Votando em Ninguém

 

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Embora periodicamente se acuse a esquerda de não agir de acordo com as normas democráticas, a história mostra que foi sempre a direita que recorreu a métodos de violência quando seus interesses são ameaçados.

Mais do que isso, os agrupamentos que representam a direita (a professora Céli Pinto, citando Norberto Bobbio em recente artigo para o Sul 21, mostra como essa segmentação entre esquerda e direita é quase sempre visível nas disputas eleitorais) tendem a radicalizar suas posições, chegando quase às práticas fascistas, quando os métodos tradicionais são insuficientes para impor sua vontade.

No caso do segundo turno das eleições municipais de Porto Alegre, esse processo pôde ser visualizado, primeiro, na agressividade dos discursos dos dois candidatos que representam a direita e depois nos acontecimentos policiais que envolveram os representantes do PSDB e PMDB.

Embora representem os dois partidos que se uniram no processo golpista que levou ao impeachment da Presidenta Dilma, eles são integrados como grupos com interesses diversos na disputa do botim que representa o comando de instituições públicas, da Prefeitura de Porto Alegre à Presidência da República.

A História está cheia de exemplos de como defensores da mesma causa, acabam entrando em conflito, quase sempre resolvidos pela violência.

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No advento do nazismo na Alemanha, alguns dos seus principais artífices como Ernest Rohn, o criador da S.A., grupo paramilitar que apoiou Hitler no início da sua ascensão política e Gregor Strasser, teórico do nazismo, foram eliminados fisicamente, durante o processo de chegada de Hitler ao poder, para agradar aos generais da Wehrmacht.

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Stalin, depois de levar a morte antigos aliados como Kamenev e Zinoviev, não descansou enquanto não conseguiu eliminar Trotsky, no seu exílio no México.

No golpe de 64, os generais vencedores   – Castelo Branco e Costa e Silva  -cassaram os mandatos e suspenderam os direitos políticos de dois dos principais líderes do movimento,  Adhemar de Barros e Carlos Lacerda, respectivamente governadores de  São Paulo e da Guanabara.carlos_lacerdaademar-de-barros

 

 

 

Recentemente, o deputado Eduardo Cunha, usado para iniciar o movimento golpista que levou Temer à Presidência, foi abandonado pelos seus aliados e entregue aos inquisidores de Curitiba.

Em todos esses casos, não havia divergências de princípios, mas sim interesses pessoais ou de grupos, contrariados.

Os acontecimentos políticos têm uma dinâmica própria e não devem ser analisados sempre da mesma forma.

É tarefa dos pensadores que se filiam a uma visão histórica de defesa dos interesses do povo, propor sempre uma estratégia de luta adequada ao momento em que os fatos estão ocorrendo.

Anular o seu voto – o que no passado poderia representar uma descrença nesse importante instrumento democrático – hoje é a forma mais autêntica de manifestar o repúdio ao golpismo instalado no país e aos seus defensores, principalmente os veículos da grande mídia.

Em Porto Alegre, onde a RBS se engajou numa ampla campanha midiática em defesa do voto útil em favor de qualquer um dos candidatos que chegaram ao segundo turno, votar nulo será a melhor resposta que a parte mais lúcida do eleitorado poderá dar a esta pretendida lavagem cerebral.

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Como disse a Professora Céli Pinto,”o voto nulo é uma opção democrática. Cada eleitor pode votar em quem quiser, segundo suas posições políticas ideológicas, seus interesses corporativos, suas simpatias pessoais. Os candidatos podem e devem lutar contra o voto nulo, este é o papel deles. O que não pode acontecer é a desqualificação mal intencionada ou mal informada do voto nulo”

Portanto, democraticamente, no dia 30 de outubro, vamos anular nosso voto, votando em Ninguém.

