Qual o futuro do PT ? Uma proposta de discussão

 

O fato político mais importante da semana não foi a eleição de Marchezan para a Prefeitura, que isso significa apenas mais um passo atrás numa cidade que já pretendeu estar na vanguarda nacional, mas sim a divulgação do manifesto do PT do Rio Grande do Sul em favor de uma reformulação do partido, numa assembleia da qual participaram todos os seus principais nomes no Estado.

27/10/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Lançamento do manifesto Congresso partidário já, com a presença dos ex-governadores Olívio Dutra, Tarso Genro, direção do partido e bancadas federal e estadual, prefeitos e vereadores eleitos. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Diz o manifesto: “Estamos submetidos e no auge de uma poderosa operação de cerco e tentativa do aniquilamento do PT. Operação que impôs o impeachment, a maior derrota eleitoral da nossa história e – se não a detivermos – buscará prender Lula e destruir o Partido”.

Mais adiante, o manifesto aponta para as causas dessa situação: “O golpe decorre, em alguma medida, de nossos erros e/ou do atraso em tomarmos determinadas decisões, da ausência de uma estratégia adequada ao período, de uma política de alianças superada, do que fizemos ou deixamos de fazer na política econômica e nas chamadas reformas estruturais, no atrasou ou na ausência de reação à altura da ofensiva inimiga”.

O manifesto termina por propor o que considera o fundamental para mudar a situação: a escolha de uma nova direção nacional do PT e a realização imediata de um congresso nacional do partido.

“Neste contexto, o Partido precisa debater o que fazer e escolher uma nova direção. Precisamos realizar imediatamente um congresso partidário. Um congresso que tenha início nas bases, no encontro de nossa militância consigo mesma. Um congresso que discuta como recuperar o apoio do PT na classe trabalhadora brasileira, razão de nossa existência como organização e partido político”.

Se estas medidas serão suficientes para inverter a tendência que aponta para o esvaziamento do partido e mais, se elas terão guarida junto as demais secções estaduais do PT, que sempre estiveram mais à direita do que a gaúcha, são questões em aberto.

O que pretendemos aqui é propor mais alguns pontos à uma discussão, que não deveria ser exclusiva do PT, mas de todos os representantes da esquerda brasileira e principalmente de todos nossos intelectuais progressistas.

As duas maiores lideranças do partido no Estado, falaram sobre o passado e o futuro do partido.

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Olívio Dutra: ““O PT nasceu de um processo de lutas do povo brasileiro no final da década de 1970 que não tinha por objetivo apenas enfrentar a ditadura, mas também as políticas da elite brasileira. Uma ferramenta política com essa história não se esgota assim. O teto da casa caiu, mas não o seu alicerce e os seus fundamentos”.

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Tarso Genro: “Somos um partido em crise porque reduzimos nosso eleitorado, porque perdemos referenciais éticos e políticos e também porque perdemos centralidade programática. Precisamos de um congresso profundo que não rejeite enfrentar nenhum tema. Autocrítica não é autoflagelação nem transformar o partido em delegacia de polícia, mas sim verificar que condições trouxeram o partido para o ponto em que está”.

Esta é a primeira e grande questão.

O partido não pode aceitar discutir uma pauta imposta pela mídia. Não é uma questão ética ou moral que deve ser objeto de discussão, mas sim, uma questão política.

Como Tarso disse com precisão, não se pode transformar o partido em delegacia de polícia, nem seus membros devem partir para uma autoflagelação. O PT tem regras de comportamento para seus membros e quem não tiver agido com correção, deve ser punido, da advertência à expulsão.

Tudo muito simples.

O que precisa ser discutido é quais são as propostas do PT para o futuro e para se olhar o futuro, não se pode esquecer o passado, para que não se use em relação a ele aquela célebre frase de Marx sobre o 18 Brumário de Louis Bonaparte de que “ a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda, como farsa.

Quando Tarso fala e ele há muito fala nisso, em se refundar o PT, precisa ficar claro como seria esse novo partido.

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Em 1989, quando enfrentou Fernando Collor no segundo turno das eleições, Lula, a partir do apoio de Leonel Brizola, uniu toda a esquerda na mais importante campanha política do Brasil republicano.

Naquela ocasião, os dois campos estavam claramente definidos.

