Bocão e sua nova técnica de combater o imperialismo

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Custei para me dar conta de que o Barros que estava me telefonando, era o mesmo Bocão, companheiro de estudos no Julinho e depois na Filosofia da UFRGS.

Enquanto, no início dos anos 60, a maioria do nosso grupo seguia uma linha mais política do Partidão (a bem da verdade muito menos arriscada, pelo menos no início), o Bocão estava ligado num grupo que logo iria partir para a luta armada.

A última vez que vi a sua cara, foi num daqueles cartazes que os milicos colocavam nos murais das faculdades com a foto e o nome dos “Procurados”.

Lá estava ele, agora cabeludo, mas com o mesmo ar de deboche com que enfrentava os debates estudantis: Luís Alberto Fregamont de Barros – vulgo Bocão – procurado por assalto a banco.

O nome, eu me lembrava das listas de chamada. Ele sempre dizia que descendia de nobres franceses e espanhóis e fazia questão de frisar que aquele “de” antes do último nome era uma garantia da nobreza dos seus ancestrais.

Nunca soube a causa do apelido, Bocão.  Sua boca era de tamanho normal. Talvez fosse porque ele nunca parava de falar. Já no Julinho, fora expulso mais de uma vez das aulas de matemática do professor Motorzinho porque atrapalhava todo mundo com as suas conversas.

Certamente os cartazes não resultaram na prisão do Bocão, porque ele apareceu muito depois numa lista de exilados que voltaram de Cuba. quando a anistia foi aprovada.

Agora, estava o Bocão no telefone.

– Cara, precisamos conversar. Tenho algo que vai te interessar.

Será que o Bocão estava se preparando para enfrentar novamente os golpistas de armas na mão e queria a minha ajuda.

Nessa altura da vida, era pouco provável que ainda tivéssemos alguma energia para combater a nova ditadura que estava sendo preparada.

Marcamos um encontro no Chalet da Praça XV e cheguei preparado para mostrar ao Bocão que o novo golpe não precisou de armas para se estabelecer e a rigor não tínhamos um inimigo definido para combater, como foram os milicos em 64.

Descontados cabelos que desapareceram e as rugas que apareceram embaixo dos olhos, era quase o mesmo Bocão de 30 anos atrás.

Ele estava ansioso para me fazer a sua proposta e por isso passamos rápidos pelas lembranças do Julinho e da Filosofia

– Lembra aquela Neusa que nós dois comíamos?

– Tu também, comia?

– Claro, cara. Não seja ingênuo. Não éramos só nós dois. Tinha muito mais gente na fila.

– É mesmo? O que é feito dela?

– Virou coxinha e agora é líder de um movimento a favor do Moro; lá no Moinhos de Vento.

– Como sabes, disso?

– Porque eu também estou nessa

– Como, esquecestes teu passado e agora estás na extrema direita?

– Calma, rapaz. Nunca vou ser nunca um cara de direita. Sou cada vez mais marxista-leninista e ainda um pouco stalinista, tudo isso temperado com as leituras dos livros do Slavoj Zizek.

– Quem?

– Zizek, esse novo filósofo esloveno. Precisas lê-lo, mas vamos deixar a filosofia para depois.  Vou te explicar, agora, a jogada.

Foi então que ele explicou a tal jogada e o que queria de mim.

Segundo ele, o Lava Jata iria fazer o que a esquerda nunca conseguiu fazer: destruir o capitalismo por dentro. Mostrando a corrupção desse pessoal do PT, ia fazer o povo se dar conta de que as medidas reformistas do Lula e da Dilma só atrasaram a revolução social no Brasil. O povo sempre aceitou – disse ele – a corrupção das elites, mas com o PT ele pensou que seria diferente. Agora, o povo está decepcionado com a tal democracia social que venderam para ele.

Quando lembrei que na Itália, um processo semelhante destruiu o centro e a esquerda, os democratas cristãos e os comunistas e abriu o caminho para o fascismo do Berlusconi, ele não se deu por achado.

– É um risco. Quando o Lava Jato acabar com tudo, a luta vai ficar clara: de um lado o imperialismo com algum representante local e do outro lado o povo.

– E no teu entendimento, esse representante vai ser quem?

– Obviamente não vai ser o Moro. Ele já terá cumprido o seu papel. O imperialismo usa essa gente, como usou o Eduardo Cunha, mas depois coloca como seu representante alguém com mais diplomacia, mais jogo de cintura.

Disse isso e ficou olhando para mim, sempre sorrindo, na espera de uma resposta.

– Quem, o Temer?

– E por que não?

– Está bem, Bocão, pra mim é uma ideia absurda, sem pé, nem cabeça, mas porque estás me contando tudo isso?

– Porque sei que tens um blog e algum espaço na mídia e preciso que comeces a divulgar essa ideia. Precisamos preparar o povo para a luta que se aproxima.

Foi então que me levantei da mesa, virei as costas e fui embora.

O Bocão tinha enlouquecido definitivamente.

Ou, não?


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3 pensamentos em “Bocão e sua nova técnica de combater o imperialismo”

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