Contra Moro

Finalmente, surgiu alguém disposto a enfrentar o juiz Sérgio Moro. O físico Rogério Cezar Cerqueira Leite (professor emérito em Física na Unicamp e doutor em Física pela Universidade de Paris) escreveu na Folha de São Paulo, um artigo comparando o juiz paranaense ao frade dominicano Girolano Savonarola (1452/1498), um asceta, puritano e moralista, que se dizia profeta em Florença e combateu a corrupção que ele via no Papado.download

Disse Cerqueira Leite no seu artigo: “A corrupção é quase que apenas um pretexto. Moro não percebe, em seu esquema fanático, que a sua justiça não é muito mais que intolerância moralista. E que por isso mesmo não tem como sobreviver, pois seus apoiadores do DEM e do PSDB não o tolerarão após a neutralização da ameaça que representa o PT.
Savonarola, após ter abalado o poder dos Médici em Florença, é atraído ardilosamente a Roma pelo Papa Alexandre 6º, o Borgia, corrupto e libertino, que se beneficiara com o enfraquecimento da ameaçadora Florença.
Em Roma, Savonarola foi queimado. Cuidado Moro, o destino dos moralistas e fanáticos é a fogueira. Só vai vosmecê sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes.

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Em sua resposta, Moro afirmou que “sem qualquer base empírica, o autor desfila estereótipos e rancor contra os trabalhos judiciais na assim denominada Operação Lava Jato, realizando equiparações inapropriadas com fanático religioso e chegando a sugerir atos de violência contra o ora magistrado”
E terminou sugerindo uma censura para este tipo de publicação: “Embora críticas a qualquer autoridade pública sejam bem-vindas e ainda que seja importante manter um ambiente pluralista”, o jornal deveria evitar “a publicação de opiniões panfletárias-partidárias e que veiculam somente preconceito e rancor, sem qualquer base factual”.

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Cerqueira replicou:
“Acusa-me o juiz de promover atos de violência. O fogo a que me refiro é o fogo da história. Intelectos condicionados por princípios de intolerância não percebem a diferença entre metáforas e ações concretas. O juiz ainda se esquiva de responder à principal acusação que lhe faço, a de que é absolutamente parcial e está a serviço das classes dominantes.

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Nos espaços que dispõe em alguns dos principais jornais brasileiros, o jornalista Elio Gaspari, comentou a polêmica.
“Moro se queixa de que a comparação com Savonarola não teve ‘base empírica’. O que isso quer dizer, não se sabe. O artigo de Cerqueira Leite foi mais uma opinião no grande debate aberto pela Operação Lava Jato. A contrariedade de Moro produziu uma surpresa: há algo de Savonarola no seu sistema”.

É preciso radicalizar o debate nas esquerdas

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A esquerda quer negar tudo que aí está.

A esquerda quer sempre destruir.

Verdades.

Para construir o novo, é preciso destruir primeiro o velho.

É uma questão dialética.

O novo é a negação do velho.

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Segundo Marx, “Em nenhuma esfera pode ocorrer um desenvolvimento que não negue suas formas anteriores de existência

 

O velho, no Brasil, é este sistema político baseado na dominação de um capitalismo atrasado, que só sobrevive com os subsídios do estado e com a sonegação sistemática de impostos.

O velho é a hipocrisia da sua classe dominante, que defende o estado mínimo e a democracia, mas usa seu poder para transformar o estado em patrocinador dos seus interesses materiais e violenta os princípios democráticos quando julga que eles não servem inteiramente aos seus propósitos.

O novo, no Brasil, que seria o pensamento de esquerda, é apenas reformista e não revolucionário.

 

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O principal partido de esquerda no Brasil a partir da saída dos militares do poder, o PT, só se tornou hegemônico porque nunca percebeu que deveria se engajar na luta de classes como objetivo político.

Ou melhor, nunca quis fazer isso.

Seu guru, Lula, sempre defendeu, como estratégia política, a reforma do capitalismo e não sua extinção.

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O que sempre pretendeu foi um capitalismo “mais humano” nos moldes dos estados do bem-estar social, mesmo quando esse modelo há muito vinha “fazendo água” nos países onde ele teve, no passado, alguma relevância.

Os grupos de formação marxista, dentro do PT, sempre foram minoritários e apenas serviam para justificar o partido diante do segmento intelectual da classe média, que perdera a referência do comunismo.