Era a esquerda contra a direita, sem quaisquer nuances.

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De um lado, Lula, um líder sindical, até então, não só aceito pelo establishment, mas promovido como uma alternativa mais palatável do que o brizolismo, visto como o grande inimigo e que agora se unia à esquerda mais radical.

 

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Do outro, Collor, um aventureiro político, representante das oligarquias nordestinas, vestido como uma capa de moralidade administrativa (o caçador de marajás) e que se encaminharia, no decorrer da disputa eleitoral, para um autoritarismo quase fascista.

 

Lula chegou àquela final embalado numa proposta socializante que, se vencedora, teria força suficiente para mudar radicalmente o Brasil.

O esforço desesperado do empresariado e da grande mídia, representada claramente pela ação deletéria da Rede Globo na manipulação do debate final entre Lula e Collor, mostra como as elites brasileiras se mobilizaram para derrotar a esquerda.

A derrota naquela ocasião abalou quase tanto a unidade das esquerdas como foi a do golpe militar de 1964.

Nas eleições seguintes, contra Fernando Henrique, o PT jamais conseguiu uma mobilização semelhante à disputa contra Collor e foi facilmente derrotado.

Já a eleição de Lula em 2002 teve dois novos componentes bastante claros: o descalabro do último governo de Fernando Henrique, que praticamente quebrou o País e desarticulou as forças partidárias que o sustentaram e as políticas de aliança do PT com partidos de centro, num movimento que o levaria cada vez mais em direção à direita.

A questão que se coloca hoje para os que defendem a refundação do PT, é qual partido que eles querem de volta: o de 1989, que enfrentou Collor ou o de 2002, que derrotou Serra?

A resposta a esta pergunta é que vai determinar o seu futuro.

Quando surgiu, o PT foi visto com simpatia até mesmo por segmentos mais à direita da sociedade e apontado pela mídia, inclusive pela Veja, como uma novidade positiva, principalmente pela sua preocupação em desvincular o sindicalismo brasileiro do apoio governamental.

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Brizola, na sua história de amor e ódio ao PT, disse que ele era a esquerda que a direita gostava e tinha um pouco de razão no que afirmava.

Os inimigos então, eram Brizola, os comunistas e os sindicatos dominados pelos “pelegos”.

O PT era como os pequenos times de futebol, sempre simpáticos, até crescerem o bastante para se tornarem inimigos.

Hoje o PT é o inimigo principal a ser batido, como foram Brizola e os comunistas no passado.

A outra importante questão é de que forma ele pretende interagir com os demais segmentos da esquerda brasileira no futuro.

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Se com aquela soberba de quem se sente o único portador da verdade, como foi sua marca, muitas vezes, no passado ou como mais uma força – talvez ainda a principal – num grande movimento que lute por avanços fundamentais para a nossa sociedade?

Essa é a questão crucial para o partido e para o Brasil.

O que ele pretende ser dentro de uma nova frente de esquerda?

Um partido com viés sindicalista interessado mais em conquistas pontuais para favorecer a classe trabalhadora, como foi no seu início ou partido socialista, que compreende e aceita a existência da luta de classes e age dentro dela sem concessões à burguesia?

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Se o caminho for o segundo, o PT poderá ser a principal força dirigente de um grande movimento que, se ainda não coloca como meta a erradicação do capitalismo, não olha para este objetivo apenas como uma utopia distante.

 

Ao estilo de Milton Ribeiro, porque hoje é sábado

Carlos Drummond de Andrade é o maior poeta da língua portuguesa e entre suas melhores poesias está Tempo de Homens Partidos.

 

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Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir

 

Lembrei dele no almoço de sábado, num restaurante da Zona Sul.

Numa mesa próxima estava um homem com uns 40 anos, almoçando com seus dois filhos, o maior com uns 10 anos e o menor, com no máximo 7 ou 8 anos.

Fiquei imaginando: é mais um cara que se separou da mulher e passa apenas os fins-de-semana com os filhos.

Nesses dias , eles são figurinhas fáceis em restaurantes e churrascarias.

Achei triste esta história de homens partidos, de mulheres partidas, de casamentos partidos.

Quem estava comigo lembrou que talvez seja melhor se separar do que manter casamentos de aparência.

Certamente.

