A ofensiva neoliberal

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O discurso neoliberal, que defende o estado mínimo e o corte nos direitos dos trabalhadores, tem sempre cobertura assegurada em Zero Hora. Na edição do dia 18/11, no espaço de Rosane Oliveira, com direito a foto e declarações, está aquela figurinha pouco confiável do Kim Kataguiri, um dos criadores do MBL, Movimento Brasil Livre, que ganhou força na mídia quando do golpe parlamentar do impeachment.

Recorda-se que durante a campanha para a prefeitura o jornal divulgou a possibilidade do movimento estar implicado no suicídio do principal assessor do candidato do PMDB.

O MBL é suspeito de ser financiado pela CIA (denúncia do sociólogo Theotônio dos Santos) como parte da guerra psicológica que os americanos desenvolvem na América Latina contra os governos populares, principalmente na Venezuela.

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O seu principal dirigente é o empresário Renan Antônio Ferreira dos Santos, réu em mais de 60 processos cíveis e trabalhistas, acusado de fechamento fraudulento de empresas, dívidas fiscais, fraude contra credores, calote em pagamento de dividas trabalhistas, num total de mais de 5 milhões de reais.

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Sua figura mais conhecida em Kim Kataguiri, defensor bem articulado de todas as propostas neoliberais, que vão desde a sacralização da propriedade privada até o fim de todos os programas sociais do governo.

Segundo ele, o MLB pretende eleger um bom número de deputados federais em 2018 e apresentar um candidato para concorrer à Presidência da República.

Aqui em Porto Alegre, se diz apoiador de Marquezan Júnior, a quem garantiu apoio do MBL durante a campanha eleitoral.

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Outra estrela do movimento é Fernando Silva Brito, o Fernando Holliday, que apesar do MBL se declarar apartidário, foi eleito vereador em São Paulo, numa coligação que envolveu o PSDB,PSB,PP e DEM.

 

 

Kataguiri, que até há pouco tempo era visto como um marginal político pelo conservadores gaúchos, agora, depois da vitória de Marquezan, passou a ser uma figura respeitável, com direito a ser palestrante no  Fórum da Transparência, organizado pelos empresários gaúchos para defender seus interesses.

O presidente do grupo RBS, Eduardo Sirotsky Melzer, falando no Forum, repetiu pela enésima vez o discurso em favor das reformas tributárias e trabalhista. Tradução do que pretende: menos impostos para os empresários e menos direitos para os empregados.

O ponto alto do encontro foi a apresentação do presidente da J.R.Diesel, Geraldo Rufino, que comoveu a platéia contando a sua história pessoal. Começando como catador de plásticos num lixão de São Paulo é hoje o dono da maior empresa de desmanche e reciclagem de caminhões.

Pena que os milhares de catadores de lixo de Porto Alegre não foram convidados para o encontro. Se fossem, eles saberiam que são milionários em potencial, como dizia aquele lema colocado na entrada de todos os campos de concentração da Alemanha nazista, ” o trabalho liberta”.

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O perigo vem do céu.

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Você anda preocupado com o grau de alienação política do povo brasileiro?

As últimas eleições fizeram com que você pensasse em ir embora do País? Não vai adiantar muito. Parece que o mundo inteiro está caminhando para uma perigosa posição de desinteresse pela política.

Antes ainda havia um certo pudor em assumir essas posições de absoluta indiferença pelas ideologias.

Hoje, isso é proclamado abertamente.

Veja a eleição de Trump nos Estados Unidos.

Claro que você se sabe que essa alienação é produzida pelos meios de comunicação para atender os interesses da classe dominante, o que no final é também uma forma de ideologia.

Mas na prática, isso não serve muito de consolo.

Compare o golpe de 1964 e o de 2016.

No primeiro havia um forte confronto ideológico entre esquerda e direita.

Para apoiar o golpe militar, foi preciso mobilizar a opinião pública contra um inimigo, na época o comunismo.

Embora já houvesse uma boa dose de moralismo no lema dos golpistas – contra a corrupção e a subversão – o que predominavam eram argumentos políticos.

A elite da sociedade civil, apoiada pelos militares, defendia a democracia representativa, que ela dizia ameaçada por uma “república sindicalista popular”.

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A imprensa chamava o golpe de democracia.

Em 2016, os argumentos políticos desapareceram na justificativa do golpe parlamentar.

 

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O problema era apenas moral, combater a corrupção.

A questão que aqui se pretende debater é como o Brasil chegou a situação que vive hoje.

Certamente muitos são os fatores.

O que vai tentar se destacar a partir de agora é como se moldou e está se moldando o pensamento de importantes segmentos da população, que poderiam teoricamente, representar o setor politicamente mais avançado da sociedade, mas que hoje representam uma nova e perigosa face do conservadorismo.

Falamos a população de evangélicos, que hoje representam mais de 40 milhões de brasileiros e mais especificamente, daqueles reunidos nas igrejas pentecostais, deixando de lado nessa análise igrejas tradicionais, como a Luterana a Batista e a Episcopal.

A eleição do senador Marcelo Crivella, dublê de pastor e cantor de música gospel, para prefeito do Rio de Janeiro é um sinal de que os evangélicos estão se tornando uma nova e extraordinária força política no cenário brasileiro.crivela

Embora nominalmente tenha sido eleito pela legenda do Partido Republicano Brasileiro e apoiado no segundo turno pelo PSDB e PMDB, sua grande força eleitoral veio do voto evangélico.

Hoje, este segmento é representado na Câmara Federal por uma bancada de 92 deputados (um dos seus principais líderes, Eduardo Cunha, está na prisão), que vota unida, acima dos partidos, como se viu quando votou em bloco pelo impeachment da Presidente Dilma.

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Em questões práticas que dizem respeito as suas igrejas, os deputados evangélicos estão sempre solidários, principalmente quando se tratar de isentá-las de qualquer tipo de imposto.

O procurador Delton Dallagnol, que cumpre funções nitidamente políticas quando atua como o representante mais destacado dos procuradores do Lava Jato, já foi mostrado mais de uma vez como um pregador evangélico em igreja do Rio de Janeiro.

