Uma alegoria do capitalismo

Somente através da arte é que é possível representar todo o caráter amoral e aético do sistema capitalista.
Na vida real, ele se esconde atrás de representações positivas sobre o seu papel como impulsionador do desenvolvimento e se mistura com as ações dos seus agentes – os capitalistas – que como todos os seres humanos, têm qualidades positivas e negativas.
Sua essência é o lucro a qualquer custo e nessa busca, sua única barreira é aquela erguida por suas vítimas. Em tempos de relativa normalidade, ele contorna essas barreiras usando suas poderosas armas, que vão desde a venda publicitária de suas pretensas qualidades, buscando a conquista ideológica de suas vítimas, até a mais dura repressão, quando as resistências se tornam muito fortes.
Nos momentos de crise, ele assume a sua face mais cruel e predadora. O exemplo clássico dessa radicalização total foi dado pelo capitalismo alemão, na época do nazismo, quando transformou seres humanos em itens de produção, sugados até a sua exaustão total.
As mais notórias empresas colaboradoras dos nazistas foram a Bayer, a IG Farben, a Wolskwagen, a Siemens e Hugo Boss (fabricava os uniformes nazistas) , além das filiais americanas na Alemanha, da Kodak, Coca-Cola, que durante a guerra produziu o refrigerante Fanta para os soldados alemães, a IBM e a Ford.
Todas elas, direta ou indiretamente, se utilizaram do trabalho escravo de prisioneiros dos campos de concentração na Alemanha, Polônia e Ucrânia.  Em determinado momento, quatro de cada cinco empregados da Voks, eram prisioneiros de guerra.
Mesmo assim, poucos associam o nacional-socialismo de Hitler à forma mais extremada do capitalismo, preferindo ver apenas seus aspectos mais distorcidos, como a perseguição racial aos judeus, quando sua essência estava em levar às últimas consequências o lema do lucro a qualquer preço.
Esse objetivo era buscado se utilizando duas regras de ouro do capitalismo: derrotar a concorrência e produzir ao menor custo possível.
O primeiro objetivo era obtido através das guerras de conquista e o segundo, usando a mão de obra totalmente escrava.
Hoje, até por força de resistências históricas dos trabalhadores oprimidos, o sistema capitalista assume uma forma mais civilizada, mas em determinados momentos, retorna às suas origens selvagens.
Aqui entra a função da arte.
Uma leitura mais atenta da atual série de televisão Narcos, mostrada no mundo inteiro pelo Netflix, mostra o capitalismo com a sua cara mais destruidora.
Ao lado dos produtos estritamente necessários à sobrevivência dos seres humanos, gerados nas fábricas do sistema em todo o mundo, existem outros, que a civilização tornou importantes para à vida moderna, da arte a itens de conforto pessoal, mas também uma enorme quantidade de objetos que só existem para manter a grande máquina capitalista funcionando.
Além dessas categorias, existem também produtos totalmente nocivos aos seres humanos, reconhecidos pela maioria das pessoas, mas que continuam a ser produzidos legalmente, como no caso dos cigarros.
Numa posição extrema, existe a grande indústria ilegal da produção e distribuição de drogas, que pelo seu caráter profundamente destruidor, é tratada como uma ovelha negra do sistema capitalista, mas que com seus poderosos tentáculos se infiltra em muitas outras atividades legais.
A percepção comum das pessoas é de que se trata de uma atividade totalmente marginal com regras próprias e geridas por criminosos totalmente desumanos.
Embora, talvez não fosse intenção dos seus criadores, a série Narcos, sobre o mega traficante colombiano Pablo Escobar, se transforma numa alegoria sobre como funciona o sistema capitalista.
Os grupos familiares de traficantes são verdadeiras empresas que buscam maximizar seus lucros e como agem à margem das leis, decidem seus litígios não nos tribunais, mas através de ações armadas. Curiosamente, vendendo um produto fruto da modernidade dos costumes, se apoiam em práticas do capitalismo mais primitivo.
Suas lideranças, começando pelo próprio Pablo Escobar respeitam costumes religiosos, são amorosos pais de família e se comovem com as dificuldades materiais de seus empregados. O assistencialismo que Pablo Escobar usa para buscar apoio das comunidades onde atua, é o mesmo que o capitalista moderno usa através de suas fundações e obras de benemerência.
Até mesmo o patrocínio de times de futebol, hoje usado a não mais poder pelas grandes empresas, era praticado por Escobar em relação ao Atlético Nacional de Medelin.
Hoje, diretamente ou através de prepostos, os empresários buscam assentos nos parlamentos para influenciar em suas decisões e não poucas vezes reivindicam os maiores cargos de suas nações (Donald Trump quer ser presidente dos Estados Unidos), tal como   Pablo Escobar, que foi deputado no parlamento colombiano e que sonhava ser presidente.

