A hora dos sinais

Vivemos a era da semiótica, onde não precisamos perder mais tempo para explicar o que pensamos e o que queremos.

Nada de pensar, raciocinar, explicar, basta um sinal e estamos entendidos, ainda que possamos ter nos transformados em outdoors ambulantes.

Queremos saber se eles votaram como nós nas últimas eleições?

lulasaobernardocaminhadafutura01

 

bpp20150315128
Queremos manifestar nossa indignação com o golpe que tirou a Presidenta eleita do poder?

camiseta-fora-todos-fora-temer-aecio-renan-juca-sarney-d_nq_np_149911-mlb20676138959_042016-f

Queremos que todos saibam nossas preferências sexuais?

macho_camiseta-r5b31734c10d04a379d7fa650b00c2ef9_jy599_324

 

 

 

 

 

 

 

 

o_gay_de_alspn_revela_a_camisa-re9e150e0e33d4014a360485d8a4b7e31_jyr6t_324

 

 

 

 

 

 

 

Queremos que todos saibam da nossa dor de corno?

frases-para-camisetas-femininas

Queremos que nos olhem como um revolucionário?

camisa-che-guevara-che-guevara

Queremos que vejam como somos globalizados, ainda que correndo o risco de estar cometendo alguma indiscrição sobre o nosso passado ou repetindo uma frase de propaganda com um conteúdo até mesmo fascista?

 

247-erva

 

download

 

Queremos, ao contrário, que saibam como amamos nossa terra?

xtlcxtndxfcjsg9ztloozhnciw1tblndlvjnisuc5aw5buxzgi_thumbreal_sorri_tche

 

Finalmente, queremos dizer que somos e seremos sempre colorados em qualquer hora e em qualquer série do campeonato brasileiro?

camisanova2_310714

Você está sendo usado e talvez não tenha se dado conta.

image012

Você já ouviu falar tantas vezes que vivemos num mundo globalizado; que o capitalismo financeiro, que faz a riqueza de poucos e a miséria de muitos, é ainda a melhor solução; que tudo é definitivo na repartição das riquezas da terra e que nada mais nos resta senão nos preocuparmos da nossa vida como indivíduos, sem pensar mais no restante da humanidade.

De tanto que esses argumentos são repetidos, você acaba se convencendo que esta é a realidade e pronto.

Você não pode mudar o mundo.

Então, esqueça.

Vá ao cinema, de preferência para ver um daqueles filmes produzidos com grande qualidade técnica em Hollywood (Sugestão: o Inferno, de Ron Howard, com Tom Hanks); leia um livro do Paulo Coelho e comente com os amigos como ele escreve bem; assista uma novela da Globo e independentemente da história, enalteça o padrão de qualidade das imagens; enfim, divirta-se no FACEBOOK com seus amigos (e alguns inimigos) virtuais.

Fazendo isso, você está ajudando a consolidar esse mundo globalizado, no qual, 1% dos ricos, detém 50% da renda, sobrando os outros 50% para serem divididos em 99% dos pobres, onde, sem qualquer dúvida, nós – você e eu – estamos incluídos.

piketty_capital

Quem dá estes números é Thomaz Piketty, no seu livro O Capital no século XXI.

 

 

 

Depois, podemos falar um pouco mais do livro, mas vamos voltar agora ao FACEBOOK.

Quando Marx escreveu O Capital, a versão original, não poderia imaginar que o capitalismo chegaria a esse grau de evolução. A sua tese central, de que o capitalismo cresce através do lucro originário da mais valia, o trabalho não pago aos operários, continua verdadeira, mas ficou muito mais difícil de ser explicada.

poster-karl-marx-friedrich-engels-e-lenin-original1

O trabalhador, o operário da fábrica , aquele revolucionário que Marx, Engels e depois Lenin, viam no final do século XIX e no início do século XX, existe hoje apenas nas grandes unidades de produção que o tal capitalismo globalizado espalhou pela Ásia principalmente. São os chamados países de mão de obra barata, eufemismo para trabalho escravo.

O que vemos hoje, são trabalhadores, que não acreditam nas lutas de classe; que não se consideram mais operários, porque vivem dispersos por pequenas unidades operacionais, alguns mesmo produzindo sem sair de casa, sem quaisquer vínculos com os demais trabalhadores, e – o que é mais perturbador – são trabalhadores com uma nova ideologia, a da classe dominante.

Se consideram integrantes de uma porosa classe média e introjetaram em si os valores que os poderosos (aquele 1% , citado antes) dizem ser universais: democracia, meritocracia, etc e tal) e jamais – e isso é fundamental – não se julgam vítimas da exploração social do sistema capitalista.

Pelo contrário, falam que são anticomunistas e esperam, com sinceridade, pelo seu esforço, inteligência e dedicação, chegarem, senão naqueles um por cento dos infinitamente ricos, pelo menos bem perto.

Segundo Piketty, este é um sonho cada vez mais improvável, porque passado aqueles chamados “30 anos gloriosos” de 1960 a 1975, quando o capitalismo cresceu extraordinariamente e suas migalhas caíram da mesa e iludiram os que ainda hoje sonham com o chamado “estado do bem estar social”, o milagre terminou.

Há muito, ainda de acordo com Piketty, o chamado sistema democrático, meritocrático e igualitário, acabou.