O que ainda parecia frear a conquista de posições políticas em nome do pensamento evangélico, era uma certa guerra de interesses entre os líderes das principais igrejas, Edir Macedo, da Universal do Reino de Deus; Romildo Ribeiro Soares, da Internacional da Graça de Deus; Valdomiro Santos, da Igreja Mundial do Poder de Deus; Estevan Hernandes Filho e sua mulher a Bispa Sônia, da Renascer em Cristo (aquela do jogador Kaká) e Silas Malafaia, da Vitória em Cristo, um segmento da Assembleia de Deus.

A eleição de Crivella parece ter marcado o fim ou pelo menos representado uma pausa na disputa entre os pastores, o que levou o “capo entre os capos”, Edir Macedo, afirmar que a meta é ter um dia, um pastor Presidente da República “para defender a igreja e seus fiéis”.

Brasil, Rio de Janeiro, RJ. 09/04/2004. O bispo Edir Macedo comanda um culto da Igreja Universal do Reino de Deus, que reúne uma multidão de fiéis no Aterro do Flamengo, zona sul do Rio de Janeiro. - Crédito:PATRÍCIA SANTOS/AE/AE/Codigo imagem:109484

 

Segundo a revista Forbes, Edir Macedo, o dono da Rede Record, que responde processo por falsidade ideológica e formação de quadrilha, no Brasil e nos Estados Unidos, é um dos homens mais ricos do Brasil, com uma fortuna de mais de 2 bilhões de reais.

A mesma fonte coloca os outros quatro líderes religiosos já citados, com fortunas acumuladas bem menores, todas acima de 100 milhões de reais, o que pode ser pouco em relação a Edir Macedo, mas é muito em relação a grande maioria dos seus fiéis.

Caso alguém tenha interesse em saber como esses pastores construíram templos gigantescos e conseguem arrebanhar milhares de fiéis para suas prédicas, basta acompanhar um programa na televisão de Romildo Ribeiro Soares, que se apresenta como o Missionário R.R.Soares, em horários comprados em canais abertos da televisão.

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O Missionário que tem hoje mais 5 mil igrejas espalhadas pelo mundo e para cuidar do seu rebanho ganhou do Ministro José Serra um passaporte diplomático para ele e a mulher (ela é irmão do Edir Macedo), é um homem agradecido aos que lhe ajudam. Recentemente (obviamente antes que ele fosse preso) levou ao seu programa Eduardo Cunha para agradecer o empenho do então presidente da Câmara no perdão conseguido para uma dívida fiscal da igreja.

Diariamente, R.R. Soares  dá uma aula do que precisa ser feito para a conquista de corações e mentes dos fiéis e é claro também seus bolsos no seu programa muito justamente chamado de Show da Fé.

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O ponto alto da sua prédica é quando, com sua voz aveludada e um sorriso sempre no rosto, ele passa da leitura do último salmo da bíblia para a apresentação de um boleto bancário, onde os “patrocinadores” (eufemismo para os contribuintesl) devem preencher nome, CPF e valor da cota, sempre múltipla de 100 reais.

Antes da oração final, ainda sobra um tempinho para um aviso aos desatentos: esquecer o pagamento pode significar a perda do grande prêmio, o céu depois da morte.

Talvez os fiéis não conquistem o reino dos céus, mas seus pastores, cada vez mais ricos, caminham para a conquistas de grandes glórias terrenas na área política.

Isso tudo seria apenas uma escolha religiosa das pessoas, um direito que felizmente a Constituição assegura a todos, se por trás dessa opção não houvesse um processo acentuado de despolitização dos fieis.

Na idealização da relação entre os pastores e suas ovelhas, está implícita a ideia de que cabe às mentes esclarecidas dos primeiros as decisões políticas e as segundas, a obediência e é claro, o pagamento do dízimo.

A pobreza extrema de boa parte da população não nasce de causas sociais objetivas, mas das artes do demônio e que por isso mesmo deve ser combatida com orações e não com participação política.

Em vez da justa revolta contra a exploração do homem, se prega a aceitação dessa exploração como um testemunho de fé, a ser recompensada em outra vida.

O perigo vem dos céu, na voz dos pastores que dizem falar em nome dele.

Bandido bom é bandido morto?

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A crise econômica em que vive o País, ampliada pelos efeitos nocivos que a caça moralista da Lava Jato faz às grandes construtoras (em vez de punir os empresários, pune as empresas) e pela nova política do governo de cortar os grandes investimentos, têm tido um efeito perverso sobre a sociedade, ao gerar um crescimento acentuado da pobreza.

Com o aumento da pobreza, como consequência direta, cresce a criminalidade e a partir dela, um sentimento geral de insegurança.

Estimulada pelos meios de comunicação, a solução apontada para enfrentar essa insegurança é de endurecer a legislação penal, aumentar a repressão policial e criar mais e mais presídios.

Nessa espiral de causas e efeitos que se acumulam permanentemente, as pessoas são levadas a acreditar que a sociedade brasileira se divide prioritariamente em vítimas e bandidos e a partir dessa percepção, cresce também o clamor público por punições cada vez maiores para os infratores, até se chegar a reivindicação básica de se instaurar a pena de morte no País.

O slogan da campanha é aquela velha afirmação de que “bandido bom é bandido morto

Para os defensores dessa tese, a recomendação é de que antes de aceitá-la em definitivo, percam alguns minutos lendo a descrição que Richard Evans faz em seu livro O Terceiro Reich, sobre as novidades que o nazismo introduziu no sistema penal alemão a partir de 1934.

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Logicamente, se recomenda essa leitura para as pessoas de boa fé e razoavelmente bem informadas sobre a tragédia que foi para a humanidade o surgimento do nazismo.

Para os seguidores do deputado Bolsonaro, que sonham com a implantação de um regime fascista no Brasil, a leitura é inútil.

Vamos ver aqui algumas dessas “novidades’ dos nazistas.

