identificar as situações onde um partido abandona o seu candidato oficial.

Justificava sua perseverança na busca de novas conquistas políticas com uma frase também de origem rural.

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“Quem não aguenta o trote, não monta o burro”.

 

Possivelmente por ser um homem já velho – tinha 68 anos quando chegou novamente a Presidência – (a idade média dos brasileiros era bem menor do que hoje) já não tivesse tanta paciência com os políticos e fez um governo nacionalista de poucas concessões à alta burguesia e ao capital internacional

A prova que Getúlio não tinha muitas expetativas de apoio de seus aliados é sua frase sobre o ministério que organizara para governar:

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“ No Ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa”

 

No fatídico agosto de 1954, a popularidade de Getúlio estava em baixa, com acusações diárias de que dava guarida a corruptos no seu governo. Carlos Lacerda dizia na Tribuna da Imprensa que “corria um mar de lama nos porões do Palácio do Catete”.

Para fugir à deposição por um golpe de estado, tramado inclusive por alguns de seus antigos aliados, Getúlio se suicidou no dia 24 de agosto, com um tiro no peito.

Mesmo morto, foram as frases que escreveu na carta testamento que mudaram a ordem das coisas e impediu a consumação do golpe.

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“Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”.

 

Lula, do líder sindical do ABC paulista durante o regime militar conquistou o apoio da esquerda ligada à Igreja Católica e a simpatia da mídia paulista que via nele uma cópia possível de Lech Walesa, o líder sindical fundador do sindicato Solidariedade e que depois chegou à presidência da Polônia.

No início, Lula gostou da comparação, mas depois mudou sua opinião sobre Walesa.

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“Ele é um pelegão”

 

Lula elegeu-se deputado federal e por três vezes tentou sem sucesso à Presidência, derrotado por Collor e FHC duas vezes, quando concorreu numa aliança com partidos de esquerda. Na quarta tentativa, avisou que concorreria somente se pudesse mudar a política de alianças. Ganhou o apoio do empresário mineiro José Alencar e dos evangélicos ligados ao PL e derrotou José Serra, levando a bandeira do PT para Governo.

Lula explicou a aliança com Alencar.

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“Nós somos como Romeu e Julieta”

 

Apesar da ameaça dos empresários de haver uma debandada em massa dos capitais do País se ele ganhasse as eleições, fez um governo que promoveu um grande desenvolvimento econômico do País e no final se reelegeu facilmente, agora com o apoio de empresários e trabalhadores.

Quando tomou posse, disse qual era a sua principal meta de governo:

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“Se no final de meu mandato cada brasileiro puder comer três vezes ao dia, terei cumprido a missão de minha vida.”

No seu segundo mandato continuou na sua política desenvolvimentista, gerando empregos para os trabalhadores e grandes negócios para os empresários.

Quando mais uma crise cíclica do capitalismo ameaçou as economias do mundo inteiro, fez uma frase pela qual é cobrado até hoje.

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“Lá, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha, que não dá nem para esquiar”.

 

Sua liderança política era tão inconteste, que como Vargas havia feito em 1945 promovendo a eleição de um quase desconhecido general – Eurico Gaspar Dutra – bancou a candidatura de uma figura também quase desconhecida da política – Dilma Rousseff – para a sua sucessão.

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“Em 2010, o governo federal estava com uma aprovação tão extraordinária, que eu elegeria qualquer pessoa que eu indicasse nesse país”.

Na primeira reunião que teve com Dilma Presidente, Lula fez uma frase de apoio à nova presidente:

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A bola está com senhora, Dona Dilma. Monte seu time que eu estarei na arquibancada, de camisa uniformizada, sem cornetear, batendo palmas e nunca vaiando”,

 

Quando o governo Dilma começou a fazer água, usando a mesma linguagem futebolística de que ele gosta tanto, poderíamos dizer que Lula ameaçou jogar a Dilma para escanteio, ao criticar sua política de ajuste fiscal e a falta de ação do governo no campo social.

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“Tem uma frase da companheira Dilma que é sagrada: Eu não mexo no direito dos trabalhadores nem que a vaca tussa. E, mexeu”. 

Hoje, já se fala abertamente numa nova candidatura de Lula à Presidência em 2018. Getúlio voltou do ostracismo da Fazenda de Itu para o Governo. Quem sabe, Lula não possa deixar de ser o perseguido pela “República de Curitiba” e voltar ao Planalto?

Mais de uma vez, nos últimos meses, Lula tem dito que não quer, mas que pode sim ser candidato a Presidente.  Ao lembrar que, durante as secas do sertão, foi alimentado com o fruto do umbu, fez uma frase para mostrar sua disposição de luta.

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Eles não sabem que fui criado com umbuzada. E quem comeu umbuzada é duro de morrer antecipadamente e muito menos morrer pela vontade dos outros

Getúlio dizia que não havia inimigo que não pudesse se transformar num amigo. Lula faz melhor. Numa visita a Israel em 2010, ele afirmou:

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“Eu acho que o vírus da paz está comigo desde que estava no útero da minha mãe. Não me lembro o dia que briguei com alguém”.

 

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Richard Dawkins

 

The Archbishop of Cantebury Rowan Williams (R) and atheist scholar Richard Dawkins pose for a photograph outside Clarendon House at Oxford University, before their debate in the Sheldonian theatre in Oxford, central England, February 23, 2012. The name of the debate is ?The Nature of Human Beings and the Question of their Ultimate Origin?. REUTERS/Andrew Winning (BRITAIN - Tags: RELIGION SOCIETY EDUCATION) - RTR2YBDF

O intelectual é por princípio um radical e deve sempre radicalizar suas opiniões.

Richard Dawkins, que em 2015 esteve em Porto Alegre para uma conferência em Fronteiras do Pensamento, é um radical em defesa do ateísmo.

A sua frase – “O criacionismo é um insulto ao intelecto” é uma prova disso.

Numa sociedade hipocritamente tolerante como a nossa, onde se prega um respeito indevido às ideias religiosas, ouvir um pensador como Dawkins dizer que o potencial de consolo de uma crença não eleva seu valor de verdade, é um alento para quem coloca o ser humano acima de qualquer divindade.