É preciso retomar urgentemente a ideia de radicalizar as posições de esquerda em favor da verdadeira democracia, para que o jogo político não continue sendo feito dentro dos limites propostos pelo neoliberalismo.

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Embora as propostas revolucionárias de Lenin tenham se perdido no tempo, nunca demais é lembrar o seu ensinamento de que “só na sociedade comunista, quando a resistência dos capitalistas estiver quebrada, quando os capitalistas tiverem desaparecido como classe social, quando não houver mais distinções entre os membros da sociedade em relação à produção, só então é que o Estado deixará de existir e se poderá falar de liberdade. Só então se tornará possível e será realizada uma democracia verdadeiramente completa e cuja regra não sofrerá exceção alguma”.

Uma utopia?

Claro.

Mas é só exigindo o máximo, que se poderá avançar nas conquistas populares.

Como disse Lenin:

“É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonho, acredite neles”.

Quando fui feliz

 

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Acho que naquele ano de 1960, eu fui feliz. Tinha 20 anos e trabalhava na redação de Última Hora, que depois, com o golpe de 64 foi fechada e o que sobrou, virou Zero Hora.

 

 

Porto Alegre era ainda uma cidade provinciana e razoavelmente tranquila. Eu chegava de bonde no centro e caminhava pela Rua da Praia até a redação do jornal, que ficava na 7 de Setembro, em cima do cinema Rex, a uma quadra da Praça da Alfândega.

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Podia dizer em casa,ou no Curso de História em que recém tinha entrado, que era colega de caras já famosos ou que ficariam famosos, como Sérgio Jockimann, o Flávio Tavares , o Ibsen Pinheiro e o Sérgio Goldani.

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O Sérgio era o principal nome do jornal. Tinha um texto cheio de ironias, mais ou menos como é hoje o Luís Fernando Veríssimo. Escrevia também com sucesso para o teatro e chegou depois a deputado estadual.

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O Ibsen era copidesque. Entrou para a política e chegou a Presidente da Câmara de Deputados.

 

 

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O Flávio, que conheci na política estudantil do Julinho e depois, como Chefe de Reportagem da Última Hora,foi torturado pelas ditaduras do Brasil, Uruguai e Argentina e é ainda hoje um dos mais importantes jornalistas brasileiros.

 

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O Goldani, dividia seu tempo entre o jornalismo e os estudos de Química na Universidade e hoje é um psicanalista respeitado.

 

 

Quando terminava meu trabalho na Ultima Hora, primeiro auxiliando o Macedo na sessão Fala o Povo e mais tarde como repórter da Geral, atravessava a Praça da Alfândega e ia no Matheus comer um bauru com uma taça de café com leite.

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Depois tinham as conversas da Rua da Praia ou a sessão das 9,30 num cinema do centro, que podia ser o Rex, Cacique, Guarani, Imperial, Central (a casa dos dramalhões mexicanos) Ópera, Vitória (ex-Vera Cruz), Continente e já um pouco fora do centro, o Carlos Gomes (reduto dos faroestes). Na 7, havia ainda um cinema de bolso, o Palermo, com filmes clássicos “rigorosamente proibidos” até os 18 anos.

O difícil era encontrar uma mulher que quisesse “dar” para gente sem promessa de casamento.

Tinham as putas do Maipu, da Emília ou da Dorinha, mas essas detestavam qualquer romance e já eram defensoras do mercado livre e do estado mínimo, enquanto nós sonhávamos com um grande amor e com a revolução socialista que estava chegando.

De Churchill a AlainBandiou, passando por Dylan e Guevara

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O Prêmio Nobel de Literatura para Bob Dylan recoloca na ordem do dia a discussão sobre a capacidade do capitalismo de transformar em mercadoria de consumo até mesmo o que políticos e artistas fizeram, disseram ou escreveram contra ele.

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O caso mais emblemático de todos deve ser o de Che Guevara que dedicou sua vida à luta contra o sistema capitalista e tem hoje sua imagem sendo usado em estampas de camisetas produzidas industrialmente.