Mas, vamos voltar mais uma vez ao FACEBOOK para dar um pequeno exemplo de como o sistema capitalista funciona hoje na sua área mais moderna, quase futurista, a da internet.

f_icon-svg

FACEBOOK, a maior rede social do mundo, carreou para a empresa de Mark Zuckerberg, só nos primeiros 9 meses de 2016, 6 bilhões de dólares em anúncios. Ao nos associarmos ao FACEBOOK, revelamos uma série de informações sobre nossa vida pessoal (são 1 bilhão e 800 milhões de usuários ativos no mundo inteiro) que vão formar um imenso banco de dados, vendidos para anunciantes. O irônico é que ao se registrar como participante da rede você é informado que o FACEBOOK é gratuito e sempre será, quando é você que cede gratuitamente para a rede a mercadoria mais valiosa hoje, seus dados pessoais.

Assim não se surpreenda mais e fique se perguntando como é que eles sabem que estou pensando em viajar para Moscou e ficam oferecendo pacotes turísticos com as maravilhas da Rússia?

Eles sabem tudo a seu respeito, mais até que você imagina.

Como isso vai acabar?

livro-de-piketty-teve-forte-repercussao

Para Piketty, no seu livro, a solução seria um rearranjo do capitalismo, com um imposto progressivo, quase um confisco das maiores riquezas.

Como ele não é um pensador da esquerda, ele mesmo criticando o modelo capitalista, não vê outra alternativa do que agir sobre os impostos, embora reconheça que seja uma solução muito difícil de ser viabilizada.

Seria aquela velha alternativa de dar os anéis para preservar os dedos e a essência do capitalismo é querer cada vez mais, mesmo que isso possa trazer a sua destruição.

_b3ee5d1dbe3128f9470dd8c2601a218dff13ed04

 

 

Para István Meszáros, as alternativas são outras nesse século XXI

Socialismo ou barbárie.

Em homenagem a Fidel

fidel-castro-wikimedia

Ao chegar ao poder em 1959, Fidel Castro parecia ser mais um desses caudilhos latinos americanos que se erguem em armas para derrotar as oligarquias que se apossaram dos destinos de suas pátrias e que mal chegam ao governo, reproduzem essas práticas.

A simpatia que cercava os jovens barbudos de Sierra Maestra, logo começou a se desfazer entre os democratas liberais, que os apoiaram inicialmente, quando varreram de Havana a máfia corrupta que transformaram o País num grande prostíbulo e se começaram a criar, a pouco mais de 100 quilômetros de Miami, um país que não aceitava mais a condição de colônia norte-americana.

Fidel Castro não pretendia reproduzir em Cuba o modelo de democracia representativa europeia, que muitos dos seus apoiadores iniciais, como Jean Paul Sartre por exemplo, defendiam que deveria seu objetivo e deixou isso logo claro, quando levou para o “paredón” os acusados de crimes contra a humanidade e prática de torturas durante o regime de Fulgência Batista.

Embora só em 1976, Cuba tenha inscrito em sua Constituição que era uma república socialista, desde o início Fidel e seus companheiros imaginaram que poderiam desenvolver na Ilha um sistema socioeconômico à margem do capitalismo, o que provocou desde logo a reação americana

“É isso que eles não podem nos perdoar, que estejamos aqui, sob seus narizes, e que tenhamos feito uma revolução socialista debaixo dos narizes dos Estados Unidos” disse Fidel

O aprofundamento do caráter socialista da revolução cubana – o que de certa forma não estava incluído nos manuais marxistas – só foi possível porque a conjunção internacional no início da década 60, com o crescimento do poderio econômico e militar da União Soviética, assim o permitiu.

Apesar disso, o apoio soviético nunca foi pleno e de certa forma atendia mais os interesses dos russos do que dos cubanos.

Em 1962, quando da crise dos misseis, Nikita Kruchiov negociou o desmantelamento da base soviética em Cuba em troca da retirada dos foguetes norte-americanos da Turquia.

Cuba, no caso, foi mais uma peça no xadrez da guerra fria, e Kruchiov, como já tinha feito Stalin durante a guerra civil espanhola, enterrava mais uma vez a ideia da solidariedade internacional dos povos, em troca da preservação da experiência do chamado socialismo real na União Soviética.

Mesmo sem o apoio integral dos soviéticos, Cuba continuou tentando construir o seu modelo de socialismo, que ainda não sendo aquele sonhado por Marx, Lenin e Trotsky, se tornaria um modelo para as esquerdas latino-americanos.

Como disse uma vez Fidel, comparando seu Pais com os demais da América Latina:

“Em vez de nos agredirem, como nos agridem, por que é que não fazem simplesmente uma pergunta: como é possível que Cuba em 30 anos tenha feito o que a América Latina não fez em 200 anos”.

E mais adiante, lembrando como Cuba trata a sua infância em comparação com outros países: “Esta noite milhões de crianças dormirão na rua, mas nenhuma delas é cubana”

Essa é a grande diferença de Fidel dos outros líderes latino-americanas, que em algum momento da história dos seus países, tentaram desenvolver um modelo político à margem do imperialismo.

Foi o caso de Allende, no Chile, derrubado por um golpe militar em 1973, de Lula, no Brasil; de Lugo, no Paraguai; de Correa, no Equador; de Morales, na Bolívia e até mesmo o casal Kirchner, na Argentina, que avançaram em conquistas sociais para os mais pobres, mas que

jamais contestaram o regime capitalista.

Quem mais avançou nesse caminho, foi Chávez, na Venezuela, que mesmo assim precisou usar o adjetivo de “bolivariano” para o seu movimento e não socialista, talvez até mesmo para preservar seu regime.