Richard Dawkins é, ao lado de Christopher Hitchens (Deus não é grande), falecido em 2011, um dos grandes divulgadores do pensamento científico da teoria da evolução das espécies, em oposição à visão bíblica da criação do homem.

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Em seu livro mais conhecido no Brasil (Deus – um delírio) Dawkins argumenta que a existência de Deus é cientificamente improvável e que crer nele não só é inútil e supérfluo, mas também prejudicial. De acordo com ele, ninguém precisa de Deus para ter princípios morais, para fazer o bem e para apreciar a natureza.

Mais do que um grande polemista, Dawkins (nascido no Quênia em março de 1941) é um biólogo e grande divulgador da teoria da evolução das espécies de Darwin. Há pouco tempo atrás, a Cia das Letras lançou no Brasil o seu livro A Magia da Realidade, numa edição de alta qualidade gráfica, com capa dura e com belas ilustrações de Dave McKeans.

O livro, embora possa ser lido com grande prazer, pelas descobertas que ele traz, por todas as pessoas que em algum momento se questionaram sobre quem somos e para onde vamos, é uma leitura que deveria ser obrigatória em todas as escolas de adolescentes. Pelo menos nas escolas laicas, não contaminadas pelo vírus da religião.

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Numa linguagem acessível a qualquer pessoa, Dawkins vai respondendo, amparado pelos conhecimentos disponíveis até hoje para ciência, perguntas sobre o que é realidade, o que é magia, quem foi a primeira pessoa e o que é um milagre, e outras questões que sempre perturbaram o ser humano.

Depois de explicar que através do urânio 238 e o carbono 14, é possível estabelecer a idade dos fósseis encontrados até hoje, Dawkins convida seus leitores a uma viagem por uma hipotética máquina do tempo, não para o futuro, mas sim para o passado, até 185 milhões de anos atrás, em busca dos nossos primeiros ancestrais.

Ao retornar 10 mil anos, o viajante imaginário vai encontrar humanos, alguns já agricultores e outros ainda caçadores e coletores e que têm uma aparência semelhante ao homem atual, se deixarmos de lado as roupas ou corte de cabelo. São pessoas totalmente capazes de procriar com os viajantes da nossa máquina do tempo.

Dawkins sugere que se pegue um voluntário entre essas pessoas do passado e volte mais 10 mil anos. Aos 20 mil anos, serão todos caçadores e coletores, mas ainda com seus corpos semelhantes aos atuais e capazes de cruzar com pessoas modernas e ter filhos férteis.

A viagem continua com paradas a cada 10 mil anos, sempre pegando um novo passageiro e transportando-o para o passado. Depois de muitas paradas, ao ter voltado um milhão de ano, os indivíduos encontrados serão diferentes de nós e não podem produzir filhos com as pessoas que iniciaram a jornada, mas podem fazê-lo com aqueles que embarcaram nas últimas paradas e que são quase tão antigos quanto eles.

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Dawkins propõe então chegarmos à estação seis milhões de anos atrás. Veremos então os nossos 250 milésimos avós. Eles são grandes primatas e embora pareçam, não são chipanzés. São ancestrais que temos em comum com os chipanzés. São diferentes demais de nós e dos chipanzés para se acasalar e procriar, mas serão capazes de gerar filhos com os passageiros da estação 5,99 milhões de atrás e provavelmente também com os da estação 4 milhões de anos atrás.

Continuando nessa viagem proposta por Dawkins, chegaremos a estação 25 milhões de anos atrás, onde estão nossos 1,5 milionésimos avós. Serão parecidos com os macacos, embora não sejam parentes mais próximos dos macacos atuais. Serão capazes de ter filhos com os passageiros, quase idênticos, que subiram na estação 24,99 milhões de anos atrás.

Quando chegarmos à estação 73 milhões de anos atrás, vamos encontrar os nossos 7 milionésimos avós. São ancestrais de todos os lêmures e gálagos modernos, mas também são ancestrais de todos os macacos e grandes primatas modernos, inclusive o homem. Eles não seriam capazes de ter filhos com nenhum animal hoje, mas provavelmente poderiam procriar com passageiros que embarcaram na estação 62,99 milhões de anos atrás.

Na estação 105 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 45 milionésimo avô.  Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, exceto os marsupiais e os monotremados e se alimenta de insetos.

Na estação 310 milhões de anos atrás, vamos encontrar nosso 170 milionésimo avô. Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, de todos os répteis e de todos os dinossauros e das aves que evoluíram desses dinossauros.

Na parada 340 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 175 milionésimo avô, que se parece um pouco com uma salamandra e é o mais antigo ancestral de todos os anfíbios modernos e assim como de todos os demais vertebrados modernos.

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Finalmente, chegamos à estação 417 milhões de anos atrás, onde encontramos um peixe, nosso 185 milionésimo avô. A partir daqui afirma Dawkins, a viagem se torna nebulosa, porque faltam fósseis que permitam definir suas idades através do Urânio 238 e do Carbono 14.

Dawkin conclui afirmando que somos todos parentes e que nossa árvore filogenética inclui primos óbvios como chipanzés e macacos, mas também camundongos, búfalos, iguanas, cangurus, lesmas, baleias e bactérias, o que pode ser comprovado pelo DNA, a informação genética que todos os seres vivos possuem em cada uma de suas células.

Se você não ficou cansado com esta viagem pela realidade do nosso passado, não deixe de ler o livro de Richard Dawkins.

Vale a leitura.

A vida e a arte: quem imita a quem?

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Os primeiros anos da década de 1960, com seus grandes conflitos políticos e culturais, foram fundamentais para o caminho seguido pela história do mundo ocidental.

Em nenhum outro lugar, o mundo esteve tão perto de acabar com a ordem burguesa capitalista dominante e construir uma sociedade socialista e libertária, tarefa na qual os russos tinham falhado, como na França daquela década.

E, se hoje quisermos recuperar o espírito da época, nada melhor do que nos socorremos do cinema francês daquele período, onde pontificaram os grandes diretores incluídos no que se chamou da Nouvelle Vague Francesa.