A chamada democracia liberal, sob a qual vive hoje praticamente todo o mundo ocidental, na sua ânsia sem limites de desenvolvimento, destruiu antigas formas de relacionamento entre as pessoas, dessacralizou valores e estabeleceu como único objetivo o lucro.

 

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Winston Churchill, eleito em 2002 pelo BBC o maior britânico de todos os tempos, condutor da sangrenta política de dominação colonialista britânica na África do Sul e que, em 1953, coincidentemente, também ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, fez uma frase que até hoje é saudada como a melhor definição de democracia: “ A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas.

As crises constantes em que vive hoje esse sistema, saudado como Churchill como o melhor possível, faz com que uma série de políticos e pensadores retomem a discussão de como avançar para uma outra realidade política e social.

O filósofo francês Alain Badiou é um dos que mais avançaram nessa crítica. Ele afirma que a democracia é uma ilusão e que o capitalismo liberal não é um bem da humanidade de forma alguma. Muito pelo contrário, é o veículo do niilismo selvagem, destrutivo.

A alternativa que propõe é a volta ao comunismo sob a forma da ideia comunista.

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“A ideia comunista é a ideia da emancipação de toda a humanidade, é a ideia do internacionalismo, de uma organização econômica mobilizando diretamente os produtores e não as potências exteriores; é a ideia da igualdade entre os distintos componentes da humanidade, do fim do racismo e da segregação e também é a ideia do fim das fronteiras e do mercado”

Para os que o criticam, dizendo que esta não deve ser a posição de um filósofo, ele responde: “Não vejo porque o intelectual deveria ser apenas um observador. Tem que ser um ator, um militante da verdade, um combatente. A ideologia de espectador, que se encontra na filosofia política de Hannah Arendt, é muito discutível. Não somos testemunhas do mundo. Temos que incorporar ao futuro, com frequência paradoxal e violento, as verdades, sejam elas políticas, artísticas amorosas ou científicas.

Porque vamos votar em “ninguém”

 

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Mais alguns dias e seremos chamados a tomar uma decisão que pessoas, como nós, que se julgam politizadas, consideram de certa forma um grande risco. Vamos anular nossos votos no segundo turno da eleição para prefeito de Porto Alegre, como forma de protesto contra o golpe parlamentar que cassou nosso voto para a eleição de Dilma Rousseff como Presidenta.

Não se trata apenas de se recusar de fazer uma opção entre dois candidatos descomprometidos com nossas posições políticas. Outras vezes, votamos seguindo o critério de escolher o menos ruim, mas agora, ao anular nossos votos queremos mostrar que nos recusamos a aceitar o que nos foi imposto pelo conluio entre o parlamento, o judiciário e a mídia.

Será preciso, porém, que esse voto em “ninguém”, como foi identificado no primeiro turno, seja realmente expressivo e para isso é preciso combater ideologicamente em duas frentes: primeiro, será necessário deixar claro que é um voto de protesto e não uma prova de desinteresse político e segundo, desmascarar as ações de oportunistas que estimulam o compromisso com um dos lados, usando argumentos que não cabem numa época de exceção.

Outras vezes, um eleitorado alienado, fez seu voto de protesto elegendo personagens que são a própria negação da política como forma civilizada de relacionamento entre os seres humanos, caso ocorrido com o rinoceronte Cacareco, do Zoológico de São Paulo, que recebeu mais de 100 mil votos em 1957 nas eleições para vereador ou do palhaço Tiririca, que com mais de 1 milhão de votos, foi eleito e reeleito deputado federal.

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Luís Fernando Veríssimo chamou a atenção em sua coluna dessa semana para o risco em que vive a democracia, ou o que resta de democracia no Brasil, dizendo que a votação em “ninguém” não deve ser festejada, porque “ o que há no ar é uma revolta, é uma clara desesperança com o processo eleitoral e fastio com a democracia” – e pergunta – “desvalorizada a política, nos sobra o quê”?