Mas quando aquele cara, com os filhos na mesa ao lado, por exemplo, casou com uma mulher que nem imagino como seja, os dois estavam querendo ser felizes.

Talvez tenham sido durante algum tempo, mas aí tudo acabou.

O homem tem um ar simpático e bonachão. Certamente o seu rompimento com a mulher não foi algo traumático, do tipo que termina em delegacia.

Deve ter sido aquela situação onde tudo vai terminando aos poucos.

Provavelmente (e, então, me entrego totalmente às especulações) a mulher quis terminar o casamento porque sentiu que sua vida se encaminhava para uma idade onde não se espera mais grandes emoções e ele, pelo contrário, estava conformado com isso.

Será que ficou melhor para os dois.

Para ele, provavelmente não.

Fiquei tentado a dizer que lesse Drummond para se consolar, mas ele não entenderia minha sugestão.

Saí do restaurante quando ele pedia um sorvete de sobremesa para os filhos.

A recusa como exercício da liberdade

Vivemos num sistema democrático onde os votos da metade dos eleitores, mais um, seria suficiente para que a vontade dessa exígua maioria devesse ser a lei a ser seguida por todos até próxima eleição

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Tivemos há pouco no Brasil uma prova de que isso não é verdadeiro. Um grupo minoritário, conseguiu impor sua vontade sobre a maioria.

 

Significa que não vivemos mais numa democracia?

Tecnicamente, sim.

De acordo com as regras que todos dizem aceitar, vivemos num estado de exceção pela negação do valor máximo da democracia, que é de ter um governo escolhido pelo povo.

Mas, outros atributos da democracia no sentido que conhecemos no ocidente –  liberdade de expressão, instituições funcionando normalmente, direito de reuniões públicas, eleições sendo realizadas – continuam vigorando.

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Dentro dessa linha, podemos pensar na democracia, não como um bem absoluto, mas como um projeto em construção, algo ainda não acabado, um processo que pode dar origem a algo muito belo ou pode se transformar uma obra desprezível.

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Construir uma democracia seria então como elaborar uma obra de arte e nessa comparação, o elemento comum seria a liberdade do seu construtor, que deve ser igual ao artista

O significado clássico de democracia é de que ela representa a vontade do povo, visto quase como uma abstração.

Como materializá-lo?

Por critérios numéricos, seria a maioria simples das pessoas.

Por critérios sociais, seriam os que vivem do seu trabalho.

Por critérios políticos, seriam os membros de um partido cuja programa seria o mais democrático de todos.

Por critérios ideológicos, seriam os que se propõem a ter condutas progressistas.

Talvez o conjunto de todas essas qualidades.

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Voltando a comparação de democracia com a arte, vamos pensar mais uma vez na ideia da liberdade.

O povo construtor da democracia deveria agir com a máxima liberdade.

Mas a definição de liberdade pode nos colocar novamente de um círculo sem saída.

Numa sociedade como a nossa, que vive submersa num processo permanente de comunicação em todas as direções, a possibilidade do indivíduo ter algum tipo de liberdade exige dele, acima de tudo, uma aposta no rompimento.

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Aqui talvez se possa começar a pensar numa saída: a democracia só pode ser construída por um povo constituído de pessoas capazes de usar radicalmente sua liberdade, superando as propostas de acomodamento que a comunicação oferece permanentemente e não aceitando as opções oferecidas.

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O exemplo trágico da escolha entre opções iguais é a do livro de Willian Styron, A Escolha de Sofia, que a maioria das pessoas conhece a partir da versão para o cinema de Alan Pakula, de 1982, com Meryl Streep e Kevin Kline. A desgraça de Sofia foi ter aceito a proposta do oficial nazista e feito uma escolha.

A recusa às opções propostas, seria o caminho para a verdadeira liberdade, ainda que no momento isso significasse a condenação dela e dos filhos.

O segundo turno das eleições em Porto Alegre não tem evidentemente todo esse conteúdo trágico, mas mesmo assim é mais uma oportunidade para que o eleitor recuse as opções que querem lhe impor e, nesse ato de liberdade, dê a sua contribuição para o aperfeiçoamento da democracia.

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Do Santo Ofício ao Papa Francisco, uma longa história de proibições

Pergunta para o Eloy, que é de Uruguaiana, o que ele acha dos argentinos. Ele, com certeza vai dizer que não dá para confiar “nesses correntinos”, porque eles adoram uma confusão.