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A derrota do nazismo, nos campos de batalha da Europa após a segunda grande guerra fez nascer a possibilidade de que, apoiados pela força material e o prestígio moral alcançado pela União Soviética, a grande vencedora da guerra, os partidos comunistas e socialistas europeus pudessem chegar ao poder até mesmo pela via parlamentar.

Logo se viu, porém, que isso era uma ilusão. O estalinismo dominante na União Soviética e nas chamadas Repúblicas Populares, transformou em letra morta a solidariedade internacional com os operários do resto da Europa e mergulhou o mundo, com a guerra fria, no medo de um conflito nuclear.

Em vez de partir para a ofensiva, os partidos comunistas adotaram como uma única bandeira de luta, a defesa da paz, uma estratégia que interessava basicamente a União Soviética, que precisava de tempo para se rearmar equilibrando, a balança militar com os Estados Unidos.

O cinema francês dessa época reflete de alguma maneira, na sua linguagem chamada de Realismo Poético, um pouco desse sentimento de insegurança e de falta de perspectivas, nos filmes dos seus grandes diretores da época, de Jean Renoir e Marcel Carné a André Cayatte

O mundo começava a sofrer uma nova e acelerada mudança a partir dos movimentos de rebeldia dentro das repúblicas populares contra o burocratismo soviético. O mais importante dele foi a chamada Revolução Húngara, de 1956, sufocada pelas tropas do Pacto de Varsóvia.

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Independentemente do fato de que o episódio tenha sido amplamente estimulado e apoiado pelos Estados Unidos, é fora de dúvida que começava a se esgotar a imagem de heroísmo e dedicação às causas políticas, criada pela vitória contra o nazismo na Europa, e um movimento fortemente individualista estava surgindo.

A nouvelle vague francesa reproduziu no campo das artes toda essa nova perspectiva. Oriundos da famosa revista sobre cinema, Cahiers des Cinéma, fundada em 1951 por André Bazin, seus mais importantes críticos se transformaram em diretores.

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A partir de 1959, com o filme Nas Garras do Vício (Le Beau Serge), de Claude Chabrol, surge o chamado “Cinema de Autor”, preocupado em levar para a tela as angústias e as alegrias de pessoas comuns, pondo de lado os grandes temas que mobilizavam os diretores do passado.

Assim surgem filmes memoráveis de diretores polarizados, entre os que não faziam nenhuma concessão ao social, como Jean Luc Goddard, com O Acossado (A Bout de Souffle) e aqueles que incluíam seus dramas dentro de um certo contexto político, como Alain Resnais, com o seu memorável Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima, mon amour). No centro ficaria, talvez o mais importante de todos, François Truffaut, cujos filmes eram capazes de agradar críticos e públicos, como Os Incompreendidos (Le Quatre Cents Coups).

O Rio Sena, dividia esses personagens, formando o Grupo de Margem Direita  (Goddard, Truffaut e Chabrol) e o Grupo da Margem Esquerda ( Renais e Agnes Varda).

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Ao adotar essas novas temáticas, Trufautt aborda pela primeira vez a possibilidade de uma relação aberta e sem culpas, entre uma mulher (Jeane Moreau) e seus dois amigos, vividos pelo alemão Oskar Werner e o francês Henry Serres.  O filme Jules e Jim (em português recebeu o acréscimo óbvio de Uma Mulher para Dois) pode ser visto como uma visão inaugural no cinema, de uma concepção ainda hoje avançada do feminismo sobre o sexo.

Essa fantástica conjugação de um passado de lutas políticas, vindo desde a Revolução Francesa de 1789, com uma nova visão do mundo que o cinema reproduzia e ao mesmo tempo estimulava, levou à França em 1968 ao mais importante movimento popular dos últimos 100 anos, o chamado Maio de 1968.

Poderíamos englobar esse grande movimento como a última grande oportunidade perdida de se instaurar no mundo uma sociedade socialista, muito mais ampla e radical do que a Primavera de Praga, que Alexander Dubcek iniciara em janeiro daquele ano.

Tudo começou com os estudantes universitários, nos primeiros dias de maio, se rebelando contra certas medidas administrativas na Sorbonne e logo se transformou em seguidos conflitos com a polícia no Quartier Latin.

A mudança radical no processo se deu, quando os operários de Paris anunciaram uma greve geral, passando por cima de seus sindicatos e da grande central operária, controlada pelo Partido Comunista.

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Nos cartazes de rua se confundiam os lemas anarquistas ( É proibido, proibir e Seja realista, exija o impossível), com as propostas de luta dos trabalhadores ( (Governo Popular, O Patrão precisa de ti, tu não precisas dele) numa combinação explosiva que a França ainda não tinha visto.

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Dez milhões de operários de braços cruzado levaram o Governo de Charles De Gaulle ao desespero. Ao embaixador norte-americano, De Gaulle disse que o jogo estava acabado e logo os comunistas iriam estar no poder.Com sindicatos de policiais se solidarizando com os grevistas, com notícias sobre defecções nas forças armadas, De Gaulle foge de Paris e vai a Alemanha, onde estava estacionado o exército comandado pelo General Massu, em busca de apoio

Na volta a Paris, dissolve a Assembleia Nacional e convoca novas eleições, ao mesmo tempo que negocia com o Partido Comunista uma trégua. Depois de 15 dias de greve, os trabalhadores começam a vacilar e são tentados a aceitar as propostas dos patrões negociadas com CGT, como aumentos salariais, abonos, e garantia de empregos.

Os trabalhadores voltam ao trabalho e um mês depois começam as demissões das lideranças grevistas

Em junho, o movimento está quase acabado.

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Em 1917, Kamenev e Zinoviev e as lideranças dos mencheviques tentaram convencer Lenin de que, depois de derrubar o Czar e instalar um governo parlamentar com Kerenski, deveria se esperar um tempo para dar o passo seguinte rumo à revolução socialista.

Lenin não aceitou.

Na guerra civil espanhola, de 1936 a 1939, foi a União Soviética quem garantiu a maior parte das armas para os republicanos, mas não o suficiente para derrota, os franquistas, apoiados abertamente pela Alemanha Nazista.

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Por que? Porque Stalin temia a antecipação do conflito com a Alemanha, se Hitler fosse derrotado na Espanha por causa do apoio soviético.

