Os filhos do nazismo

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A televisão inglesa, por ter nascido estatal, sempre se destacou pela produção de documentários históricos de grande importância, ao contrário, por exemplo, da brasileira, que gera uma grande quantidade de lixo cultural capaz de enterrar as poucos experiências de qualidade que ainda surgem vez que outra.

No canal Netflix, por exemplo está disponível o documentário What Our Fathers Did – A Nazi Legacy (O que os nossos país fizeram – um legado nazista), que aborda uma questão muito interessante: o que pensam hoje os filhos de nazistas de destaque durante a Segunda Guerra, principalmente aqueles envolvidos com o Holocausto.

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(Phillipe Sands, no centro. A sua direita, Otto  Wacther e a esquerda, Niklas Frank)

O documentário, conduzido pelo professor Phillipe Sands, que se apresenta logo no início como um judeu que teve sua família dizimada num campo de concentração nazista, entrevista dois filhos de militares da SS que tiveram posições de comando na região da Galícia, então pertencente a Polônia (hoje parte da Ucrânia), no momento em que os alemães puseram em prática a chamada “solução final do problema judaico”, eufemismo para identificar a campanha de extermínio das populações judaicas do leste europeu.

Os dois entrevistados, que aceitaram visitar os locais onde ocorreram os massacres e também a se expor a debates públicos, são Niklas Frank e Otto Wacther, respectivamente, filhos de Hans Frank, o Governador Geral da Polônia ocupada pelos nazistas e Horst Von Wachter, seu braço direito e governador do Distrito da Galícia.

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Hans Frank (1900/1946) chamado o Carniceiro da Polônia, foi condenado pelo Tribunal de Nuremberg e enforcado, junto com outros importantes líderes nazistas.

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Horst Von Wacther (1901/1949) conseguiu fugir e viveu seus últimos anos de vida abrigado no Vaticano.

O que chama a atenção no documentário, são as lembranças totalmente opostas dos dois entrevistados sobre seus pais, com os quais pouco conviveram, uma vez que quando a guerra terminou em 1945, tinham apenas 6 anos de idade.

Otto Wachter, que ainda vive na Áustria, no castelo que sempre pertenceu à família, condena as ações dos nazistas, mas é extremamente leniente com o papel do seu pai nesse processo, dizendo que ele não concordava com o extermínio dos judeus e mesmo quando confrontado com provas da ação criminosa de seu pai, tenta desconsiderar os documentos apresentados.

Já Niklas Frank condena abertamente as ações de pai, abomina sua atuação como importante dirigente nazista, diz ter sido justa sua condenação à morte e enxerga nas posições de Otto um comportamento nazista.

Phillipe Sands, que conduz a história, assume uma posição nitidamente de confronto com Otto Wachter, tentando convencê-lo das ações criminosas do pai.

Nesse debate, surge uma questão paralela à admissão ou não da culpa dos dois comandantes nazistas, centrada na relação dos filhos com a imagem do pai e que transcende ao seu comportamento público.

O que é colocado para o expectador é a questão do que é mais importante para um filho, a imagem pública do pai ou a imagem privada.

Com qual das duas, ele deve ter um compromisso maior?

Niklas, cujo pai era a pessoa mais poderosa na Polônia ocupada, vê o pai como alguém sempre distante, de quem nunca recebeu um gesto de carinho e agora retribui isso com um sentimento que oscilava entre o desprezo e um ódio profundo.

Já Otto enxergava no pai um companheiro e amigo, cuja imagem agora precisa ser preservada, mesmo à custa do esquecimento ou de tolerância com suas ações reconhecidas como criminosas por todos.

Esta relação dos filhos com seus pais e suas memórias é tema recorrente na psicanálise, desde Freud. Na análise que Slavoj Zizek faz sobre o comportamento de Franz Kafka em relação ao seu pai, ele diz que, o que incomoda Kafka é a presença excessiva do pai: ele está vivo demais, é obscenamente invasivo demais.

Talvez, por isso mesmo, diz Zizek, Kafka se identificou como Lowy, assumindo o sobrenome da mãe, como também fizeram outras figuras importantes da História, como Adorno, que também adotou o sobrenome da mãe, em vez de Wiesengrund, paterno, para não citar o mais famoso de todos, Adolfo Hitler, que abandonou o sobrenome do pai, Schickelgruber.