Narcos é um retrato do sistema capitalista despido de suas vestes mais coloridas e atraentes, exatamente como ele é na sua essência.

A importância de um gesto

Imagens e gestos se tornam, muitas vezes, na história, a melhor representação de determinados acontecimentos e sintetizam numa fração de segundo o que precisaria ser explicado com milhares de palavras.
Para os brasileiros, o momento da independência, foi sempre representado pela maneira como o pintor Pedro Américo o imaginou no seu quadro O Grito do Ipiranga.
Qual a melhor representação do fim da segunda guerra mundial do que o hasteamento da bandeira soviética no topo do semidestruído Reischtag alemão, em maio de 1945, em Berlim?
As vezes é preciso apenas uma frase para representar todo um sentimento de heroísmo e resistência à sanha dos inimigos.
Quando os persas atacaram a Grécia, a última resistência se encontrava no Desfiladeiro das Termópilas, Diante de milhares de soldados de Xerxes, o rei Leônidas resistia com seus 300 espartanos e quando ouviu do rei persa que devia desistir da defesa, porque se as flechas persas fossem disparadas todas ao mesmo tempo cobriria a luz do sol, Leônidas responder com uma simples frase:
– Melhor, combateremos à sombra.

O que melhor pode representar a submissão da política externa brasileiro aos interesses dos Estados Unidos do que o gesto do senador baiano Otávio Mangabeira beijando a mão do presidente americano Dwight Eisenhower, em 1946.

Na época em que vivemos, com a multiplicação dos meios de comunicação, alguém que representa o seu país tem obrigação de policiar seus gestos.
Não foi o que fez Michel Temer em visita à China.
Fora da sua agenda oficial, ele visitou durante 50 minutos um shopping na cidade de Hangzhou e gastou 798 RMB, o equivalente a 400 reais para comprar um par de sapatos.
Sua imagem, experimentando os sapatos logo estava em toda a rede social.
Qual o problema?
Em março passado, a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) festejou como “um alívio” a extensão por cinco anos do direito antidumping contra sapatos chineses, com a aplicação de uma sobretaxa de US$ 10,22 a cada par importado do país. Segundo a entidade, o encarecimento do produto chinês para os compradores brasileiros permitiu a recuperação de postos de trabalho no Brasil quando foi aplicada em 2009. Ela teve extensões em 2010 e agora em 2016.
Segundo dados da entidade, em 2009 a importação de calçados chineses foi equivalente a US$ 183,6 milhões, cerca de 70% do total importado pelo Brasil naquele ano. Após a aplicação da sobretaxa, em 2010, o número caiu para US$ 54,9 milhões, 18% do total das importações de calçados no país. Em 2015, a importação de calçados da China foi de US$ 45,9 milhões.
Na época da renovação, o presidente-executivo da associação, Heitor Klein, afirmou que a medida asseguraria a sobrevivência da indústria, que em 2015 viu a sua produção cair 7,6% devido ao encolhimento da demanda no mercado doméstico.
A imagem de Temer representa com a força de um símbolo o seu desinteresse pela defesa da economia brasileira, da mesma maneira que o beija-mão de Mangabeira, em 1946, representou a submissão do governo brasileiro aos interesses americanos.