As perguntas que se colocam a partir daí, são muitas:

– O funcionamento das instituições públicas e a falta de censura nos meios de comunicação são suficientes para caracterizar que vivemos num estado democrático, ou as instituições são partes do processo de exceção e os meios de comunicação a sua sustentação ideológica?

– O modelo democrático formal em que vivemos (independência dos poderes, falta de censura, eleições periódicas) ainda pode ser aperfeiçoado ou esgotou essa capacidade?

– Caso esse modelo capitalista, onde os interesses do mercado se sobrepõem aos da população, precise ser substituído, como se dará esse processo, se por via eleitoral ou através de uma nova forma de ação que atenda os interesses da população?

Uma ampla negação em participar de um processo eleitoral, viciado pelos limites colocados ao debate de ideias e pela ação delituosa da mídia, pode ser a primeira resposta da população?

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O capitalismo, na sua forma mais avançada, é profundamente ideológico, na medida em que aposta na despolitização como forma de combater o posicionamento ideológico do povo na defesa dos seus interesses.

O processo eleitoral, que deveria servir como um processo de conscientização das pessoas é esterilizado por regras rígidas sobre as campanhas dos candidatos e pelo empenho da mídia em sonegar o discurso de algum candidato que por ventura se atreva a contestar o sistema.

O primeiro turno das eleições municipais em Porto Alegre mostrou um enorme esforço da mídia em desconstruir as candidaturas de esquerda e preparar o campo para a eleição de um representante da direita.

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Nesse segundo turno, os dois candidatos que sobraram, além das ofensas pessoais, gastam seu tempo prometendo obras na cidade que nunca farão (a trincheira da Ceará foi promessa do governo de Fogaça) e jamais respondem sobre uma questão crucial: em nome de que interesses pretendem governar?

Ao contrário do que dizem os economistas que defendem a situação atual é preciso politizar a economia para libertá-la da tutela atual do mercado.

Essa é uma questão que passa longe das preocupações dos representantes dos dois partidos que comandaram o golpe, o PMDB e o PSDB, e que disputam o segundo turno.

O voto em “ninguém” no dia 30 de outubro, pode ser um passo, ainda que pequeno, no sentido de mostrar que uma boa parte da população não está mais disposta a aceitar que o processo eleitoral sirva apenas para justificar a continuidade de um modelo ultrapassado de fazer política.

O sentido da vida

 

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Afora o sentido da vida, existe alguma coisa mais importante para ser discutida?

Provavelmente, não.

As religiões existem, basicamente, para responder a esta questão.

Antes delas se institucionalizaram, principalmente para o mundo ocidental, os homens se conformavam em ser apenas meros figurantes numa história onde as estrelas eram os deuses.

Embora esses deuses muitas vezes interagissem com os humanos, havia uma clara divisão de espaços.

A primeira grande religião do ocidente que estabeleceu um vínculo mais próximo entre os dois campos, o divino e o humano, foi o judaísmo.

Para ela, o sentido da vida estava em cumprir os mandamentos do Deus, sem esperar qualquer tipo de recompensa.

Embora, no seu livro de regras – o Torá – seja dito que no final dos tempos, haverá a ressurreição dos mortos, o judaísmo não acena com prêmios e castigos, o céu e o inferno, como fizeram depois as religiões nascidas dele, o cristianismo e o islamismo.

No último filme de Woody Allen, Café Society, a mãe judia, figura presente sempre nos seus filmes, diz que por não oferecer o mesmo prêmio que o cristianismo (a conquista do céu), o judaísmo tem menos adeptos.

Talvez os apóstolos de Cristo tenham sido os primeiros marqueteiros da história, porque se deram conta disso e logo trataram de “vender” a ideia de que a conquista do céu, ou a fuga do inferno, seria o grande “ponto de venda” da nova religião para conquistar novos adeptos.

O islamismo seguiria o mesmo caminho, as duas tentando responder a pergunta “qual o sentido da vida”, com a mesma resposta: seguir as um conjunto de regras para conquistar o grande prêmio: uma nova vida melhor depois da morte.

Os teóricos do ateísmo retiram o sentido da vida dessa visão mística das religiões, principalmente partir das conclusões de Darwin sobre a evolução das espécies.