Não sei se o Jorge Mario Bergoglio é correntino ou apenas argentino. Mas que ele gosta de puxar temas controversos, lá isso gosta.

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Para quem não lembra, o Bergoglio é agora o Papa Francisco.

Essa semana, ele divulgou uma instrução da Congregação da Doutrina da Fé, proibindo que as cinzas dos mortos sejam guardadas em casa ou espalhadas em qualquer local público.

A Congregação da Doutrina da Fé é a herdeira, dentro da hierarquia da Igreja Católica, do mal afamado Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Esta instituição surgiu com o Papa Inocêncio IV, no século XII, inicialmente para combater a seita dos Cátaros, no Sul da França e perdurou até 1834.

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Com Gregório IX, em 1252, ela se tornou um tribunal para combater e julgar, não só heresias, mas todo o tipo de procedimento que colocasse em risco o poder da Igreja. Sob o controle dos padres dominicanos, os tribunais da inquisição se expandiram pelos países católicos da Europa, atingindo seu clímax na Espanha.

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Nesse país, mais de 300 mil pessoas teriam sido condenadas pelos tribunais e cerca de 30 mil executadas, a maioria pela fogueira.

 

O documento aprovado agora pela Congregação da Doutrina da Fé, intitulado Instrução “Ad resurgendum cum Christo”, e que substitui um anterior de 1963, adverte que “não é permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou em qualquer outra forma, ou a transformação das cinzas em lembranças comemorativas, peças de joias ou outros artigos”.

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E o documento vai mais longe: “No caso em que o falecido tinha sido submetido à cremação e [ocorra] a dispersão de suas cinzas na natureza por razões contra a fé cristã o seu funeral será negado

 

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Se você é católico e colorado e já deixou em testamento que quer suas cinzas espalhadas no Beira Rio, de preferência naquela goleira do lado Sul em que o Falcão e o Escurinho entraram tabelando de cabeça para fazer um gol histórico no Atlético Mineiro, esqueça.

Aquele amigo que já tinha avisado à família para espalhar suas cinzas na foz do Mampituba, terá que começar a pensar em reservar algum lugar no João XXIII.

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Mas, se mesmo assim, ele quiser enfrentar as penas da Igreja, que segundo se sabe são eternas, que troque Torres pelo Quintão. Pelo menos, lá a correnteza leva as cinzas para o Uruguai e não deixará maiores provas.

Quem, ignorante dos ensinamentos da Igreja Católica, imaginava que a proibição de espalhar as cinzas ao vento se devia a dificuldade de juntar todas as peças no dia do Juízo Final, foi alertado pela Instrução Papal que o problema não é esse.

.”A Igreja não tem razões doutrinárias para impedir tal prática, já que a cremação do cadáver não atinge a alma e não impede a onipotência divina de ressuscitar o corpo. Mas a Igreja continua a preferir o sepultamento porque assim se mostra uma estima maior em relação aos defuntos”, diz o documento”

 

Image #: 27638245 Newly elected cardinal Gerhard Ludwig Muller of Germany (R) smiles to cardinal Oscar Rodriguez Maradiaga of Honduras during a news conference to unveil his book "Poor For The Poor: The Mission Of The Church", with the preface written by Pope Francis, in downtown Rome February 25, 2014. REUTERS/Max Rossi (ITALY - Tags: RELIGION) REUTERS /MAX ROSSI /LANDOV

Já o ultraconservador Prefeito da Congregação, o cardeal alemão Gerhard Mueller, foi menos diplomático na sua avaliação da posição da Igreja “Os mortos não são de propriedade da família, são filhos de Deus, fazem parte de Deus e esperam em um campo santo sua ressurreição

Depois de tudo isso, fica a piada daquele sujeito que perguntou ao Temer se, quando morresse, queria ser cremado, e ele respondeu.

– Tudo menos ser cremado, porque não gosto de urna

Socialismo ou barbárie

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Todo mundo conhece a história do elefante solto dentro de uma loja de cristais. Ele destrói tudo, não porque é mau, mas porque é um elefante e está num lugar inadequado para sua força e tamanho.

A analogia com o sistema capitalista é óbvia. O capitalismo destrói todos os valores humanos em sua volta, não porque é intrinsicamente mau, mas porque é incompatível com a ideia de civilização.