Esse parece ser o grande problema dos líderes da esquerda latino-americana, que sonham com um socialismo democrático à lá europeia e não dão o passo seguinte rumo ao rompimento com o modelo capitalista.

Slavoj Zizek disse que os políticos que mais temem uma revolução socialista de verdade, são os socialistas democratas.

Istaván Meszaros foi mais preciso na análise dessa política de conciliação, em seu livro Atualidade Histórica da Ofensiva Socialista.

“O discurso político tradicional geralmente proclama o sistema parlamentar como o centro de referência necessário de toda mudança legítima. A crítica só é admissível em relação a alguns detalhes menores, visando corretivos potenciais, que apenas remenda até certo ponto a estrutura da política parlamentar estabelecida, mesmo quando se torna impossível negar sua vacuidade, deixando inalterado o próprio processo estruturalmente arraigado de tomada de decisões”.

Com a morte de Fidel Castro, desaparece o único personagem da história política da América Latina que teve a coragem de tentar fazer uma verdadeira revolução socialista

Em sua homenagem, nada melhor do que reproduzir um texto de Eduardo Galeano a seu respeito, mesmo que ele já esteja registrado em outro espaço desse site:

“Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade.
E nisso seus inimigos têm razão.

Seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo.
E nisso seus inimigos têm razão

Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes.
E nisso seus inimigos têm razão.

Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História, que abriu o peito para as balas quando veio a invasão, que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão, que sobreviveu a 637 atentados, que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus que essa nova pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.

E seus inimigos não dizem que Cuba é um raro país que não compete na Copa Mundial do Capacho.

E não dizem que essa revolução, crescida no castigo, é o que pôde ser e não o quis ser. Nem dizem que em grande medida o muro entre o desejo e a realidade foi se fazendo mais alto e mais largo graças ao bloqueio imperial, que afogou o desenvolvimento da democracia a la cubana, obrigou a militarização da sociedade e outorgou à burocracia, que para cada solução tem um problema, os argumentos que necessitava para se justificar e perpetuar.

E não dizem que apesar de todos os pesares, apesar das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida, mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.

E seus inimigos não dizem que essa façanha foi obra do sacrifício de seu povo, mas também foi obra da pertinaz vontade e do antiquado sentido de honra desse cavalheiro que sempre se bateu pelos perdedores, como um certo Dom Quixote, seu famoso colega dos campos de batalha”.

Os excessos da Justiça

10432759

O bancário Ricardo Neis foi condenado a quase 13 anos de prisão em regime fechado, acusado de atropelar um grupo de ciclistas em fevereiro de 2011, à noite, no cruzamento das ruas José do Patrocínio com República.

Não houve ferimentos graves, muito menos mortes, entre os ciclistas atingidos.

Arriscando críticas dos politicamente corretos e desagradando profundamente minha especial amiga Vanessa Melgaré, que sempre apoiou o movimento dos ciclistas de Porto Alegre, vou dizer que acho um absurdo atribuir uma pena tão grande para alguém, que pode ter sido negligente, até irresponsável, mas que não agiu com dolo no sentido de ferir alguém.

O que sobraria então para aqueles play boys que faziam racha na Avenida 24 de Outubro e causaram ferimentos graves numa mulher junto ao Parcão?

Obviamente havia toda uma corrente de opinião pública que  condenava de antemão o bancário e deve ter influenciado o júri.  São pessoas que confundem a luta de classes com sentimentos individuais de raiva contra alguém aparentemente mais rico.

Azar do réu que enfrentou um julgamento como este, onde as opiniões foram previamente formadas pela mídia. Some-se a isso uma série de elementos contrários à sua defesa para entendermos a enormidade da pena.

Primeiro, a expectativa da sociedade, assustada com o aumento da violência e disposta a inverter aquela famosa frase latina “in dubio pro reo”, cuja leitura passa a ser, na dúvida, contra o réu.

Segundo a fúria condenatória dos jurados que querem meter todo mundo na cadeia, ainda que, com o perdão da palavra, as cadeias estejam botando pelo ladrão.

Terceiro: enquanto a promotoria dispõe de todas as informações sobre os jurados e testemunhas, através do acesso às consultas integradas da polícia, a defesa conhece na hora quem vão ser os julgadores.

Quarto: no caso específico do julgamento do bancário, uma das juradas caiu em sono profundo no momento que o réu estava expondo suas razões. Obviamente, essa jurada já tinha feito sua escolha e não estava interessada em ouvir a defesa.

Nunca tive bicicleta e hoje não tenho também carro, mas posso entender o sentimento de pânico de uma pessoa fechada dentro de um carro, cercada por dezenas de ciclistas, nem todos com atitudes amistosas.

Seria interessante que os seus acusadores se colocassem no lugar do motorista assediado, por alguns momentos, para entender o que deveria estar passando na sua cabeça naquela ocasião.

Vamos concordar que ele estava dentro de um carro numa posição menos vulnerável que os ciclistas, mas nada me impede de pensar que 30 homens e mulheres que cercavam o carro, estavam também numa posição numericamente muito mais forte do que o motorista sozinho.

Quem anda pelas ruas de Porto Alegre sabe que nem todos os ciclistas são santos e nem todos os motoristas são demônios.

Apesar dos quilômetros de ciclovias já construídos pela cidade, nada mais comum do que ver ciclistas rodando pelas calçadas e ameaçando a segurança dos pedestres.

