Ser ou não ser, eis a questão para o PT

 

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Os recentes pronunciamentos de Olívio Dutra, Tarso Genro e Luciana Genro condenando a corrupção entre membros da esquerda brasileira, principalmente no PT, serviram basicamente para levar mais água ao moinho da direita.

Basta ver o destaque que a mídia golpista deu agora aos pronunciamentos desses personagens, em outras oportunidades quase sempre ausentes das páginas dos jornais e dos espaços do rádio e televisão.

Não significa isso que alguém seja a favor da corrupção, mas isolar esse fato do seu contexto político e social, só serve aos interesses da direita.

Obviamente os três políticos citados, todos com um passado exemplar, não são neófitos no trato com os meios de comunicação e devem saber muito bem como a técnica jornalística manipula os pensamentos mais complexos para reduzi-los a uma manchete que atenda aos seus interesses.

Assim, por exemplo, a longa e correta exposição de Olívio sobre os erros cometidos pela direção no PT, depois que o partido chegou ao poder, ficou reduzida a uma frase: Olívio disse que o PT merece uma lambada.

Tarso, um pensador com análises complexas sobre a realidade nacional, se transformou apenas num crítico das práticas petistas e alguém que quer ver Lula longe do partido.

Luciana é quase tão adversária do PT, partido que a lançou na política, quanto o pessoal do PSDB, segundo a mídia ao “copidescar” seus pronunciamentos.

É claro, que são reduções drásticas do que pensaram e disseram, mas é assim que funcionam os meios de comunicação. São redutores de qualquer pensamento um pouco mais articulado, para facilitar o entendimento de seus leitores, no caso dos jornais e quase primários, quando transpõem o que dizem os políticos para a linguagem da televisão.

É preciso deixar bem claro que o procedimento dos políticos corruptos deve ser separado das instituições que representam. No caso de partidos políticos é preciso saber o que pregam nos seus programas sob pena de destruir o que ainda restam das instituições democráticas do País e não apenas o comportamento dos seus membros.

Condenar os políticos corruptos do PT não deve significar a condenação do partido, embora seja isso exatamente o que a direita pretende hoje no Brasil com o apoio da mídia, do judiciário e do parlamento.

Nessa hora de grandes decisões, não é justo que políticos de esquerda possam dar armas aos inimigos.

Cabe a eles não aceitar formas atenuantes do tipo “sou da ala honesta do PT”. É preciso assumir o partido como um todo, onde, como em todas as instituições, existem os bons e os maus, os honestos e os corruptos.

O que importa é saber qual o projeto do PT (e por extensão o PSOL e outros partidos de esquerda) em oposição aos projetos golpistas do PMDB e PSDB, por exemplo.

Não podem os políticos de esquerda seguir aquela postura que Slajov Zizek condena, tipo o sujeito que fuma cigarros eletrônicos, bebe Coca-Cola light ou só toma café descafeinado. Se somos fumantes ou viciados em refrigerantes e café, devemos aceitar nossos vícios e aproveitar o prazer que eles possam dar e assumir os prejuízos que trazem.

Não interessa ao PT discutir a questão ética nesse momento, não porque ela não seja importante, mas porque a questão atual é política e não ética.

É preciso entender as razões que motivaram o golpe para melhor combatê-las.

Quem quer pautar uma discussão ética nesse momento são os meios de comunicação, da forma mais elementar possível e limitada apenas à questão de quem é honesto e quem não é.

Para isso montaram tribunais de exceção que operam com uma lógica invertida: todos são culpados até que provem que são inocentes.

Cabe aos partidos de esquerda recolocar a discussão sob a ótica da política, a única que poderá sustentar o pouco que ainda temos de democracia no Brasil.

Nesse momento, assumir a esquerda e seu mais importante partido, o PT, como um todo, com seus erros e acertos é um risco político, mas é o que se espera dos que firmaram o compromisso de lutar pelos direitos do povo brasileiro.

O que querem as mulheres?

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Os movimentos segmentados em defesa de determinadas causas sociais, como por exemplo os direitos das mulheres, negros, gays e lésbicas ou pela preservação da natureza, ajudam os seus participantes a perceber que por trás dessas injustiças contra as quais lutam, está um sistema político estruturado em cima dessas diferenças, ou, pelo contrário, provocam um gasto de uma energia que poderia ser concentrada no combate às causas dessas injustiças e não às suas consequências?