A melhor hora para morrer

Jesus Cristo, segundo a tradição cristã, morreu aos 33 anos. Fora dessa mitologia religiosa, outros grandes personagens, cujos registros históricos não trazem nenhuma dúvida sobre suas existências, morreram relativamente jovens para os padrões de vida atual.
Alexandre, o Grande, da Macedônia, como Cristo, também morreu aos 33 anos, depois de levar a cultura helenística para boa parte do mundo então conhecido, uns 300 anos antes da nossa era.
Napoleão Bonaparte viveu apenas 52 anos, suficientes para conquistar pela força das armas boa parte da Europa.
Lenin, que comandou a mais importante revolução do século passado, viveu 54 anos.
Mesmo o grande teórico do comunismo, Karl Marx, cujas fotos lembram um ancião, morreu aos 65 anos.
O que dizer então dos artistas?
Castro Alves, o poeta baiano do Navio Negreiro, morreu aos 24 anos.
James Dean, que seria o maior astro de Hollywood, no pós-guerra, viveu até a mesma idade de Castro Alves, 24 anos.
O grande escritor brasileiro, Graciliano Ramos morreu aos 60 anos
John Lennon, morreu aos 40 anos e Ernest Hemingway, apesar de viver até os 61, escreveu suas obras primas – Por quem os sinos dobram e o Velho e o mar – entre 40 e 50 anos.
Hoje, é comum as pessoas viverem até os 80, ou mesmo 90 anos.
O problema é se vale a pena.
Situado no topo da vida animal, o homem se distinguiu de seus ancestrais pela consciência que teve da sua existência. Isso permitiu que sua vida útil pudesse ser balizada por dois parâmetros: a possibilidade física de continuar cumprindo o papel primordial de todos os seres vivos, de perpetuar a sua espécie e a possibilidade mental de ter consciência de seus atos.
A medicina, pelo seu espetacular desenvolvimento, principalmente na segunda metade do século passado, tem conseguido prolongar a vida útil do ser humano por muitos anos, mas obviamente é incapaz de evitar o seu envelhecimento e morte.
Ocorre que, o envelhecimento físico e o mental não obedecem a mesma linha de tempo. Homens, já incapazes de cumprir sua função de conservação da espécie, são ainda mentalmente capazes de usar sua inteligência superior para realizar obras importantes para a humanidade.
O problema crucial é que essa usina de ideias, que funciona dentro do nosso cérebro e que aparentemente tem vida própria, está atrelada à sua base física.
O que chamamos de espírito humano não existe fora da matéria.
E como, embora as vezes pareça que prescinda dessa base material (as religiões vivem dessa suposição) ele sofre das doenças do corpo e vai se extinguindo aos poucos.
Então, assistimos essas pessoas perderem aquilo que as caracterizava como seres humanos, a consciência da existência e a capacidade de, com base em experiências passadas, elaborar projetos para o futuro.
São pessoas que se tornaram apenas corpos vazios, mantidos vivos por uma deturpação perversa da medicina, que atende, muitas vezes, apenas as expectativas dos outros (parentes e amigos) incapazes de se permitir um gesto de adeus definitivo.

No seu extraordinário romance O Drama de Jean Barois, Roger Martin du Gard, intuiu que seu personagem poderia estar condenado a se tornar também um morto vivo e se antecipou ao futuro, deixando um testamento, cuja primeira frase é: o homem que sou hoje aos 40 anos, deve prevalecer sobre o velho que serei um dia.

