Do Santo Ofício ao Papa Francisco, uma longa história de proibições

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Pergunta para o Eloy, que é de Uruguaiana, o que ele acha dos argentinos. Ele, com certeza vai dizer que não dá para confiar “nesses correntinos”, porque eles adoram uma confusão.

Não sei se o Jorge Mario Bergoglio é correntino ou apenas argentino. Mas que ele gosta de puxar temas controversos, lá isso gosta.

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Para quem não lembra, o Bergoglio é agora o Papa Francisco.

Essa semana, ele divulgou uma instrução da Congregação da Doutrina da Fé, proibindo que as cinzas dos mortos sejam guardadas em casa ou espalhadas em qualquer local público.

A Congregação da Doutrina da Fé é a herdeira, dentro da hierarquia da Igreja Católica, do mal afamado Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Esta instituição surgiu com o Papa Inocêncio IV, no século XII, inicialmente para combater a seita dos Cátaros, no Sul da França e perdurou até 1834.

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Com Gregório IX, em 1252, ela se tornou um tribunal para combater e julgar, não só heresias, mas todo o tipo de procedimento que colocasse em risco o poder da Igreja. Sob o controle dos padres dominicanos, os tribunais da inquisição se expandiram pelos países católicos da Europa, atingindo seu clímax na Espanha.

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Nesse país, mais de 300 mil pessoas teriam sido condenadas pelos tribunais e cerca de 30 mil executadas, a maioria pela fogueira.

 

O documento aprovado agora pela Congregação da Doutrina da Fé, intitulado Instrução “Ad resurgendum cum Christo”, e que substitui um anterior de 1963, adverte que “não é permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou em qualquer outra forma, ou a transformação das cinzas em lembranças comemorativas, peças de joias ou outros artigos”.

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E o documento vai mais longe: “No caso em que o falecido tinha sido submetido à cremação e [ocorra] a dispersão de suas cinzas na natureza por razões contra a fé cristã o seu funeral será negado

 

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Se você é católico e colorado e já deixou em testamento que quer suas cinzas espalhadas no Beira Rio, de preferência naquela goleira do lado Sul em que o Falcão e o Escurinho entraram tabelando de cabeça para fazer um gol histórico no Atlético Mineiro, esqueça.

Aquele amigo que já tinha avisado à família para espalhar suas cinzas na foz do Mampituba, terá que começar a pensar em reservar algum lugar no João XXIII.

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Mas, se mesmo assim, ele quiser enfrentar as penas da Igreja, que segundo se sabe são eternas, que troque Torres pelo Quintão. Pelo menos, lá a correnteza leva as cinzas para o Uruguai e não deixará maiores provas.

Quem, ignorante dos ensinamentos da Igreja Católica, imaginava que a proibição de espalhar as cinzas ao vento se devia a dificuldade de juntar todas as peças no dia do Juízo Final, foi alertado pela Instrução Papal que o problema não é esse.

.”A Igreja não tem razões doutrinárias para impedir tal prática, já que a cremação do cadáver não atinge a alma e não impede a onipotência divina de ressuscitar o corpo. Mas a Igreja continua a preferir o sepultamento porque assim se mostra uma estima maior em relação aos defuntos”, diz o documento”

 

Image #: 27638245 Newly elected cardinal Gerhard Ludwig Muller of Germany (R) smiles to cardinal Oscar Rodriguez Maradiaga of Honduras during a news conference to unveil his book "Poor For The Poor: The Mission Of The Church", with the preface written by Pope Francis, in downtown Rome February 25, 2014. REUTERS/Max Rossi (ITALY - Tags: RELIGION) REUTERS /MAX ROSSI /LANDOV

Já o ultraconservador Prefeito da Congregação, o cardeal alemão Gerhard Mueller, foi menos diplomático na sua avaliação da posição da Igreja “Os mortos não são de propriedade da família, são filhos de Deus, fazem parte de Deus e esperam em um campo santo sua ressurreição

Depois de tudo isso, fica a piada daquele sujeito que perguntou ao Temer se, quando morresse, queria ser cremado, e ele respondeu.

– Tudo menos ser cremado, porque não gosto de urna


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