O famoso incêndio do Reichstag (a sede do parlamento alemão), que serviu de desculpa, em 1933, para Hitler, recém escolhido Chanceler, eliminar toda oposição comunista e social democrata, é o primeiro momento em que a justiça alemã foi transformada para atender os desejos pessoais do Fuhrer.phpthumb

Hitler queria que o anarquista holandês Marinus van der Lubbe fosse declarado culpado pelo incêndio e executado por isso. Ocorre que, quando isso ocorreu, em 28 de fevereiro de 1933, a legislação penal não previa a pena de morte para este tipo de crime.

Ele obteve então do Presidente Hindenburg um decreto, em 29 de março, aplicando retroativamente a pena de morte para o caso e Lubbe foi executado pouco depois.

Em 1934, os nazistas criaram um Tribunal Popular, à margem do Tribunal de Reich, para julgar com rapidez os crimes políticos.  De 1934 a 1939, quase 4 mil pessoas foram julgadas por este tribunal, todas condenadas à morte ou à prisão, a maioria comunistas.

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O tribunal inovou também no sentido de condenar à morte as mulheres, preservadas dessa punição na República de Weimar, que antecedeu o regime nazista.

Outra inovação foi no sentido de que os prisioneiros depois de cumprirem suas penas, eram passíveis de detenções por tempo indefinido, desde que fossem declarados incompatíveis com a nova sociedade alemã.

As novas leis se tornaram cada vez mais restritivas e puniam desde a distribuição de panfletos criticando o regime até fazer piadas sobre figuras de liderança do Partido Nazista ou do Estado.

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Em 1936, Hans Frank, então comissário de Justiça do Reich e chefe da Liga de Advogados Nazistas, mais tarde Governador Geral da Polônia ocupada, onde ganhou o apelido pouco nobre de “carniceiro da Polônia”, declarou que “o juiz tem o papel de salvaguardar a ordem concreta da comunidade racial, eliminar elementos perigosos e processar todos os atos nocivos à comunidade. A ideologia nacional-socialista, em especial conforme está expressa no programa do Partido e nos discursos de nosso líder, é a base para interpretação das fontes legais”.

E os juízes alemães, mesmo aqueles que não pertenciam ao partido nazista, trataram de cumprir as novas leis, sem questioná-las.

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Evans, cita um caso típico, fruto de suas pesquisas nos anais de um tribunal alemão da época: “Um carroceiro nascido em 1899, cumpriu um grande número de penas de prisão por pequenos furtos na década de 1920 e começo dos anos 30, inclusive 11 meses por roubar uma bicicleta e 7 meses pelo furto de um casaco. A cada vez que era solto, ele voltava à sociedade com um punhado de marcos como pagamento pelo trabalho na prisão; com sua ficha, não conseguia arranjar um emprego durante a Depressão, tampouco persuadir as autoridades da previdência a lhe conceder benefícios. Em junho de 1933, foi sentenciado por roubar um guiso, um pouco de cola e outras quinquilharias durante uma bebedeira e após cumprir a pena, foi sentenciado a confinamento de segurança retroativo na penitenciária de Brandenburg e jamais foi solto”.

Tribunais especiais e vários tipos de organizações policiais, inclusive a temida Gestapo ( seu símbolo das caveiras é hoje copiado por esquadrões da morte do mundo inteiro, inclusive no Brasil), foram restringindo cada vez mais 10948_logoas liberdades públicas, sob a indiferença da maioria do povo alemão, quando não de apoio e com a resistência apenas dos comunistas e de alguns segmentos de trabalhadores.

Tudo isso aconteceu quando a Europa ainda vivia sob um regime de paz.

Em 1938, os nazistas chegaram ao ápice, ao incluir na lista dos que deveriam ser levados para os campos de concentração, homens até então considerados apenas vagabundos ou bêbados, caso de um homem de 54 detido em Duisburg, acusado de comportamento antissocial.

“De acordo com informações do escritório de previdência daqui, C. pode ser classificado como pessoa perigosa. Não se importa com a esposa e os dois filhos, de modo que estes têm que ser sustentados pelos cofres públicos. Jamais assumiu o dever do trabalho a ele designado. Entregou-se à bebida. Esgotou todos os pagamentos de benefícios. Recebeu várias advertências do escritório da previdência e é descrito como exemplo clássico de uma pessoa antissocial, irresponsável e preguiçosa”

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Levado para o campo de concentração de Sachsenhausen, o homem durou apenas 18 meses antes de morrer, conforme registros do campo, de fraqueza física.

Quando a guerra começou em 1939, os nazistas deixaram de lado qualquer desculpa e passaram a considerar cada opositor, por menos importante que fosse, como um alvo para as forças policiais e um suspeito previamente condenado nos seus diversos tribunais.

Os que sonham em instaurar no Brasil um sistema policial parecido, deviam lembrar de como ele terminou na Alemanha nazista.

Ação entre amigos

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Temer foi entrevistado pelo Roda Viva, da  TV Cultura, mas o programa poderia se chamar a Grande Família ou Conversas de Galpão, tal a intimidade entre Temer e os entrevistadores, todos da Folha, Estadão e O Globo, comandados pelo nosso velho conhecido Augusto Nunes.

As perguntas pareciam tão previamente combinadas, que Temer sequer se surpreendeu e muito menos se indignou, quando pediram que ele explicasse aquela história dos cheques da OAS e Odebrecht que foram parar na sua conta pessoal.

Outro nome para o programa poderia ser a Escolinha do Professor Raimundo, com o professor Temer explicando todo o esforço que está fazendo para salvar o Brasil, segundo ele arruinado pelo governo anterior….governo do qual ele fez parte.

A postura, estudadamente descontraída de Temer, certamente recomendada pela sua assessoria de comunicação, ao abordar de forma superficial questões internas e da política internacional, contrastava com sua aparência de paulista quatrocentão.

Ficou evidente para quem conseguiu suportar as quase duas horas de programa, que se tratava de um esforço conjugado de marketing entre o governo e a mídia amiga, de melhorar a imagem de um político desprezado pelo povo que não o elegeu presidente.

O melhor ficou para o final, quando Temer contou como conheceu Marcela, aquela que é bela, recatada e do lar e quando anunciou que está escrevendo um romance.

Depois de Sarney e seus Marimbondos do Fogo, vem aí Temer e seu primeiro romance.