Em maio de 1968, o Partido Comunista Francês se preocupava em apoiar a política internacional da URSS, toda ela voltada para não desafiar o poder norte-americano no Ocidente. Depois que Kruchiov foi obrigado a retroceder na questão da base militar soviética em Cuba, o novo dirigente soviético, Leonid Brejnev, jamais apoiaria um governo comunista na França. que pudesse levar a um confronto com os Estados Unidos.

A oportunidade de uma revolução socialista foi perdida em 1968. A partir daí, nas próximas eleições na França, o Partido Comunista foi perdendo sua grande força, sendo substituído pelo Partido Socialista na liderança das esquerdas.

Os anos seguintes, mostrariam uma recuperação do mundo capitalista e com ela, uma melhoria nas condições de vida dos trabalhadores, fazendo com que parecesse novamente uma longínqua utopia, o sonho socialista.

Hoje, quando novamente, o capitalismo mergulha em mais uma crise estrutural e à margem dos partidos se organizavam novamente grupos libertários, o sonho de um socialismo nos moldes daquele pregado nas barricadas de 1968 volta a aparecer.

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Um dos principais teóricos dessa nova abertura é o filósofo marxista húngaro Istvan Meszaros, que prega a necessidade das forças socialistas saírem da defensiva e partirem para a ofensiva, liberadas que estão hoje dos aparelhos

Um Neruda farsesco e com jeito de faroeste

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“Neruda”, sobre a vida do poeta chileno Pablo Neruda, prêmio Nobel de Literatura, de Pablo Larrain, obedece a estrutura clássica dos filmes de faroeste: o agente da lei consagra sua vida à perseguição de um marginal e se identifica tanto com essa missão e com o perseguido, que nada mais importa na sua vida a não ser completar com êxito sua caçada.

Aqui, porém, o diretor inverte os atributos morais do perseguido e do perseguidor. O primeiro – Neruda – é um epicurista, cínico, mordaz, mas defensor dos direitos dos trabalhadores chilenos, aos quais representa como senador eleito pelo Partido Comunista. O segundo, o detetive Oscar Peluchoheau, é filho bastardo do criador da Polícia Chile, medíocre e determinado, que transforma a missão de prender Neruda na meta da sua vida.

Os fatos são reais: em 1948, pressionado pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria, o governo do presidente Gabriel Gonzales Videla caça os mandatos dos parlamentares comunistas e determina a prisão de Neruda. O filme conta o período em que Neruda viveu clandestino em Santiago e depois sua fuga para a Argentina.

A partir daí, os acontecimentos ficam por conta da imaginação do diretor. É ele, Pablo Larrain, quem explica sua opção para contar a história:

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“Neruda é conhecido, mas apenas como um ativista, político e escritor. Nós não conhecemos sua vida privada, não sabemos o que acontecia em sua casa, não conhecemos sua esposa ou seus amigos. Não sabemos exatamente que tipo de coisas ele costumava dizer ou imaginar em relação às pessoas mais próximas. Então, nós tentamos criar uma atmosfera, algo que, para mim, é uma espécie de ilusão. Acho que é a melhor forma de definir isso. E o filme é sobre isso: explorar Pablo Neruda. Então, nós tivemos que colocar palavras em sua boca e isso foi um grande desafio porque ele é um grande personagem. Como fazer um personagem desse tamanho falar, como descobrir o que ele vai dizer? Este filme é uma imaginação de como ele teria vivido esses momentos de sua vida. Os personagens são reais, os pensamentos são reais, mas a base deles é pura invenção. Eu acho que o cinema é isso”.

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Esses episódios foram contados também em 2015, de forma mais realista, em outro filme “Neruda – Caça ao Poeta “, de Manuel Basoaldo, pouco valorizado pela crítica, mas que valeria a pena ser visto para uma comparação com o o filme de Larrain.

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Em 1994, com a direção de Michael Radfor, Neruda foi outra vez personagem do cinema, no filme “O Carteiro e o Poeta”, que conta a história de um carteiro (Massimo Trosi) que leva a correspondência para o poeta (Philippe Noiret), exilado numa ilha italiana, começando então uma longa amizade.

Neruda gostava de mistérios na sua vida pessoal, começando pelo fato de poucas pessoas o conhecerem pelo seu nome verdadeiro – Ricardo Eliécer Neftali Reyes Basoalto. Tinha três casas no Chile, onde morava alternadamente: La Chascona, em Santiago, uma em Valparaiso e outra na Isla Negra. Originalmente, seguiu a carreira diplomática, começando por Rangum, na Birmânia em 1927 e terminando em 1936, quando foi exonerado do cargo de embaixador na Espanha, por apoiar a República Espanhola. Com o fim da guerra, sua poesia assumiu forte conotação social com a sua eleição como senador em 1945 pelo Partido Comunista. É dessa época, poemas famosos como “Canto General” e “Dicho en Pacaembu”, em homenagem a Prestes, durante um comício em São Paulo, que terminava com estes versos:

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“Hoy pido un gran silencio de volcanes y ríos. Un gran silencio pido de tierras y varones.
Pido silencio a América de la nieve a la pampa.
Silencio: La Palabra al Capitán del Pueblo.
Silencio: Que el Brasil hablará por su boca”.

 

Ganhou o Nobel em 1971 e morreu de câncer na próstata no dia 23 de setembro de 1973, apenas 12 dias depois do sangrento golpe de estado de Pinochet, no Chile.

No filme, o discurso de um político comunista em plena época do estalinismo, contrasta com os hábitos mundanos e até excêntricos do poeta Neruda nas questões que dizem respeito ao sexo, questões essas, sobre as quais os comunistas eram extremamente conservadores.

Nesse aspecto há uma cena extremamente reveladora, quando Neruda, em meio a um banquete com outros intelectuais é interpelado por uma ativista política que lhe pergunta qual o verdadeiro comunista: ela ou ele.

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Uma grande sacada do filme é ser contado pelo detetive que persegue Neruda, que lê seus livros, que procura saber tudo sobre ele, o que permite ao espectador do filme visualizar as contradições na vida de um burguês (Neruda), que aderiu à luta política dos trabalhadores, sem abandonar o seu comportamento de burguês libertino e excêntrico.

