Conversando com o Barão de Itararé

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Em 1961, eu tinha conseguido meu primeiro emprego como jornalista: era redator auxiliar na sucursal de Porto Alegre do jornal Última Hora.

Com apenas 20 anos de idade, sonhava em escrever grandes matérias, mas naquela manhã de verão, a incumbência que recebi do secretário de redação, era procurar o Barão de Itararé, hospedado no Hotel Plaza da Senhor dos Passos, o Plazinha e pegar uma declaração dele sobre qualquer assunto.

O secretário me explicou ainda que era um pedido do Samuel Wainer, dono do jornal, mas não podia ser coisa grande, porque a sucursal tinha pouco espaço para suas matérias na edição nacional.

Lá fui eu, a pé e sem a companhia de um fotógrafo, o que era um sinal de pouco prestígio da matéria, em direção ao hotel.

O Barão, Apparíco Fernando de Brinkerhoff Torelly, com 67 anos de idade (iria morrer 4 anos depois) já estava aposentado como jornalista, político e sobretudo humorista, atividades que lhe deram fama, principalmente na década de 40.

Seu espaço como o principal humorista político do País era disputado agora por Millor Fernandes, na revista O Cruzeiro e Sérgio Porto, na Última Hora, 30 anos mais jovens. Coincidentemente, os dois também usavam apelidos para assinar seus textos, Millor, eventualmente como Emmanuel Vão Gogo, no espaço da revista chamado Pif Paf e Sérgio Porto, sempre como Stanislaw Ponte Preta, na sua inesquecível criação do FEBEAPÁ, o Festival de Besteiras que Assola o País.

Eu sabia quase toda a história do Barão. O apelido surgira como uma brincadeira. Ele dizia que como tinha muitos duques na história do Brasil, por modéstia ele ficaria com um título menor, Barão, e como era uma honraria fictícia, homenagearia uma batalha prevista, mas não acontecida na Revolução de 1930, a Batalha do Itararé.

Nascido no Rio Grande, aluno dos jesuítas em São Leopoldo e quase médico (abandonou o curso no quarto ano) começaria a se destacar no Rio de Janeiro, escrevendo uma página de humor no jornal A Manhã. Seu sucesso foi tanto, que logo a página se tornaria independente com o nome de A Manha, sem o til.

Pouco apreciado pela ditadura de Vargas, sua redação era constantemente invadida pela polícia para empastelar o jornal e bater nos jornalistas, o que levou o Barão a mandar colocar na porta este aviso para os policiais: Entre sem bater.

Em 1947, elegeu-se vereador no Rio de Janeiro pelo Partido Comunista (foi o oitavo mais votado numa bancada de 18 comunistas), com este slogan de campanha: Mais Leite. Mais água. Mas menos água no leite.

Um ano depois, junto com toda a bancada do PCB teve seu mandato cassado pelo Presidente Dutra, mas não deixou de ironizar: Um dia é da caça…outro da cassação.

Imaginando perguntar algo sobre um desses assuntos, cheguei na portaria do hotel, para ouvir da recepcionista que o Barão pedira para não ser incomodado.

Depois de muita insistência, ela concordou em ligar para o apartamento dele e me por na linha.

Gentil, o Barão explicou que estava descansando e tinha poucas coisas para dizer, mas que se eu tivesse alguma pergunta importante, poderia fazê-la pelo telefone.

Caprichando na colocação do pronome, perguntei:

– O que trouxe a Porto Alegre, Barão?

– Isso, eu posso responder pelo telefone, foi um avião da Varig.

Desconsertado com a resposta e vendo que minha missão não teria sucesso, apelei para uma chantagem explicita. Era um iniciante no jornal e se voltasse à redação sem a entrevista, certamente seria despedido.

Funcionou a estratégia. O Barão mandou subir e não só conversamos durante muito tempo, como acabamos almoçando juntos.

Naquela arrogância típica dos jovens, o achei muito repetitivo e suas histórias pouco engraçadas.

No final, outra surpresa. O Barão, talvez duvidando da minha capacidade em registrar corretamente seus comentários, propôs, ele mesmo escrever as perguntas e as respostas.

Assim, fiquei com a missão de voltar na manhã seguinte no hotel para apanhar o que o Barão escreveria durante à noite.

De fato, no dia seguinte, na portaria do hotel estava um envelope em meu nome, com dezenas de páginas escritas na letra redonda e caprichada do Barão.

Voltei para a redação para ouvir uma carraspana do secretário (Está pensando que isso é um semanário. Sai num dia e volta no outro) e escrever duas ou três laudas de texto.

No dia seguinte, lá estava o fruto de todo o meu esforço, perdido numa página interna da Última Hora:

– Barão de Itararé, em Porto Alegre, defende Fidel Castro e diz que futuro está no socialismo.

Guardei aquelas folhas com as observações do Barão e muitos anos depois, trabalhando na MPM, fui procurá-las para usá-las como textos inéditos num livro que a agência preparava como brinde de fim-de-ano.

Infelizmente, não os encontrei, por mais que os procurasse. Provavelmente teriam se perdido em alguma de minhas mudanças de residência.

O livro  saiu com o título de Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, mas sem a minha contribuição.

Em homenagem ao Barão, termino este texto reproduzindo onze (como um time de futebol) de suas frases mais célebres, que felizmente foram conservadas e permanecem sempre atuais:

– O que se leva da vida é a vida que a gente leva.

– Sábio é o homem que tem consciência da sua ignorância.

– Não é triste mudar de ideia. Triste é não ter ideia para mudar.

– De onde mais se espera, daí é que não sai nada.

– O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente, se a gente apresentar provas suficientes que não precisa do dinheiro.

– A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.

– Esse mundo é redondo, mas está ficando muito chato.

– O fígado é o maior inimigo da bebida.

– Devo tanto que se chamar alguém de “meu bem”, o banco toma.

– Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.

– Se há um idiota no poder, é porque os que o elegeram estão bem representados.

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3 pensamentos em “Conversando com o Barão de Itararé”

  1. Muito boa história, Marino!
    Faltou reproduzir o que o jornal publicou sob aquele título “fidelista”.
    Filtro típico da Última Hora de então.

    1. No exame prático de anatomia no final do primeiro ano de Medicina o professor lhe apresenta um fêmur e pergunta ao Barão:
      – O senhor conhece este osso?
      Pegando a peça na mão, o Barão respondeu:
      – Não.. muito prazer.
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      Passeando com amigos do partidão na rua da Praia, após um lauto almoço no Dona Maria um deles lhe diz:
      ” Dizem que o Sr. é o rei do trocadilho, duvido o Sr. dizer um até chegarmos a este próximo poste.
      – Então aposte – respondeu o Barão.
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      Boa lembrança do Barão. Marino.
      Me dou conta, te lendo, que a classe média da qual provinha o Barão,( e a qual pertencemos) ficou mais violenta e perdeu completamente o humor.
      Trágico, né?
      Franklin Cunha

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