Sou contra qualquer violência no trânsito parta ela de motoristas, ciclistas e até mesmo pedestres, mas continuo achando uma demasia a condenação do bancário e não vou deixar de pensar assim, porque, como disse uma vez o Millôr Fernandes, livre pensar é só pensar.

Um poema e vários autores

 

martin-niemoller-4

Quando foi libertado do campo de concentração de Dachau, o pastor protestante Martin Niemöller publicou o seu famoso poema de crítica à alienação política dos alemães, principalmente a sua, que permitiu a consolidação do regime nazista.

Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista.

Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata.

Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista.

Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu.

Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”

Niemöller foi combatente na marinha alemã, durante a primeira guerra, chegando ao posto de comandante de submarinos, recebendo inclusive a Cruz de Ferro pelo seu heroísmo em combate.

Desmobilizado após a guerra, uniu-se ao grupo fascista dos Freikorps, durante a República de Weimar e apoiou decididamente à luta dos nacionais-socialistas de Hitler para chegar ao poder. Depois de estudar teologia, foi ordenado pastor para uma igreja protestante em Berlim, em 1931.

bandeira-dos-cristaos-alemaes

Simpatizante confesso de Hitler e ainda fortemente antissemita, Niemöller começou a se confrontar com os nazistas, quando eles tentaram criar a Igreja Protestante do Reich, reunindo os chamados Cristãos Germânicos e eliminando as menções aos judeus feitas na Bíblia.

As diferenças teológicas entre Niemöller e os nazistas se transformaram numa ruptura quando ele passou liderar a chamada Igreja Confessional, que se proclamava sujeita apenas a Jesus Cristo e o Evangelho e não ao Partido Nazista.

Em 1937 foi preso, acusado de ameaçar a paz pública, mas só seria julgado 7 meses depois, quando foi condenado por um tribunal a uma pena equivalente à prisão preventiva que cumprira e por isso mesmo foi libertado

No mesmo dia, por ordem pessoal de Hitler foi preso novamente e conduzido para o campo de concentração de Sachenhausen e mais tarde de Dachau, de onde só sairia no final da guerra.

Foi em Dachau, onde teve contato direto com outros prisioneiros judeus, que abandonou em definitivo o seu antissemitismo, sentimento expresso no seu famoso poema.

brecht

 

O poema serviria de inspiração para Bertold Brecht (1848/1956), o grande teatrólogo alemão, exilado desde 1933 em vários países europeus e finalmente nos Estados Unidos, fazer uma releitura do poema de Niemöller, dando-lhe uma conotação mais política.

 

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro.
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei.
Agora estão me levando.
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo

 Em 1964, quando a ditadura militar se instaurou no Brasil e as perseguições políticas começaram, o poeta cearense Eduardo Alves da Costa, então um estudante adversário do golpe, publicou um poema, provavelmente inspirado em suas leituras de Brecht.

eduardo-alves-da-costa1

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada”.

Ao denominar seu poema de “No Caminho com Maiakovski”, Eduardo deu início a uma grande confusão.

Até hoje muitas pessoas pensam que o poeta russo Vladimir Maiokovski (1893/1930) seria autor do poema que iria inspirar Niemöller e depois Brecht, quando na verdade foram os dois alemães (o pastor e o dramaturgo) que inspiraram o poeta cearense.

O russo, grande poeta, nada teve a ver com o famoso poema.

Maiakovski, apesar de ter apoiado decididamente Revolução Soviética, não buscava, normalmente, inspiração em questões políticas.

poemas_e_poesias_de_vladimir_maiakovski

Elas eram outras:

“O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites.
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano”.

O homem calamidade

download-2

Em 2.014, José Ivo Sartori ganhou de Tarso Genro, no segundo turno das eleições para o Governo do Estado, somando 3 milhões e 800 mil votos, contra 2 milhões e meio, aproximadamente, do seu oponente.

Como Sartori tinha feito 2 milhões e 400 mil votos no primeiro turno e Ana Amélia Lemos, a terceira colocada,  1 milhão e 350 mil votos, obviamente a vitória no segundo turno se deu com a soma dessas duas votações.

Uma análise desses números, mostra que existiu uma divisão nítida entre os eleitores gaúchos da esquerda e da direita, comprovada pela radicalização dos debates no segundo turno.

Historicamente, o eleitorado gaúcho sempre se dividiu em dois grupos antagônicos, que se revezaram nas vitórias eleitorais. De um lado, a esquerda, representada sucessivamente pelo PTB, MDB, PDT e mais tarde, o PT. Do outro, à direita, com a Arena, PSD (hoje, PP) e PMDB.

As vitórias eleitorais de um ou de outro lado, sempre por escassas maiorias, eram frutos de decepções com o governo que terminava seu mandato, ou devido a causas fortuitas e passageiras.

Na eleição de Rigotto e agora de Sartori, quando a diferença para o perdedor do segundo turno, foi bem alentada, um novo fenômeno parece ter surgido: a repulsa do eleitorado à discussão política.

Na eleição de Rigotto, quando os dois favoritos – Britto e Tarso – se digladiavam com uma ampla defesa de suas ideologias – direita x esquerda – o vencedor foi quem se recusou a assumir qualquer posição.

A lição foi aprendida por Sartori que usou a mesma estratégia, só que levada ao extremo. Seu slogan de campanha – Meu Partido é o Rio Grande – teve uma forte conotação fascista, na medida que condenava as ações dos partidos, que pelo menos teoricamente, deveriam representar interesses opostos dos segmentos sociais de que se compõem a população gaúcha, em nome de uma falsa identificação de objetivos comuns.