Como esses movimentos segmentados quase sempre se fazem dentro de partidos de esquerda ou, pelo menos, envolvem lideranças com esse matiz ideológico, uma resposta positiva à primeira alternativa da pergunta é possível.

Sim, esses movimentos, com uma imensa gama reivindicatória, funcionam como uma escola, onde os ativistas acabam descobrindo que o sistema democrático liberal, como o que vivemos, é incapaz de atender suas reivindicações e mais adiante perceberão que suas lutas devem buscar alvos mais altos.

Outra resposta possível é que não, os movimentos limitados às reivindicações grupais tendem a se esgotar, sem modificar o quadro social em que vivem os ativistas.

A favor dessa versão negativa, se coloca o papel do Estado, como representante da ordem legal democrática liberal e que, através das suas instâncias jurídica e parlamentar é capaz de responder positivamente a muitas dessas reivindicações.

No Brasil, por exemplo, alguns dos procedimentos que os movimentos sociais criticam são inclusive legalmente criminalizados, como nos casos dos preconceitos raciais ou contra as mulheres.

Ou seja, o Estado absorve e chancela os aspectos legais das reivindicações, mas a sociedade apenas os tolera, sem incorporá-los aos seus valores morais, com o que chegamos àquela famosa frase do Príncipe Tancredi Falconeri (Il Gattopardo, do livro de Giuseppe Tomasi de Lampedusa e do filme de Luchino Visconti) de que “é preciso mudar para que as coisas continuem sempre iguais.

No caso das mulheres, especificamente, vemos que o Estado brasileiro adotou posições diferentes em relação a duas de suas principais reivindicações.

A violência contra as mulheres, principalmente a doméstica, foi transformada em crime e seu criou uma lei para protegê-las, a chamada Lei Maria da Penha.

No caso da descriminalização do aborto, outra importante reivindicação dos grupos feministas, não houve avanço e pelo contrário, persiste uma ameaça de retrocesso na legislação, que pode se tornar ainda mais rígida.

Em países de capitalismo mais avançado, nos Estados Unidos e Europa Ocidental principalmente, existe um liberalismo econômico que se expande por todas as áreas, gerando uma secularização de hábitos e costumes de vida.

Já em países do capitalismo periférico, a influência retrograda das religiões, herança do período colonial, ainda se faz presente e influencia os direitos civis de todos, principalmente das mulheres.

Um exemplo atual de como as demandas mais importantes dos movimentos feministas, por exemplo, no caso do aborto, estão na dependência do que acontece nas esferas política e econômica, pode ser visto hoje na Polônia.

Até os primeiros anos da década de 1990, o governo do Partido Operário Unificado da Polônia orbitava em torno da União Soviética e seguia o que dizia a legislação dos países socialistas sobre a questão do aborto. Ele era totalmente livre e dependia apenas de uma decisão da mulher.

Segundo os historiadores e filósofos italianos Domenico Losurdo e Luciano Canfora, no livro “Stalin, a história crítica de uma lenda negra”, o último dirigente soviético, Mikhail Gorbatchov negociou com o Papa João Paulo II (o cardeal polonês Karol Wojtlyla) e o presidente americano George Busch, pai, a saída da Polônia do bloco socialista.

A partir desse fato, o fundamentalismo religioso católico polonês foi restringindo o acesso das mulheres às práticas contraceptivas. Em 1993, um acordo entre Lech Walesa e a hierarquia católica polonesa, limitou a possibilidade de aborto à apenas aqueles casos em que havia risco de morte para a mulher ou em que os fetos fossem frutos de incesto ou estrupo, transformando a Polônia no país europeu mais intolerante em relação aos direitos da mulher sobre o seu corpo.

Hoje, tramita no parlamento polonês um projeto do governo da primeira ministra Beata Szydto, pertencente ao Partido da Lei e da Justiça, o PLJ, que pretende endurecer ainda mais a lei, punindo com cinco anos de prisão, a mulher e seu médico, que fizerem um aborto em quaisquer circunstâncias.

A Polônia mostra como o retrocesso político, que fez o país passar de um sistema socialista para outro, capitalista, modifica radicalmente conquistas sociais.