Aceitam-se sugestões para o título.

Observação final: a TV Cultura que produziu o programa é do governo de São Paulo, do PSDB, do Alckmin, que, ao menos por enquanto, apoia o paulista Temer, do PMDB, e os entrevistadores, independentemente das qualidades profissionais de cada um, pertencem aos veículos mais conservadores da nossa mídia.

Só faltou a Zero Hora.

Snowden, o novo herói americano

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O último filme de Oliver Stone, Snowden (no Brasil, os tradutores acrescentaram um subtítulo – Herói ou Traidor – talvez duvidando que os brasileiros soubessem quem é o tal Snowden), é mais um produto típico de Hollywood, onde o mundo se divide em mocinhos e bandidos.

No filme, Snowden é o mocinho e a Agência Nacional de Segurança (NSA), a CIA e até o presidente Barak Obama formam no time dos bandidos.

Stone, que tem a seu crédito uma série de filmes de denúncia política, entre os quais Salvador, o Martírio de um Povo, Nascido a 4 de Julho, Platoon, The Doors, JFK, a Pergunta que não quer Calar, Nixon, Assassinos por Natureza e Walt Street, o Dinheiro Nunca Dorme, é um produto típico da esquerda liberal americana.

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Ele não denuncia o sistema, ele denuncia as pessoas que manipulam o sistema, por isso seus filmes deixam a sensação que ele fica sempre pelo meio do caminho na sua crítica.

 

Em Snowden, Oliver Stone avisa na abertura do filme, que se trata da dramatização de fatos reais. Deve ter sido essa mistura que fez ele perder o controle do filme.

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A caracterização que ele faz do personagem, vivido pelo ótimo ator, Joseph Gordon-Levitt, inclusive muito parecido fisicamente com o Edward Snowden real, é de um verdadeiro patriota, que considera os Estados Unidos o melhor país do mundo e que só decide divulgar os segredos da espionagem americana, quando descobre que ele e sua mulher também estão sendo vigiados.

Até então, ele não só aceita, como também ajuda, com o seu imenso talento para a área de computação, na vigilância que os serviços americanos promovem no mundo inteiro, mesmo quando assiste o que os drones fazem nos “países que dão abrigo a terroristas” a centenas de quilômetros de distância, através da televisão ou ouve um dos seus companheiros contar como explodiram uma escola numa aldeia árabe, onde se imaginava que o inimigo estivesse escondido.

Nesse roteiro mal costurado, em determinado momento, Stone rompe a narrativa dramática para explicar de forma quase documental para que serve toda espionagem.

É como se o diretor parasse com a dramatização do fato real, que ele avisou que seria a linha do filme e usando inclusive imagens de documentários, passasse a explicar para o expectador o que realmente estava ocorrendo.

“Olha o negócio é o seguinte. Toda essa espionagem serve aos interesses imperialistas americanos e a tal defesa da democracia é conversa fiada. O que queremos mesmo é defender nossos negócios no mundo inteiro e os principais inimigos hoje são a China, a Rússia e o Irã. Mas como nunca se sabe exatamente de onde vem o perigo, nós espionamos todo o mundo, inclusive os próprios cidadãos americanos”

Esse intervalo, tem uma curiosidade para nós brasileiros. Enquanto o narrador descreve as maldades do NSA, aparecem imagens dos alvos da espionagem americana, entre eles a Presidente Dilma e a Petrobrás.

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Dado o recado, Stone volta ao seu filme, onde não faltam amores incompreendidos, boas amizades e aquele inevitável sentimento de patriotismo que sempre faz parte dos chamados filmes políticos
americanos, narrados em vários flash backs.

 

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No presente, a ação se passa no Hotel Mira, em Hong Kong, onde Snowden está refugiado e negocia com a produtora independente de documentários, Laura Poity e os jornalistas do jornal inglês The Guardian, Ewen Nac Askill e Glenn Greewald, a publicação do primeiro capítulo das denúncias, vivendo sob a tensão de a qualquer momento ser descoberto pelos serviços secretos americanos já no encalço de Snowden.

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Posteriormente Laura produziu também um documentário sobre Snowden, chamado Cidadão Quatro (possivelmente parodiando o filme Cidadão Kane, de Orson Welles sobre um magnata do jornalismo americano) e acabou sendo premiada com o Oscar de melhor filme documentário.

Todas essas peripécias que vivem o herói seriam melhor compreendidas, se Stone tivesse trabalhado com um roteiro melhor. O assunto parece que era extenso demais para caber dentro do tempo fílmico. Os personagens, salvo em alguns momentos o próprio Snowden, são pouco convincentes, caso da caracterização de Nicolas Cage, de um cientista relegado ao ostracismo por divergir de alguns métodos do Governo, que parece ter entrado no filme para que houvesse ao menos uma estrela para aumentar os ganhos de bilheteria.

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O grupo de hackers, mobilizado pela SNA para trabalhar na guerra contra o sistema de comunicação chinês é totalmente estereotipado. Alguém disse que, como são os jovens que dominam as novas tecnologias, Stone encheu as salas secretas de trabalho de nerds cabeludos e vestindo bermudas.

Um amigo, que em determinado momento protege o segredo de Snowden, é um negro, porque isso é politicamente correto. Nunca falta também um jornalista disposto a enfrentar todos os perigos para que a verdade vença no final.

130611051853_1web-hd-snowdenEnfim, tudo que a gente já viu em outros filmes da esquerda politicamente correta americana, da qual Stone é uma figura de destaque, está presente em Snowden, inclusive aquele quase happy end final, que serve de consolo  para todos que acreditam que as boas intenções sempre acabam, de alguma maneira, vitoriosas.

Palavrão, o grande excluído

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Nada exprime melhor um sentimento de indignação em relação a determinadas coisas, nem identifica com mais precisão certas pessoas do que um grande e sonoro palavrão.

Apesar disso, aprendemos cedo na vida familiar e principalmente na escola, que as boas normas do comportamento o excluem do nosso dia a dia, deixando-o para ele apenas um pequeno espaço naquela área escura e incontrolável que existe dentro de todos nós.