Os votos que levaram Sartori ao Piratini não vieram apenas dos setores mais reacionários da sociedade e nem só daqueles que teriam a ganhar com sua eleição (empresariado e a classe média alta), mas uma boa parcela da população, que hoje está sendo diretamente prejudicada pelas medidas do seu chamado “pacote calamidade”.

Funcionários públicos, policiais, brigadianos, bancários e até mesmo professores, devem ter votado em Sartori e agora são os que terão a conta mais alta para pagar pelo equívoco.

Fala-se muito na interferência econômica nas eleições, o que é uma verdade, mas não se dá o peso merecido a ação deletéria dos meios de comunicação, no sentido de criar uma imagem positiva ou negativa para um dos candidatos.

Ao contrário dos financiamentos dos empresários aos candidatos que vão representá-los depois e que se esgotam terminada a disputa eleitoral ou se transformam em propinas para os eleitos, a ação dos meios de comunicação é permanente.

No caso do Rio Grande, a sistemática campanha de críticas da RBS, que domina a mídia local, no sentido de descontruir uma imagem do PT, foi fundamental para a vitória de Sartori.

O seu nefasto governo, administrado por políticos medíocres e incompetentes, não recebe uma repulsa ainda maior da população, porque é amparado e justificado pelo jornalistas e veículos que compõem o grupo da RBS, como está se vendo agora, quando Sartori assumiu publicamente a sua incapacidade como gestor da coisa pública.

Uma boa parcela da população gaúcha que votou em Sartori e agora vai ser diretamente prejudicada, está aprendendo dolorosamente, que um discurso apolítico ( do tipo Meu Partido é o Rio Grande) só interessa aos ricos e poderosos.

A sua neutralidade é apenas aparente. Na prática, ele é um discurso político. Não admitir que não existe um Rio Grande igual para todos, é uma forma de justificar uma divisão social injusta de classes.

Aos pobres e oprimidos, interessa a radicalização da discussão política porque o Rio Grande é uma abstração e o que existem no Estado são classes sociais com interesses quase sempre opostos.

 

Conversando com o Barão de Itararé

download-1

Em 1961, eu tinha conseguido meu primeiro emprego como jornalista: era redator auxiliar na sucursal de Porto Alegre do jornal Última Hora.

Com apenas 20 anos de idade, sonhava em escrever grandes matérias, mas naquela manhã de verão, a incumbência que recebi do secretário de redação, era procurar o Barão de Itararé, hospedado no Hotel Plaza da Senhor dos Passos, o Plazinha e pegar uma declaração dele sobre qualquer assunto.

O secretário me explicou ainda que era um pedido do Samuel Wainer, dono do jornal, mas não podia ser coisa grande, porque a sucursal tinha pouco espaço para suas matérias na edição nacional.

Lá fui eu, a pé e sem a companhia de um fotógrafo, o que era um sinal de pouco prestígio da matéria, em direção ao hotel.

O Barão, Apparíco Fernando de Brinkerhoff Torelly, com 67 anos de idade (iria morrer 4 anos depois) já estava aposentado como jornalista, político e sobretudo humorista, atividades que lhe deram fama, principalmente na década de 40.

Seu espaço como o principal humorista político do País era disputado agora por Millor Fernandes, na revista O Cruzeiro e Sérgio Porto, na Última Hora, 30 anos mais jovens. Coincidentemente, os dois também usavam apelidos para assinar seus textos, Millor, eventualmente como Emmanuel Vão Gogo, no espaço da revista chamado Pif Paf e Sérgio Porto, sempre como Stanislaw Ponte Preta, na sua inesquecível criação do FEBEAPÁ, o Festival de Besteiras que Assola o País.

Eu sabia quase toda a história do Barão. O apelido surgira como uma brincadeira. Ele dizia que como tinha muitos duques na história do Brasil, por modéstia ele ficaria com um título menor, Barão, e como era uma honraria fictícia, homenagearia uma batalha prevista, mas não acontecida na Revolução de 1930, a Batalha do Itararé.

Nascido no Rio Grande, aluno dos jesuítas em São Leopoldo e quase médico (abandonou o curso no quarto ano) começaria a se destacar no Rio de Janeiro, escrevendo uma página de humor no jornal A Manhã. Seu sucesso foi tanto, que logo a página se tornaria independente com o nome de A Manha, sem o til.

Pouco apreciado pela ditadura de Vargas, sua redação era constantemente invadida pela polícia para empastelar o jornal e bater nos jornalistas, o que levou o Barão a mandar colocar na porta este aviso para os policiais: Entre sem bater.

Em 1947, elegeu-se vereador no Rio de Janeiro pelo Partido Comunista (foi o oitavo mais votado numa bancada de 18 comunistas), com este slogan de campanha: Mais Leite. Mais água. Mas menos água no leite.

Um ano depois, junto com toda a bancada do PCB teve seu mandato cassado pelo Presidente Dutra, mas não deixou de ironizar: Um dia é da caça…outro da cassação.

Imaginando perguntar algo sobre um desses assuntos, cheguei na portaria do hotel, para ouvir da recepcionista que o Barão pedira para não ser incomodado.

Depois de muita insistência, ela concordou em ligar para o apartamento dele e me por na linha.

