Estou morto

indenizacao

Finalmente estou morto e posso realizar aquela fantasia que sempre tive em vida, a de saber o que as pessoas têm a dizer a meu respeito. E mais do que isso, o que sentiram a se deparar com meu corpo inerte num caixão no meio da sala.

Como a experiência nos diz que os mortos não costumam voltar para contar o que sentiram em relação aos seus últimos visitantes, essa minha morte teve procedimentos diferentes.

Combinei tudo com meu amigo Roberto Pintaúde, que ficou encarregado de realizar os procedimentos clássicos para este tipo de evento.

Meu papel é ficar quieto nesse espaço um tanto quanto desconfortável, ouvir o que dizem os convidados e discretamente, vez que outra, abrir um olho por trás desse pano transparente que colocaram sobre meu rosto, para, identificar em suas expressões, se quando eles dizem “que pena”, aquele leve sorriso, não indique “que bom”

Estou quase uma hora aqui – são 8 da noite – e o movimento não é o que a minha prepotência imaginava.

Os filhos, como era de esperar, lamentaram muito, mais por eles mesmo do que por mim. A lembrança deles é certamente do pai protetor que todos os pais foram um dia.

Os amigos, quase todos da minha idade, não escondem um certo alívio. Foi a minha vez e a deles continua adiada.

As mulheres, estas sim que são surpreendentes.

Algumas vieram só para confirmar que “aquele chato” morreu mesmo. Outras, das quais esperava reações mais emocionais, me olham com indiferença. Finalmente, aquelas que pensei que tinham me esquecido em definitivo, são as que parecem mais tristes.

Vá entender o que pensam as mulheres.

O espetáculo deve durar até a meia-noite, quando surpreendentemente devo me erguer do caixão, enquanto o Pintaúde, demonstrando seus profundos conhecimentos da medicina, explicará aos presentes que devo ter sofrido um ataque de catalepsia contagiosa, mas que agora está tudo bem e deverei viver mais alguns anos.

Mal consigo esperar por este momento, o ápice do espetáculo, quando passado o espanto inicial, os presentes se dividirão entre os que ficaram aliviados com a solução e os que vão querer pedir seu ingresso de volta.

Para os que uma vez pensaram em realizar um espetáculo desses, lembro que as piores dificuldades para um bom desempenho como morto, é suportar o desejo de coçar aquele ponto sensível na careca e a controlar a súbita vontade de espirrar.

Fora isso, tudo é muito divertido e para desfrutar dessa situação, você só precisa ter um amigo tão louco como o Pintaúde, que consegue montar o espetáculo com muito pouco dinheiro, usando apenas suas ligações, na funerária (prometeu devolver o caixão depois), com a capela no cemitério São João e com as floristas (acho que as flores terão que ser postas fora) e ter feito previamente um treinamento de ioga para ficar nessa posição por algumas horas.

Agora, silêncio, que o espetáculo ainda não terminou.

A imparcialidade do jornais.

 

correio16_6_84ultimo-001

Antigamente, quando as pessoas queriam dar um testemunho de que alguma notícia provinha de uma fonte confiável, diziam “deu no Correio”.  Nem sempre era verdade, mas o que o Correio do Povo publicava era aceito pela maioria das pessoas no Rio Grande do Sul como um testemunho de fé.

O velho Correio em tamanho standard (jornal sério não podia ser tabloide) morreu há alguns anos e deixou como sucessor uma versão menor, que ninguém mais toma como um testemunho da verdade, até porque nessa sua segunda vida ficou ligado a um grupo religioso, o que sempre conspira contra um apego à realidade factual.

Com isso, o grande jornal do Rio Grande do Sul – ainda que também na forma suspeita de tabloide (no mundo inteiro, eles são quase sempre jornais pouco sérios) – passou a  ser a Zero Hora.

image_preview

Surgida como um negócio de ocasião, depois que o golpe de 64 fechou a Última Hora (também um tabloide, às vezes muito próximo da imprensa marrom), o jornal de Samuel Wainer que dava cobertura ostensiva ao governo de João Goulart.

Zero Hora (na época era nome de uma secção da Última Hora com pequenas notícias que chegavam quase no fechamento do jornal) se integrava a um grupo que já tinha uma emissora de rádio e outra de televisão, mas estava longe de formar o grande grupo mediático que se tornou depois.

O chamado Grupo RBS cresceu e tomou conta do mercado do Rio Grande do Sul graças a seu apoio aos governos militares que comandaram o Brasil por quase 20 anos e pela aliança estratégica com a Rede Globo, também produto da ditadura.