Mesmo assim, quando por um descuido nosso, ele explode com toda a sua força, mandam os bons hábitos de civilidade, que logo peçamos desculpas por deixá-lo vir à luz.

Enquanto na literatura brasileira, uso do palavrão sempre foi corrente e as ligas da moral e dos bons costumes pouco se preocuparam com isso, talvez porque o hábito da leitura da população sempre foi pequeno ou porque nos livros ele está inserido num diálogo pessoal (o autor e o leitor), nos demais meios de comunicação, a censura nunca baixou sua guarda.

Mesmo hoje, em tempos de grande liberalidade, onde até o chamado beijo gay chegou a televisão, um simples “vai à merda” continua interditado. No rádio, a mesma coisa. Em jornais e revistas, a rica e a quase sempre bem-humorada linguagem popular, cheia de adjetivos para ilustrar o comportamento das pessoas, é substituída pela língua culta, pernóstica, excludente e adjetivada.

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A publicidade, a mais vigiada das atividades de comunicação, sempre foi ousada e criativa no Brasil, mas raramente ultrapassou os normas da boa educação na sua linguagem oral. Hoje, parodiando estes limites, está no ar nos canais de televisão uma campanha muito inteligente da Tigre, usando frases sem sentido para substituir os palavrões que a situação mostrada exigiria.

Outro dia, com a ajuda do Luiz Octavio Vieira, lembrava que toda árvore é frondosa, toda a chuva copiosa, as paixões são doentias e o mocotó suculento, sempre substantivos e adjetivos que podem ser anunciados em voz alta sem ferir nossos padrões comportamentais.

É claro que essa discriminação contra o falar popular é também uma questão de classe, uma forma de ajudar na diferenciação de ricos e pobres. Os jornais e revistas são feitos para os bens nascidos, que no passado tinham dicionários em casa (hoje tem o Google) e que sabem o significado das palavras.

Procela, por exemplo, você não ouve ninguém falando na rua, mas pode encontrar em algum texto pretencioso (a plebe diria, com mais propriedade, metido a sebo), inclusive na minha página no facebook.

O cinema americano só foi se liberar da rígida censura moral imposta pelo chamado Código Hays (referência ao seu criador, Will Hays, um pastor presbiteriano) na década de 60, depois de durante 30 anos, interferindo na criação cinematográfica.

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Segundo esse código, certos assuntos eram classificados como Dont´s ((proibidos) e outros como Be Carefuls (exigiam muitos cuidados para serem exibidos). Exemplo de assunto Dont´s: não casados dormirem juntos.

Quando assustado com algo insólito, um ator de um filme normalmente diria  “que droga está acontecendo”, o código mandava ele dizer: “macacos me mordam se isso é verdade”.

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O código, naquilo que em que ele era mais rígido – a alusão ao sexo entre não casados – começou a ruir com a famosa cena do beijo nas areias da praia, entre Burt Lancaster e Debora Kerr ( ela, casada com o comandante da base militar onde Burt era um simples sargento) no filme A Um Passo da Eternidade (1953), de Fred Zinnnemann.

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Outro tabu, as relações inter-raciais, foi quebrado no filme de 1957, Ilha dos Trópico, quando a branca Joan Fontaine beijou o negro, Harry Belafonte. Até então, mesmo nos filmes mais progressistas de Hollywood, brancos namoravam brancas e negros namoravam negras.

Hoje, liberado totalmente para fazer o que bem entende (obviamente um recurso mercadológico para enfrentar a televisão) o cinema americano está cheio de fucks you (ou fock you), ainda que você não consiga ler a sua tradução verdadeira nas legendas no Brasil.

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Nos Estados Unidos, pode tudo, mas na Rússia, não pode mais nada. O Presidente Putin sancionou lei do Parlamento, proibindo o uso de palavrões em todos os meios de comunicação, da literatura ao cinema. Multa para quem transgredir a nova lei: 50 mil rublos, cerca de mil euros, ou 4 mil reais.

Enquanto a linguagem popular permanece banida dos principais meios de comunicação no Brasil, na literatura, ela não sofre restrições.

O professor Mário Souto Maior se deu ao trabalho de pesquisar o uso de palavrões pelo povo brasileiro e sua presença na nossa literatura.

Seu livro, O Dicionário de Palavrões e Termos Afins, colecionou 3 mil verbetes considerados chulos, mas sua edição em 1974 foi proibida pela censura militar e só chegou ao público em 1980.

Uma curiosidade revelada pelo livro é de que Jorge Amado é o escritor brasileiro que mais se socorre das palavras ditas obscenas em seus textos.

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Para quem não leu o livro, vamos citar cinco delas, quase todas de uso corrente na terra de Amado, a Bahia, tentando traduzi-las com algum cuidado, para não ferir também aqui suscetibilidades.

 

Dar a Maricotinha – o doador de sexo anal

Fechar a cancela –  aposentar-se das práticas sexuais

Levanta cacete – mulher jovem e sensual

Papar – ter relações sexuais

Zebedeu –  o pênis.

Fica faltando um glossário rio-grandense para concorrer com o baiano, tarefa da qual o publicitário Roberto Pintaúde poderia se ocupar, já que há muito tempo vem divertindo seus admiradores com o uso sistemático da rica linguagem, dita chula, que nós gaúchos costumamos usar.

Para fechar de uma maneira elegante, mas não culta, esta página, vamos citar Antônio Carlos Jobim comentando sua experiência de viver no exterior, de uma forma pouco acadêmica.

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“Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom”.

Hitler e Guns N´Roses misturados na minha cabeça

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O nostálgico é o tipo mais chato do mundo. Quando alguém começar uma frase dizendo, “no meu tempo”, fuja, saia correndo.

Outro chato de carteirinha é o aprendiz de sociólogo, crítico do comportamento atual da juventude, comparado com o de outras eras.

Especificamente a época em que foi jovem.

Aliás, estas duas categorias se completam. Normalmente nostalgia e espírito crítico segmentado por faixas etárias, andam juntos.

Pois, outro dia, me senti assim, nostálgico e crítico.