Gentil, o Barão explicou que estava descansando e tinha poucas coisas para dizer, mas que se eu tivesse alguma pergunta importante, poderia fazê-la pelo telefone.

Caprichando na colocação do pronome, perguntei:

– O que trouxe a Porto Alegre, Barão?

– Isso, eu posso responder pelo telefone, foi um avião da Varig.

Desconsertado com a resposta e vendo que minha missão não teria sucesso, apelei para uma chantagem explicita. Era um iniciante no jornal e se voltasse à redação sem a entrevista, certamente seria despedido.

Funcionou a estratégia. O Barão mandou subir e não só conversamos durante muito tempo, como acabamos almoçando juntos.

Naquela arrogância típica dos jovens, o achei muito repetitivo e suas histórias pouco engraçadas.

No final, outra surpresa. O Barão, talvez duvidando da minha capacidade em registrar corretamente seus comentários, propôs, ele mesmo escrever as perguntas e as respostas.

Assim, fiquei com a missão de voltar na manhã seguinte no hotel para apanhar o que o Barão escreveria durante à noite.

De fato, no dia seguinte, na portaria do hotel estava um envelope em meu nome, com dezenas de páginas escritas na letra redonda e caprichada do Barão.

Voltei para a redação para ouvir uma carraspana do secretário (Está pensando que isso é um semanário. Sai num dia e volta no outro) e escrever duas ou três laudas de texto.

No dia seguinte, lá estava o fruto de todo o meu esforço, perdido numa página interna da Última Hora:

– Barão de Itararé, em Porto Alegre, defende Fidel Castro e diz que futuro está no socialismo.

Guardei aquelas folhas com as observações do Barão e muitos anos depois, trabalhando na MPM, fui procurá-las para usá-las como textos inéditos num livro que a agência preparava como brinde de fim-de-ano.

Infelizmente, não os encontrei, por mais que os procurasse. Provavelmente teriam se perdido em alguma de minhas mudanças de residência.

O livro  saiu com o título de Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, mas sem a minha contribuição.

Em homenagem ao Barão, termino este texto reproduzindo onze (como um time de futebol) de suas frases mais célebres, que felizmente foram conservadas e permanecem sempre atuais:

– O que se leva da vida é a vida que a gente leva.

– Sábio é o homem que tem consciência da sua ignorância.

– Não é triste mudar de ideia. Triste é não ter ideia para mudar.

– De onde mais se espera, daí é que não sai nada.

– O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente, se a gente apresentar provas suficientes que não precisa do dinheiro.

– A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.

– Esse mundo é redondo, mas está ficando muito chato.

– O fígado é o maior inimigo da bebida.

– Devo tanto que se chamar alguém de “meu bem”, o banco toma.

– Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.

– Se há um idiota no poder, é porque os que o elegeram estão bem representados.

barao-de-itarare

O eleitor de Trump nasceu no cinema

um-dia-de-furia-bluray-720p-1993-dublado-download-torrent

Em 1993, Joel Schumacher identificou aquele que seria, 23 anos depois, o eleitor típico de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas.

Mas, quem é Joel Schumacher e como ele fez isso?

Até hoje em atividades, Schumacher é um diretor de cinema norte americano, adepto de uma linguagem cinematográfica rude, direta e um tanto quanto permeada por ideias, diríamos assim na falta de um qualificativo melhor, patrióticas.

665

Seus filmes mais conhecidos são o Cliente, com Susan Sarandon e Tommy Lee Jones e Batman Eternamente (Batman Forever) com Val Kilmer, mas foi em Um Dia de Fúria (Falling Down), com Michael Douglas e Robert Duvall, que Schumacher faz seu melhor trabalho e mesmo sem querer, traçou o perfil psicológico daquele que seria o eleitor típico de Trump em 2016.

Michael Douglas faz no filme o papel de William Foster, um homem branco, de meia idade, estressado, que está desempregado, em processo de divórcio e que neste dia de fúria, está impedido por decisão judicial de visitar a filha no seu aniversário.

O filme começa com o personagem preso num enorme engarrafamento dentro de um túnel, criando um clima de claustrofobia, que, de certa forma vai acompanhá-lo até o final.

Abandonando o carro, Foster vai partir sozinho numa caminhada por uma cidade, que nem de longe lembra aquelas que o cinema sempre mostrou como típicas dos Estados Unidos.

Nesse percurso, como um Ulisses, da Odisseia de Homero, ele vai enfrentado mil perigos na tentativa frustrada de voltar ao seu lar.

A saga que o cinema americano criou com seus filmes de caubóis, tem agora uma leitura diferente na identificação dos inimigos.

Em vez dos índios e dos bandidos do passado, ele agora vai   extirpando na sua caminhada, aquilo que para os wasp – o acrônimo para branco, anglo-saxão e protestante- têm sido a perdição dos Estados Unidos: os imigrantes, os delinquentes juvenis e o consumismo irresponsável, estimulado pela propaganda sempre enganosa.

falling-down-5-1

As cenas em que destrói uma pequena loja de um imigrante coreano, porque ele pratica preços abusivos e não consegue se expressar corretamente em inglês e na que apavora os representantes da classe média americana num fast food, são antológicas.

Na época, Schumacher estava mostrando ao mundo um novo tipo de cidadão americano, bem diferente daquele que o cinema apresentava até então, vivendo sempre uma idílica “american way life”

Esse americano, que as recentes eleições mostraram que hoje predomina no País, é um fascista em potencial, ressentido com as injustiças do sistema, do qual diz ser vítima e que atribui às causas externas, quase sempre os outros, seus problemas.

