Quanto pode o nosso voto?

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Agora em outubro, estaremos votando novamente com a esperança de mudar alguma coisa para melhor nas nossas vidas.

Será que vale à pena ter alguma esperança?

Os que forem eleitos para as prefeituras têm ainda menos chances de melhorar as condições de vida dos eleitores, do que no caso de governadores, parlamentares e até mesmo do Presidente.

Em Porto Alegre, qualquer um dos representantes da esquerda, principalmente o Raul Pont e a Luciana Genro, têm uma tradição de defesa dos interesses populares que os credenciam muito mais ao voto dos eleitores esclarecidos do que quaisquer outros candidatos.

A pergunta é que, se nos seus discursos, tanto Raul quanto Luciana, não estão de certa forma, criando mais uma vez falsas expectativas entre os seus eleitores?

Eles falam sobre saúde, segurança, educação, uma melhor administração da coisa pública, mas será este o discurso que deve ser feito?

Ou melhor, além desse discurso, eles não deveriam começar a mostrar à população os limites de uma eleição dentro da nossa sociedade?

Não seria a hora de, além de pedir votos, mostrar como funciona o sistema político em que vivemos?

Não estaria faltando um discurso mais radical, dentro daquela visão de que radical é o que vai até à raiz das causas dos problemas da nossa sociedade?

Alguém que diga, por exemplo, que diz Slavoj Zizek em seu livro “O ano em que sonhamos perigosamente”: “ Hoje o que não nos falta é anticapitalismo; estamos assistindo até a uma sobrecarga de críticas aos horrores do capitalismo: livros, investigações profundas em jornais e matérias na televisão estão cheio  de empresas que poluem implacavelmente nosso ambiente, banqueiros corruptos que continuam recebendo bônus polpudos, apesar de os bancos precisarem ser salvos pelo dinheiro público, de fábricas clandestinas em que crianças fazem horas extras. No entanto, há uma armadilha nesse excesso de críticas: o que em geral não é questionado, por mais cruel que seja, é o quadro liberal democrata da luta contra esses excessos. O objetivo (explícito ou implícito) é democratizar o capitalismo, estender o controle democrático à economia por meio da pressão da mídia pública, dos inquéritos parlamentares, de leis mais rigorosas, de investigações políticas honestas, mas sem questionar o quadro institucional democrático do Estado de direito (burguês). Essa é ainda a vaca sagrada que nem mesmo as formas mais radicais de “anticapitalismo ético (o fórum de Porto Alegre, o movimento de Seattle) ousaram tocar”.

Os nossos candidatos de esquerda, ainda que enfrentando os problemas específicos da campanha eleitoral, não poderiam começar um processo de educação popular, lembrando, por exemplo, aquele ensinamento de Marx, de que as verdadeiras questões não estão apenas nas relações políticas, mas na mudança das relações sociais “apolíticas” de produção?

Nunca é bom esquecer aquela lição de Lenin, que no dia seguinte à vitória na Revolução de Outubro, dizia aos seus companheiros que não era hora de comemorar porque o processo revolucionário estava apenas começando e que a educação política democrática do povo era uma tarefa fundamental para o seu sucesso

No mundo inteiro, os exemplos de que mobilizações populares com palavras de ordem plenamente assimiláveis pelo sistema capitalismo se transformam em grandes frustrações.

O resultado da mobilização de milhares de egípcios na Praça Tahir, no Cairo, reclamando mais democracia, apenas redundou, primeiro na vitória eleitoral da Irmandade Muçulmana e em seguida num novo golpe militar, não mudando em nada o sistema implantado por Mubarak.

Na Grécia, a coligação de esquerda Syriza mobilizou o povo por mais democracia, mas foi obrigada a se render ao poder do capital internacional, porque na prática nunca contestou realmente o sistema capitalista que jogou o país numa crise econômica sem precedentes.

Nesse sentido é que precisa se entender a famosa frase de Alain Badiou de que “ Hoje, o inimigo não se chama império ou capital. O nome dele é democracia”.

Pode ser um tipo de análise complicada para se enquadrar nos espaços que os candidatos de esquerda dispõem para levar suas mensagens aos eleitores, mas seria interessante que, em algum momento começassem a pensar nisso.

Quem entende de eleições, até porque já concorreu a várias, ganhando e perdendo, como o ex-governador Tarso Genro, a quem respeito pela lucidez de suas observações, acredita que uma estratégia eleitoral baseada nas propostas de Zizek e Badiou não dialogaria com senso comum, inclusive para denunciar os limites do próprio processo.

Fica aberta a discussão.

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