A recusa como exercício da liberdade

Vivemos num sistema democrático onde os votos da metade dos eleitores, mais um, seria suficiente para que a vontade dessa exígua maioria devesse ser a lei a ser seguida por todos até próxima eleição

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Tivemos há pouco no Brasil uma prova de que isso não é verdadeiro. Um grupo minoritário, conseguiu impor sua vontade sobre a maioria.

 

Significa que não vivemos mais numa democracia?

Tecnicamente, sim.

De acordo com as regras que todos dizem aceitar, vivemos num estado de exceção pela negação do valor máximo da democracia, que é de ter um governo escolhido pelo povo.

Mas, outros atributos da democracia no sentido que conhecemos no ocidente –  liberdade de expressão, instituições funcionando normalmente, direito de reuniões públicas, eleições sendo realizadas – continuam vigorando.

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Dentro dessa linha, podemos pensar na democracia, não como um bem absoluto, mas como um projeto em construção, algo ainda não acabado, um processo que pode dar origem a algo muito belo ou pode se transformar uma obra desprezível.

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Construir uma democracia seria então como elaborar uma obra de arte e nessa comparação, o elemento comum seria a liberdade do seu construtor, que deve ser igual ao artista

O significado clássico de democracia é de que ela representa a vontade do povo, visto quase como uma abstração.

Como materializá-lo?

Por critérios numéricos, seria a maioria simples das pessoas.

Por critérios sociais, seriam os que vivem do seu trabalho.

Por critérios políticos, seriam os membros de um partido cuja programa seria o mais democrático de todos.

Por critérios ideológicos, seriam os que se propõem a ter condutas progressistas.

Talvez o conjunto de todas essas qualidades.

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Voltando a comparação de democracia com a arte, vamos pensar mais uma vez na ideia da liberdade.

O povo construtor da democracia deveria agir com a máxima liberdade.

Mas a definição de liberdade pode nos colocar novamente de um círculo sem saída.

Numa sociedade como a nossa, que vive submersa num processo permanente de comunicação em todas as direções, a possibilidade do indivíduo ter algum tipo de liberdade exige dele, acima de tudo, uma aposta no rompimento.

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Aqui talvez se possa começar a pensar numa saída: a democracia só pode ser construída por um povo constituído de pessoas capazes de usar radicalmente sua liberdade, superando as propostas de acomodamento que a comunicação oferece permanentemente e não aceitando as opções oferecidas.

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O exemplo trágico da escolha entre opções iguais é a do livro de Willian Styron, A Escolha de Sofia, que a maioria das pessoas conhece a partir da versão para o cinema de Alan Pakula, de 1982, com Meryl Streep e Kevin Kline. A desgraça de Sofia foi ter aceito a proposta do oficial nazista e feito uma escolha.

A recusa às opções propostas, seria o caminho para a verdadeira liberdade, ainda que no momento isso significasse a condenação dela e dos filhos.

O segundo turno das eleições em Porto Alegre não tem evidentemente todo esse conteúdo trágico, mas mesmo assim é mais uma oportunidade para que o eleitor recuse as opções que querem lhe impor e, nesse ato de liberdade, dê a sua contribuição para o aperfeiçoamento da democracia.

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