O único sentido, sob esse ponto de vista, é que a vida existe apenas para ser reproduzida.

Richard Dawkins foi mais adiante, ao afirmar que os protagonistas da seleção natural não são as espécies, nem os indivíduos, mas os seus genes. Nós somos máquinas de sobrevivência que os genes construíram para se preservar ao longo das gerações.

“As máquinas de sobrevivência têm aparência muito variada. Um polvo não se parece em nada com um rato, e ambos são muito diferentes de uma árvore. Mas, em sua composição química, eles são quase iguais”, escreve Dawkins.

Nossa função como homens é, em última análise, contribuir para a preservação da espécie.

O problema é que, somos, aparentemente, as únicas máquinas de sobrevivência capazes de pensar sobre a sua condição, analisar o passado e fazer planos para o futuro.

Isso, faz com que os homens, ao contrário das outras máquinas de sobrevivência, não tão perfeitas, tentem encontrar uma motivação a mais para suas vidas.

Para isso, criaram seus deuses e a partir deles, surgiram as religiões, que mais do que oferecerem soluções, oferecem consolos.

Para os ateus, resta encontrar dentro do cérebro que comanda a essa sofisticada máquina, uma alternativa que atenda a sua busca de algo além da sua função como agente reprodutor.

Uma delas é a busca da perfeição pessoal.

Sempre podemos ser melhores.

Mas, como fazer isso?

Uma boa solução é analisarmos constantemente o passado, o único capital que dispomos, já que o presente inexiste, porque está continuamente se transformando em passado e o futuro é incerto.

Outro dia, escrevi que o significado da vida é lamentar as oportunidades perdidas.

Alguém disse que eu estava sendo pessimista.

Pelo contrário, estou seguindo aquela máxima de Bertold Brecht de que devemos examinar constantemente nossos erros, para errar melhor no futuro.

São as tais oportunidades perdidas.

Ela pode ser aquele exato momento em que você disse sim, quando deveria ter dito não.

Ou o contrário, quando disse não e a hora era de ter dito sim.

Cada um pode relacioná-las de acordo com suas ambições, como ter escolhido equivocadamente aquela mulher para amar ou a carreira que teria o tornado rico ou famoso.

O importante é não nos conformarmos com o nosso passado, mesmo que não possamos mudá-lo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O PT deveria ler mais Lenin e Beckett

 

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A professora Céli Pinto, em artigo publicado no Sul21, faz uma análise muito interessante sobre as causas da derrota do PT e das forças de esquerda nas eleições municipais do último dia 2, mas ao contrário de outros analistas é otimista no seu texto, ao terminá-lo com a afirmação de que “o jogo ainda não está dado” e que há muito o que se recompor no próximo ano nas forças do campo progressista do Brasil visando as eleições de 2018.

Embora admita que o PT perdeu parte significativa de seu eleitorado por seus próprios erros (por ter acreditado na palavra mágica “governabilidade, por ter se burocratizado, por ter se afastado dos movimentos sociais, por ser autofágico nas suas lutas internas, por ter ficado 4 mandatos na presidência da república e ter se envolvido em mal feitos injustificáveis) a professora Céli concluiu que não foram estes erros  e sim seus acertos (as importantes conquistas sociais dos últimos 14 anos) que determinaram o golpe parlamentar mediático e sua contínua desconstrução.

Dito tudo isso, com o que todos nós, que pretendemos ter uma visão a partir de uma posição de esquerda, concordamos, surge a pergunta inevitável, o que fazer?

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Nesse ponto é que falta ao PT alguém que, ainda que guardada a devida proporção, repita o que fez Lenin em 1902, quando no seu célebre livro, O que fazer? converteu o marxismo, até então mais uma teoria, num compromisso revolucionário real.

Parece estranho usar os ensinamentos de alguém que escreveu essa obra há mais de 100 anos como remédio para uma situação atual, mas uma análise dos dados que dispomos sobre a realidade brasileira, mostra que muitos agentes do processo político continuam representando forças que já existiam na Rússia czarista, como a democracia burguesa, o socialismo reformista da esquerda e até mesmo um niilismo político.