As relações de Hitler com seu pai, levaram o escritor americano Norman Mailer a construir, no seu romance Uma Casa na Floresta, uma relação incestuosa entre a sua mãe e o pai dela, dando foros de verdade a uma história nunca comprovada que o pai e o avô de Hitler seriam a mesma pessoa.

Interessante nessas visões é que o espectador do documentário inglês, mesmo o mais informado sobre as atrocidades nazistas, não deixa de nutrir uma certa simpatia por Otto na defesa do pai e um estranhamento com o esforço de Niklas em se afastar da imagem paterna.

Talvez isso ocorra porque a maioria de nós, ao contrário de Kafka, Adorno e Hitler continuamos guardando os nomes dos nossos pais.

Além de ser um documentário extremamente interessante, ele deixa abertas duas portas para questões que mereceriam uma investigação maior.
A primeira, é o asilo dado pelo Vaticano a Otto Wachter, denunciado como criminoso de guerra em Nuremberg e que é colocado sob uma rede de proteção do Vaticano, o que, segundo se sabe, protegeu muitos outros nazistas.

A pergunta que se faz e que o documentário não responde, é até onde iam as relações amistosas entre os nazistas e o Vaticano do Papa Pio XII.

A segunda questão, trata do renascimento do nazismo na região da Ucrânia, hoje em litígio com a Rússia. Numa cena, os dois personagens são levados a acompanhar uma cerimônia de sepultamento de paramilitares envolvidos em combates com separatistas ucranianos que defendem uma aproximação com a Rússia.

Os paramilitares, que já foram acusados pelos russos de simpatia com o nazismo, se orgulham de usar os capacetes de aço típicos dos soldados alemães durante a guerra e seu chefe ostenta um colar com a suástica nazista.

Para completar a imagem, o mais velho morador da região é trazido para conhecer o filho de Von Wachter de quem ele diz ter as melhores lembranças.

Não devemos esquecer que os nazistas usaram soldados ucranianos para ajudar na perseguição aos judeus e também no seu extermínio nos campos de concentração.

Independente dessas duas questões paralelas, pouco exploradas, o documentário traz de volta uma discussão importante, que tem sido retomada na Europa e principalmente na Alemanha, sobre as relações que as pessoas de hoje têm com o passado nazista de 70 anos atrás


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2 pensamentos em “Os filhos do nazismo”

  1. Por mais que se publiquem novos fatos sobre 1930/1945 sobre o nacional socialismo alemão (mesmo desde 1919 sobre a fundação deste partido) ou tentar buscar fundamentos históricos anti sionistas nas religiões principalmente na católica, é muito complexo buscar raízes nos descendentes diretos, neste casos filhos, para explicação psicológica ou sociológica de explicação. Posso dizer que poderíamos viver sem “remorso” nenhum vivendo numa parte da sociedade que aceite o neo nazismo. Os exemplos citados são inúmeros e, novamente citando um dos entrevistados que mora na Áustria, não percebo como não viver bem aonde a sociedade aceita (e sempre aceitou) normalmente o nazismo ou chamado neo nazismo. Lógicamente como judeu isto é inadmissível. Com certeza viveria com angústia na Áustria caso tivesse alí morar. Mas não deve ser muito diferente na Polonia, Hungria, Ucrania (entre outros). O antissionismo é latente. Ler Thomas Bernhard me traz mais angústia ainda. Bom domingo

  2. Assisti com muita atenção esse documentário. Apesar de pretensamente muito distante de nossa realidade o cenário onde tais fatos ocorreram, a relação entre filhos e pais é atual. Enquanto um era muito distante do filho e este, infere-se no documentário, saber do poder do pai, tal inferência é clara quando ele (o filho) estava passeando de carro por uma das ruas da Polônia Ocupada despreza um garoto, supostamente judeu, de mesma faixa etária, o fazendo com gestos, Por outro lado, o filho estava completamente alheio as atividades profissionais do pai, o que o induz a não crê nos relatos. Isso se intensifica quando eles vão à Galícia e percebe que o pai era muito querido pelos nativos, que demonstram saudosismo daquela época.

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