Os isentos

Na longa entrevista que concedeu ao site UOL, o jornalista José Trajano critica o jornalismo esportivo no Brasil dizendo que ele é feito por pessoas, que com raras exceções, são profundamente alienadas das questões políticas e toca rapidamente nas declarações de isenção na preferência clubística que elas dizem professar.
De todas as opções que somos levados a fazer na vida, talvez aquela que fizemos sem o menor interesse por algum tipo de recompensa, é pelo time de futebol para o qual vamos torcer pelo resto da vida. Aqui no Rio Grande do Sul, na sua grande maioria, as pessoas escolhem torcer para o Internacional ou para o Grêmio, esperando receber em troca apenas a alegria da vitória ou a tristeza da derrota, mas jamais se ouviu dizer de alguém mudou de lado por causa de uma dessas duas possíveis consequências.
Somos sempre fieis a essa escolha voluntária. Troca-se de mulher, troca-se de marido, mas não se troca de clube de futebol.
É claro que isso vale para os apaixonados pelo futebol e não para aqueles que só dizem assistir futebol – normalmente na televisão – quando joga a seleção brasileira. Nesse caso, pouco existe de paixão pelo futebol ou por um time. É apenas um modismo imposto pela mídia.
Vamos então aos que são pagos para falar sobre futebol no rádio, na televisão e nos jornais, um sonho de consumo de milhares de pessoas que são apenas torcedores.
Eles se transformam em figuras públicas, invejadas pela maioria e capazes, com suas opiniões, de mudar para melhor ou para pior, a vida dos clubes e seus torcedores.
Independente de algumas qualidades que possam exibir, basicamente a vocação deles para o exercício de suas profissões começou de uma maneira muito semelhante a dos que hoje são seus ouvintes, telespectadores ou leitores, ou seja, praticando ou apenas olhando com grande interesse para o futebol.
Como basicamente quase todos eles vieram de uma classe média razoavelmente instruída, começaram suas vivências com o futebol nos campos dos colégios onde estudaram e aí, todos eles escolheram um lado.
Ou eram colorados ou gremistas.
É de se duvidar que um menino de 10 anos se dissesse isento quanto as suas preferências pelo vermelho ou pelo azul.
Mas, quando por sorte ou talento, passaram à condição de jornalistas esportivos, começaram a se proclamar isentos, talvez acreditando que com isso tivessem suas opiniões mais respeitadas.
Levam a alienação, que José Trajano enxerga no campo político, para o terreno esportivo, de certa forma enganando seus leitores, ouvintes ou telespectadores, com uma isenção que não existe e que se existisse seria mais grave ainda.
Como confiar numa pessoa que nem sequer no campo esportivo é capaz de tomar uma posição.
Na política, certamente ela e diz também isenta, neutra, alienada, mas como disse uma vez Bertold Brecht, é o pior tipo de ignorante, a ignorante política.
No passado João Saldanha sempre se disse torcedor do Botafogo e nem por isso, deixou de ser respeitado. Pelo contrário, sempre foi ouvido com atenção tanto por botafoguenses como pelos seus adversários.
João Kfoury é corintiano e nem por isso deixa de ser um dos melhores cronistas esportivos do Brasil. Agora, José Trajano se diz torcedor do São Paulo.
Ary Barroso, o criador da música brasileira mais conhecida no mundo inteiro – Aquarela do Brasil – foi também locutor esportivo. Torcedor confesso do Flamengo, torcia descaradamente a favor do rubro-negro nas transmissões que eram feitas pelo rádio. Quando o Flamengo era atacado, ele dizia: “Ih, lá vem os inimigos. Eu não quero nem olhar.”, se recusando a nar rar o gol do adversário.

Não precisava chegar a tanto, mas a tal isenção politicamente correta dos nossos jornalistas esportivos, é falsa, porque certamente lá no seu íntimo, continuam torcedores do time de sua infância e se não for assim, é ainda pior, porque venderam sua alma por alguns minutos de fama.