Desligado das novidades do show business, decidi ir no cinema Guion, ver os 13 Minutos, um filme sobre o primeiro e fracassado atentado contra Hitler.

Vindo da Zona Sul por volta das 4 da tarde, me surpreendi com uma multidão em torno do Beira Rio.

E põe multidão nisso.

Primeiro imaginei que seria a torcida colorada dando uma prova de solidariedade ao time, que está ameaçado de rebaixamento e se preparando para assistir mais um inútil treino comandado pelo abominável Celso Roth.

Cheguei a pensar em descer, não para apoiar, mas para criticar o time, o treinador e a diretoria.

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Aí alguém disse na lotação que era um show e que tinha gente que estava ali desde o dia anterior

 

 

Um show às quatro horas da tarde?

Não.

O show era às dez da noite. Aquele pessoal estava só chegando cedo para pegar os melhores lugares nas filas de entrada.

E põe cedo nisso.

Fui ao cinema onde não havia fila nenhuma.

Passei antes na Bamboletras e como não costumo resistir a certos livros e como iria assistir um filme sobre o nazismo, acebei comprando O Terceiro Reich no Poder, do Richard Evans, um cartapácio de quase 1.500 páginas.

E atenção, são quatro livros sobre o assunto e este é apenas o terceiro.

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E lá fui eu para ver o filme, carregando aquele pesado volume. Na sala, mais umas 3 ou 4 pessoas. O filme não é ruim, nem bom. Apesar de ser baseado em fatos verdadeiros, certas situações e personagens parecem inverossímeis. Mas, dá para assistir

Na saída e no retorno para casa, passo novamente em frente ao Beira Rio por volta das 8 da noite.

Nessa hora, o estádio já tinha engolido toda aquela multidão que vi no meio da tarde, mas ainda havia centenas, talvez milhares de pessoas nas filas, agora, aparentemente bem organizadas.

A maioria composta de jovens, quase todos com camisas pretas com o logotipo da banda que iria se apresentar.

Nessa altura eu já sabia que eram os famosos Guns N´Roses.

Já tinha lido sobre eles e confesso que minha posição era aquela de “não vi, não ouvi e não gostei”.

Aquelas 40 mil pessoas que estavam no Beira Rio certamente já tinha visto, ouvido e gostado tanto, que estavam lá para ver de novo.

Na hora, pensei, vou escrever um texto para o meu blog no Sul 21, um texto bem sociológico, comparando a seriedade dos que preferiram ver o filme alemão, com a alienação dos que foram ver os metaleiros americanos.

Desisti logo.

Talvez o alienado fosse eu e não eles.

Vai saber.

Ainda bem que desisti.

Não quero ser visto como nostálgico e preconceituoso.

Posso até ser, mas nesses novos tempos, é preciso manter a aparência.

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Podemos dormir tranquilos com Trump na Casa Branca?

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Você vai ler e ouvir, ainda durante muito tempo, todo o tipo de análise sobre a vitória de Donald Trump e a derrota de Hillary Clinton nas eleições americanas.

A maioria, naquele viés aparentemente progressista de que os ideais democráticos foram duramente atingidos e que em vez da colaboração entre as nações, voltam as velhas posições nacionalistas.

Não faltará quem já estará vendo novas guerras num futuro próximo.

Quase o mesmo discurso quando do “Brexit” (Britain + exit), a saída do Reino Unido da Comunidade Europeia.

Republican presidential candidate Donald Trump speaks to supporters as he takes the stage for a campaign event in Dallas, Monday, Sept. 14, 2015. (AP Photo/LM Otero)

 

Não dá para sair gritando “Hei…Hei…o Trump é nosso rei”, mas também não dá para ficar chorando a derrota da Hillary.

Sabe o porquê?

Por que não vai mudar muito. As grandes corporações vão continuar mandando como sempre, embora esses acontecimentos políticos guardem relação estreita com a atual crise mundial no sistema capitalista.

Meus amigos de esquerda, que pensavam até em fazer um comitê em defesa da candidatura de Hillary Clinton, podem ficar tranquilos, que a chegada de um republicano ao poder nos Estados Unidos, não vai fazer piorar o que já está ruim para nós, brasileiros.

Aliás, talvez mude para melhor.

O professor Mário Maestri, é uma das pessoas que acham que até pode melhorar.

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Diz ele que “se Trump cumprir suas promessas de campanha, deverá se afastar do intervencionismo estadunidense dos democratas e estabelecer melhores relações com a Rússia”.

E quem perde então?

Para Maestri, perdem Angela Merkel e François Hollande.

E o Brasil, professor?

“Perde também o Temer, na medida em que o golpe no Brasil fez parte do grande redesenho mundial empreendido pelo imperialismo norte-americano. Quanto a Trump, ele, literalmente não sabe onde fica o Brasil”.

Isso posto, podemos dormir tranquilos?

Talvez nós, sim. Mas nem todos os latinos. Os mexicanos, por exemplo, devem estar tendo pesadelos.

Trump já disse que pretende mandar construir um muro separando os Estados Unidos do México e enviar a conta para os mexicanos pagarem.

Possivelmente foi só um discurso de campanha para agradar os trabalhadores americanos que estão perdendo seus empregos para os mexicanos clandestinos que trabalham quase de graça nos Estado.

Até mesmo porque com Hillary Clinton não seria diferente. O estoque de maldades dos presidentes americanos não respeita os partidos.

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Na América Central, as intervenções militares americanas faziam parte da rotina dos presidentes americanos, republicanos ou democratas, desde o século XIX, mas as mais marcantes delas, como o criminoso bloqueio de Cuba, em 1960 e o apoio público ao golpe militar do Brasil em 64, foram obras dos irmãos Kennedy e de Lyndon Johnson, todos do Partido Democrata.

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Um dos atos mais criminosos da Segunda Guerra Mundial, o bombardeio atômico das cidades de Hiroshima e Nagasaqui, no Japão, foi ordenado pelo democrata Harry Trumann.

A destruição quase total da cidade alemã de Dresden por um dos maiores bombardeios da história, realizado pela aviação americana e inglesa, ainda fica na conta de Roosevelt.