Hoje, fortalecido pela presença em praticamente todas as plataformas de mídia e fazendo negócios também em outras áreas, o grupo RBS se transformou – numa era onde a comunicação é um item fundamental na sustentação de qualquer sistema político – no grande porta voz do conservadorismo gaúcho.

Atuando mais como um partido político, o grupo influencia na escolha de governadores e parlamentares, as vezes saídos dos seus próprios quadros , como ocorrido com o ex-governador Antônio Britto e os senadores Lasier Martins, Ana Amélia Lemos e Sérgio Zambiazi, entre outros.

apps-55134-9007199266636175-8a1a1ad4-3d4e-4749-b401-76d2a6d9f8e5

Embora envolto por uma capa de modernidade (todos os seus veículos ostentam o que existe de mais avançado na tecnologia de comunicação) o grupo defende os interesses dos segmentos retrógrados da população que mais se empenham em impedir à democratização da sociedade e o fim dos privilégios sociais e econômicos, criados por uma distribuição injusta da renda, o financiamento pelo Estado de grandes empresas e a falta de acesso da população marginalizada à educação e à saúde.

Ainda estejamos vivendo numa época em que os meios audiovisuais sejam dominantes no dia a dia das pessoas, o jornal ainda tem um forte apelo junto aos cidadãos como um registro documentado dos fatos. Colocadas em letra de forma (embora a elaboração dos jornais hoje siga outro processo), certos fatos e opiniões ganham uma importância que nos outros meios de comunicação ainda não têm

a

Um grupo que disponha de veículos que cobrem todas as plataformas de comunicação, como é o caso da RBS, está sempre multiplicando a força da sua mensagem, “vendida” com a aparência de imparcialidade.

Zero Hora talvez seja o modelo mais acabado do uso de estratégias de marketing para “vender” a ideia de isenção política, de um espaço aberto para todas as tendências, em toda a imprensa brasileira. No passado, o jornal chegou a realizar uma campanha publicitária, onde pessoas conhecidas do meio intelectual e universitário davam testemunhos criticando a postura do jornal, junto com outras que a enalteciam.  Zero Hora publicou em páginas inteiras cada um desses depoimentos, para tentar provar essa pretensa imparcialidade.

Hoje, basta dar uma passada na longa lista de colaboradores do jornal, alguns permanentes e outros eventuais, para encontrar nomes que cobrem praticamente todo o espectro ideológico do Estado.  Numa mesma edição é possível ler o texto sempre magnífico do Luís Fernando Veríssimo e seu oposto, David Coimbra; encontrar um radical de direita, como Percival Puggina  e um ex-preso político como Flávio Tavares;  uma cobertura internacional quase sempre isenta de Luiz Antônio Araújo  à crítica comprometida com o anti-socialismo de Léo  Gerchmann.

Enquanto os colaboradores reforçam a ideia de uma diversidade política, a linha editorial do jornal vai martelando na cabeça dos seus leitores os valores da classe conservadora, mesmo que na essência eles sejam alheios aos interesses da maioria da população. Eles não são muitos, mas são fundamentais para os objetivos que o jornal, como integrante da elite econômica, defende: ampla liberdade formal (principalmente para fazer negócios), meritocracia em qualquer atividade, independentemente das condições sociais dos seus participantes e presença mínima do Estado em qualquer atividade.

b062fed8-d1e6-4a44-aed2-4fe9bf149de4

Uma única exceção é a segurança pública, onde se clama diariamente por uma maior presença de policiais e presídios, porque certamente ela afeta o bem maior da sociedade capitalista, o patrimônio das empresas e por extensão, das pessoas.

Essa semana, Zero Hora deu em destaque – quase uma página – a notícia de criação de uma praça no Jardim Lindoia, na Zona Norte, por parte de uma construtora.

A notícia pode ser importante para o bairro, mas seria também para todos seus leitores que se espalham pelo Estado?

A explicação veio nos dias seguintes: a construtora encheu o jornal de anúncios de um empreendimento no Jardim Lindoia, junto a tal praça.

Além disso, outras matérias sobre a nova praça continuaram a aparecer nas demais editorias do jornal.

Coincidentemente, nesse fim-de-semana, ZH publicou matéria mostrando a importância da propaganda para a continuidade da vida dos meios de comunicação.

Lá, são repetidos aqueles velhos argumentos a favor da propaganda, inclusive a discutível afirmação de que ela assegura os direitos de escolha do consumidor.