Ele provoca guerras, a pobreza e a destruição da natureza e reintroduz a barbárie nas relações humanas.

Hoje, ele existe como uma entidade globalizada capaz de usar os antigos estados nacionais apenas como instrumentos para aumentar seu poder.

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Em termos geopolíticos podemos dizer que o capitalismo, hoje, está dividido em dois grandes centros de decisão, um localizado nos Estados Unidos e outro na China.

No primeiro caso, seus interesses se confundem em certos momentos com a velha política imperialista norte-americana, enquanto no segundo, ele funciona sob um controle rígido do Partido Comunista, que aparentemente ainda tem o poder de usá-lo na execução de seus projetos políticos.

No modelo chinês, ele é sustentado por um regime autoritário e pode se expandir livremente, sem quaisquer contestações.

O ocidental, teoricamente, deve respeitar determinadas regras democráticas, embora em caso de necessidade, essas regras possam ser sempre flexibilizadas.

O capitalismo ocidental, que nos diz mais respeito, não olha para a geografia mundial com os mesmos olhos de quem examina um mapa.

Ele não enxerga países.

Ele enxerga mercados.

Mercados produtores e mercados consumidores.

Seu único objetivo é o lucro acima de tudo.

E para alcançá-lo não existem mais barreiras nacionais.

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Sua bandeira é o livre comércio. Todas as fronteiras abertas, não para facilitar a circulação das pessoas, mas para garantir a compra e venda de bens de consumo.

Quando alguns países teimam em resistir e procuram defender suas riquezas em proveito de seus povos, os meios de persuasão vão de guerras comerciais às guerras reais.

O Iraque não aceitou as condições das grandes companhias internacionais para explorar o seu petróleo e para puni-lo, criou-se a fantasia de que dispunha de armas atômicas e o governo dos Estados Unidos, como o principal representante desse capitalismo belicoso, praticamente destruiu o País.

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Quando se precisou prejudicar as economias da Rússia e do Irã, baseadas na produção e exportação do petróleo, se forçou a baixa no preço do produto nos mercados internacionais, prejudicando por tabela a economia da Venezuela.

Mas não é apenas pela ação armada, que se calam os que resistem a esse capitalismo internacional e ainda sonham com um outro modelo de economia.

Veja-se o caso da América do Sul. Depois de derrubar os governos do Paraguai e Honduras com golpes parlamentares, os interesses imperialistas se voltaram para a desestabilização dos governos dos dois principais países sul-americanos, Argentina e Brasil.

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No caso da Argentina, com uma ampla campanha de denúncias através de uma mídia corrupta e venal, foi possível se chegar ao poder por via eleitoral e liquidar o projeto populista dos governos do casal Kirchner e colocar no poder um político sensível aos interesses imperialistas.

No Brasil, houve uma conjugação de forças entre um parlamento extremamente corrompido, o judiciário e a mídia, para afastar uma Presidente que, de alguma maneira, não seguia todos os pontos do modelo neoliberal que interessa ao capitalismo internacional.fora-cunha-impeachment

 

Não é coincidência, que o processo de desestabilizou do Governo Dilma tenha se iniciado através de um assalto a Petrobrás, que com a descoberta do pré-sal se tornara uma forte concorrente ás grandes empresas petrolíferas internacionais.

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Em 2013, Edward Snowden, ao divulgar alguns documentos secretos da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA), mostrou que esse serviço espionava há algum tempo o trabalho da Petrobrás.

 

 

Agora, o alvo principal na América do Sul é a Venezuela, que teve sua economia abalada pela queda fabricada nos preços internacionais do petróleo

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A mídia internacional (na Zero Hora existe um jornalista com uma obsessão quase doentia de falar mal da Venezuela), com o apoio de lideranças políticas golpistas internas, procuram derrubar um governo constitucional usando todas as armas possíveis.

Apesar disso, com o apoio da população mais pobre, o Governo da Venezuela resiste e continua executando sua política de melhorias sociais no País. Embora isso não seja publicado na mídia golpista, o governo do Presidente Maduro aprovou para 2017 a aplicação de 73% do orçamento nacional, estimado em quase 850 milhões de dólares em projetos sociais, principalmente em educação e saúde.