Quando os críticos execraram o filme por glorificar as transgressões da lei, Kirk Douglas, na época mais famoso ainda que seu filho, foi à imprensa para defender o trabalho: “o personagem de Michael não é o herói, nem o mais novo ícone urbano. Ele é o vilão e é também a vítima. São muitos os elementos da nossa sociedade que contribuíram para a sua loucura”

A Korean American Coalition, uma associação de defesa dos imigrantes coreanos, protestou pelo tratamento que o filme das minorias e a Warner Brothers cancelou o lançamento do filme na Coréia do Sul após ameaças de boicote.

(Nesse último fim de semana uma notícia sobre a suposta morte de Schumacher apareceu no facebook, no dia 19, mas já foi desmentida como mais um trote que seguidamente aparecem nas redes sociais sobre pessoas famosas)

Quem será o candidato da Lava Jato em 2018?

maxresdefault

A Lava Jato é a mais coerente, organizada e eficiente campanha de assalto ao poder que o Brasil viu nas últimas décadas.

Provavelmente, este conluio de Procuradores da Justiça Federal e agentes da Polícia Federal na perseguição a possíveis corruptos e corruptores, teria se esgotado na esfera jurídica, senão aparecesse um juiz, suficientemente informado e audacioso, para transformar esses casos policiais no grande divisor de águas na política brasileira.

A partir da Lava Jato, o foco das discussões políticas, que se centrava, até então, em questões fundamentais como a democratização das instituições, formas de desenvolvimento do país, o combate à pobreza e outros grandes temas institucionais em que se dividiam os políticos e partidos, se concentrou de forma maniqueísta numa só opção: quem é a favor ou contra a corrupção.

Essa única e exclusiva questão, sobre a qual discutem quase em tempo integral a população, a mídia e os políticos, tem um poder decisório singular, o juiz Sérgio Moro.

Ao transferir os casos de corrupção para a esfera política, a Lava Jato e seus condutores, se deram conta de que têm todas as armas na mão para interferir diretamente nas eleições presidenciais, agindo acima dos partidos e da vontade popular.

Esse quadro assustador ganhou contornos mais claros a partir do momento em que os partidos se preparam para a disputa de 2018.

A dúvida hoje é qual o candidato de preferência da Lava Jato.

Caso a eleição se transforme num plebiscito entre esquerda e direita, parece claro que ela usará seu arsenal de armas jurídicas (prisões preventivas, busca e apreensão de documentos, depoimentos coercitivos, grampos eletrônicos e vazamentos seletivos para a imprensa) para desestabilizar a esquerda, seja qual for seu candidato.

O principal nome da esquerda, o ex-presidente Lula, embora conserve intata boa parte de sua popularidade, jamais será aceito pela Lava Jato, que irá manter sobre ele, de forma permanente a Espada de Dâmocles (definição do Gogle: uma expressão que significa perigo iminente) pronta para cortar sua cabeça se o PT investir em sua candidatura.

Contra Lula, se aplica aquela velha assertiva de Carlos Lacerda sobre Getúlio Vargas: “não pode ser candidato; se for, não pode ganhar: se ganhar, não pode assumir: se assumir, precisa ser derrubado”

Outra opção seria o ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, já lançado candidato pelo PDT, mas que para se viabilizar, dependeria de um apoio do PCdoB e fundamentalmente, do PT. Embora tenha simpatias das correntes gaúchas do partido, o núcleo dirigente em São Paulo dificilmente abriria mão de um candidato próprio, dividindo mais uma vez a esquerda.

O PSOL certamente terá candidato próprio (quem sabe Luciana Genro, de excelente desempenho nos debates de 2014?) para ajudar na consolidação do partido.

Ou seja, aparentemente a esquerda tem poucas possibilidades de chegar ao poder em 2018, mantendo-se as atuais tendências políticas.

E quem será o candidato da Lava Jato?

Embora alguns até imaginem que o próprio Sérgio Moro possa ser o candidato, certamente ele não estará disposto a enfrentar um debate eleitoral despido das garantias e do poder que tem hoje.

Para limpar o terreno para um candidato da direita que represente sua visão da política, os representantes da “República de Curitiba” precisam primeiro afastar Michel Temer, que como se viu na entrevista da Roda Viva, está totalmente dedicado a construir sua candidatura.

As denúncias seletivas da Lava Jato, que destroçaram o PT, se voltam agora contra o PMDB, com o amplo apoio da mídia, e devem corroer as lideranças do partido, podendo chegar – se for necessário – até ao próprio Temer.

A partir daí, restariam duas opções nas quais a Lava Jato,  como grande força de manipulação política, poderia investir: um candidato saído do PSDB, até agora totalmente poupado pelas investigações, embora tenha ficado claro que o processo de corrupção na Petrobrás começou no governo tucano de Fernando Henrique, o que representaria uma opção de centro direita, mas ainda formalmente democrática ou, na opção mais radical, um candidato da extrema direita, tipo Bolsonaro, que seria um passo em direção ao fascismo explicito.

Essa decisão representa um grande teste para o poder da Lava Jato.

Até agora ela se sustenta no apoio total da mídia e de uma parte da população, formada basicamente por uma classe média ressentida contra os ricos e alienada politicamente.

A opção pelo PSDB, com seus indefectíveis Aécio, Alckmin ou Serra, embora tenha a simpatia do capital internacional, dos grandes empresários e da mídia, dificilmente poderia ser aceita pelos eleitores como um voto na honestidade e na renovação de costumes, que a Lava Jato diz defender.

