Sobre jornalistas, publicitários e cientistas políticos

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Há algum tempo, por razões afetivas e familiares, tenho convivido muito com representantes de duas categorias de profissionais, os da Medicina e os do Direito.

Como todos nós, eles têm mais dúvidas que certezas, o que sempre é um sinal de inteligência, mas quando chamados a dar um diagnóstico, ou uma orientação técnica, embasam suas falas ou seus textos em argumentos sólidos.

Como costumo falar com eles, não sobre problemas médicos ou jurídicos, mas principalmente sobre questões políticas, já percebi que a maioria treina suas mentes para uma visão, digamos, mais científica dos fatos.

Às vezes, até exageram em suas certezas, mas quase sempre transmitem uma posição sustentada por sólidos argumentos.

Talvez seja apenas uma tese fruto do conhecimento de um reduzido grupo de médicos e profissionais de direito que conheço e que, casualmente, tenham essa qualidade

É bem possível que existam médicos, advogados e juízes que pertençam mais ao grupo cujas características pretendo descrever a seguir.

Na área em que ganhei a vida durante anos, esse apego a racionalidade não é muito comum. São jornalistas, publicitários, cientistas políticos, profissionais de marketing e políticos de todos os tipos e ambições, que navegam impolutos por uma área nebulosa, onde os conhecimentos técnicos sobre o que falam não exigem grandes comprovações.

Tomemos o exemplo de um conhecido jornalista. Depois de uma passagem pela crônica esportiva, onde logo se destacou pela qualidade dos seus textos, sempre opinativos, mas apoiados num estilo enxuto e com alguma dose de ironia, o que é pouco comum na área, passou a ser um dos colunistas do seu jornal.

Como parece ter nascido sem o superego, nunca duvidou das suas qualidades como analista de qualquer evento, de uma eleição nos Estados Unidos, à guerra na Síria; do governo (ou desgoverno do Sartori) ao problema dos cães de rua, e sobre todos eles sempre teve uma opinião definitiva.

Como no jornal que escreve, a maioria das pessoas nunca teve a curiosidade de abrir um livro de história e imagina que Eric Hobsbawm seja um ponta esquerda do Manchester United, o nosso jornalista vai virando o guru dos seus pouco informados leitores.

Na publicidade, os exemplos são muitos, fazendo até parecer que as pessoas com um nível razoável de cultura, sejam exceções nesse meio.

Usando um slogan (nessa área é sempre preciso se buscar um termo em inglês para substituir o pátrio) conhecido da publicidade, os autodenominados criativos sabem que ”a prática pode levar a perfeição”.

São incapazes de escrever um texto com mais de dez linhas que tenha substantivo, verbo e complementos, mas se tornam especialistas em criar títulos de duplo sentido para seus anúncios e transformar velhas piadas em comerciais de televisão.

Não espere ouvir de um deles uma relação de romancistas preferidos. Eles dizem que livros pertencem a uma cultura do passado e estão ligados sempre em mídias digitais, onde se aprofundam num processo que os torna todos iguais.

Finalmente, temos o cientista político, o especialista na arte de decifrar tendências eleitorais e auxiliar candidatos a falar a linguagem dos seus eleitores. Nessa área, existem os teóricos, abrigados em cursos de comunicação das universidades, e os práticos (chamados pejorativamente de marqueteiros políticos) que ajudam candidatos a ganhar ou perder eleições e que muitas vezes passam das páginas políticas para as policiais com muita facilidade.

O teórico é uma figura mais interessante, porque ele tem sempre a pompa típica dos melhores acadêmicos e quando fala sobre um tema político parece se inspirar naquela máxima latina de que “Roma locuta, causa finita”

Eu conheci um deles, um publicitário medíocre, num meio onde a mediocridade nunca foi um grande defeito, mas que mesmo assim resolveu seguir aquele conselho cínico e também cheio de inveja de um colega, de que “quem sabe, faz e quem não sabe, ensina” e conseguiu, por indicação de um amigo, um lugar de professor num curso universitário de comunicação.

E aí, foi protegido por uma feliz coincidência e pela solidariedade de outros medíocres como ele. A coincidência, foi pelo fato do tal curso precisar urgentemente de mestres e doutores na área, para continuar recebendo verbas do Governo.

Então, toca formar mestres e doutores entre eles o nosso personagem.

A solidariedade veio de um amigo, um professor mais antigo e já com título de Doutor, que foi o orientador do seu trabalho (por exemplo, algo como a importância dos “santinhos” numa campanha eleitoral), avaliado depois numa banca formada por ele mesmo, mais outro professor indicado pelo aluno e um terceiro, teoricamente o mais neutro do trio, mas nem tanto, porque não se sentia confortável em criticar a orientação de um colega.

Uma ação entre amigos, que termina fazendo o tal publicitário um Mestre em sua área.

Mais um ano, o trabalho é recauchutado com algumas citações de frases de um desses teóricos franceses minimalistas que estejam na moda, e eis uma tese pronta para ser aprovada por uma banca tão amiga quanto a primeira.

Agora, já temos um Doutor em comunicação, o verdadeiro Cientista Político, apto a ser convidado, hoje, para explicar na televisão as razões da derrota das esquerdas nas eleições de Porto Alegre e amanhã, a tendência dos eleitores de Donald Trump nos Estados Unidos, mostrando assim, toda a sua versatilidade adquirida nos bancos acadêmicos.


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1 comentário em “Sobre jornalistas, publicitários e cientistas políticos”

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