Uma questão de semântica

O primeiro passo para a pacificação dos brasileiros deverá ser dado na área da semântica e vai precisar do auxílio de filólogos e professores da língua portuguesa. Precisamos definir com urgência o significado de algumas palavras da nossa língua, antes que se estabeleça uma anarquia total, onde a cada dia, velhos termos, que ontem serviam como sinônimos de alguma coisa, hoje são seus antônimos.
Um exemplo: Michel Temer, aquele aclamado pela senadora Kátia Abreu como o grande constitucionalista brasileiro, tem horror que o chamem de golpista e traidor. Ninguém o chama assim por mal. É que até ontem, as pessoas pensavam que organizar um movimento para derrubar uma presidenta legitimamente eleita e que não tivesse cometido nenhum ato atentatório à constituição, seria um golpe e que se aliar aos inimigos políticos do partido que o ajudou a eleger-se vice-presidente, seria traição.
O senador Aécio Neves, que não se conforma em ter sido derrotado nas eleições de 2014 e desde então se recusa a aceitar o resultado da vontade popular, se diz democrata.
Então, urgentemente precisamos definir o significado de algumas palavras fundamentais para a vida política brasileira.
Começamos pela mais usada e pervertida de todas as palavras, democracia e na sequência os que dizem a respeitar, os democratas.
A sua mais simples definição é aquela que diz que democracia é a forma de governo em que a soberania é exercida pelo povo.
Como vivemos numa época onde cada vez mais dependemos do que dizem as fontes eletrônicas, vamos copiar a Wikipédia:
“Democracia é um regime político em que todos os cidadãos participam igualmente, diretamente ou através de representantes eleitos, na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governança através do sufrágio universal. “
Parece um saco sem fundo, onde cabe a maioria dos políticos brasileiros, porque todos eles, inclusive os senhores Eduardo Campos e Michel Temer, repetem essas definições em seus discursos.
Golpe de estado ou revolução?
Na visão clássica dessas duas palavras, golpe significa derrubar, ilegalmente, um governo constitucionalmente legítimo e revolução, uma mudança drástica na organização social e econômica de um país.
O ilegalmente, presente na definição de golpe de estado, é que abre a perspectiva de grandes confusões, pois que entra no campo jurídico onde as interpretações, às vezes, valem mais do que as certezas.
No consenso da maioria das pessoas, qual seria o maior golpe, dado ilegalmente, contra a democracia na história da humanidade. Possivelmente, Adolf Hilter, com a instauração do regime nazista na Alemanha, seria o mais indicado. Só que, tecnicamente, Hitler chegou ao poder pela via parlamentar em 1933. Seu partido, o Nacional Socialista, foi escolhido pelo Presidente Hindenburg para formar o governo.
O golpe que Hitler, o famoso Putsch de Munique, 10 anos antes, só rendeu a Hitler algum tempo de prisão.
O conceito de revolução pode ser aplicado à francesa, à chinesa, à soviética, à Inglesa e à cubana, com mais ou menos precisão, porque elas tiveram um sentido de lutas de classe e mudaram, pelo menos durante algum tempo, a correlação entre as forças sociais e políticas de seus países.
Enquanto a palavra golpe é abominada pelos seus autores, a palavra revolução é sempre benvinda, mesmo quando não tem essas características.
No Rio Grande do Sul, chamam o movimento dos grandes fazendeiros contra o poder central por divergências menores em questões econômicas, de Revolução Farroupilha. Obviamente um exagero, tanto quanto chamar os movimentos de 1930 e 1932, de revoluções.
A de 30, que levou Getúlio Vargas ao governo, ainda poderia ter algumas características revolucionárias na medida que tentou substituir um grupo conservador por outro mais avançado politicamente, embora na essência o poder real continuasse longe do povo que o movimento dizia representar.
A de 32, dita constitucionalista, foi uma tentativa dos derrotados em 30, de recuperar o terreno perdido. Ela olhava para o passado e não para o futuro, como devem ser as revoluções.
Em 1964, os generais que tomaram o poder no Brasil, batizaram o movimento de Revolução de 31 de Março. Não foi nunca uma revolução, e nem foi no dia 31 de março. Foi um golpe de estado e se deu no dia primeiro de abril, o chamado dia dos bobos.
Supondo que os estudiosos da língua portuguesa chegassem a conclusão que a definição de democracia está correta – é a expressão da vontade do povo – seria preciso então se adotar com urgência, medidas que estimulasse essa vontade a se expressar livremente e depois, que ela não pudesse ser fraudada.
Em 1917, depois que os bolcheviques assumiram o poder na Rússia, Lenin disse aos seus seguidores que o processo revolucionário recém estava começando. A grande batalha não fora derrubar o regime do Tzar e depois o governo de Kerensky, mas conscientizar o povo dos seus direitos como classe social.
Então, as tarefas da esquerda hoje são, menos pensar sobre como vencer as eleições, embora não possa se omitir também das lutas políticas, municipais agora e estaduais e nacional, em 2018, e mais, a de começar a explicar para o povo o significado de algumas palavras, para que ele possa identificar com mais precisão quem são, por exemplo, os democratas e os golpistas.
Com Lula e Dilma, o PT chegou ao governo no Brasil, mas nunca teve o poder real em suas mãos. Por uma série de razões, ele deixou escapar essa oportunidade histórica e permitiu com suas alianças espúrias, inclusive um retrocesso político.
Os erros e vacilações do governo Jango ajudaram um golpe militar que durante 20 anos atrasou o desenvolvimento democrático do Brasil.
O novo golpe em 2016, em boa parte fruto das políticas de acomodação de Lula e Dilma, precisa ter uma vida menor. Para isso é preciso começar logo o processo de conscientização de todo o povo.
A discussão franca e aberta sobre os erros cometidos pelo PT e seus aliados é um primeiro passo nesse sentido.