Presidentes democratas e republicanos, sem distinção partidária, se alternaram na busca de argumentos mentirosos para iniciarem guerras em lugares distantes dos Estados Unidos.

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Lyndon Johnson mentiu comprovadamente no chamado Incidente do Golfo de Tonkin, no Mar da China, em 1964, quando acusou o Vietnam do Norte de atacar navios americanos, para justificar o início de uma guerra que durou uma década e matou mais de 1 milhão de vietnamitas.

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Em 2003, o republicano George Busch, com a desculpa, também mentirosa, de que o Iraque armazenava armas atômicas, deflagrou um ataque contra aquele país, gerando problemas que se prolongam até hoje.

As poucas iniciativas americanas a favor da paz no mundo, também não foram exclusividade de nenhum dos dois partidos.

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Se foi Barak Obama, quem restabeleceu as relações com Cuba e apertou a mão de Raul Castro, foi Richard Nixon quem reaproximou os Estados Unidos da China Comunista, apertando a mão de Mao Tse Tung, em 1972.

Isso posto, dá ou não dá para dormir tranquilo com o futuro ocupante da Casa Branca?

Melhor não, pois como disse o Professor Maestri, “a estratégia imperialista vai ser desorganizada por algum tempo, pela opção isolacionista-protecionista de Trump, mas certamente logo vai encontrar uma nova acomodação”.

Melhor, então, permanecermos em estado de alerta porque o imperialismo não é, como dizia Mao Tse Tung, “um tigre de papel”.

Ou é?

O que você gostaria de saber sobre a Venezuela e a mídia não diz

Parece que não vai mais ter golpe na Venezuela, pelo menos por enquanto, para o desalento dos “democratas”, eufemismo sob o qual se escondem os velhos golpistas sul-americanos, sempre a serviço dos interesses imperialistas norte-americanos. A mídia comprometida terá que guardar suas manchetes sobre a desejada queda do governo bolivariano para outra oportunidade.

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Também os nossos provincianos jornalistas, defensores da “democracia representativa”, principalmente o Léo Gerchmann, de Zero Hora, cuja obsessão é ver cair o governo bolivariano da Venezuela, vão ter que esperar mais algum tempo.

A crise que atravessa a Venezuela, fruto da planejada desvalorização do preço do petróleo, base da sua economia, está sendo superada com o governo taxando os mais ricos e não os pobres como ocorre aqui no Brasil e tentando diversificar a produção interna de bens de consumo.

A Revolução Bolivariana de Hugo Chàvez, ridicularizada até mesmo por setores de esquerda no Brasil, foi uma opção radical pelos mais pobres e por isso e não porque deixou de cumprir alguns rituais aparentemente democráticos, como fizeram os parlamentos do Paraguai e Brasil ao afastar seus presidentes legítimos, é que ela está sendo ameaçada de punição.

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Contra o governo de Maduro na Venezuela, se uniram os interesses internacionais pelo petróleo venezuelano, uma mídia corrupta e golpista e a direita do país, sempre com o apoio dos Estados Unidos e da Organização dos Estados Americanos.

O atual Secretário Geral da OEA, Luis Almagro, se transformou no porta-voz de Maurício Macri, da Argentina, Horácio Cortes, do Paraguai e do indefectível Michel Temer, do Brasil, todos defensores de um impeachment contra Maduro.

Parece, como diziam os mais velhos que vão esta vez, “dar com os burros na água”, porque algumas coisas são diferentes na Venezuela do que foram no Paraguai e no Brasil.

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Basicamente porque o poder de Maduro, como herdeiro de Chàvez, se estrutura em dois sólidos pilares: o apoio da maioria da população pobre do País e a fidelidade de um exército unido.

Aqui no Brasil, até mesmo a esquerda elogiou a neutralidade do exército. Lá, o exército tomou partido a favor da legalidade e tem impedido a derrubada de um presidente legitimo.

A pá de cal nas ambições golpistas da direita parlamentar venezuelana foi a decisão do Papa Francisco de mandar uma delegação à Caracas para negociar um acordo do governo com a oposição.

Maduro definiu bem qual é hoje a posição do seu governo:

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“ Se enfrentarem, vão nos encontrar. Se quiserem diálogo, tudo bem. Se optarem pela violência, responderemos com a unidade de nossas organizações e contundência de nossas autodefesas”.

Tomara que não sejam apenas palavras, mas ações de verdade.

Nós e nossos vizinhos orientais: semelhanças e diferenças

Se existe hoje no Brasil um líder político propondo e discutindo uma forma de recuperar a importância das esquerdas no cenário nacional, este político é Tarso Genro.

Independentemente das conversações que deve estar mantendo com outras lideranças, ele tem dedicado também seu tempo para expor – sempre com muita clareza e didática– suas posições, nos espaços que dispõe hoje na mídia alternativa (principalmente o site Sul 21), já que a mídia tradicional raramente lhe abre as portas.

No seu último artigo, após uma análise realista sobre os erros que a esquerda brasileira vem cometendo sistematicamente, ele propõe um surpreendente olhar sobre a experiência política do vizinho Uruguai.

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“Depois do fracasso estrutural da política de alianças do PT, que vem desde  -pelo menos –  a metade do primeiro Governo Dilma, da continuidade das alianças pragmáticas e até mesmo sem princípios, que tanto nós – como o PCdoB –  fizemos nestas eleições municipais; da derivação vergonhosa do PSB para o campo neoliberal; depois, ainda, da falência da política “proletária” pura do PSOL, que variou desde os desejos de aliança com Marina, até demarcações permanentes para se construir “contra o PT”  – assumidas com amizades coloridas constrangedoras com a  Rede Globo – posições embaladas com promessas de “secretariados técnicos” e extinção de CCs  – depois de tudo isso –  seria bom dar uma olhada nas lições que vem do “oriente”, do Estado Oriental do Uruguai. Quem sabe seria bom se nós nos despíssemos, sem cerimônia, perante a nossa base, com vista a buscar um mínimo de unidade política e reconquistar sua confiança”.