Larrain já tinha feito dois filmes excelentes sobre a história moderna do Chile – “No”, sobre o plebiscito que começou a por um fim ao governo Pinochet, quase um documentário e “O Clube”, sobre a presença de grupos nazistas no País, mas em “Neruda” dá uma guinada na sua linha cinematográfica, ao se propor contar a vida do grande poeta num clima quase de farsa, evitando o tom didático presente nos dois primeiros filmes.

Funcionando como uma espécie de ligação entre as diversas etapas em que se desenrola o filme, o conhecido poema que diz “Puedo escribir, los versos más tristes esta noche. Escribir, por ejemplo: La noche está estrelada e tiritam, azules, los asros, a los lejos” …declamado no tom de voz arrastada, que Neruda consagrou é um dos grandes achados do filme, construindo um tom de farsa, que contrasta com a dramaticidade que as situações deveriam ter.

Outro aspecto extremamente positivo do filme é a interpretação dos atores: Luiz Gnecco, reconstrói a vida, num tom quase caricato, do grande poeta, além de ser extremamente parecido fisicamente com Neruda, enquanto Gael Garcia Bernao, está perfeito como o obcecado detetive.

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Por tudo isso, não deixe de ver Neruda, o filme.

A semana passada…a limpo

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A semana teve o Temer fazendo força para tentar agradar a classe média com o anúncio de que vai reduzir os juros no crédito rotativo dos cartões e liberar uma parte dos fundos de garantia retidos pelo governo. Na prática, nada que altere as dificuldades econômicas da maioria da população brasileira, cada dia mais pobre e desempregada.

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O Estadão informou O PT pretende lançar a pré-candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República ainda no primeiro semestre do ano que vem, entre fevereiro e abril. A estratégia tem dois objetivos. O primeiro é aproveitar politicamente a baixa popularidade do governo Michel Temer. O segundo é reforçar a defesa jurídica de Lula, réu em cinco processos penais, quatro deles provenientes da Operação Lava Jato e seus desdobramentos.

 

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No Estado, o governo Sartori transformou a Praça da Matriz num campo de guerra, com a Brigada mobilizada para manter a população longe da Assembleia Legislativa, onde um grupo de deputados, comprometidos com a política de entrega dos bens do Estado para meia dúzia de empresários, cumpria seu triste papel de cúmplice de um dos piores governos que o Rio Grande já teve.

As declarações mais infelizes da semana ficaram por conta do secretário da Segurança, Cesar Schirmer, que as pessoas ainda lembram como o prefeito de Santa Maria no episódio da boate Kiss, afirmando que a Brigada estava defendendo a democracia do parlamento (certamente usando como argumentos o cassetete e o gás de pimenta) e do deputado Marlon Santos, do PDT, dizendo que tinha mesmo “que baixar a borracha” nos manifestantes.

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Mesmo com toda a mobilização e o apoio declarado da RBS, Sartori e sua equipe ficaram pelo meio do caminho, aprovando a extinção de fundações, mas perdendo a luta para o Judiciário no projeto considerado o mais importante, aquele que mudava as regras para distribuição de verbas para os três poderes.

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Embora alguns jornalistas (principalmente aqui no Sul 21), juristas e economistas, tenham lembrado que um aumento na fiscalização contra os sonegadores e um exame mais detalhado de alguns incentivos e exonerações fiscais, poderiam fazer retornar à Fazenda pública parte dos 7 bilhões de reais que passaram para as mãos de empresários, contra o pouco mais de 100 milhões de reais que seriam poupados durante um ano se todas as medidas propostas aos deputados fossem aprovados, isso nunca interessou ao governo, parlamentares e a grande mídia discutir.

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No setor esportivo, chamou a atenção o desinteresse das direções do Inter, a presente e a próxima, de levar adiante a batalha jurídica contra a CBF, depois que ficou documentado que houve fraude na inscrição de um jogador do Vitória no Campeonato Brasileiro. O silêncio da Federação Gaúcha de Futebol e a falta de interesse da mídia em avançar nas investigações sobre o assunto, são também injustificáveis.

Mas, o que dominou a semana foi o noticiário internacional.

Atentado deixou 12 mortos e pelo menos 50 feridos

Um terrorista lançou um caminhão sobre uma feira natalina na região mais nobre da cidade, na famosa Kuerfuerstendan, junto a Igreja de Wilheim, mantida em ruínas desde a segunda guerra e matou doze pessoas. Dois dias depois, ele foi morto pela polícia italiana em Milão.

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Os sequestros de aviões voltaram a acontecer depois de alguns anos sem essa prática. Um avião foi desviado para Malta por um grupo de sequestradores líbios, mas tudo terminou bem. Os reféns saíram ilesos e os sequestradores se entregaram para a polícia.

 

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Pela primeira vez na história, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma moção condenando Israel por construir colônias nas terras ocupadas dos palestinos. Até hoje, todas as moções apresentadas periodicamente foram vetadas pelos Estados Unidos. Essa vez os americanos se abstiveram e a condenação foi por 14 votos a favor e esta única abstenção.

Objetivamente, a condenação pouco significa em termos práticos, mas moralmente é mais uma condenação ao expansionismo de Israel sobre terras árabes.

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Na guerra da Síria, o governo de   Bashar al Assad, com o apoio dos russos, conseguiu ocupar toda a cidade histórica de Aleppo, expulsando os combatentes do Estado Islâmico. Para os analistas internacionais, o fato significou uma derrota para os norte-americanos, há muito empenhado em afastar Assad do poder e uma mostra do crescimento da influência da Rússia e do Irã na região.

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O fato da semana foi, porém, a execução sumária do embaixador russo na Turquia, Andrei Korlov, durante a inauguração de uma exposição de arte em Ancara, por um ex-agente da polícia turca. O assassinato foi mostrado ao vivo, na hora pela televisão e reproduzido depois na mídia digital para milhões de pessoas no mundo inteiro.

Para a sociedade do espetáculo, uma grande vitória.

Feliz Natal e até a próxima semana, a última do ano.