A médio prazo, as experiências com governos reformistas, no Brasil, Uruguai, Paraguai, Venezuela, Bolívia e Equador, nascidos a partir de inéditas mobilizações populares, estão condenadas a ser sepultadas pelas novas exigências do capital monopolista internacional, cada vez menos produtivo e mais financeiro._b3ee5d1dbe3128f9470dd8c2601a218dff13ed04

A longo prazo, a única meta pela qual vale a pena lutar é a busca de uma sociedade socialista, pois como diz Istvan Meszaros sobre o capitalismo no século XXI, a opção continua sendo a mesma citada por Rosa Luxemburgo, há quase 100 anos: socialismo ou barbárie.

 

 

 

Os “colloridos” estão de volta

 

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Nelson Marchezan Júnior deve ganhar as eleições para prefeito de Porto Alegre, não porque é melhor que o Sebastião Melo – os dois, para usar uma expressão bastante nova são vinhos da mesma cepa – (tem outra ainda mais nova, farinha do mesmo saco), mas porque a sua embalagem é mais nova e atraente.

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A linguagem é essa mesma, do marketing e não da política. Há uma nova geração de políticos (tem aquele prefeito de Pelotas,Eduardo Leite nessa linha), bem educados, assépticos, bonitinhos, lavados e passados na hora, que agrada o eleitor (e principalmente a eleitora) alienada politicamente.

As donas de casa sonham em ter um cara desses como filho ou como marido de suas filhas. Eles dizem que são politicamente corretos (aliás, detestam falar em política) e se preocupam acima de tudo com as questões administrativas, como se elas pudessem se desvincular da política.

Aí você vai ver por qual partido concorrem e aparece o PSDB, onde está reunida a nata do neoliberalismo brasileiro.

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Começa com o João Dória, em São Paulo segue com o Marchezan, e com o prefeito de Pelotas, que fez a sucessora, também uma jovem senhora do PSDB, Paula Mascarenhas.

 

É a escola criada pelo Fernando Collor. O PSDB adora esses caras. Quando o Collor se elegeu, o FHC ia ser o seu ministro do Exterior. Só não foi porque o Mário Covas, que foi candidato derrotado à Presidência, ameaçou sair do partido.

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Por isso, em protesto, dia 30, voto nulo.

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E, para não esquecer, Fora Temer

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Morrer, é feio na sociedade capitalista

Na visão primária das pessoas mal informadas, os comunistas são frios e materialistas e os que se opõem a eles, são os defensores de valores humanistas.

Totalmente errado.

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O materialismo dialético proposto por Karl Marx se fundamenta nos valores que nos identificam como seres humanos, na medida em que desloca das divindades para o homem, as responsabilidades morais sobre todas as suas decisões que toma em vida.

 

 

Embora durante muito tempo o capitalismo liberal do ocidente, com a sua versão pasteurizada da democracia, tenha se posicionado como o oposto de um presumido interesse puramente materialista advindo das ideais marxistas, é ele que cada vez mais assume este caráter mercantilista.

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A evolução do capital para o modelo atual, onde até mesmo o dinheiro como um símbolo real do poder, está sendo substituído por impulsos eletrônicos contabilizado em nuvens imateriais, desumanizou totalmente um modelo econômico, que nos seus primórdios teve uma função revolucionária.

O resultado prático disso é que os seres humanos estão cada vez mais isolados uns dos outros e antigos hábitos e costumes que costumavam reunir as pessoas para comemorações ou para lamentações, estão cada vez mais distantes.

Veja-se, por exemplo a relação com a morte.

Ela, na sociedade capitalista é desagradável e feia e deve ser esquecida o máximo possível porque fere a imagem de eficiência e beleza que deve ser objetivo final da vida de todos os homens.

Como ela é inevitável, deve se tornar asséptica, limpa, despida de grandes emoções.

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Não se morre mais em casa.

Para os velórios se criaram lugares bem iluminados, arejados, servidos com as gentilezas de consumo, para que as horas passem mais depressa e os mortos desapareçam de vez.

De preferência incinerados, para não deixar nenhuma marca ou no máximo, enterrados em cemitérios-parques que mais parecem jardins floridos.

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Os velhos velórios que duravam uma madrugada inteira, na casa onde o morto vivera, identificadas nos convites de enterro como “a casa mortuária”, parece que impregnavam as paredes com suas lembranças por muito tempo.

