Qual o futuro do PT ? Uma proposta de discussão

 

O fato político mais importante da semana não foi a eleição de Marchezan para a Prefeitura, que isso significa apenas mais um passo atrás numa cidade que já pretendeu estar na vanguarda nacional, mas sim a divulgação do manifesto do PT do Rio Grande do Sul em favor de uma reformulação do partido, numa assembleia da qual participaram todos os seus principais nomes no Estado.

27/10/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Lançamento do manifesto Congresso partidário já, com a presença dos ex-governadores Olívio Dutra, Tarso Genro, direção do partido e bancadas federal e estadual, prefeitos e vereadores eleitos. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Diz o manifesto: “Estamos submetidos e no auge de uma poderosa operação de cerco e tentativa do aniquilamento do PT. Operação que impôs o impeachment, a maior derrota eleitoral da nossa história e – se não a detivermos – buscará prender Lula e destruir o Partido”.

Mais adiante, o manifesto aponta para as causas dessa situação: “O golpe decorre, em alguma medida, de nossos erros e/ou do atraso em tomarmos determinadas decisões, da ausência de uma estratégia adequada ao período, de uma política de alianças superada, do que fizemos ou deixamos de fazer na política econômica e nas chamadas reformas estruturais, no atrasou ou na ausência de reação à altura da ofensiva inimiga”.

O manifesto termina por propor o que considera o fundamental para mudar a situação: a escolha de uma nova direção nacional do PT e a realização imediata de um congresso nacional do partido.

“Neste contexto, o Partido precisa debater o que fazer e escolher uma nova direção. Precisamos realizar imediatamente um congresso partidário. Um congresso que tenha início nas bases, no encontro de nossa militância consigo mesma. Um congresso que discuta como recuperar o apoio do PT na classe trabalhadora brasileira, razão de nossa existência como organização e partido político”.

Se estas medidas serão suficientes para inverter a tendência que aponta para o esvaziamento do partido e mais, se elas terão guarida junto as demais secções estaduais do PT, que sempre estiveram mais à direita do que a gaúcha, são questões em aberto.

O que pretendemos aqui é propor mais alguns pontos à uma discussão, que não deveria ser exclusiva do PT, mas de todos os representantes da esquerda brasileira e principalmente de todos nossos intelectuais progressistas.

As duas maiores lideranças do partido no Estado, falaram sobre o passado e o futuro do partido.

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Olívio Dutra: ““O PT nasceu de um processo de lutas do povo brasileiro no final da década de 1970 que não tinha por objetivo apenas enfrentar a ditadura, mas também as políticas da elite brasileira. Uma ferramenta política com essa história não se esgota assim. O teto da casa caiu, mas não o seu alicerce e os seus fundamentos”.

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Tarso Genro: “Somos um partido em crise porque reduzimos nosso eleitorado, porque perdemos referenciais éticos e políticos e também porque perdemos centralidade programática. Precisamos de um congresso profundo que não rejeite enfrentar nenhum tema. Autocrítica não é autoflagelação nem transformar o partido em delegacia de polícia, mas sim verificar que condições trouxeram o partido para o ponto em que está”.

Esta é a primeira e grande questão.

O partido não pode aceitar discutir uma pauta imposta pela mídia. Não é uma questão ética ou moral que deve ser objeto de discussão, mas sim, uma questão política.

Como Tarso disse com precisão, não se pode transformar o partido em delegacia de polícia, nem seus membros devem partir para uma autoflagelação. O PT tem regras de comportamento para seus membros e quem não tiver agido com correção, deve ser punido, da advertência à expulsão.

Tudo muito simples.

O que precisa ser discutido é quais são as propostas do PT para o futuro e para se olhar o futuro, não se pode esquecer o passado, para que não se use em relação a ele aquela célebre frase de Marx sobre o 18 Brumário de Louis Bonaparte de que “ a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda, como farsa.

Quando Tarso fala e ele há muito fala nisso, em se refundar o PT, precisa ficar claro como seria esse novo partido.

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Em 1989, quando enfrentou Fernando Collor no segundo turno das eleições, Lula, a partir do apoio de Leonel Brizola, uniu toda a esquerda na mais importante campanha política do Brasil republicano.

Naquela ocasião, os dois campos estavam claramente definidos.

Era a esquerda contra a direita, sem quaisquer nuances.

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De um lado, Lula, um líder sindical, até então, não só aceito pelo establishment, mas promovido como uma alternativa mais palatável do que o brizolismo, visto como o grande inimigo e que agora se unia à esquerda mais radical.

 

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Do outro, Collor, um aventureiro político, representante das oligarquias nordestinas, vestido como uma capa de moralidade administrativa (o caçador de marajás) e que se encaminharia, no decorrer da disputa eleitoral, para um autoritarismo quase fascista.

 

Lula chegou àquela final embalado numa proposta socializante que, se vencedora, teria força suficiente para mudar radicalmente o Brasil.

O esforço desesperado do empresariado e da grande mídia, representada claramente pela ação deletéria da Rede Globo na manipulação do debate final entre Lula e Collor, mostra como as elites brasileiras se mobilizaram para derrotar a esquerda.

A derrota naquela ocasião abalou quase tanto a unidade das esquerdas como foi a do golpe militar de 1964.

Nas eleições seguintes, contra Fernando Henrique, o PT jamais conseguiu uma mobilização semelhante à disputa contra Collor e foi facilmente derrotado.

Já a eleição de Lula em 2002 teve dois novos componentes bastante claros: o descalabro do último governo de Fernando Henrique, que praticamente quebrou o País e desarticulou as forças partidárias que o sustentaram e as políticas de aliança do PT com partidos de centro, num movimento que o levaria cada vez mais em direção à direita.

