É possível ser comunista nos dias de hoje?

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Por que ser comunista nos dias de hoje? Não está mais do que provado que, quando aplicado, este sistema não deu certo? Não é verdade que o ser humano é individualista por natureza e jamais se adaptaria a um sistema que privilegia o coletivo? Os exemplos da antiga União Soviética e de Cuba, hoje, não são suficientes para demonstrar que na prática o comunismo não funciona?

Você já tentou responder mil vezes a estas questões, ora usando argumentos históricos, ora se socorrendo do que disseram grandes pensadores, buscando mostrar aos seus inquisidores que simplificar as idéias faz mal para a inteligência, mas sempre recebeu em troca olhares de desaprovação, na maioria das vezes, ou ainda pior, outras vezes, de comiseração por insistir em defender uma filosofia morta e enterrada.

Mas, você insiste.

A crise atual do capitalismo é um bom argumento, mas fica longe de convencer os detratores do comunismo. Desde que a burguesia organizou de forma definitiva o sistema capitalista no final do século XVII, ele sempre enfrentou crises, mas sobreviveu, ao contrário do comunismo na União Soviética, que viveu pouco mais de 70 anos, dizem eles.

É verdade.

O capitalismo constrói e destrói tudo que cria num ritmo cada vez mais frenético, a um custo trágico para a humanidade, gerando miséria e destruição do meio ambiente.

Os mais tolerantes concordam com isso, mas perguntam: por que não teve êxito a experiência comunista na União Soviética?

Você começa a sua resposta mostrando a diferença entre o sistema imaginado por Marx e Engels de uma sociedade sem classes e o que ocorreu na Rússia depois de 1917: o socialismo, com sua proposta de economia planejada, como primeira etapa do processo para ser chegar ao estágio do comunismo, foi interrompido sem chegar ao seu final.

Depois, você tenta explicar porque isso ocorreu: houve um desvirtuamento da ideia inicial da ditadura de uma classe social, que se transformou na ditadura de um partido e depois de um homem (Stalin); a necessidade de investir em armamentos para enfrentar a ameaça americana, impediu a melhoria na qualidade de vida de todo o povo; a falta de uma democracia interna gerou grandes focos de oposição, contidas apenas pela coerção policial; o apoio internacional para a União Soviética, granjeado pela sua liderança na luta contra o nazismo e fascismo durante a segunda guerra mundial, se esvaiu pela ação permanente de desconstrução dessa imagem pelos Estados Unidos, pela mídia do mundo inteiro e pela Igreja.

É claro que seus adversários não vão concordar com isso.

Então, você pode acrescentar que a curta existência do chamado “socialismo real” na União Soviética deixou pelo menos duas heranças importantes para quem vive nos países do “ocidente democrático”: a derrota do nazismo, que sem a resistência do Exército Vermelho, possivelmente teria se consolidado na Europa e o advento dos chamados “estados do bem estar social”, uma concessão dos governos capitalistas para afastar os trabalhadores dos “maus exemplos” do comunismo igualitário.

Aí, você chega ao ponto principal: o fato de não ter dado certo lá, não nos impede de pensar que se pode tentar de novo. O capitalismo levou quantos séculos para sobrepujar os antigos sistemas, escravagista e depois feudal? Quantas idas e vindas? E mesmo hoje, quando parece solidificado na América do Norte e na Europa Central, que tipo de benefícios ele traz para a maioria da população?

Esta é grande pergunta que deve ser feita: o capitalismo é capaz de levar a felicidade para a maioria das pessoas?

Nossa resposta será também de milhões de outras pessoas: não!

E o comunismo?

Talvez possa, corrigindo os erros do passado.

Rosa Luxemburgo disse uma vez que o dilema a ser enfrentado é: “socialismo ou barbárie”, complementado hoje por István Mészáros  de que “barbárie … se tivermos sorte, porque  o extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital”.

Então, respondendo as primeiras perguntas desse texto: você é comunista porque você não quer viver na barbárie e pela mesma questão ética proposta, quando a Revolução Francesa já se encaminhava para consolidação da ordem burguesa, por Babeuf e os “Sans-Culottes”, de que “o fim da sociedade é a felicidade comum e a Revolução deve assegurar a igualdade dos usufrutos”.

Líder da Conspiração dos Iguais, Babeuf foi executado na guilhotina em 1797, mas muitos de suas idéias serviram de inspiração para Marx e Engels formularem as bases de uma sociedade comunista que Lênin e Trotsky tentaram colocá-la em prática na Rússia.