Estou pondo fé nessa igreja

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Em respeito aos leitores do Sul 21, quase todas pessoas bem informadas politicamente, tenho usado meus espaços no site, para propor a discussão de temas atuais sobre a realidade brasileira, preocupado modestamente em provocar algumas dúvidas e reforçar outras certezas entre meus poucos leitores.

Hoje, aproveitando o clima descontraído de final de ano, vou falar de algo  diferente, objetivamente pouco sério, fruto de uma conversa com meu amigo, Roberto Pintaúde, que se diz, modestamente, o mais criativo e original homem de marketing do Rio Grande do Sul…por enquanto, segundo ele.

Preocupado com as minhas finanças, depois dos pacotes de maldades explicitas do Temer e do Sartori, pedi a ele que analisasse onde estavam as melhores oportunidades de mercado para que alguém que sonhasse em enriquecer rapidamente como eu, quando todos os investimentos na mega sena se revelaram um fracasso.

Ele foi rápido na resposta:

– Fora da política, a melhor alternativa continua sendo fundar uma igreja.

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Eu tinha lido que essa atividade tendia ao esgotamento, com a enorme quantidade de bispos e missionários em atividade e com a necessidade de grandes investimentos em templos suntuosos e uso da mais alta tecnologia de comunicação.

– É preciso, dentro desse grande nicho de mercado, encontrar um espaço ainda pouco explorado, disse o mestre, naquela linguagem precisa dos marqueteiros.

E, mostrando toda a minha ignorância, falei sobre uma igreja só para gays, embora soubesse pelo Aldo Jung, que essas igrejas já existem.

– Pode ser, disse o Pintaúde, desde que seja extremamente inovadora. Nas atuais, tudo é muito conservador. Os fieis – possivelmente gays – se vestem formalmente, todos engravatados, sem qualquer ultraje ao rigor das convenções.

Disse que já tinha desenvolvido um projeto para uma igreja gay, com, a cada semana, um personagem da vida política e social da comunidade, saindo do armário e assumindo seu lado gay. O grande palco onde fica o missionário, teria um armário num canto. O personagem da semana entraria no armário vestindo sua roupa social, ao ser chamado pelo seu nome civil. Por exemplo José da Silva Santos e Silva. Depois, de alguns minutos, e de uma peroração do missionário sobre a importância da transformação, seria chamado pelo novo nome de Dorothy Lamour, quando sairia saltitando do armário vestido de tanga e sarongue.

–  E por que não deu certo?

– Faltou um patrocinador.

Então, discorreu longamente sobre uma igreja ligada ao futebol.

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– Você já reparou como os jogadores de futebol falam sempre de Deus nas suas entrevistas no final do jogo?

“Graças a Deus ganhamos o jogo. A bola ia fora e então bateu no bunda do Geromel e sobrou fácil para mim. Bati de canela, mas foi Deus quem desviou a bola e a fez entrar mansinha no gol do Grohe. Deus é fiel”

Imagina então – falou o nosso marqueteiro – uma igreja baseada no futebol. A cada semana, o missionário ou pastor – seja lá que nome tiver, aparece com a camisa de um time diferente. É claro, todas menos a do grêmio, que é preciso alguma coerência.

Podíamos contratar um desses locutores enlouquecidos para colocar toda a sua emoção na transmissão do ritual. Um comentarista analisando os principais lances do culto, com direito a reprise dos melhores momentos. Repórteres de campo entrevistando os fiéis e um sujeito com o vozeirão do Cid Moreira lendo trechos da Bíblia, completariam o mise em scene.

Ao lado de cada estádio, um templo para comemorar as vitórias ou chorar as derrotas.

Acho que vou aproveitar esse clima de fim de ano, seguir a ideia do meu marqueteiro e arrumar um patrocinador para esta nova igreja, cujo nome imagino ser algo como a Santa Bola ou Igreja Futebol Universal.

Estou pondo muita fé nessa igreja do futebol

Amém.

É preciso ser feliz, custe o que custar

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É Natal, então tudo vale para que a gente possa se sentir feliz, ou no mínimo, fingir que se está feliz para não estragar a felicidade dos outros.

É hora de esquecer o Temer, o Sartori, o Inter na série B e todas as desgraças que nos atingiram durante o ano.

Não é hora de lembrar que os termômetros marcam quase 40 graus e a árvore de Natal (o pinheirinho, quase desconhecido em boa parte do Brasil) está enfeitada com flocos de algodão imitando a neve.

Logo Papai Noel, que pode ser um velho tio ou mesmo a boa mãe de todos os dias, estará chegando, suando às bicas em seus trajes acolchoados feitos para enfrentar os invernos da Lapônia, e com aquela voz que a propaganda padronizou (hou…hou..hou), distribuindo os presentes que vão ser pagos depois em 10 suaves prestações no cartão de crédito.

Poderíamos saudá-lo abrindo muitas garrafas de Coca Cola. Estaríamos com toda a justiça prestando uma homenagem aos inventores da figura do Papai Noel.

Em 1931 a Coca Cola lançou uma grande campanha publicitária usando a figura do Papai Noel, vestido com a sua tradicional roupa vermelha, criada pelo cartunista Thomas Nast, há quase 100 anos antes para a revista Harper`s Weeklys.

Desde então, periodicamente a Coca Cola retoma o símbolo do Papai Noel para vender seu refrigerante.

Essa comercialização do Natal, em que muitos enxergam uma transformação perversa de uma festa com origem religiosa, devia ser vista como a epifania do capitalismo vencedor: todos os sentimentos podem ser traduzidos por algum objeto. Quanto mais valioso esse objeto mais importante é o sentimento que queremos transmitir.

Além desse significado pessoal, o Natal é importante porque aumenta o consumo de produtos totalmente dispensáveis, mas que sem o seu estímulo, permaneceriam nas prateleiras, impedindo com isso que os empresários tivessem aquilo que é tão fundamental para a estabilidade social do país: os seus lucros.

Vamos por tudo isso, festejar o Natal, de preferência ao som do seu hino oficial, o Jingle bels, caprichando no nosso inglês do colégio e cuidando para que nenhum gaiato resolva cantar aquela velha paródia (jingle bels, jingle bels, não tem mais papel, não faz mal, não faz mal, limpa com o jornal).

