Morrer, é feio na sociedade capitalista

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Na visão primária das pessoas mal informadas, os comunistas são frios e materialistas e os que se opõem a eles, são os defensores de valores humanistas.

Totalmente errado.

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O materialismo dialético proposto por Karl Marx se fundamenta nos valores que nos identificam como seres humanos, na medida em que desloca das divindades para o homem, as responsabilidades morais sobre todas as suas decisões que toma em vida.

 

 

Embora durante muito tempo o capitalismo liberal do ocidente, com a sua versão pasteurizada da democracia, tenha se posicionado como o oposto de um presumido interesse puramente materialista advindo das ideais marxistas, é ele que cada vez mais assume este caráter mercantilista.

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A evolução do capital para o modelo atual, onde até mesmo o dinheiro como um símbolo real do poder, está sendo substituído por impulsos eletrônicos contabilizado em nuvens imateriais, desumanizou totalmente um modelo econômico, que nos seus primórdios teve uma função revolucionária.

O resultado prático disso é que os seres humanos estão cada vez mais isolados uns dos outros e antigos hábitos e costumes que costumavam reunir as pessoas para comemorações ou para lamentações, estão cada vez mais distantes.

Veja-se, por exemplo a relação com a morte.

Ela, na sociedade capitalista é desagradável e feia e deve ser esquecida o máximo possível porque fere a imagem de eficiência e beleza que deve ser objetivo final da vida de todos os homens.

Como ela é inevitável, deve se tornar asséptica, limpa, despida de grandes emoções.

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Não se morre mais em casa.

Para os velórios se criaram lugares bem iluminados, arejados, servidos com as gentilezas de consumo, para que as horas passem mais depressa e os mortos desapareçam de vez.

De preferência incinerados, para não deixar nenhuma marca ou no máximo, enterrados em cemitérios-parques que mais parecem jardins floridos.

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Os velhos velórios que duravam uma madrugada inteira, na casa onde o morto vivera, identificadas nos convites de enterro como “a casa mortuária”, parece que impregnavam as paredes com suas lembranças por muito tempo.

Vivos e mortos, independentemente de suas crenças, tinham uma relação que não terminava no momento da morte.

Lembro que minha mãe falava do meu pai, muitos anos depois de sua morte, como se ele ainda estivesse vivo.

De alguma forma, ele continuava vivo, pelo menos para ela.

O sistema capitalista com a sua preocupação em tornar logo obsoletas as coisas, para substitui-las por outras, gostaria de fazer o mesmo com os seres humanos.

Envelheceu, morreu, troca por outro, mais novo.

O modelo, são as novelas de televisão, onde os personagens não morrem. Eles desaparecem para voltar em outros papeis na próxima novela.

As únicas mortes aceitas são as das grandes figuras públicas, exatamente porque perderam suas individualidades. São símbolos que precisam ser pranteados.

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Para a sociedade do espetáculo em que vivemos, a morte de um grande personagem, principalmente aquele que foi ligado às artes, funciona como uma catarse para a população.

Ao morrer, ele se torna igual aos seus admiradores ou detratores, fazendo com que a admiração ou inveja, sentidas antes, se transformem em solidariedade.

Talvez mais espanto, do que solidariedade, por se dar conta que ele era mais uma imagem (que é eterna) do que algo real (que é perecível).

Enfim, matamos eufemisticamente nosso pai e agora podemos viver em paz, até que um novo ídolo seja criado para ser colocado no lugar do grande morto.

O capitalismo, com sua preocupação absoluta com a utilidade que cada coisa tem e com seu desprezo total pelos valores humanos, é a forma acabada do materialismo que diz combater politicamente.

É o materialismo da pior espécie, o que só pensa no lucro e no dinheiro, totalmente oposto daquele pregado por Marx.

 


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2 pensamentos em “Morrer, é feio na sociedade capitalista”

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