O que querem as mulheres?

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Os movimentos segmentados em defesa de determinadas causas sociais, como por exemplo os direitos das mulheres, negros, gays e lésbicas ou pela preservação da natureza, ajudam os seus participantes a perceber que por trás dessas injustiças contra as quais lutam, está um sistema político estruturado em cima dessas diferenças, ou, pelo contrário, provocam um gasto de uma energia que poderia ser concentrada no combate às causas dessas injustiças e não às suas consequências?

Como esses movimentos segmentados quase sempre se fazem dentro de partidos de esquerda ou, pelo menos, envolvem lideranças com esse matiz ideológico, uma resposta positiva à primeira alternativa da pergunta é possível.

Sim, esses movimentos, com uma imensa gama reivindicatória, funcionam como uma escola, onde os ativistas acabam descobrindo que o sistema democrático liberal, como o que vivemos, é incapaz de atender suas reivindicações e mais adiante perceberão que suas lutas devem buscar alvos mais altos.

Outra resposta possível é que não, os movimentos limitados às reivindicações grupais tendem a se esgotar, sem modificar o quadro social em que vivem os ativistas.

A favor dessa versão negativa, se coloca o papel do Estado, como representante da ordem legal democrática liberal e que, através das suas instâncias jurídica e parlamentar é capaz de responder positivamente a muitas dessas reivindicações.

No Brasil, por exemplo, alguns dos procedimentos que os movimentos sociais criticam são inclusive legalmente criminalizados, como nos casos dos preconceitos raciais ou contra as mulheres.

Ou seja, o Estado absorve e chancela os aspectos legais das reivindicações, mas a sociedade apenas os tolera, sem incorporá-los aos seus valores morais, com o que chegamos àquela famosa frase do Príncipe Tancredi Falconeri (Il Gattopardo, do livro de Giuseppe Tomasi de Lampedusa e do filme de Luchino Visconti) de que “é preciso mudar para que as coisas continuem sempre iguais.

No caso das mulheres, especificamente, vemos que o Estado brasileiro adotou posições diferentes em relação a duas de suas principais reivindicações.

A violência contra as mulheres, principalmente a doméstica, foi transformada em crime e seu criou uma lei para protegê-las, a chamada Lei Maria da Penha.

No caso da descriminalização do aborto, outra importante reivindicação dos grupos feministas, não houve avanço e pelo contrário, persiste uma ameaça de retrocesso na legislação, que pode se tornar ainda mais rígida.

Em países de capitalismo mais avançado, nos Estados Unidos e Europa Ocidental principalmente, existe um liberalismo econômico que se expande por todas as áreas, gerando uma secularização de hábitos e costumes de vida.

Já em países do capitalismo periférico, a influência retrograda das religiões, herança do período colonial, ainda se faz presente e influencia os direitos civis de todos, principalmente das mulheres.

Um exemplo atual de como as demandas mais importantes dos movimentos feministas, por exemplo, no caso do aborto, estão na dependência do que acontece nas esferas política e econômica, pode ser visto hoje na Polônia.

Até os primeiros anos da década de 1990, o governo do Partido Operário Unificado da Polônia orbitava em torno da União Soviética e seguia o que dizia a legislação dos países socialistas sobre a questão do aborto. Ele era totalmente livre e dependia apenas de uma decisão da mulher.

Segundo os historiadores e filósofos italianos Domenico Losurdo e Luciano Canfora, no livro “Stalin, a história crítica de uma lenda negra”, o último dirigente soviético, Mikhail Gorbatchov negociou com o Papa João Paulo II (o cardeal polonês Karol Wojtlyla) e o presidente americano George Busch, pai, a saída da Polônia do bloco socialista.

A partir desse fato, o fundamentalismo religioso católico polonês foi restringindo o acesso das mulheres às práticas contraceptivas. Em 1993, um acordo entre Lech Walesa e a hierarquia católica polonesa, limitou a possibilidade de aborto à apenas aqueles casos em que havia risco de morte para a mulher ou em que os fetos fossem frutos de incesto ou estrupo, transformando a Polônia no país europeu mais intolerante em relação aos direitos da mulher sobre o seu corpo.

Hoje, tramita no parlamento polonês um projeto do governo da primeira ministra Beata Szydto, pertencente ao Partido da Lei e da Justiça, o PLJ, que pretende endurecer ainda mais a lei, punindo com cinco anos de prisão, a mulher e seu médico, que fizerem um aborto em quaisquer circunstâncias.

A Polônia mostra como o retrocesso político, que fez o país passar de um sistema socialista para outro, capitalista, modifica radicalmente conquistas sociais.

Embora a Polônia parece ser um caso extremado, onde o fundamentalismo religioso é capaz de propostas como a de 46 deputados da Liga das Famílias Polonesas (LFP) que reivindicam a proclamação de Jesus Cristo como Rei da Polônia, argumentando que, desde 1657, a Virgem Maria é considerada a sua Rainha Honorária, nunca é demais estar atento para evitar um retrocesso semelhante no Brasil.

Enquanto isso, fica a pergunta:  as mulheres vão se contentar com as pequenas vitórias, ou querem tudo a que têm direito?


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2 comentários em “O que querem as mulheres?”