A questão que se coloca hoje para os que defendem a refundação do PT, é qual partido que eles querem de volta: o de 1989, que enfrentou Collor ou o de 2002, que derrotou Serra?

A resposta a esta pergunta é que vai determinar o seu futuro.

Quando surgiu, o PT foi visto com simpatia até mesmo por segmentos mais à direita da sociedade e apontado pela mídia, inclusive pela Veja, como uma novidade positiva, principalmente pela sua preocupação em desvincular o sindicalismo brasileiro do apoio governamental.

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Brizola, na sua história de amor e ódio ao PT, disse que ele era a esquerda que a direita gostava e tinha um pouco de razão no que afirmava.

Os inimigos então, eram Brizola, os comunistas e os sindicatos dominados pelos “pelegos”.

O PT era como os pequenos times de futebol, sempre simpáticos, até crescerem o bastante para se tornarem inimigos.

Hoje o PT é o inimigo principal a ser batido, como foram Brizola e os comunistas no passado.

A outra importante questão é de que forma ele pretende interagir com os demais segmentos da esquerda brasileira no futuro.

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Se com aquela soberba de quem se sente o único portador da verdade, como foi sua marca, muitas vezes, no passado ou como mais uma força – talvez ainda a principal – num grande movimento que lute por avanços fundamentais para a nossa sociedade?

Essa é a questão crucial para o partido e para o Brasil.

O que ele pretende ser dentro de uma nova frente de esquerda?

Um partido com viés sindicalista interessado mais em conquistas pontuais para favorecer a classe trabalhadora, como foi no seu início ou partido socialista, que compreende e aceita a existência da luta de classes e age dentro dela sem concessões à burguesia?

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Se o caminho for o segundo, o PT poderá ser a principal força dirigente de um grande movimento que, se ainda não coloca como meta a erradicação do capitalismo, não olha para este objetivo apenas como uma utopia distante.

 

3 pensamentos em “Qual o futuro do PT ? Uma proposta de discussão”

  1. Bem, discordo do discurso ideológico aqui colocado. O PT já está errado na sua visão medíocre de mundo. O mundo mudou e os ismos já eram! O princípio igualitário é tão tolo quanto utópico! O PT destruiu o país. É um partido que passa longe de qualquer socialismo realista, medíocre sim na sua forma de poder defende o populismo ultrapassado de distribuição de benesses com o dinheiro publico. Nada sabe criar a nível de produção, de verdadeira criação de um ambiente de desenvolvimento e acredita no estado falido e fracassado como a redenção das massas. Um partido de gente obscurantista que já há muito tempo deveria ter sido jogada no lixo da história. PT saudações! XÔ! da já sofrida realidade brasileira. O Brasil padece de governantes idiotas, e no cerne da liderança petista passa longe qualquer resquício de realidade e inteligência. Esta gente que destruiu o país merecia paredón. PT saudações e vamos jogar este partido no lixo da história!

  2. E vamos aos fatos, meu amigo! Eu moro no Rio há 40 anos e conheço bem Porto Alegre, fui criado e frequento a capital gaúcha. Vanguarda! Vanguarda do quê! Frequento a capital paulista, maior cidade de um país de quinto mundo, mas vejamos! Porto Alegre possuí prédios e aptos do nível de São Paulo, possuí o nível de consumo da alta classe média paulista! O gaúcho tem condições de consumo ao nível da classe média paulista ou da classe média de Chicago, Sydney ou Nova Iorque. Moscou versada por décadas no socialismo mais obtuso oferece a sua população moradia em caixas de fósforos indignas de qualquer ser humano que queira o mínimo de decência e conforto. Os aptos de 500 metros quadrados ou os duplex de 1500 metros do Jardins em São Paulo existiriam ou existiram em Moscou, Havana ou na Albânia. Estas coisas surgem de empreendedorismo, surgem de circulação de dinheiro e riqueza e da propagação de educação e de livre mercado. O pobre e miserável comércio do centro de Porto Alegre, a baixíssima renda dos gaúchos, a baixa qualidade dos serviços públicos na capital gaúcha, o péssimo transporte, as praças mal cuidadas, o viaduto da Borges, patrimônio da cidade, mal cuidado, pichado e relaxado ( fruto de prefeituras que não fazem o mínimo! ), a total e completa ausência de policiamento na cidade. O estado totalmente falido e quebrado por conta das péssimas administrações estaduais criminosas e irresponsáveis e que jamais promoveram qualquer melhoria qualitativa no estado. A economia gaúcha sequer inovou ou se qualificou nestes últimos trinta anos! Tudo isso e mais um pouco, foi ou no foi fruto da esquerda petista. Vanguarda! Vanguarda do quê! Só se for da absoluta idiotice humana!

  3. Acredito que se o PT estivesse mesmo disposto a fazer uma autocrítica ou restabelecer suas bases programática e novos rumos, já teria feito isso quando da crise do mensalão. Ali estavam presentes todos os elementos que voltariam a prejudicar o PT no governo de Dilma. Estamos falando de: caixa 2, propinas, alianças políticas incoerentes, utilização de estatais para aparelhar o partido, etc. Como não fez essa tal de autocrítica e auto regeneração, pagou o preço quando da segunda investida da oposição, com impeachment e Lava Jato. Agora existe uma terceira oportunidade para fazer essa autocrítica. Aguardemos os próximos movimentos do PT e vamos verificar se a construção dessa autocrítica vão realmente acontecer.

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