Você pode escolher entre Coca Cola ou Pepsi Cola, por exemplo, mas não pode deixar de escolher um dos dois refrigerantes.

frase-jornalismo-e-publicar-aquilo-que-alguem-nao-quer-que-se-publique-todo-o-resto-e-publicidade-george-orwell-102069-1

Outra afirmação é de que a propaganda, pagando seus custos de produção, assegura a independência e pluralidade dos jornais, revistas e mídia eletrônica.

Pela maneira que Zero Hora destaca uma matéria em lugar de outras, talvez mais importantes para seus leitores, misturando jornalismo e publicidade, isso não parece ser verdade.

 

 

Se você ainda não leu o Zizek, não sabe o que está perdendo.

Slavoj Zizek é hoje o mais original e provocador teórico da esquerda no mundo inteiro. Misturando principalmente os conceitos de Karl Marx com os do psicanalista francês Jacques Lacan, Zizek faz uma nova leitura dos limites do capitalismo e propõe uma retomada do comunismo sobre bases totalmente diferentes das existentes até então.

download-3

Nascido em Liubliana, Eslovênia, em 1949, Zizek é professor da European Graduate School e pesquisador do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, mas é acima de tudo um novo tipo de filósofo e político que se utiliza de todos os meios de comunicação possíveis para emitir opiniões sobre os mais variados temas, que vão da crise do capitalismo às artes, passando pelo cinema e pela música.

São, porém, em seus livros e nos debates acadêmicos, que faz pelo mundo inteiro, inclusive no Brasil, que Zizek, solidamente apoiado pela leitura dos grandes filósofos alemães do passado, principalmente Hegel e Kant, e dos franceses atuais, como Lacan, Foucault e Badiou, destila seus pensamentos sempre originais.

Ao negar a hegemonia da democracia como modelo político, principalmente a chamada democracia liberal, ele afirma que esse modelo é apenas a face visível do capitalismo como sistema econômico, que só funciona na medida em que se fundamenta na existência de dois grupos sociais, o dos “incluídos” e o dos “excluídos”.

No ensaio intitulado “Alain Badiou ou a violência da subtração”, contido em seu livro “Em defesa das causas perdidas” (Boitempo Editorial, 2011), ele faz uma distinção entre povo e proletariado e defende a ideia de “ressuscitar a boa e velha ditadura do proletariado como a única maneira de romper com a biopolítica atual”.

Diz ele que que devemos usar a palavra ditadura no sentido exato em que a democracia também é uma forma de ditadura, ou seja, é uma determinação puramente formal e que o estado-burguês, mesmo com suas eleições periódicas, é uma fachada para a ditadura burguesa.

Ao retomar o conceito de Marx do sentido revolucionário do proletariado, Zizek diz que o proletariado é a única classe social capaz de representar o interesse universal da sociedade, porque ao contrário das outras classes sociais que podem potencialmente atingir a condição de “classe dominante”, o proletariado não pode atingir essa condição sem abolir a si mesmo como classe.

as-portas-da-revolucao-escritos-de-lenin-de-1917-slavoj-zizek-857559060x_200x200-pu6eb81a14_1

Em seu livro “Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917″, já publicado no Brasil (Boitempo Editora, 2005), Zizek afirma que Lenin soube articular o realismo com a utopia, quando diz que “é preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho. De observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles”.

O legado de Lenin, a ser reinventado hoje, diz Zizek, é a política da verdade. Tanto a democracia liberal, como o totalitarismo impedem uma política da verdade.

Espalhados pelos seus diversos livros, quase todos traduzidos para o português, ou nas suas múltiplas conferências, podemos colecionar alguns pensamentos de Zizek, quase sempre polêmicos.

Sobre fundamentalismos:

1c53e6_798cf641cac541e4ac39818acb003672

“Precisamos parar de estabelecer essa relação direta do fundamentalismo com o Islã, há fundamentalistas nos Estados Unidos, na Noruega, na Europa Oriental, a Hungria vive um pesadelo agora, isso sem falar na Índia, onde o fundamentalismo é muito mais forte entre os hindus”

Sobre ideologias:

“É fascinante dizer hoje que, com exceção de algum louco fundamentalista religioso, nós não temos mais ideologia, somos todos cínicos pragmáticos. Mas não, eu acho que mais do que nunca a ideologia é hoje parte da nossa vida cotidiana. Na verdade, é uma parte até invisível”.

Sobre Hillary Clinton:

download-1

“Julian Assange está certo em sua cruzada contra Hillary, e os liberais que o criticam por atacar a única figura que pode nos salvar de Trump estão errados. O alvo a ser atacado e solapado agora é precisamente esse consenso democrático contra o ‘vilão’.”