Nossos heróis têm pés de barro

O que começou como um drama heroico, virou um melodrama piegas no seu final. 
As respostas da Presidenta Dilma aos seus interrogadores e a sua defesa feita por Eduardo Cardozo, encheram de orgulho as pessoas de bom caráter que sempre condenaram o golpe. 
Sua cassação foi a vitória dos canalhas como disse o senador Lindemberg Farias. 
Sessenta e um senadores, uns poucos por convicção ideológica e a maioria em busca de vantagens pessoais, que votaram pelo impedimento, mostraram com clareza que o Senado, como já demonstrara também a Câmara, são entidades corrompidas pelo poder econômico e a serviço de uma elite reacionária que manda no Brasil desde o seu descobrimento. 
São políticos para os quais as pessoas íntegras do Brasil devem virar as costas. Infelizmente, não foi o que fizeram alguns dos senadores que apoiaram Dilma. 
O discurso da senadora Kátia Abreu foi lamentável como peça política. Em momento algum ela poderia e ainda mais dizendo falar autorizada por Dilma, pedir clemência aos carrascos. O que nós defendíamos, acima de tudo, era o mandato de Dilma, porque ele representava a vontade da maioria dos brasileiros. 
A perda dos direitos políticos da Presidente era uma punição, ainda que injusta, que afetaria apenas a ela. A senadora argumentou que se tivesse seus direitos políticos suspensos, Dilma teria que viver com uma aposentadoria de no máximo 5 mil reais, esquecida talvez que a maioria dos brasileiros ganham muito menos que isso. Para a senadora Katia Abreu, como presidente da entidade de classe dos latifundiários, esse valor deve ser irrisório. 
Não contente com isso, a senadora citou na defesa da sua posição um pensamento de alguém que ela chamou de um grande constitucionalista brasileiro. Logo quem, o senhor Michel Temer, o grande beneficiado pelo golpe de estado. 
Não bastasse o discurso da senadora Katia Abreu, os senadores Jorge Viana, do PT, e João Capiberibe, do PSB, já então em nome da necessidade de convivência política com os golpistas, defenderam também que o impeachment se limitasse a cassação do mandato de Dilma e não a perda dos seus direitos políticos. 
Seus discursos deram margem aos gestos “altruístas e democráticos” de gente como Renan Calheiros e Fernando Collor, defendendo uma espécie de perdão para a pessoa física de Dilma Roussef. 
Pelo seu passado como resistente à ditadura e sua atuação honesta como Presidenta, ela não mereceria isso na sua biografia. 
É difícil ser herói o tempo todo, mas a cassação e o perdão concedido pelos que assaltaram um direito do povo brasileiro, enche de tristeza quem, como nós, acreditávamos que a luta ainda não tivesse terminado.