A opção por um candidato como Bolsonaro, poderia mobilizar políticos e eleitores ligados às igrejas pentecostais, mas certamente não seria de agrado da mídia, principalmente a Rede Globo, nem do empresariado que não gosta de radicais espalhafatosos, experiência que teve com Fernando Collor.

Não é de todo errado, também, especular que as duas principais estrelas da Lava Jato, o juiz Moro e o procurador Dalagnol, possam, nessa hora decisiva, seguir por caminhos diferentes, o juiz optando pelo PSDB, numa linha mais conservadora e o procurador, por um caminho mais radical, com Bolsonaro.

Vamos, então, continuar de olho no partido da Lava Jato.

A violência institucionalizada

download

As  recentes prisões dos ex-governadores cariocas, Anthony Garotinho e Sérgio Cabral serviram para retomar uma importante discussão sobre os limites da justiça e o direito das pessoas acusados de algum delito.

É altamente preocupante que duas pessoas, que mal ou bem foram eleitas pela população para o mais alto cargo do estado, possam ser submetidas à uma humilhação pública sem qualquer justificativa, comportamento que não se espera que autoridades usem contra qualquer pessoa, seja ela culpada ou não de algum crime.

Não se trata obviamente de defender políticos que, a tudo indica nunca tiveram um comportamento eticamente correto, mas sim a de um princípio de respeito a um conceito fundamental de justiça, o de que todas as pessoas são inocentes até prova em contrário e não podem ser expostas à uma condenação prévia.

Em entrevista ao Sul 21, o jurista Wadih Damous, ex-presidente da OAB do Rio de Janeiro e hoje deputado federal, disse o óbvio: “Qualquer pessoa, da Madre Teresa de Calcutá ao mais vil dos criminosos, todos têm direito ao devido processo legal. No caso do Sérgio Cabral há uma enxurrada de informações, mas só se dá voz à acusação. O processo nem se iniciou ainda, não há uma denúncia contra ele.

wadih-damous-2

O que está acontecendo é que esse negócio de prisão preventiva se tornou um padrão. Primeiro, se prende. Depois, se monta o processo. Do meu ponto de vista, isso fere a Constituição”.

Por trás da operação Lava Jato, independentemente de que tenha tido o mérito de levantar os processos de corrupção na Petrobrás, existe um evidente viés político de criminalização, não de políticos, mas da política como um todo.

As declarações de alguns das suas principais figuras, principalmente do procurador Delton Dalagnol, apontam claramente por um objetivo altamente perigoso para a tênue democracia em que ainda vivemos: o estabelecimento de um sistema de poder concentrado em homens que se dizem imaculadamente puros e bem intencionados.

O último grande exemplo de uma sociedade que buscou se organizar dessa maneira, foi a alemã, de 1933 a 1945, com o fim dos partidos políticos e da política em si e a entrega do poder para um patriota puro e desinteressado dos bens materiais, o Führer.

Por trás de práticas aparentemente justas, podem se esconder graves ilegalidades, como disse em sua entrevista Wadih Damon, quando afirmou que o juiz Sérgio Moro, que tanto elogia os Estados Unidos, se vivesse naquele país, provavelmente estaria preso por autorizar um grampo telefônico ilegal e permitir a sua divulgação, como ocorreu numa ligação entre a Presidente Dilma e Lula.

Este posicionamento imperial de setores do judiciário brasileiro só se tornou possível porque é aceito por uma sociedade, que cansada das falcatruas das elites políticas e empresariais do país, optou pela indiferença em relação à violência que as instituições do Estado cometem contra pessoas colocadas compulsoriamente sob sua tutela.

62771612_ri-rio-de-janeiro-rj-17-11-2016o-ex-governador-antony-garotinho-a-transferido-do-hospit

Assim, imagens do ex-governador Garotinho sendo colocado à força dentro de uma ambulância ou presos algemados às lixeiras em Porto Alegre, passam a ser tão corriqueiras que não causam mais a indignação das pessoas.

presos_lixeira_q1zewtk

Essa indiferença de homens e mulheres em relação às situações injustas com seus semelhantes, raramente é quebrada e quando acontece, em vez de ser aplaudida é muitas vezes condenada.

Um grupo de moças, estudantes de direito da Faculdade do Ministério Público e integrantes do Coletivo de Mulheres Maria Lacerda, decidiu comparecer ao julgamento de uma mulher acusada de omissão na morte do filho menor, para levar sua solidariedade à ré, no Tribunal de Justiça do Estado, na Capital

Na entrada foram proibidas de usar suas camisetas com frases em defesa da ré e no final foram criticadas publicamente pela promotora que atuava no caso, pelas posições que assumiram.

As estudantes se sentiram tão ofendidas, que no final do julgamento se dirigiram à Segunda Delegacia de Polícia para fazer um boletim de ocorrência contra a promotora.

São ações desse tipo que a sociedade precisa para se tornar mais democrática. De gente que, se sentindo lesada em seus direitos, em vez de optar pela aceitação silenciosa da injustiça, luta e reclama.

Casos do ex-presidente Lula, que entrou na no Tribunal Federal da Quarta Região contra o juiz Sérgio Moro, por se sentir vítima de arbitrariedades dele e por estas moças que registraram queixa contra uma promotora, por se sentirem ofendidas pela linguagem inadequada dela.