 

Sobre a Europa:

“A Europa está presa em um ciclo vicioso, oscilando entre dois falsos opostos: a rendição ao capitalismo global, ou a sujeição a um populismo anti-imigração”

Sobre a corrupção:

“A lição dos Panama Papers é justamente que a corrupção não é um desvio do sistema capitalista global, ela é parte de seu funcionamento básico”.

Sobre a luta de classes e os atentados na França:

“É preciso trazer de volta a luta de classes e insistir na solidariedade global dos explorados e oprimidos. Sem essa visão global, a patética solidariedade para com as vítimas de Paris não passa de uma obscenidade pseudo-ética.”

Sobre o ateísmo:

diaboreal

“Enquanto um verdadeiro ateu não tem necessidade de apoiar sua própria posição provocando crentes com blasfêmia, ele também se recusa a reduzir o problema das caricaturas de Maomé ao respeito às crenças de outras pessoas.”

 

Sobre os refugiados:

“Não podemos abordar a crise dos refugiados sem enfrentar o capitalismo global. Os refugiados não chegarão à Noruega. Tampouco a Noruega que eles procuram existe.”

Sobre ser politicamente correto:

“A necessidade de regras politicamente corretas surge quando os valores não ditos de uma sociedade não são mais capazes de regular efetivamente as interações cotidianas – no lugar de costumes consolidados seguidos de forma espontânea, ficamos com regras explícitas  – negro se torna afro-americano, favela se torna comunidade, um ato de tortura passa a ser denominado oficialmente de técnica aprimorada de interrogação de tal forma que estupro poderia muito bem passar a ser chamado de técnica aprimorada de sedução”.

Sobre as favelas brasileiras:

img_15996_apa_14437_600

“O Brasil é um dos únicos países que conheço que não esconde as favelas. Em Buenos Aires, por exemplo, elas não são vistas. Não digo que elas formem um magnífico cenário hollywoodiano, mas pelo menos é melhor que sejam vistas! E me pergunto: como funciona a vida social nas favelas? Há milhares de pessoas amontoadas, então, além dos bandidos e comunidades religiosas, tem de haver um tipo de rede social que faça a favela funcionar.

Sobre os objetivos da esquerda:

“O sonho secreto da Esquerda radical nas últimas décadas consistiu no que ela mais temia, a perspectiva real de tomar o poder. Eles têm medo do poder. Acho que nesse sentido temos de ser brutais e não ter medo do poder”.

Sobre o papel das mulheres:

santa-tereza-avilajpg926062013153748

“Lacan fala de Santa Tereza, por exemplo – que a mulher goza, que ela não sabe o quê, mas simplesmente, sem palavras, goza. É interessante pensarmos em Santa Tereza nesse sentido. Se há uma pessoa que não existiu fora da ordem simbólica, ela é Santa Tereza. Ela escrevia o tempo inteiro, era uma pessoa de escrita histérica. Essa é a posição feminina, não esse tipo de mãe primordial

Sobre as recentes manifestações públicas na Europa

“Sou a favor de reuniões e protestos, porém não me convencem seus manifestos de desconfiança de toda a classe política. A quem se dirigem, então, quando pedem uma vida digna”?

Sobre ele mesmo:

crédito|Paulo Guimarães

“Sou um pessimista no sentido de que estamos nos aproximando de tempos perigosos. Mas sou um otimista exatamente pela mesma razão. O pessimismo significa que as coisas estão ficando bagunçadas. O otimismo significa que esta é precisamente a época em que a mudança é possível”.

No dia 6 de março de 2013, um dia após a morte de Hugo Chávez, Slavoj Zizek começava uma conferência na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, afirmando que “Chávez era um de nós independente do que se queira dizer sobre ele” e depois explicou porque pensava assim:

comandante

“Todo mundo gosta de simpatizar com favelas, de fazer caridade. Caridade é o que existe de mais fashion no novo capitalismo global. Faz as pessoas se sentirem bem e ao mesmo tempo despolitiza a situação. Todos querem fazer caridade, mas nem todos querem incluir a favela na política. Chávez viu que não incluir todos os excluídos significa viver em permanente guerra civil. Por isso ele viverá para sempre”

 

De sombrinha, na corda bamba da política

Em 1979, quando a ditadura militar do Brasil ainda prendia, torturava e matava, João Bosco e Aldir Blanc compuseram O Bêbado e o Equilibrista, que a voz maravilhosa de Elis Regina transformou num hino contra a prepotência dos então donos do poder.

tumblr_mp6h31uwla1s66owvo1_r1_500

 

“A esperança

Dança na corda bamba de sombrinha

E em cada passo dessa linha

Pode se machucar”

 

 

Hoje, ao ler o excelente artigo que Tarso Genro publicou no Sul 21, comparando a situação atual do Brasil com o drama escrito por Eugene O´Neill, “A Longa Jornada para Dentro da Noite”, me dei conta que ele fazia um desafio a todos nós, que nos colocamos em posições de esquerda, para que assumamos os riscos dessa posição, contribuindo para o grande debate que devemos fazer sobre o futuro do nosso País.