O problema todo é saber o que pretende o PT, pergunta que a Professora Céli não responde.

Em algum momento da sua história, o partido pretendeu encontrar um caminho para o socialismo no Brasil. Se abandonou esse caminho, optando por algumas reformas dentro da sociedade burguesa, pouco podemos esperar dele nos próximos anos.

Caso, esse sonho ainda persista, será preciso, como ensinou Lenin, criar para as condições brasileiras uma teoria revolucionária, porque sem ela não existe revolução.

Para isso, será preciso abandonar a ideia de jogar todas as fichas disponíveis (continuando na analogia da Professora Céli) no próximo jogo eleitoral de 2018 e tentar retomar o longo processo de educação política da população.

Ao contrário do que fala o texto da Professora Célio, 2018 já é uma batalha perdida em termos de reconquista do poder.

Seria menosprezar a capacidade dos golpistas, acreditar que eles possam cometer os mesmos erros de eleições passadas, quando alguns de seus setores, assustados com o crescimento do PT, se associaram a Lula para conquistar o poder.

Hoje, eles apreenderam a lição e não vão permitir que setores reformistas prejudiquem seu projeto hegemônico de “ajuste” político e econômico, como tem ressaltado o ex-governador Tarso Genro em seus textos.

O que faltou para a direita em 1982 e nas eleições seguintes, eles têm hoje de sobre: o apoio decidido do parlamento, do judiciário e da mídia.

Talvez, a esquerda precise aprender a lição proposta por Samuel Beckett (1906/1989) em uma obra menos conhecida, por exemplo, do que Esperando Godot ou Malone Morre, mas que mesmo é reveladora do seu imenso talento, Pioravante Marche.

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Diz o seu personagem:

Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor.

Ou seja, cada vez que erramos, nos aproximamos um pouco do acerto final.

O que o PT não pode é repetir seus erros. Ele precisa errar sempre melhor.

E para isso, ler Lenin e Beckett sempre ajuda.

Auschwitz fica em Gaza

 

A indignação das pessoas nas sociedades modernas é seletiva e pautada pela mídia. A solidariedade também. Como os grandes veículos de comunicação são também negócios que precisam ser rentáveis, eles comandam nossas emoções de acordo com seus interesses comerciais.

Assim, ocupam as manchetes dos jornais e os espaços mais caros da televisão, assuntos capazes de mobilizar as pessoas, desde a corrupção de políticos (principalmente quando são de partidos de esquerda), até o drama da criança que perdeu seu cachorrinho de estimação, passando pelo último divórcio dos famosos ou a violência de um serial killer.

Para noticiar as grandes tragédias sociais da humanidade, os meios de comunicação precisam avaliar primeiro se o maior ou menor destaque dado a eles não vai indispor o veículo com algum grande anunciante, por exemplo.

No mundo inteiro, um dos maiores lobbys a influenciar a linha de comunicação dos veículos é aquele que defende os interesses do Estado de Israel.

Por isso, raramente, você verá ou lerá com algum destaque nos veículos de grande mídia, notícias que mostrem a violência cotidiana que Israel submete às populações árabes da Faixa de Gaza.

Desde os acordos de Oslo, de 1993, a Autoridade Palestina controla a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, regiões separadas pela presença do Estado de Israel entre elas. Em muitas das áreas da Cisjordânia, esse controle árabe é apenas civil, uma vez que Israel faz o controle militar.

Fruto de longos combates contra o expansionismo sionista, a Faixa de Gaza se tornou uma área exclusivamente palestina, ainda que totalmente cercada por terra pela presença de Israel.

Talvez como punição por este espírito nacionalista, a Faixa de Gaza sofre há mais de 10 anos um terrível bloqueio, tanto por terra, como pelo mar, que transformou os seus 1 milhão e 800 mil pessoas em prisioneiros do maior campo de concentração que o mundo já viu.

Uma nova Auschwitz à céu aberto.