  1. O que se percebe é que as mulheres, principalmente do lado ocidental, assumiram posições muita mais enfáticas a partir do fim do século XIX e início do século XX. Já foram fundamentais nas greves texteis dos EUA antes de 1.900 e as greves em São Paulo antes de 1920. Também a luta feminina pelo sufrágio. Estão conseguindo espaços cada vez maiores afrontando conservadores machistas e principalmente as religiões (católicas e evangélicas) no Brasil. A mulher é guerreira: contra ainda enormes preconceitos, cria seus filhos,trabalha, na maioria delas sustenta a família e aguenta os “chatos” no fim do dia. Mesmo assim ainda recebem pagas menores do homem (mesmo tendo a capacidade igual ou maior), continuam sendo espancadas, violentadas e não conseguem uma justiça mais igualitária. Percebam a mínima participação das mulheres nos governos brasileiros (prefeitos, governadores, ministros, etc) e aparentemente nós “os machos” achamos normal. E não só aquí. No comunismo/socialismo soviético também não havia espaço para a mulher. A esquerda chama as mulheres de companheiras mas sempre elas são sempre minoria. E quem tinha problemas com as ditaduras, principalmente na América do Sul, eram as mulheres que elas, e só elas, continuavam lutar pela liberdade. O homem dito da “esquerda”, em raríssimas ocasiões, ajudava a mulher. Isto ainda terá que ser escrito. Parabéns às mulheres que sairam do casulo.

  2. A Estratégia das Feministas
    é Equivocada
    Franklin Cunha
    Médico

    U ma escultura em osso de vinte mil anos encontrada nos Pirineus mostra uma mulher transpassada por uma lança arrastando-se de gatinhas, enquanto um homem agachado lascivamente atrás dela tem o claro objetivo de uma penetração sexual, embora o volume dos seios e do ventre indiquem que ela está grávida. Em uma característica definição da ideia que o homem primitivo teria dos jogos sexuais, o antropólogo francês G.H. Luquet interpreta tal repelente representação como um “amuleto de amor”.
    O cerne das lutas feministas atuais coloca em questão todo o imaginário masculino através dos tempos, o qual não considerava as mulheres como seres humanos. Essa ideia ao longo dos séculos pouco se modificou. No concílio de Macon (França, ano 1100), por exemplo, o tema discutido durante um mês por centenas de cardeais foi a mulher, como e onde classificá-la, já que, segundo os príncipes da Igreja, ela não faria parte da espécie. E hoje, como consequência desse imaginário, a repelente cena primitiva de ataque e posse sexual se repete – real e simbolicamente – em todos os estratos sociais. E com muita frequência, pouca divulgação e rara punição. No entanto, se a visão das bravas feministas continuar sendo filtrada apenas através da ótica sexual, a luta será limitada e os resultados frustrantes.
    Quando Marx disse que a liberdade da mulher passa pela liberdade do homem, pensou em conquistas bem mais amplas do que o exercício livre e recreativo da sexualidade. A reivindicação de igualdade entre homens e mulheres no plano dos direitos coincide historicamente com o início das lutas pela igualdade dos homens entre si. As conquistas masculinas, no entanto, foram bem mais amplas e rápidas do que as femininas. Provavelmente devido à errônea estratégia adotada pelas mulheres.
    Na verdade, a opressão androcrática não imperava em todos os povos primitivos, mas acabou se impondo pela violência e derrotando as sociedades matriarcais. Hoje – lição apreendida – sabemos que a opressão da mulher não se resolve tentando derrotar o homem. A tática das alternativas (derrota/vitória) na luta entre os sexos é uma arma de domínio masculino. E é essa tática que a mulher deve recusar. Suas escolhas não podem se direcionar para uma participação no poder masculino mas no questionamento do conceito global do poder, na forma como ele está atualmente instituído e legalmente sacramentado.
    A igualdade hoje oferecida à mulher, adereçada como um princípio de justiça, é armadilha apetitosa, porém letal. O princípio justo é o que respeita as peculiaridades e as diferenças dos seres humanos. Além das de natureza biológica – vitais para a espécie e onde a mulher tem árdua e inevitável participação –, a mais importante é a milenar exclusão feminina da história. Os objetivos dos homens foram impostos por meio de uma truculenta coerção, sendo que todo o edifício social foi construído com rígidos módulos nitidamente másculos. Dentro dele é onde se permite a movimentação da m ulher. Ao pássaro cativo e decorativo abriram-se algumas janelas, mas ele continua engaiolado.
    A estrutura legal, a organização laboral, científica, artística, o psiquismo coletivo, a religião, enfim toda a cultura, está elaborada e ajustada de acordo com as prerrogativas dos homens. Nessa perspectiva a maioria dos discursos sobre a igualdade entre os sexos é apenas retórica dissimuladora da subjugação feminina.
    Elaborar uma solução futura implica conhecer o passado. O surgimento da propriedade privada originou um desequilíbrio entre os sexos com demarcação de espaços: o doméstico para a mulher e o público para o homem. No entanto, interpretar somente em bases econômicas nosso destino histórico deixa sem explicação um fenômeno do qual se ignora o impulso motor primordial.
    Nem o materialismo histórico nem a psicanálise indicam o mecanismo emocional determinante da passagem da propriedade comunal à propriedade privada. É fato consensual (e lamentável) ser a satisfação dos instintos a conduta orientadora do ser humano no contato com o outro sexo. A chave da questão parece estar no arquétipo do instinto de posse, no primeiro objeto concebido como seu pelo homem: o objeto sexual.
    A estratégia feminina, portanto, deverá ser orientada no sentido de remover do inconsciente masculino a sua primeira presa, na tentativa de extirpar o núcleo primitivo dessa ancestral patologia possessiva, estranha mistura de eros e tânatos.
    Talvez dessa tarefa devam se encarregar menos os antropólogos, sociólogos e psicólogos, e mais intensamente os etólogos.

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