Embora a Polônia parece ser um caso extremado, onde o fundamentalismo religioso é capaz de propostas como a de 46 deputados da Liga das Famílias Polonesas (LFP) que reivindicam a proclamação de Jesus Cristo como Rei da Polônia, argumentando que, desde 1657, a Virgem Maria é considerada a sua Rainha Honorária, nunca é demais estar atento para evitar um retrocesso semelhante no Brasil.

Enquanto isso, fica a pergunta:  as mulheres vão se contentar com as pequenas vitórias, ou querem tudo a que têm direito?

Sobre jornalistas, publicitários e cientistas políticos

 

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Há algum tempo, por razões afetivas e familiares, tenho convivido muito com representantes de duas categorias de profissionais, os da Medicina e os do Direito.

Como todos nós, eles têm mais dúvidas que certezas, o que sempre é um sinal de inteligência, mas quando chamados a dar um diagnóstico, ou uma orientação técnica, embasam suas falas ou seus textos em argumentos sólidos.

Como costumo falar com eles, não sobre problemas médicos ou jurídicos, mas principalmente sobre questões políticas, já percebi que a maioria treina suas mentes para uma visão, digamos, mais científica dos fatos.

Às vezes, até exageram em suas certezas, mas quase sempre transmitem uma posição sustentada por sólidos argumentos.

Talvez seja apenas uma tese fruto do conhecimento de um reduzido grupo de médicos e profissionais de direito que conheço e que, casualmente, tenham essa qualidade

É bem possível que existam médicos, advogados e juízes que pertençam mais ao grupo cujas características pretendo descrever a seguir.

Na área em que ganhei a vida durante anos, esse apego a racionalidade não é muito comum. São jornalistas, publicitários, cientistas políticos, profissionais de marketing e políticos de todos os tipos e ambições, que navegam impolutos por uma área nebulosa, onde os conhecimentos técnicos sobre o que falam não exigem grandes comprovações.

Tomemos o exemplo de um conhecido jornalista. Depois de uma passagem pela crônica esportiva, onde logo se destacou pela qualidade dos seus textos, sempre opinativos, mas apoiados num estilo enxuto e com alguma dose de ironia, o que é pouco comum na área, passou a ser um dos colunistas do seu jornal.

Como parece ter nascido sem o superego, nunca duvidou das suas qualidades como analista de qualquer evento, de uma eleição nos Estados Unidos, à guerra na Síria; do governo (ou desgoverno do Sartori) ao problema dos cães de rua, e sobre todos eles sempre teve uma opinião definitiva.

Como no jornal que escreve, a maioria das pessoas nunca teve a curiosidade de abrir um livro de história e imagina que Eric Hobsbawm seja um ponta esquerda do Manchester United, o nosso jornalista vai virando o guru dos seus pouco informados leitores.

Na publicidade, os exemplos são muitos, fazendo até parecer que as pessoas com um nível razoável de cultura, sejam exceções nesse meio.

Usando um slogan (nessa área é sempre preciso se buscar um termo em inglês para substituir o pátrio) conhecido da publicidade, os autodenominados criativos sabem que ”a prática pode levar a perfeição”.

São incapazes de escrever um texto com mais de dez linhas que tenha substantivo, verbo e complementos, mas se tornam especialistas em criar títulos de duplo sentido para seus anúncios e transformar velhas piadas em comerciais de televisão.

Não espere ouvir de um deles uma relação de romancistas preferidos. Eles dizem que livros pertencem a uma cultura do passado e estão ligados sempre em mídias digitais, onde se aprofundam num processo que os torna todos iguais.

Finalmente, temos o cientista político, o especialista na arte de decifrar tendências eleitorais e auxiliar candidatos a falar a linguagem dos seus eleitores. Nessa área, existem os teóricos, abrigados em cursos de comunicação das universidades, e os práticos (chamados pejorativamente de marqueteiros políticos) que ajudam candidatos a ganhar ou perder eleições e que muitas vezes passam das páginas políticas para as policiais com muita facilidade.

O teórico é uma figura mais interessante, porque ele tem sempre a pompa típica dos melhores acadêmicos e quando fala sobre um tema político parece se inspirar naquela máxima latina de que “Roma locuta, causa finita”

Eu conheci um deles, um publicitário medíocre, num meio onde a mediocridade nunca foi um grande defeito, mas que mesmo assim resolveu seguir aquele conselho cínico e também cheio de inveja de um colega, de que “quem sabe, faz e quem não sabe, ensina” e conseguiu, por indicação de um amigo, um lugar de professor num curso universitário de comunicação.