Tem uma música brasileira de Natal, que se ouve muito em supermercados nessa época, que poderia ser usada, em homenagem a nossa brasilidade, se não quisermos pagar royalties aos americanos

Como é que Papai Noel

Não se esquece de ninguém

Seja rico ou seja pobre

O velhinho sempre vem

Seja rico ou seja pobre

O velhinho sempre vem

Na situação de pobreza em que vive hoje boa parte da nossa população, parece não ser a escolha mais adequada, ainda mais se formos daquela classe média sempre ameaçada de cair na pobreza.

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Uma outra opção seria buscar uma canção composta pelo grande Assis Valente, mas esta seria quase uma provocação ao símbolo natalino de paz e amor.

Eu pensei que todo mundo

Fosse filho de Papai Noel

Bem assim felicidade

Eu pensei que fosse uma

Brincadeira de papel

 

Já faz tempo que eu pedi

Mas o meu Papai Noel não vem

Com certeza já morreu

Ou então felicidade

É brinquedo que não tem

Assis Valente (1911- 1958) realmente não é uma figura a ser lembrada com o bom humor que deve cercar as festas de fim-de-ano. Grande compositor da música popular brasileira (Brasil Pandeiro, Cai, cai, balão, Boneca de Pano e Good Bye,Boy) tentou se matar 3 vezes. Na primeira cortou os pulsos e foi socorrido a tempo; na segunda se jogou do Corcovado, mas teve a queda amortecida pelas árvores e na terceira, tomou formicida e morreu.  As razões foram sempre as mesmas: dívidas que ele não conseguia pagar.

É melhor então, ficar com o Jingle Bels e feliz Natal para todo o mundo.

 

 

 

Os competentes

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Em 15 de janeiro de 2009, depois de levantar voo do aeroporto La Guardia, em Nova York, o Airbus da US Air Ways, teve suas turbinas atingidas por um grupo de pássaros e precisou voltar em emergência para o aeroporto.

Ao se dar conta de que, com os dois motores apagados, não conseguiria retornar ao aeroporto, o piloto Chesley Sullenberger, Sully, conseguiu descer no Rio Hudson, salvando todos os 150 passageiros e os 5 tripulantes.

Sully conseguiu esse feito extraordinário da aviação, porque era, acima de tudo, um profissional extremamente competente naquilo que estava fazendo.

Sua história está sendo contada agora no cinema por Clint Eastwood, com o excelente Tom Hanks fazendo o papel de Sully.

Trata-se de um bom filme, porque Clint é também um excelente diretor.

Numa sociedade dividida por classes, onde as oportunidades não são iguais para todos, chegar à excelência, as vezes partindo de posições sociais inferiores, é sempre um feito digno de aplausos.

Mais comuns no esporte, onde parece ser um dom pessoal e não algo conquistado com muito esforço, mesmo assim é preciso ressaltar o talento natural de Pelé, Maradona, Michael Jordan, Neymar, Messi, Serena Willians, Usain Bolt, Le Brown Jones e Emil Zatopeck,  todos excelentes naquilo que fazem ou fizeram.

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Como corredor de longas distâncias, o tcheco Zatopeck, chamado “A Locomotiva Humana” é considerado um inovador. Antes da preparação científica comum hoje entre os atletas profissionais, ele intuitivamente já se preparava para as corridas usando um método que depois foi chamado de “intervail training”.

Com este método, ele ganhou a medalha de ouro nos 10 mil metros e de prata, nos 5 mil, nas Olimpíadas de Londres em 1948. Quatro anos depois, na Finlândia, ele se tornou o único atleta até hoje receber a medalha de ouro nas provas de 5 mil, 10 mil e a Maratona.

Em 1953, ele esteve no Brasil, correndo e ganhando com facilidade a prova de São Silvestre,em São Paulo.

Fazer bens as coisas e mais do que isso, buscar a excelência nos seus trabalhos, deveria ser a meta de todos nós. Conheço muitos exemplos dessa excelência, alguns bem perto de mim. Meus filhos são excelentes naquilo que fazem, o Alexandre como juiz de direito, a Tatiana, como defensora pública e o Conrado, como o vestibulando que tirou o primeiro lugar para Ciências da Computação da PUCRS.

Agora, imaginem uma sociedade socialista onde as oportunidades sejam iguais para todos, quantos novos gênios em suas áreas de atuação poderiam surgir.

Ao contrário do capitalismo, onde a chamada meritocracia tem muito a ver com as oportunidades de estudo que a maioria não tem, a construção de uma sociedade socialista se fundamenta num conceito quase utópico de uma democracia, onde todos têm os mesmos direitos de acesso à educação e a saúde e as habilidades e o esforço pessoal de cada um é que farão a diferença no final.

Fazendo uma comparação com uma corrida de 100 metros, no capitalismo alguns têm equipamentos de corridas melhores e ainda saem 20 metros na frente. No socialismo, todos terão o mesmo equipamento e começarão a corrida juntos.

Só nesse último caso é que se poderá dizer que os melhores são os que vencerem.

Saindo da teoria para a prática: depois de tentar inutilmente durante um bom tempo desenrolar a persiana que travara, acabei chamando um biscateiro que resolve pequenos problemas (para mim era um problema imenso) no prédio onde moro.

Em segundos, ele resolveu o problema, pelo qual não quis nem aceitar pagamento. Antes que me chamem de sovina, informo que paguei pelo trabalho.

Disse que vive de biscates como ganha pão da família e se prontificou a resolver qualquer outro problema hidráulico ou elétrico que surgisse. Nunca estudou além do primário, porque cedo teve que trabalhar para ajudar a mãe.

Uma história certamente igual a milhares de outras de grandes talentos (o meu biscateiro poderia ser um exímio engenheiro), que se perdem porque numa sociedade capitalista, a ideia é preservar o domínio de uma classe privilegiada sobre as demais através do acesso seletivo à educação.

Quando alguém das classes mais baixas consegue romper esse círculo vicioso proposto pela classe dominante, o fato é usado como uma prova de que todas as competências são reconhecidas, quando se trata da figura clássica da exceção à regra.

 

 

É hora de resistir ou atacar?

