O povo brasileiro nas telas do cinema

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Aquarius não é um filme fácil, principalmente para um público entorpecido pela estética das novelas da Globo. Mas, vale o esforço.

Após um certo estranhamento inicial, o espectador mais inteligente vai percebendo que, mais do que contar a vida de Clara (numa magnífica interpretação de Sônia Braga), o que o diretor Kleber Mendonça está nos mostrando é a história do próprio povo brasileiro.

A estrutura factual é simples: Clara, uma intelectual, viúva, mora sozinho no apartamento de um pequeno edifício ( o Aquarius, do título) na Praia da Boa Viagem, em Recife, que uma empresa construtora quer por abaixo para construir mais um espigão.

Dividido em três partes, como nas tragédias gregas, a primeira é a época da inocência. A família ainda está toda reunida e comemora esta união durante uma festa de aniversário. Clara está recuperada de uma grave doença e a vida parece correr tranquila ao som das alegres músicas nordestinas.

Na segunda parte, Clara já está sozinha no apartamento, procurando resistir ao assédio de empresários, que num primeiro momento tentam seduzi-la com propostas de muito dinheiro para comprar seu apartamento, mas que logo em seguida partem para uma retaliação selvagem.

O interessante nessa parte é que não são apenas os capitalistas que agem contra Clara, mas também seus antigos vizinhos, que venderam seus apartamentos, mas que não conseguem receber seu dinheiro porque a nova construção não começa.

É impossível não ver nesse comportamento, o procedimento alienado, típico da classe média brasileira oprimida, se colocando ao lado dos opressores, ao assumir a sua ideologia.

Na terceira parte, Clara assume decididamente a resistência e depois de esgotar todos os recursos convencionais, adota as mesmas armas dos opressores para lhes impor uma derrota final.

Além desse conteúdo “político” do filme, há uma outra constatação importante que está presente e que precisa ser ressaltada:  é uma cena antológica que mostra como a vida é o nosso único bem definitivo. Depois de contratar um jovem para satisfazê-la sexualmente, a viúva Clara vai levar uma flor ao túmulo do marido no cemitério.Antes de colocar a flor sobre a lápide, ela diz que escreveu algumas palavras que vai ler para ele. Procura na bolsa o texto que escreveu, mas em seguida muda de ideia, se vira e vai embora. Caminhando entre os túmulos, ela vê dois coveiros esvaziando um túmulo das poucos ossos que ainda restam no seu interior. Quando se perde a vida, se perde tudo.


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