E aí, foi protegido por uma feliz coincidência e pela solidariedade de outros medíocres como ele. A coincidência, foi pelo fato do tal curso precisar urgentemente de mestres e doutores na área, para continuar recebendo verbas do Governo.

Então, toca formar mestres e doutores entre eles o nosso personagem.

A solidariedade veio de um amigo, um professor mais antigo e já com título de Doutor, que foi o orientador do seu trabalho (por exemplo, algo como a importância dos “santinhos” numa campanha eleitoral), avaliado depois numa banca formada por ele mesmo, mais outro professor indicado pelo aluno e um terceiro, teoricamente o mais neutro do trio, mas nem tanto, porque não se sentia confortável em criticar a orientação de um colega.

Uma ação entre amigos, que termina fazendo o tal publicitário um Mestre em sua área.

Mais um ano, o trabalho é recauchutado com algumas citações de frases de um desses teóricos franceses minimalistas que estejam na moda, e eis uma tese pronta para ser aprovada por uma banca tão amiga quanto a primeira.

Agora, já temos um Doutor em comunicação, o verdadeiro Cientista Político, apto a ser convidado, hoje, para explicar na televisão as razões da derrota das esquerdas nas eleições de Porto Alegre e amanhã, a tendência dos eleitores de Donald Trump nos Estados Unidos, mostrando assim, toda a sua versatilidade adquirida nos bancos acadêmicos.

A farsa eleitoral

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Os resultados do primeiro turno das eleições municipais desse domingo, serviram para consolidar o processo golpista que teve seu ápice no processo de impeachment da Presidenta Dilma e representam o fim da tentativa de implantar no Brasil um modelo de uma verdadeira democracia representativa.

O que se projeta para o País nos próximos anos, é o fim dos partidos políticos com algum grau de representatividade e a instauração de um modelo baseado no atendimento dos interesses de uma elite econômica.

O que os militares não conseguiram em 21 anos de poder, a classe dominante brasileira conseguiu agora, ao manipular conjuntamente três poderosas instituições: o parlamento, o judiciário e a mídia.

Para o gaudio de uma população cada vez mais despolitizada, que foi ensinada a ver em cada partido uma organização criminosa, assistimos no último dia 2, a vitória de candidatos sem qualquer tipo de vinculação à uma ideia política e muito menos a um partido.

Mesmo os que apareceram amparados por uma legenda, representaram mais outros interesses do que o modelo clássico de organização partidária.

Veja-se o caso de João Dória, que conseguiu se eleger ainda no primeiro turno prefeito de São Paulo.  Ainda que nominalmente candidato pelo PSDB e que diz se inspirar nos exemplos de Fernando Henrique, Serra e Alkmin, Dória construiu sua imagem à margem dos partidos. Ele sempre foi visto pelo público como apresentador de televisão, promotor de grandes eventos e escritor de livros de autoajuda, embora seja acima de um tudo um empresário, presidente de um grande grupo empresarial, que carrega seu nome e que inclui entre suas empresas, a LIDE (Líderes empresariais), a versão moderna desses institutos voltados para a divulgação das pretensas vantagens do liberalismo.

No Rio de Janeiro, quem liderou a votação com grande vantagem no primeiro turno e decide no segundo com o candidato do PSOL, é Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e cantor de música Gospel e candidato pelo desconhecido PRB – Partido Republicano Brasileiro.

Em Belo Horizonte, o segundo turno será disputado por Alexandre Kalil, ex-presidente do Atlético Mineiro, candidato de outro partido quase clandestino, PHS (Partido Humanista da Solidariedade) e João Leite (PSDB), que de 1976 a 1992 foi goleiro, também do Atlético, se notabilizando, não pela sua grande qualidade técnica, mas por ter o hábito de distribuir bíblias aos seus adversários antes dos jogos.

Porto Alegre, que no passado se orgulhava de ser uma das cidades mais politizadas do País, mas que há três eleições vem elegendo prefeitos conservadores, este ano se esmerou no seu deslizar para a direita, ao excluir as duas candidaturas de esquerda do segundo turno.