A partir dessa avaliação inicial, Tarso analisa a construção da chamada Frente Ampla e chega a esta conclusão:

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“Depois da década de sessenta, dos duros noturnos ditatoriais e das lutas sem trégua contra a ditadura, creio que pode se dizer que a Frente Ampla é uma experiência exitosa, de como os partidos de esquerda e organizações democráticas da sociedade, forjaram uma alternativa popular e democrática, dentro da ordem, para valorizar a democracia e enfrentar a vocação totalitária do capital financeiro, que programa derrotar o Estado Social.  Nesta experiência é que o PT e os demais partidos de esquerda e democrático -progressistas – ouso dizer – deveriam se inspirar, para enfrentar os duros anos que seguem ao golpismo no Brasil e à aprovação da PEC 241. Inspiração não é cópia, mas busca de fontes para pensar o presente, de forma a que se condensem, nas suas conclusões, passado e futuro”.

Tarso não está sozinho nessa valorização da experiência uruguaia. No site Portal Vermelho, o professor e sociólogo Leujene Mirken defende a mesma posição, embora ressalte que a Frente Ampla uruguaia se tornou dominante no País, quando se unificou em torno de quatro movimentos da esquerda e extrema esquerda (Partido Comunista, Partido Socialista, Partido Operário Revolucionário e Partido da Vitória do Povo), deixando de lado os representantes do Centro e mesmo os dissidentes “blancos” e “colorados”.

Seria interessante nesse momento, comparar um pouco a realidade de Brasil e Uruguai para ver até que ponto, a experiência uruguaia poderia servir de parâmetro para nós brasileiros.

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O Uruguai é um país de cerca de 3 milhões e meios de habitantes, dos quais um terço vive em Montevidéu. A Frente Ampla ganhou em 2014 a Presidência do País pela terceira vez seguida, com Tabaré Vazques, que fez quase 1 milhão e meio de votos, o que representou 53,6% dos votos. Esse percentual é quase o mesmo que teve a Presidente Dilma, no Brasil, mas com um número absoluto de votos a seu favor superior a 50 milhões.

Tradicionalmente, a economia uruguaia sempre se apoiou na agropecuária, mas hoje 73% da sua força de trabalho se concentra em atividades comerciais e serviços, segmento onde se situam os eleitores mais informados e, portanto, teoricamente mais sensíveis ao discurso progressista da esquerda.

Segundo dados da CEPAL, enquanto com uma população de 200 milhões de habitantes no Brasil, 5,9% deles vivem no que é chamado de “pobreza extrema”(em 2005, antes do governos do PT, esse índice chegava aos inacreditáveis 36%), no Uruguai, com uma população de  3 milhões e meio de habitantes, esse índice é de 2,8%.

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Agora, uma questão histórica: a Frente Ampla uruguaia disputou sua primeira eleição em 1971, quando o processo ditatorial se acelerava no Uruguai (consumado em 1973) e dirigiu toda a sua luta contra essa ditadura, buscando principalmente o confronto armado (os Tupamaros formaram o mais importante grupo guerrilheiro da América) e só chegaram ao poder 30 anos depois.

A ditadura uruguaia, chamada ironicamente de Cívica Militar, denominação que escancara o que também aconteceu no Brasil – a união da alta burguesia com os militares – começou com um civil, Juan Maria Bordaberry, entregando o poder aos generais e terminou com um deles (Gregório Álvarez), passando o bastão para um civil, Julio Sanguinetti, do Partido Colorado em 1985.

A partir daí, começam as diferenças com o Brasil. Enquanto aqui, o PT, com Lula, depois de três derrotas sucessivas, buscou uma aliança à direita para se eleger em 2002, a Frente Ampla do Uruguai, manteve e aprofundou sua base a esquerda, mesmo com as derrotas de Liber Serigne em 89 e de Tabaré Vazques, em 94 e 99, até chegar à Presidência em 2004.

 

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A nova frente proposta por Tarso, obviamente mira a eleição de 2018, quando terão se passado 14 anos da primeira vitoriosa experiência uruguaia. Será que o mundo não mudou o suficiente para não pensarmos que ela já não tenha a força suficiente do passado.

O próprio Tarso tem seguidamente lembrado em seus artigos que uma nova forma de dominação capitalista surgiu, baseada cada vez mais na transferência de recursos dos países para um reino financeiro sem pátria, nem bandeira.

Não existe mais uma ditadura concreta a ser combatida. O que se apresenta hoje é uma nova forma de democracia, de aparência formalmente semelhante à velha democracia que todos nós almejamos, mas na realidade uma ditadura das elites financeiras mundiais, sustentada pela mídia internacional e pelas armas de um estado nacional – os Estados Unidos – que só existe para cumprir esse papel.

Não seria a hora, então de propor, ainda que apenas como tema alternativo à sempre lembrada por Tarso “radicalização da democracia”, uma proposta realmente revolucionária, enquanto ainda é tempo, como pensa Itsvan Meszaros, de que a nossa única alternativa à barbárie, é o socialismo nesse século 21.

Ou será, como disse mais de uma vez Slavoj Zizek (prometo que é a última vez que vou citá-lo) que os que defendem a democracia hoje (como os mencheviques do passado, citados por Tarso) têm medo da revolução?

crédito|Paulo Guimarães

Zizek, sempre pronto para uma provocação, diz que a melhor opção à democracia liberal de hoje é a ditadura dos pobres e dá como exemplo, a revolução bolivariana de Chàvez, à qual, apesar de reconhecer seus erros, diz que é a que mais se aproxima do conceito clássico de democracia, a de ser um governo do povo e para o povo.

Outro provocador, o filósofo francês Alain Badiou, em sua obra A Hipótese Comunismo, diz que os piores inimigos de uma revolução social são os que se dizem democratas.

Certamente não é no que acredita Tarso, quando diz que “como as utopias andam em baixa, creio que esta seja uma “utopia realista” – naquele sentido do velho Bloch – que, se não nos tira agora do isolamento e da inércia, pelo menos muda nossa atitude perante elas”.

Surpreendentemente (ou não seria nenhuma surpresa?), poucos políticos e intelectuais se interessaram em participar dessa discussão que Tarso iniciou.

Uma pena.