Será que estes argumentos vão convencer alguém que, a priori, não quer ser convencido?

Possivelmente, não, mas não custa continuar tentando


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7 pensamentos em “É possível ser comunista nos dias de hoje?”

  1. ACONTECE QUE AMBOS NÃO PASSA DE DISCURSO POLITICO, PORQUE TODO DISCURSO POLITICO, TEM DUAS FACE;
    FALSIDADE: MENTIRA, TRAIÇÃO, PARA PARA ENGANAR O PROLETARIADO.
    EGOISMO: CONQUISTAM O POVO, ATRAVÉS DO POPULISMO, PARA ETERNIZAR SEU PODER E RIQUEZA AS CUSTA DO POVO. E ASSIM SENDO, ENGORDAM SEUS EGOS COM O PODER E RIQUEZAS PARA SEMPRE , OU MELHOR ATÉ CHEGAREM AO INFERNO. PORQUE FOI LÁ QUE SAIRAM.

  2. Zizek, com todas suas ideias políticas, comentários surpreendentes sobre filmes e com seus cacoetes, me faz lembrar o que disse Gide sobre Victor Hugo:
    ” Victor Hugo é um louco que pensa ser Victor Hugo “.
    Franklin Cunha

  3. Òbvio que o comunismo é uma farsa e é impraticável. Não adiante se socorrer de figuras risíveis como o Zizek pra tentar explicar porque essa conta nunca vai fechar. Comunismo é o evangelho da preguiça da inveja e do ódio, com muito acerto repetido por muitos até pelo churchill. Comunismo não gera riqueza apenas expropria o trabalho dos outros. É o poder do estado levado ao máximo, com uma casta da elite partidária e amigos do poder gravitando em torno. É o fim da liberdade, do auto-esforço, da individualidade. É um monte de gente trabalhando para ganhar o mínimo e sustentar uma nova casta de privilegiados que nunca gostou de trabalhar. Aliás nunca vi um esquerdista que gostasse do trabalho.

  4. Para o comunismo funcionar é necessário que o povo seja extremamente “domesticável” e sem ambição. Porém o que move o mundo é a ambição. É por ela que hoje temos carros, aviões, uma medicina avançada que cura doenças que antigamente eram fatais, meios de comunicação acessíveis a todos, etc. Sem a ambição estaríamos vivendo de plantio subsistente com uma baixíssima expectativa de vida e totalmente expostos às intempéries ambientais. Por isso, nesse sentido, a ambição é benéfica.

    Como as pessoas são ambiciosas, o que é bom, elas nunca vão se submeter a um Estado que tem poder sobre todos os âmbitos de sua vida, seu lucro, seu trabalho, suas viagens, pois essa seria uma nova forma de escravidão e é o que sugere o regime comunista. Por isso toda a nação que tentar implantar o comunismo sofrerá no mínimo algumas guerrilhas civis e terá muito derramamento de sangue.

    Se o comunismo não funcionaria porque as pessoas são ambiciosas, por outro lado as pessoas sem ambições não prosperam em regimes capitalistas, e por isso é que muitas são adeptas ao comunismo. Aí elas ficam reclamando da “burguesia” e das empresas “opressoras”, quando na verdade elas é que não tem disposição e nem ímpeto para sonhar e se esforçar para realizar os seus planos. Na verdade geralmente são pessoas deprimidas e insatisfeitas com a vida. Se vitimizam e clamam por um estado paternalista que afagaria as suas cabeças.

    1. Os homens são essencialmente egoístas e por isso uma sociedade sem classes (comunista) não pode dar certo.
      Certo?
      Errado.
      Uma experiência feita com alunos do Instituto Tecnológico de Massachusetts e depois repetida na Índia, mostrou que oferecer prêmios em dinheiro nem sempre funciona para melhorar o desempenho. No caso de tarefas rotineiras, a premiação funciona, mas quando ultrapassa as habilidades cognitivas rudimentares, ocorre o contrário. A conclusão da pesquisa, encomendada pelo Federal Reserve Bank, é que se deve pagar às pessoas o suficiente para que elas não pensem no dinheiro, mas sim no trabalho.
      Ou, como disse há muito tempo Karl Marx:
      “De cada um, segundo suas capacidades.
      A cada um, segundo suas necessidades”..

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