Vão disputar essa nova etapa, o atual vice-prefeito, Melo e um candidato nominalmente do PSDB, Marchezan, mas que se tornou o mais votado com um discurso sem qualquer compromisso político. Basta ver que, mesmo tendo quase 30% dos votos, seu partido conseguiu eleger apenas um vereador. O PSOL, que recebeu 12% para Luciana Genro, elegeu três vereadores.

Para se chegar a esta situação, em que a população foi levada a desacreditar totalmente da possibilidade de se expressar suas reivindicações a partir de partidos políticos, se conjugaram uma série de interesses espúrios.

Primeiro a imensa fragmentação partidária, com 35 partidos registrados oficialmente; segundo, a transformação de seitas religiosas em partidos políticos e finalmente, a campanha sistemática da mídia no processo de destruição do PT, que há 20 anos vinha representando a única organização partidária com um projeto político progressista para o Brasil.

Some-se a isso, a ação parlamentar, comandada por Eduardo Cunha, que buscou reduzir ainda mais o acesso dos partidos aos programas eleitorais gratuitos. O fato do tempo da propaganda eleitoral na televisão ter sido encurtado em quase um mês e a divisão do tempo para cada partido privilegiar os com representação maior na Câmara, fez com que os partidos que tentaram preservar sua imagem, recusando-se a coligações incompatíveis com seus projetos, ficassem praticamente invisíveis na televisão.

Para completar esse quadro, uma intensa campanha mediática de descrédito da atividade partidária, gerou um retrato muito nítido de uma sociedade que se encaminha para um processo de fascistização, em que o embate político que caracteriza a democracia, é substituído pela imposição dos projetos políticos da elite dominante.

Nessa situação, a participação da oposição política nos próximos pleitos eleitorais, dentro das atuais regras, só servirá para dar a eles uma aparência democrática, que realmente não têm mais.

Isso vai significar, na prática, que as oposições ao atual regime, deverão orientar sua luta muito mais para a conquista de um apoio direto da população através dos movimentos sociais, do que da via parlamentar, como a única maneira de fazer frente à força avassaladora desse movimento de centro-direita que está ocupando todos os espaços públicos do Brasil.

 

 

 

 

 

 

Os filhos do nazismo

A televisão inglesa, por ter nascido estatal, sempre se destacou pela produção de documentários históricos de grande importância, ao contrário, por exemplo, da brasileira, que gera uma grande quantidade de lixo cultural capaz de enterrar as poucos experiências de qualidade que ainda surgem vez que outra.

No canal Netflix, por exemplo está disponível o documentário What Our Fathers Did – A Nazi Legacy (O que os nossos país fizeram – um legado nazista), que aborda uma questão muito interessante: o que pensam hoje os filhos de nazistas de destaque durante a Segunda Guerra, principalmente aqueles envolvidos com o Holocausto.

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(Phillipe Sands, no centro. A sua direita, Otto  Wacther e a esquerda, Niklas Frank)

O documentário, conduzido pelo professor Phillipe Sands, que se apresenta logo no início como um judeu que teve sua família dizimada num campo de concentração nazista, entrevista dois filhos de militares da SS que tiveram posições de comando na região da Galícia, então pertencente a Polônia (hoje parte da Ucrânia), no momento em que os alemães puseram em prática a chamada “solução final do problema judaico”, eufemismo para identificar a campanha de extermínio das populações judaicas do leste europeu.

Os dois entrevistados, que aceitaram visitar os locais onde ocorreram os massacres e também a se expor a debates públicos, são Niklas Frank e Otto Wacther, respectivamente, filhos de Hans Frank, o Governador Geral da Polônia ocupada pelos nazistas e Horst Von Wachter, seu braço direito e governador do Distrito da Galícia.

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Hans Frank (1900/1946) chamado o Carniceiro da Polônia, foi condenado pelo Tribunal de Nuremberg e enforcado, junto com outros importantes líderes nazistas.

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Horst Von Wacther (1901/1949) conseguiu fugir e viveu seus últimos anos de vida abrigado no Vaticano.

O que chama a atenção no documentário, são as lembranças totalmente opostas dos dois entrevistados sobre seus pais, com os quais pouco conviveram, uma vez que quando a guerra terminou em 1945, tinham apenas 6 anos de idade.

Otto Wachter, que ainda vive na Áustria, no castelo que sempre pertenceu à família, condena as ações dos nazistas, mas é extremamente leniente com o papel do seu pai nesse processo, dizendo que ele não concordava com o extermínio dos judeus e mesmo quando confrontado com provas da ação criminosa de seu pai, tenta desconsiderar os documentos apresentados.