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Obviamente, não interessa à grande mídia falar sobre esse moderno apartheid, embora a ONU constantemente chame a atenção para esse novo holocausto.

 

Essa semana, o Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários da ONU divulgou relatório afirmando que “o bloqueio encerrou 1,8 milhões de pessoas numa das zonas mais densamente povoadas do planeta tendo consequência a destruição de meios de vida, o agravamento da insegurança alimentar, uma prolongada crise energética, a deterioração das infraestruturas de água e saneamento e a perda de 120 mil postos de trabalho em consequência da prolongada crise econômica”.

 

Ninguém viu a notícia na Rede Globo, nem na maioria dos jornais brasileiros, mas mais um barco que levava alimentos e medicamentos aos sitiados de Gaza, o veleiro Zaytouna-Oliva, foi interceptado pela marinha israelense e levado para o porto de Ashod nessa semana.

O chamado “Barco das Mulheres” era comandado por Ann Wright, ex-coronel do exército norte-americano e tinha a bordo 15 mulheres, entre elas a britânica Mairead Maguire, Prêmio Nobel da Paz em 2011.

 

As ativistas estão presas e deverão ser expulsas de Israel nos próximos dias.

 

O acesso pelo mar é o único caminho possível de se chegar à Gaza sem passar por Israel e por isso periodicamente grupos de ativistas de ajuda aos palestinos tentam chegar por este caminho, mas são sempre bloqueados pela marinha israelense.

 

O caso mais conhecido ocorreu com um barco da Turquia – o Mavi Marmara – quando 10 ativistas turcos foram mortos pelos israelenses.

A porta voz dessa última operação, a do “Barco das Mulheres”, Claude Leostic, garantiu que enquanto houver bloqueio, novos barcos tentarão chegar a Gaza, o que significa que novas intervenções da marinha israelense vão ocorrer com prisões e mortes dos ativistas que tentam ajudar os palestinos.

 

E, mais uma vez, poucos brasileiros ficarão sabendo disso pelos seus meios de comunicação.

 

Quando?

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Você começa a achar estranha a cidade onde sempre viveu.

As ruas mudaram de lugar e não deixaram endereço.

Tem gente demais na cidade e você não simpatiza com a maioria. E elas, certamente sentem o mesmo por você.

Então, então lentamente vai tomando conta de você a ideia de que está sobrando nesse mundo.

Você se dá conta que continuar vivendo já não é a coisa que mais importa.

Mas, quando isso começou?

Certamente, não foi de uma hora para outra.

Foi tomando em conta de você aos poucos.

Mas, provavelmente, existiram alguns indícios que você não percebeu na hora.

Faça um exame e veja quantos avisos dessa morte lenta você recebeu e não prestou atenção neles.

Com algum esforço você vai identificar alguns desses eventos.

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Quando você, que era um protetor, passou a ser um protegido.

Quando você voltou a pagar meia entrada nos cinemas.

Quando nenhuma mulher olha para você com algum interesse físico.

Quando você deixou de jogar bola e passou só a ver os outros jogar.

Quando você lê no obituário do jornal que aquele sujeito dez anos mais moço morreu e teve direito a uma longa biografia.

Quando você começa a ler o jornal pela secção de óbitos.

Quando aquela linda morena olha para você no ônibus apenas para oferece um lugar para sentar.

Quando os amigos que ainda restam só querem falar do passado.

Quando você diz numa roda de parentes dos seus filhos que o Francisco Alves foi o Rei da Voz e ninguém nunca ouviu falar nem do cantor, nem do título.

Quando você repete aquele velho e conhecido (para você) bordão, tipo “bateram o brim do vivente”, mas nenhuma pessoa sabe do que se trata.

Quando você usa o celular apenas para telefonar.

Quando para se exibir, você repete de cabo a rabo a escalação do Rolo Compressor do Internacional hexa-campeão gaúcho e nem mesmo aquele cara com a camisa do time sabe quem foi o Abigail.

Quando, finalmente, você começa a fazer um inventário sobre os indícios que o levaram a se sentir sobrando no mundo.