Vivos e mortos, independentemente de suas crenças, tinham uma relação que não terminava no momento da morte.

Lembro que minha mãe falava do meu pai, muitos anos depois de sua morte, como se ele ainda estivesse vivo.

De alguma forma, ele continuava vivo, pelo menos para ela.

O sistema capitalista com a sua preocupação em tornar logo obsoletas as coisas, para substitui-las por outras, gostaria de fazer o mesmo com os seres humanos.

Envelheceu, morreu, troca por outro, mais novo.

O modelo, são as novelas de televisão, onde os personagens não morrem. Eles desaparecem para voltar em outros papeis na próxima novela.

As únicas mortes aceitas são as das grandes figuras públicas, exatamente porque perderam suas individualidades. São símbolos que precisam ser pranteados.

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Para a sociedade do espetáculo em que vivemos, a morte de um grande personagem, principalmente aquele que foi ligado às artes, funciona como uma catarse para a população.

Ao morrer, ele se torna igual aos seus admiradores ou detratores, fazendo com que a admiração ou inveja, sentidas antes, se transformem em solidariedade.

Talvez mais espanto, do que solidariedade, por se dar conta que ele era mais uma imagem (que é eterna) do que algo real (que é perecível).

Enfim, matamos eufemisticamente nosso pai e agora podemos viver em paz, até que um novo ídolo seja criado para ser colocado no lugar do grande morto.

O capitalismo, com sua preocupação absoluta com a utilidade que cada coisa tem e com seu desprezo total pelos valores humanos, é a forma acabada do materialismo que diz combater politicamente.

É o materialismo da pior espécie, o que só pensa no lucro e no dinheiro, totalmente oposto daquele pregado por Marx.

 

Antes de votar, leia o Saramago

 

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Em 1998, José Saramago (1922/2010) se tornou o primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, pelo conjunto de seus romances (Memorial do Convento, A Jangada de Pedra, O Evangelho Segundo Cristo e Todos os Nomes, entre outros), mas principalmente pelo impacto literário e também político de sua obra prima, Ensaio Sobre a Cegueira, publicada em 1995.

Nesse livro, Saramago, que nunca escondeu sua condição de comunista, conta a história de uma cidade onde todos, subitamente, vão se tornando cegos, (apenas uma mulher é poupada dessa epidemia branca), e que, pouco a pouco, deixa de lado o modo relativamente civilizado que até existia nas relações entre seus moradores, para mergulhar na mais completa selvageria, numa óbvia alegoria sobre a vida numa sociedade capitalista.

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Sobre o livro, o próprio Saramago disse: “Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”

Em 2004, Saramago voltou ao tema da cegueira, agora de outro tipo, a cegueira política, com o livro Ensaios de Lucidez, inclusive introduzindo na história a principal personagem do seu romance Ensaio Sobre a Cegueira ( em 2008, o brasileiro Fernando Meireles, dirigiu Julianne Moore, Mark Rufallo e Alice Braga na versão cinematográfica do livro) a mulher que não perdeu a visão.ensaio-sobre-a-cegueira03

 

O tema é extremamente pertinente para a época eleitoral que vivemos hoje em Porto Alegre, onde uma grande campanha se desenvolve em favor da anulação dos votos, dada a semelhança dos projetos dos dois candidatos, totalmente opostos aos interesses da maioria da população.

Em seu livro, Saramago conta a história de uma cidade, a mesma em que ocorrera o surto de cegueira, onde agora, os eleitores se recusam também a optar entre propostas políticas absolutamente iguais e anti populares.

No dia das eleições, um domingo de muita chuva, as secções eleitorais permanecem praticamente vazias durante a parte da manhã, causando enormes preocupações para as autoridades, pela possibilidade de que ocorra um número muito grande de abstenções.

No período da tarde, porém se formam grandes filas diante das mesas eleitorais, o que tranquiliza as autoridades.

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A surpresa virá quando as urnas são abertas e mais de 80% dos votos são em branco. O governo, ameaçado em seu poder, decreta o estado de sítio e desencadeia uma enorme operação policial para tentar descobrir quem estimulou o processo e acaba incriminando a mulher que foi poupada da cegueira.