Eu, pessoalmente, sei que caminho sobre uma corda bamba, onde cada palavra que escrevo, cada juízo que faço, tem um risco.

O risco de ser mal entendido.

De ser lido ao avesso.

Mas, o que dá sentido à vida é enfrentar os desafios que ela nos propõe.

Vamos a eles, então.

download-1

Tarso, mais uma vez, defende a democracia, sem qualificá-la e os tribunais, especificamente o STF, ao afirmar que “o juízo moral ou político que tenhamos de qualquer dos ministros que compõem nossas Cortes Superiores, em especial o STF, não pode implicar num juízo demolidor ou ao contrário, sacralizador destas instituições, pois o estado democrático que não prevê formas institucionais aceitáveis, para solucionar os seus impasses mais graves, está perto da anomia. E esta é sempre controlada pelo autoritarismo dos mais fortes”.

E se o que tivéssemos é um excesso de democracia?

cordabambastephenhirdreu_3-jpg-554x318_q85_crop

 

Ao fazer este questionamento é preciso segurar firme a sombrinha, porque este é o passo mais arriscado da caminhada.

 

O modelo democrático em que vivemos, certamente muito melhor que a ditadura do passado, se fundamenta numa profunda e injusta divisão social, institucionalizada pela Constituição de 88.

Este modelo nasceu de um acordo entre a ditadura que terminava, mas ainda tinha força, e uma liderança conservadora, representada por Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, que a rigor nunca se afastou suficientemente dos generais para ser considerado oposição.

tancredo_neves20121015114243_ulisses2med

Tancredo, como candidato do MDB, em 1985, era mais palatável à ditadura que Maluf, o candidato da Arena e Ulysses, não só foi um dos participantes da famosa Marcha Da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo, como apoiou o golpe de 64 e junto com mais sete “notáveis” do Congresso ( Adauto Lúcio Cardoso, Martins Rodrigues, Paulo Sarazate, Bilac Pinto, Pedro Aleixo e João Agripino), foi dos proponentes da proposta de cassação por 15 anos da cúpula janguista, transformada depois no Ato Institucional número 1, por Francisco Campos.

cidadania

Em 1988, quando se aprovou uma Constituição, que em vez de sepultar de vez a ditadura, a institucionalizou como uma página igual a tantas outras da nossa história, o PT se recusou a assiná-la, e só em 2013, quando se assinalava os seus 25 anos, Lula explicou porque o partido fizera isso: “ o PT era duro na queda e queria uma constituição mais radical”

Nesses 25 anos, Lula também se transformou como político, o que deixou claro ao dizer que se as ideias do PT em 88 fossem vencedoras, o País seria ingovernável.

Ulysses falava sempre na “Constituição Cidadã”.

Não seria o caso de repensar a “Constituição Radical” do PT de 88.

Ao nos propormos a defender esse sistema, definido pela Constituição de 88, ainda que reivindicando como propõe Tarso a repactuação do Estado de Direito em novas bases, com novos fundamentos, não estamos trabalhando em favor da sua consolidação?

Há pouco, nas eleições para a Prefeitura de Porto Alegre, contra algumas vozes da esquerda que queriam a opção pelo mal menor, Tarso defendeu o voto de protesto.

Não seria uma situação semelhante a questão da democracia?

Na eleição, não aceitamos as opções oferecidas.

Na política geral, entre essa democracia atual, onde parlamento e judiciário são vozes ativas no desrespeito à vontade popular (impeachment de Dilma) e um regime autoritário que parece cada vez mais próximo, por que precisamos escolher um ou outro?

Cada vez mais nos arriscando na corda bamba, perguntamos: e se escolhêssemos caminhar em direção a uma democracia do tipo popular?

Mesmo que distante, mesmo que seja um sonho utópico, não valeria à pena escolher esse caminho, no momento em que os eleitores parecem recusar todas as propostas políticas colocadas na mesa?

mtiwnja4njmzodgyntewodyw

 

Como escreveu Lenin, é importante sonhar, desde que não nos afastamos da realidade.

 

 

Não sei se conseguir chegar do outro lado da linha, mas como faz todo o artista, se errei em algum passo, não importa, estou disposto a recomeçar.