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De 17 de julho de 1942, a 2 de fevereiro de 1943, o Exército Vermelho e boa parte da população de Stalingrado, resistiram ao poderoso exército alemão, combatendo de casa em casa, até iniciar a virada histórica que só terminou com a queda de Berlim, dois anos e três meses depois, pondo fim à segunda guerra mundial na Europa e aniquilando o nazismo, o sistema social, político e econômico mais desumano a que o capitalismo criou até hoje.

A batalha de Stalingrado é considerada a maior e mais sangrenta batalha de toda a história, causando a morte e ferimentos em cerca de dois milhões de soldados e civis.

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Seus heróis foram cantados pelo grande poeta Carlos Drummond de Andrade na sua coleção de poemas Rosa do Povo, editada em 1945:

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“O mundo não acabou, pois que entre as ruínas

Outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora

E o hálito selvagem da liberdade dilata seus peitos

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais

Os telegramas de Moscou repetem Homero

Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo

Que nós, na escuridão, ignorávamos.

Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída

Na paz de tuas ruas mortas, mas não conformadas

No teu arquejo de vida, mais forte que o estouro das bombas,

Na tua fria vontade de resistir.

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Outro grande poeta latino-americano, Pablo Neruda, também, em sua Carta a Stalingrado, cantou a resistência impossível;

Stalingrado, aún no hay Segundo Frente,

Pero no caerás aunque el hierro y el fuego te muerdan dia y noche

Aunque mueras, no mueres!

Porque los hombres ya no tienen muerte

Y tienen que seguir luchando desde el sitio em que caen

Hasta que lea victoira no este sino em tuas manos

Aunque estén fatigadas y horadas y muertas,

Porque outra manos rojas, cuando la vuestras caigan,

Sembarán por ele mundo los huesos de tus héroes

Para que tu semilla llene toda la tierra”.

Durante toda sua história, os homens venceram muitas batalhas na luta por um mundo melhor e mais igual para todos. Nem todas as batalhas foram sangrentas, como em Stalingrado. Muitas foram apenas políticas, mas nem por isso menos importantes. Nós, brasileiros, estamos empenhados em mais uma: restaurar o império da lei e da justiça, enxovalhado por um golpe de estado incruento, mas, que ainda assim, feriu profundamente nossa condição de cidadãos.

Essa batalha deve começar pela arregimentação de todas as forças políticas e sociais que, de alguma maneira ou outra, vem resistindo ao governo títere de Michel Temer.

Não basta mais gritar # Fora Temer. É preciso agir politicamente.

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No domingo passado, Janio de Freitas, talvez o mais bem informado dos jornalistas brasileiros, deu duas notícias em sua coluna que podem indicar que a resistência começou a ser organizar.

Diz ele que, na mesma ocasião que Temer recebeu em Brasília, num jantar, João Roberto Marinho, o dono da Rede Globo, para se queixar do noticiário da televisão; em São Paulo, opositores faziam reunião para examinar hipóteses de mobilização, “inclusive com presenças ilustres”.

Janio de Freitas não revelou quais seriam essas presenças ilustres, mas alertou que partes importantes dos movimentos sociais planejam aproveitar o período de recesso parlamentar para organizar, com redes de internet e com o setor sindical, reações aos retrocessos originários do governo Temer.

Uma dessas reuniões está prevista para janeiro em Porto Alegre, tentando reviver um pouco o entusiasmo que cercou o Fórum Social Mundial de 2001. Entre os dias 17 e 21, estará se realizando na capital o Fórum Social das Resistências pela Democracia e pelos Direitos dos Povos e do Planeta.

István Meszaros diz no seu livro Atualidade Histórica da Ofensiva Socialista que o capitalismo vive uma crise estrutural e que, mais do que ficar na defensiva, é hora de avançar e propor uma a conquista da sociedade socialista.

Resistir ou avançar?

 

A burguesia revolucionária da França propôs em 1789 a guerra para chegar ao poder, como diz com todas as letras, a Marselhesa, transformada em seu hino nacional:

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Allons enfants de la Patrie
Le jour de gloire est arrivé
Contre nous de la tyrannie
L’étendard sanglant est levé
L’étendard sanglant est levé:
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats!
Ils viennent jusque dans vos bras
Égorger vos fils et vos compagnes
Aux armes citoyens
Formez vos bataillons
Marchons! Marchons!
Qu’un sang impur
Abreuve nos sillons”                                        

“Avante, filhos da Pátria,

O dia da Glória chegou.

Contra nós, da tirania

O estandarte ensanguentado se ergueu.

O estandarte ensanguentado se ergueu.

Ouvis nos campos

Rugirem esses ferozes soldados?

Vêm eles até aos nossos braços

Degolar nossos filhos, nossas mulheres.

Às armas cidadãos!

Formai vossos batalhões!

Marchemos, marchemos!

Que um sangue impuro

Regue o nosso arado”

 

Compare o hino guerreiro dos burgueses franceses com o hino bucólico do príncipe português transformado em imperador brasileiro em 1822.

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Ouviram do Ipiranga, as margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos
Brilhou no céu da pátria nesse instante

Conseguimos conquistar com braço forte
Em teu seio, ó liberdade
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó pátria amada
Idolatrada
Salve! Salve!

Por isso mesmo, a independência brasileira não foi uma conquista do povo, mas uma concessão do príncipe português, transformado em nosso primeiro imperador e o Brasil teve ainda que, por mediação da Inglaterra, pagar uma indenização a Portugal pela independência.

Talvez tenha chegado a hora de transformar essa independência formal, numa independência de verdade, conquistada pela união de todo o povo.

E, já que o futebol é tão importante para nós, quem sabe possamos utilizar um pouco da sua linguagem: time que joga na retranca, nunca ganha jogo.

É preciso marcar no campo do adversário e nunca deixar de atacar se quisermos vencer.

Quem sabe, as últimas estrofes da letra de Joaquim Osório Duque Estrada para o nosso hino, possam servir de estimulo para uma reação indignada do nosso povo.

 “Mas, se ergues da justiça a clava forte
verás que um filho teu não foge à luta
nem teme, quem te adora, a própria morte”.