Nesse livro, Saramago retoma a sua denúncia sobre os limites da democracia numa sociedade capitalista, onde os direitos das pessoas só são respeitados quando não afetam os interessantes da classe dominante.

Quem ler o livro nos dias de hoje, não poderá deixar de perceber que, muito dessa fábula política criada por Saramago, parece se repetir no Brasil atual, onde a vontade da maioria das pessoas que elegeu democraticamente Dilma Rousseff, Presidente, em 2014 é desrespeitada pelo conluio de poderosos que comandam o parlamento, o judiciário e a mídia.saramago_ensaio_lucidez_marketing_leya

 

 

 

 

A farsa da torcida mista

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Domingo tem Grenal e vai se repetir mais uma vez a farsa da torcida mista, gremistas e colorados dividindo o mesmo espaço.

A televisão vai mostrar várias vezes, durante o jogo, os torcedores lado a lado com suas bandeiras com significados opostos.

Cronistas esportivos vão saudar em uníssono o evento como se fosse uma prova de civilidade, quando é mais um gesto a demonstrar o grau de alienação a que chegaram as pessoas, induzidas por uma mídia que se diz neutra em suas preferências clubísticas.

Sou contra.

Radicalmente contra, porque isso significa o esforço de alguns em acabar com o que levou Internacional e grêmio a alcançar a importância que hoje têm no cenário nacional, a rivalidade sempre presente em todas suas ações.

Antes que alguém me acuse de estimular algum tipo de agressividade entre as torcidas, quero deixar bem claro que sou totalmente contra qualquer tipo violência, nos estádios e fora deles e inclusive, discordo da existência das tais torcidas organizadas onde práticas violentas são comuns.

Na hora do jogo, a torcida do Inter deve ficar de um lado e a do grêmio de outro. No final, quem quiser, pode se encontrar civilizadamente para comemorar a vitória ou lamentar a derrota.

No campo, somos adversários e adversários não confraternizam enquanto a disputa não terminar.

Esse esforço de esmaecer a rivalidade entre lados opostos é comportamento típico da mentalidade alienada da classe média, que sonha com um mundo sem ideologia e sem confrontos.

Só que a realidade não é essa.

O mundo é dividido em classes sociais com interesses opostos. O futebol, em times com torcidas com cores diferentes e ambições que se opõem.

O sonho dos politicamente corretos é fingir que essas diferenças não existem, o que no final, na política, só serve para os interesses dos que eventualmente estejam no poder e no futebol, para tirar o brilho das competições.

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Minha vontade é que no domingo, os torcedores de vermelho de um lado, gritem “Vamo, Vamo, Inter” e os de azul, do outro lado, lamentem a derrota, mas que no final, na saída do estádio, possam gritar a uma só voz “Fora Temer”, nunca esquecendo que no segundo turno das eleições municipais, todos juntos, devem votar nulo.

Ou melhor, votar em Ninguém.20161017-votonulo

 

Mais violência contra os pobres

 

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Em vez de melhorar seus serviços, os novos dirigentes do INSS criaram uma “força tarefa” para revisar os benefícios, quase todos concedidos em medidas judicais, por incapacidade física dos segurados, para o trabalho.

Por trás de uma medida aparentemente moralizadora, está uma violência contra uma gente humilde, mal informada e convocada com prazos exíguos para comparecer a uma nova perícia.

Segundo as notícias, mais de 8 mil benefícios de cerca de 10 mil avaliados, foram anulados,gerando uma economia de 139 milhões de reais. Possivelmente, Temer e sua comitiva na Europa estão gastando muito mais do que isso. Quem assegura que as revisões, agora feitas, são mais corretas do que os exames que justificaram os benefícios?

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Mesmo que haja pessoas lesando a Previdência (e certamente há) se justifica criar tantas dificuldades para um grupo social já marcado pela pobreza e falta de oportunidades na vida, obrigado agora aprestar contas à uma burocracia insensível e perversa com os mais fracos socialmente?

 

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A colunista Rosane Oliveira usa hoje seu espaço em Zero Hora para dar uma lição de moral naqueles que se apossam de algumas migalhas do INSS com licenças médicas pouco confiáveis. Seria interessante que ela usasse a mesma veemência para criticar os patrões que sonegam, aí sim em milhões de reais à Previdência Social, ao não pagarem as contribuições devidas.