Já Niklas Frank condena abertamente as ações de pai, abomina sua atuação como importante dirigente nazista, diz ter sido justa sua condenação à morte e enxerga nas posições de Otto um comportamento nazista.

Phillipe Sands, que conduz a história, assume uma posição nitidamente de confronto com Otto Wachter, tentando convencê-lo das ações criminosas do pai.

Nesse debate, surge uma questão paralela à admissão ou não da culpa dos dois comandantes nazistas, centrada na relação dos filhos com a imagem do pai e que transcende ao seu comportamento público.

O que é colocado para o expectador é a questão do que é mais importante para um filho, a imagem pública do pai ou a imagem privada.

Com qual das duas, ele deve ter um compromisso maior?

Niklas, cujo pai era a pessoa mais poderosa na Polônia ocupada, vê o pai como alguém sempre distante, de quem nunca recebeu um gesto de carinho e agora retribui isso com um sentimento que oscilava entre o desprezo e um ódio profundo.

Já Otto enxergava no pai um companheiro e amigo, cuja imagem agora precisa ser preservada, mesmo à custa do esquecimento ou de tolerância com suas ações reconhecidas como criminosas por todos.

Esta relação dos filhos com seus pais e suas memórias é tema recorrente na psicanálise, desde Freud. Na análise que Slavoj Zizek faz sobre o comportamento de Franz Kafka em relação ao seu pai, ele diz que, o que incomoda Kafka é a presença excessiva do pai: ele está vivo demais, é obscenamente invasivo demais.

Talvez, por isso mesmo, diz Zizek, Kafka se identificou como Lowy, assumindo o sobrenome da mãe, como também fizeram outras figuras importantes da História, como Adorno, que também adotou o sobrenome da mãe, em vez de Wiesengrund, paterno, para não citar o mais famoso de todos, Adolfo Hitler, que abandonou o sobrenome do pai, Schickelgruber.

As relações de Hitler com seu pai, levaram o escritor americano Norman Mailer a construir, no seu romance Uma Casa na Floresta, uma relação incestuosa entre a sua mãe e o pai dela, dando foros de verdade a uma história nunca comprovada que o pai e o avô de Hitler seriam a mesma pessoa.

Interessante nessas visões é que o espectador do documentário inglês, mesmo o mais informado sobre as atrocidades nazistas, não deixa de nutrir uma certa simpatia por Otto na defesa do pai e um estranhamento com o esforço de Niklas em se afastar da imagem paterna.

Talvez isso ocorra porque a maioria de nós, ao contrário de Kafka, Adorno e Hitler continuamos guardando os nomes dos nossos pais.

Além de ser um documentário extremamente interessante, ele deixa abertas duas portas para questões que mereceriam uma investigação maior.
A primeira, é o asilo dado pelo Vaticano a Otto Wachter, denunciado como criminoso de guerra em Nuremberg e que é colocado sob uma rede de proteção do Vaticano, o que, segundo se sabe, protegeu muitos outros nazistas.

A pergunta que se faz e que o documentário não responde, é até onde iam as relações amistosas entre os nazistas e o Vaticano do Papa Pio XII.

A segunda questão, trata do renascimento do nazismo na região da Ucrânia, hoje em litígio com a Rússia. Numa cena, os dois personagens são levados a acompanhar uma cerimônia de sepultamento de paramilitares envolvidos em combates com separatistas ucranianos que defendem uma aproximação com a Rússia.

Os paramilitares, que já foram acusados pelos russos de simpatia com o nazismo, se orgulham de usar os capacetes de aço típicos dos soldados alemães durante a guerra e seu chefe ostenta um colar com a suástica nazista.

Para completar a imagem, o mais velho morador da região é trazido para conhecer o filho de Von Wachter de quem ele diz ter as melhores lembranças.

Não devemos esquecer que os nazistas usaram soldados ucranianos para ajudar na perseguição aos judeus e também no seu extermínio nos campos de concentração.

Independente dessas duas questões paralelas, pouco exploradas, o documentário traz de volta uma discussão importante, que tem sido retomada na Europa e principalmente na Alemanha, sobre as relações que as pessoas de hoje têm com o passado nazista de 70 anos atrás