Um poema e vários autores

 

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Quando foi libertado do campo de concentração de Dachau, o pastor protestante Martin Niemöller publicou o seu famoso poema de crítica à alienação política dos alemães, principalmente a sua, que permitiu a consolidação do regime nazista.

Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista.

Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata.

Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista.

Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu.

Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”

Niemöller foi combatente na marinha alemã, durante a primeira guerra, chegando ao posto de comandante de submarinos, recebendo inclusive a Cruz de Ferro pelo seu heroísmo em combate.

Desmobilizado após a guerra, uniu-se ao grupo fascista dos Freikorps, durante a República de Weimar e apoiou decididamente à luta dos nacionais-socialistas de Hitler para chegar ao poder. Depois de estudar teologia, foi ordenado pastor para uma igreja protestante em Berlim, em 1931.

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Simpatizante confesso de Hitler e ainda fortemente antissemita, Niemöller começou a se confrontar com os nazistas, quando eles tentaram criar a Igreja Protestante do Reich, reunindo os chamados Cristãos Germânicos e eliminando as menções aos judeus feitas na Bíblia.

As diferenças teológicas entre Niemöller e os nazistas se transformaram numa ruptura quando ele passou liderar a chamada Igreja Confessional, que se proclamava sujeita apenas a Jesus Cristo e o Evangelho e não ao Partido Nazista.

Em 1937 foi preso, acusado de ameaçar a paz pública, mas só seria julgado 7 meses depois, quando foi condenado por um tribunal a uma pena equivalente à prisão preventiva que cumprira e por isso mesmo foi libertado

No mesmo dia, por ordem pessoal de Hitler foi preso novamente e conduzido para o campo de concentração de Sachenhausen e mais tarde de Dachau, de onde só sairia no final da guerra.

Foi em Dachau, onde teve contato direto com outros prisioneiros judeus, que abandonou em definitivo o seu antissemitismo, sentimento expresso no seu famoso poema.

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O poema serviria de inspiração para Bertold Brecht (1848/1956), o grande teatrólogo alemão, exilado desde 1933 em vários países europeus e finalmente nos Estados Unidos, fazer uma releitura do poema de Niemöller, dando-lhe uma conotação mais política.

 

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro.
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei.
Agora estão me levando.
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo

 Em 1964, quando a ditadura militar se instaurou no Brasil e as perseguições políticas começaram, o poeta cearense Eduardo Alves da Costa, então um estudante adversário do golpe, publicou um poema, provavelmente inspirado em suas leituras de Brecht.

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“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada”.

Ao denominar seu poema de “No Caminho com Maiakovski”, Eduardo deu início a uma grande confusão.

Até hoje muitas pessoas pensam que o poeta russo Vladimir Maiokovski (1893/1930) seria autor do poema que iria inspirar Niemöller e depois Brecht, quando na verdade foram os dois alemães (o pastor e o dramaturgo) que inspiraram o poeta cearense.

O russo, grande poeta, nada teve a ver com o famoso poema.

Maiakovski, apesar de ter apoiado decididamente Revolução Soviética, não buscava, normalmente, inspiração em questões políticas.

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Elas eram outras:

“O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites.
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano”.

3 pensamentos em “Um poema e vários autores”

  1. O poema de Brecht é maravilhoso.
    O original – que eu não conhecia – é mais ainda.
    A versão nacional, distante deles na forma e no conteúdo, já não o é. Porque não tem poesia.
    Por ora, estão prendendo e julgando os corruptos de vários graus e seus associados. Nenhum deles, que eu saiba, está no rol por ser negro, operário, miserável, judeu ou protestante.
    Há, sim, alguns sindicalistas (melhor, ex-). Mas não por esta condição. Não tema.

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