Foi apenas uma amizade colorida

Compartilhe este texto:

Eu tinha um encontrado marcado com um diretor da Editora no Hotel Plaza. Iriamos discutir o lançamento de um novo romance meu, ainda sem título. Aliás, esse era um dos temas da reunião.

Depois de dois livros que alcançaram algum sucesso– Raul: Crime na Madrugada e Tudo começou em 1964 – me sentia preparado para escrever o romance definitivo de minha vida.

Como fazem aqueles escritores americanos, eu ficara recluso durante um ano inteiro num apartamento em Gramado, gastando praticamente tudo que havia ganho com os primeiros livros, para escrever a obra que deveria me consagrar nas letras brasileiras.

A ideia do romance, era mais uma tentativa de tentar entender o comportamento das mulheres e para fazer isso, além das lembranças de um antigo e devastador amor, eu subira para Gramado levando alguns autores que também tentaram, com pouco êxito, diga-se de passagem, buscar essa resposta.

Além dos inevitáveis Freud e Lacan, eu levara vários romances, como o clássico Madame Bovary, de Flaubert e as histórias daquele velho devasso, o Charles Bukowski; a trilogia de Henry Miller, Sexus, Plexus e Nexus, alguma coisa do Sartre, um livro de poemas do Drummond e alguns discos do Chico.

Todos eles, deveriam servir para estimular a linha criativa que pretendia desenvolver naquele meu exílio.

Foi assim que escrevi umas 300 páginas que deveria mostrar agora ao editor, faltando apenas o título, numa dedicação só interrompida quando precisava ver algum jogo do Internacional no Sky ou um filme no Netflix.

O ponto de partida para a história foi um relacionamento mal resolvido que tive como uma das minhas alunas no final da década de 70.

Naquela época, eu era professor de Comunicação em duas universidades em Porto Alegre e meu interesse maior não era as matérias que lecionava, mas a oportunidade de algumas conquistas amorosas.

Minha meta a cada semestre, nas quatro ou cinco turmas em que lecionava, era de conquistar pelo menos uma aluna em cada turma.

Conquistar era um eufemismo para o esforço de levar para a cama a mais interessante de todas as alunas ou, pelo menos, aquela que mostrava corresponder mais minha atenção.

Como, na época, era ainda um homem casado, todas essas histórias deveriam durar no máximo algumas semanas e, se possível, começar e terminar sem deixar mágoas de parte a parte.

Naquele semestre, pela primeira vez, eu daria aula para alunos de Administração de Empresas, bem diferentes do pessoal com os quais já estava acostumado. Enquanto na Comunicação havia uma predominância de mulheres, a maioria da classe média alta, no novo curso, os homens formavam a maioria e o nível dos alunos ficavam num padrão social mais baixo.

Desde as primeiras aulas, me chamou a atenção uma das poucas alunas do curso. Mais do que bonita, ela era uma mulher desafiadora, sempre pronta a enfrentar qualquer tipo de questionamento, se destacando numa turma onde a indiferença era a norma.

Ela é inspiradora desse livro ainda sem nome.

Ao contrário dos dois primeiros livros, cheios de cenas de sexo, esse pretende ser um ensaio psicológico sobre o comportamento feminino. Tento com ele, penetrar no que Freud chamou de “buraco negro”, a psique feminina.

Enquanto ocupo centenas de páginas para longas digressões sobre o que torna o comportamento feminino tão pouco previsível, o enredo, como se falava antigamente dos filmes e das novelas, é bastante curto e não ocupa mais do que algumas dezenas de folhas.

É mais um “livro-cabeça”, outra expressão possivelmente fora de uso, do que um livro de sacanagens, como alguém disse do meu último trabalho publicado.

O personagem, inspirado na minha história, como tinha feito com sucesso em outras ocasiões, tenta conquistar a aluna com suas armas de sedução que sempre funcionaram: um cultivado ar de abandono, atenção especial durante as aulas, a oferta de uma carona na saída e até mesmo o empréstimo daquele livro sempre denominado como “o livro de cabeceira”.

As vezes parecia que ia dar certo novamente, que tudo se encaminhava para um desfecho feliz, mas ela recuava no minuto final. Era um jogo de gato e rato. Ela se oferecia e depois negava.

O personagem (eu também na história real), estava quase desistindo, quando no último dia de aula, pronto para sair, ela chega com o seu melhor sorriso e diz

– Hoje é seu dia de sorte professor, quer tentar?

Claro que queria.

Próximo da universidade havia um cine drive, aqueles cinemas ao ar livre que no passado os casais usavam para fazer sexo dentro dos carros, com a desculpa de assistir um filme ao ar livre.

Foi aí que aconteceu o desastre.

Mal tinha conseguido penetrá-la, quando sobreveio o orgasmo inesperado com a tão famosa e temida ejaculação precoce.

Ela não consegue disfarçar a decepção, muito menos ele, o orgulho ferido.

Mal se falam, depois, até que ele a deixa em casa.

Ele não se considerava um grande amante, daqueles que contam histórias de sessões intermináveis de sexo com muitas mulheres, mas até então desempenhava bem seu papel de macho.

Mas, logo com aquela mulher com a qual passara quase um ano sonhando, acontecia aquilo

Por que?

Era a pergunta que fazia o tempo inteiro.

Na noite da formatura, quando era um dos professores homenageados, ela deve ter percebido essa pergunta, ainda que não verbalizada, pois, quando como uma das formandas apertou sua mão, sibilou entre os dentes

– Me esquece.

Eu – agora voltando ao autor do livro e deixando o personagem de lado – não a esqueci e por muitos anos acompanhei a sua vida e todas as vezes que a via nessas revistas de economia, sempre apontada como uma das mais importantes entre as mulheres de negócio do Brasil, perguntava:

– Por que?

Agora estava no Hotel Plaza para entregar ao meu editor aquele calhamaço com mais de 300 páginas e ainda sem nome, no qual eu achava estivesse a resposta.

Como sempre, havia chegado muito cedo e enquanto esperava pelo editor resolvi dar uma caminhada pelo hall do hotel. Numa das salas, havia uma conferência sobre economia e como nas histórias do cinema, aconteceu uma coincidência que parecia impossível, a conferencista era ela.

A conferência estava terminando e quando ela, ainda uma mulher carismática como tinha sido há 40 anos, me viu, apenas sorriu.

Eu me aproximei, com a pergunta pronta, mas ela se antecipou com a resposta.

– Foi apenas uma amizade colorida.

Bom, pelo menos eu já tinha um nome para o novo livro:

FOI APENAS UMA AMIZADE COLORIDA

download-5

O novo livro de Marino Boeira, breve em todas as livrarias.


Compartilhe este texto:

2 pensamentos em “Foi apenas uma amizade colorida”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *