Está na hora de falar sobre economia

 

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As vozes mais lúcidas da esquerda brasileira, o ex-governador Tarso Genro à frente, têm usado os poucos espaços que ainda dispõem na mídia para alertar a todos os nós para o processo acelerado de autoritarismo que se instalou no País e que nos ameaça com a volta aos tristes anos da ditadura militar.

Em vez da japona, temos agora a toga, invertendo o famoso comentário que fez o senador Auro Moura Andrade em 1964, ao defender as prerrogativas dos senadores face ao avanço dos miliares sobre os seus direitos.

Essa preocupação dos procuradores e juízes que pretendem varrer o País da corrupção, atropelando direitos e fazendo de cada suspeito um culpado, talvez merecesse mais uma interpretação psicanalítica do que somente política.

Essa ideia das mãos sempre limpas, inspiradas no exemplo dos juízes italianos, é totalmente incompatível com os processos capitalistas de geração de lucros.

Na Itália, o movimento dos juízes serviu para a destruição das duas maiores forças políticas nacionais, os comunistas e os democratas cristãos, abrindo caminho, no passado para o grande mafioso Berlusconi e hoje para políticos que fizeram nome na televisão e dizem abominar a política.

O controle da corrupção empresarial, inerente ao processo capitalista da produção, não pode ser feito apenas pela ação judicial, mas pela presença de partidos políticos comprometidos com os interesses da população.

Obviamente, não foi o que fez o PT, na totalidade dos seus membros, quando chegou ao Governo, mas certamente também não o fará os partidos que o sucederam no poder, principalmente o PMDB, historicamente comprometido com as práticas menos éticas da política.

Mas, não será destruindo o PT, onde ainda estão – junto com o PSOL e organizações sociais e sindicais – os bastiões de resistência ao avanço do autoritarismo antidemocrático, que o Brasil avançará.

Chegou a hora de deslocar as discussões das questões teóricas sobre a democracia e enxergar mais uma vez quais são seus pilares.

Talvez seja hora de se voltar um pouco para a ortodoxia marxista e lembrar que tudo é economia.

Ou quem sabe, relembrar a famosa frase de Thomas Carlville, o assessor de Clinton na campanha presidencial norte-americana contra Bush, pai, “é a economia, estúpido”, explicando porque a popularidade do candidato republicano, depois da vitória na invasão do Iraque, não foi suficiente para garantir sua reeleição?

Em seminário promovido pela revista Exame, Temer disse que o Brasil vive a maior crise da sua história e mencionou a inflação, que acelerou de 6% para 10% ao ano entre 2014 e 2015, e uma queda do investimento de 25%.
“Por trás desses dados estão homens e mulheres que pagam um preço inaceitável. Chegamos a quase 12 milhões de desempregados. E reitero que não foi culpa minha.”

Boa pergunta. De quem será a culpa? Quem sabe da Lava Jato, que a pretexto de moralizar o País, está destruindo a maior empresa nacional, a Petrobrás e colocando sob suspeita todos os grandes investimentos na infraestrutura feitos no País e que geravam milhares de empregos.

É preciso ter coragem de dizer que a economia capitalista brasileira está sendo destruída pela ação de um grupo de procuradores e juristas instalados em Curitiba, que todos os meses recebem religiosamente do Estado seus altos salários e que sonham com um capitalismo sem corrupção, como se isso fosse possível.

É essa destruição planejada e que no final serve a interesses econômicos internacionais, que agravou o quadro de crise econômica que o País vive e que precisa ser também denunciada.

Não se trata de defender a corrupção, mas de impedir que no seu combate se destrua também toda a economia nacional.

O racismo na sociedade americana

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Os recentes episódios de violência racial em Charlotte, na Carolina do Norte e em Baltimore, com a polícia disparando contra manifestantes negros desarmados, mostram que os Estados Unidos estão longe de ser a democracia que muitos acreditam que deveria servir como um modelo para todo o mundo.

Para os que colocam como ideal de vida o chamado “american way of life”, não custa lembrar que a abolição real da escravatura nos Estados Unidos só se deu oficialmente com as decisões do seu Congresso em 1964 e 1967, que asseguram o fim de leis racistas estaduais e o direito de todos ao voto.

Obviamente, o fato do racismo ter sido proscrito oficialmente, não significa que ele deixou de existir na sociedade norte-americana, como provam os constantes distúrbios raciais que costumam sacudir periodicamente as principais cidades americanas, opondo manifestantes negros à repressão, sempre violenta da polícia.

O apartheid racial, que gerou inclusive a grande Guerra da Secessão, de 1861 a 1865 nos Estados Unidos, tem, como não poderia deixar de ser, um componente de luta de classes.

Por trás da discriminação contra os negros, inicialmente e hoje contra hispânicos, árabes e asiáticos, está a defesa do status quod dos ricos, brancos não por acaso.

O preconceito contra os negros, mais por razões econômicas do que raciais, está escrita na famosa Constituição dos Estados Unidos, de 4 de julho de 1776.

Na declaração de independência das 13 colônias americanas da dominação inglesa, assinada por Thomas Jefferson, Benjamim Franklin, Roger Scherman, John Adms e Robert Livinsgton, está escrito que “todos os homens são criados iguais e que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, como os direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade.

A declaração é uma cópia do que escreveu o filósofo inglês John Locke (1631/1704) em sua obra Ensaio acerca do Entendimento Humano.

Locke, considerado o principal artífice da derrubada do absolutismo na Inglaterra, colocou entre os direitos inalienáveis do ser humano, o direito à vida, à liberdade e à propriedade.

Como os redatores da Declaração de Independência Americana eram grandes proprietários de escravos, não quiseram garantir nenhum direito à propriedade para seus escravos e por isso trocaram esse direito por um vago “direito à busca da felicidade”.

O capitalismo do bem

 

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Existe um capitalismo do bem?

Desde que Marx lançou as bases da sua visão histórica sobre o desenvolvimento das sociedades ocidentais, ficou claro que um sistema econômico, como no caso o capitalismo, não é bom, nem mau.

Ele é necessário em determinado momento, quando age como força do progresso econômico, e se torna supérfluo, quando começa a ser um entrave para este desenvolvimento.

Dito assim, parece fácil identificar em que momento ele se encontra hoje.

Mas não é o ocorre. O próprio Marx advertia para isso. Formas passadas – feudais, escravistas, etc – se misturam com os elementos mais modernos do capitalismo e perturbam o julgamento.

Outra questão é que ele não é um só. Num mundo globalizado, o sistema capitalista se mistura com interesses nacionais, ora se completando, ora gerando hostilidades entre seus componentes.

Outra questão é que ele não existe apenas como um sistema teórico que está acima da vida normal das pessoas.

Ele é envolvido por questões ideológicas e políticas, que oram ressaltam seus aspectos positivos, ora apontam para o que tem de negativo.

Dentro dessa perspectiva, como analisar sua presença no Brasil?

Até que ponto podemos falar num modelo capitalista brasileiro, com algum grau de autonomia em relação a um sistema internacional baseado na interação e ao mesmo tempo conflitos entre os mais diversos parceiros mundiais?

A primeira observação é que as recentes mudanças políticas no Brasil, com o afastamento de um governo que, mal ou bem, tinha determinados compromissos com uma versão nacionalista da economia, está facilitando o desmonte de um sistema construído à duras penas a partir da na segunda metade do século passada e cujo maior símbolo é a Petrobrás.

O desmanche da grande estatal brasileira, responsável pela criação de uma teia de negócios que asseguraram, nesses últimos 60 anos o grande crescimento econômico do País, é o  objetivo crucial do movimento golpista que levou Temer ao poder.

Um simples olhar nas cidades brasileiras do presente e uma comparação com o que eram em 1950, mostra quanto avançamos em progresso e, é claro, em sua contrapartida, quanto crescemos também em exclusão social e na criação de verdadeiros guetos habitacionais.

O capitalismo brasileiro gerou um progresso extraordinário, mas como é de sua essência, fez isso promovendo um verdadeiro apartheid social.

Mas, essa, ainda que extremamente relevante, não é a questão que este texto pretende discutir.

O que se pretende, é saber se este modelo capitalista brasileiro, com todas as suas distorções, trouxe algum tipo de vantagens para o povo brasileiro.

Caso quiséssemos um registro visual desse avanço, talvez pudéssemos comparar algumas fotos de cidades brasileiras de 1966 e 2016.

O que mudou em 50 anos?

Veríamos então grandes avenidas, viadutos, prédios, shoppings e novas zonas residenciais que mudaram a cara das cidades. Veríamos rodovias modernas ligando estas cidades, pontes superando os obstáculos que os rios representavam no passado e imensas hidrelétricas gerando energia para o País inteiro.

Esqueçamos por alguns segundos o aspecto material dessas obras e pensamos nos milhões de empregos que elas geraram.

Vamos pensar nos trabalhadores e suas famílias, que antes na miséria, tiveram a oportunidade de ter algum tipo de ascensão social.

São homens e mulheres arrancados da condição de quase escravos para assumir um degrau a mais na escala social, como trabalhadores assalariados.

Quem fez isso no Brasil?

As grandes empreiteiras, a OAS, Camargo Correa, Andrade Gutierrez e tantas outras, cujos nomes hoje figuram com destaque na crônica policial do Lava Jato.

Por que fizeram?

Por algum tipo de preocupação social?

Claro que não.

Por puro interesse comercial.

Para ganhar dinheiro.

E como é da essência do sistema capitalista, fizeram isso sem qualquer tipo de preocupação ética, roubando e corrompendo.

Ao destruí-las, como está sendo feito agora, a quem beneficiamos?

Como naquela velha piada, será que ao jogarmos fora a água suja da bacia depois do banho, não estaremos jogando também fora o bebê?

Bocão e sua nova técnica de combater o imperialismo

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Custei para me dar conta de que o Barros que estava me telefonando, era o mesmo Bocão, companheiro de estudos no Julinho e depois na Filosofia da UFRGS.

Enquanto, no início dos anos 60, a maioria do nosso grupo seguia uma linha mais política do Partidão (a bem da verdade muito menos arriscada, pelo menos no início), o Bocão estava ligado num grupo que logo iria partir para a luta armada.

A última vez que vi a sua cara, foi num daqueles cartazes que os milicos colocavam nos murais das faculdades com a foto e o nome dos “Procurados”.

Lá estava ele, agora cabeludo, mas com o mesmo ar de deboche com que enfrentava os debates estudantis: Luís Alberto Fregamont de Barros – vulgo Bocão – procurado por assalto a banco.

O nome, eu me lembrava das listas de chamada. Ele sempre dizia que descendia de nobres franceses e espanhóis e fazia questão de frisar que aquele “de” antes do último nome era uma garantia da nobreza dos seus ancestrais.

Nunca soube a causa do apelido, Bocão.  Sua boca era de tamanho normal. Talvez fosse porque ele nunca parava de falar. Já no Julinho, fora expulso mais de uma vez das aulas de matemática do professor Motorzinho porque atrapalhava todo mundo com as suas conversas.

Certamente os cartazes não resultaram na prisão do Bocão, porque ele apareceu muito depois numa lista de exilados que voltaram de Cuba. quando a anistia foi aprovada.

Agora, estava o Bocão no telefone.

– Cara, precisamos conversar. Tenho algo que vai te interessar.

Será que o Bocão estava se preparando para enfrentar novamente os golpistas de armas na mão e queria a minha ajuda.

Nessa altura da vida, era pouco provável que ainda tivéssemos alguma energia para combater a nova ditadura que estava sendo preparada.

Marcamos um encontro no Chalet da Praça XV e cheguei preparado para mostrar ao Bocão que o novo golpe não precisou de armas para se estabelecer e a rigor não tínhamos um inimigo definido para combater, como foram os milicos em 64.

Descontados cabelos que desapareceram e as rugas que apareceram embaixo dos olhos, era quase o mesmo Bocão de 30 anos atrás.

Ele estava ansioso para me fazer a sua proposta e por isso passamos rápidos pelas lembranças do Julinho e da Filosofia

– Lembra aquela Neusa que nós dois comíamos?

– Tu também, comia?

– Claro, cara. Não seja ingênuo. Não éramos só nós dois. Tinha muito mais gente na fila.

– É mesmo? O que é feito dela?

– Virou coxinha e agora é líder de um movimento a favor do Moro; lá no Moinhos de Vento.

– Como sabes, disso?

– Porque eu também estou nessa

– Como, esquecestes teu passado e agora estás na extrema direita?

– Calma, rapaz. Nunca vou ser nunca um cara de direita. Sou cada vez mais marxista-leninista e ainda um pouco stalinista, tudo isso temperado com as leituras dos livros do Slavoj Zizek.

– Quem?

– Zizek, esse novo filósofo esloveno. Precisas lê-lo, mas vamos deixar a filosofia para depois.  Vou te explicar, agora, a jogada.

Foi então que ele explicou a tal jogada e o que queria de mim.

Segundo ele, o Lava Jata iria fazer o que a esquerda nunca conseguiu fazer: destruir o capitalismo por dentro. Mostrando a corrupção desse pessoal do PT, ia fazer o povo se dar conta de que as medidas reformistas do Lula e da Dilma só atrasaram a revolução social no Brasil. O povo sempre aceitou – disse ele – a corrupção das elites, mas com o PT ele pensou que seria diferente. Agora, o povo está decepcionado com a tal democracia social que venderam para ele.

Quando lembrei que na Itália, um processo semelhante destruiu o centro e a esquerda, os democratas cristãos e os comunistas e abriu o caminho para o fascismo do Berlusconi, ele não se deu por achado.

– É um risco. Quando o Lava Jato acabar com tudo, a luta vai ficar clara: de um lado o imperialismo com algum representante local e do outro lado o povo.

– E no teu entendimento, esse representante vai ser quem?

– Obviamente não vai ser o Moro. Ele já terá cumprido o seu papel. O imperialismo usa essa gente, como usou o Eduardo Cunha, mas depois coloca como seu representante alguém com mais diplomacia, mais jogo de cintura.

Disse isso e ficou olhando para mim, sempre sorrindo, na espera de uma resposta.

– Quem, o Temer?

– E por que não?

– Está bem, Bocão, pra mim é uma ideia absurda, sem pé, nem cabeça, mas porque estás me contando tudo isso?

– Porque sei que tens um blog e algum espaço na mídia e preciso que comeces a divulgar essa ideia. Precisamos preparar o povo para a luta que se aproxima.

Foi então que me levantei da mesa, virei as costas e fui embora.

O Bocão tinha enlouquecido definitivamente.

Ou, não?

No Brasil da Casa Grande, a Senzala não tem vez.

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No Brasil republicano a indicação para o cargo de Presidente da República sempre foi uma prerrogativa da Casa Grande, que cabia a Senzala apenas aprovar.

Quando surgia uma divergência entre os integrantes da Casa Grande, chamava-se o Exército para dirimir as dúvidas.

A primeira grande cisão se deu em 1930, quando os grandes senhores não se entenderam e foi preciso então apelar para as armas.

Cada grupo mostrou suas cartas e como o grupo de Getúlio Vargas tinha em mãos um Royal Straight Flush, a oligarquia do café-com-leite, entregou logo os pontos.

Essa é aliás, uma regra de ouro da Casa Grande: pode-se discutir, trapacear, trair, mas nada de derramamento de sangue entre a nobreza.

Os escolhidos pela Casa Grande não devem satisfações à Senzala, mas os mais inteligentes costumam fazer alguns agrados a ela.

Getúlio, por exemplo, sempre cultivou boas relações com essa gente, porque era mais inteligente que seus pares. Ele sabia que apertando demais, a corda pode se romper. Então tratou de fazer alguns agrados à Senzala, obviamente sem misturar o patriciado com a plebe.

Mesmo assim, nem todos gostaram disso e Getúlio acabou deposto uma vez e levado ao suicídio noutra.

Outro discípulo de Getúlio, João Goulart, foi mais adiante do que a prudência recomendava e aí não teve jeito: foi preciso chamar os milicos.

A coisa tinha ido longe demais e já havia representantes da Senzala falando coisas desagradáveis para os ouvidos sensíveis dos donos do poder.

Nessas horas decisivas, como disse aquele coronel Passarinho, dado a pensamentos filosóficos, “ás favas os escrúpulos de consciência”

A gente fina da Casa Grande, que dizia cultuar os valores democráticos americanos e europeus, pelo menos na aparência, teve que conviver durante 20 anos com aquela plebe rude, pouco acostumada aos salamaleques dos finos salões em que vivia.

Mas, o que fazer?

Pior seria entregar ao poder à gentelha  pobre da Senzala que não sabia nem se comportar na mesa.

Quando os novos donos da Casa Grande começaram a ficar cansados com aqueles generais e coronéis que queriam disputar os melhores butins nos seus muitos negócios, voltaram de novo a falar naquela palavrinha mágica que antes fizera tantos estragos: democracia.

Valeria a pena trocar a tranquilidade daqueles anos de ditadura por uma democracia cheia de riscos?

Aquele velho tio, sempre disposto a dar bons conselhos, o Tio Sam, garantia que sim.

Ele dizia que uma boa democracia, com a mídia sempre a favor, tranquiliza a pobreza e deixa os ricos mais livres para ganhar dinheiro.

E então, a democracia voltou.

Com o apoio de uma grande rede de televisão e da maioria dos jornais, tudo ia correndo muito bem.

Quando o candidato perfeito que a Casa Grande tinha encontrado terminou seu mandato e não havia outro melhor para seu lugar, mudou-se a regra do jogo. Comprou-se alguns votos no Congresso e o príncipe dos sociólogos, o FHC, pode ser reeleito.

Mas, como não há bem que sempre dure, aquele metalúrgico chato do ABC, que já havia perdido três eleições, conseguiu ganhar a quarta.

Não adiantou todo o esforço da mídia comprada, Lula virou presidente

E não só virou Presidente, como se reelegeu e depois reelegeu Dilma, que se reelegeu também.

Aí ficou demais.

Não é que o Lula e a Dilma tenham acabado com o poder da Casa Grande. Não, eles sempre foram compreensivos com os direitos da elite. O problema é que eles começaram a melhorar a vida do pessoal da Senzala e como todos sabem, essa gente nunca se conforma com o que tem, está sempre querendo mais.

Então, foi preciso mexer de novo na Constituição.

Mas, nada de chamar os milicos, que depois eles não querem mais ir embora. Dessa vez foi um golpe limpo em que ninguém ficou ferido.

Só a Constituição, mas afinal quem se importa com ela.

Bastou os apoios do Judiciário, do Parlamento e da Mídia.

Tudo muito fácil, porque tanto o Lula, quanto a Dilma, não quiseram fazer o que a turma da Casa Grande sempre fez, colocar gente da sua turma nos lugares da decisão.

O Lula e a Dilma acreditaram naquela história, que a Casa Grande divulgava, mas não seguia, de respeito à divisão de poderes e nomearam seus futuros algozes.

Em vez do Procurador Geral, que na época do FHC era chamado de “Engavetador Geral da República”, nomearam um sujeito que indiciou os dois. A Polícia Federal, que eles modernizaram, os tratou como criminosos.

Só a mídia continuou sempre igual, na defesa intransigente dos direitos históricos da Casa Grande.

Então ficou fácil para a Casa Grande retomar o poder com o Temer e restabelecer a normalidade na República.

Ontem eram os comunistas, hoje são os petistas.

O sentimento de repúdio ao PT, introjetado na classe média brasileira por uma forte ação dos veículos de comunicação, não tem consistência para resistir a uma simples análise sociológica. Ele é inteiramente irracional nos seus objetivos, mas suas origens podem ser desvendadas facilmente na medida em que se reconheça o processo desenvolvido pela mídia para ir transformando o sentimento que, inicialmente era de solidariedade a um partido cujas bandeiras eram de representação das reivindicações populares em seu oposto, de repúdio ao seu projeto e principalmente aos seus líderes.

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A palavra chave para esta mudança se chama corrupção, atribuída pela mídia ao PT como se fosse uma prerrogativa exclusiva sua e de seus membros. O interessante nessa ação sistemática da mídia em atribuir essa característica ao PT é de que há claramente uma inversão de responsabilidades nesse processo.

Os agentes da corrupção são sempre os mesmos em toda a história brasileira moderna: os grandes empresários que usam seu poder material para construir o modelo político que lhes interessa e manter seus agentes sob controle.

Mesmo que eventualmente alguns desses empresários corruptores possam ser presos, como acontece agora, eles são apresentados pela mídia quase que como vítimas da ganância dos políticos.

Nesse aspecto, os meios de comunicação cumprem seu papel institucional – alguns com mais virulência, outros de forma mais amena – de defensores do modelo de democracia formal capitalista em que vivemos.

É nesse ponto em que se situa a necessidade de destruir um partido – no caso o PT e seus líderes – pela ameaça que ele representou, ainda que de forma muito tímida, a continuidade de um sistema que é essencialmente nocivo ao povo.

Outras ameaças ao sistema foram atacadas no passado da mesma maneira, usando a bandeira da honestidade contra a corrupção. Na história recente do Brasil, foram estes argumentos os usados para pressionar o Governo Vargas, levando o seu líder ao suicídio e no processo que terminou com o golpe de 64.

Nenhum caso, porém, foi tão marcante na nossa história recente como a transformação dos comunistas nos grandes inimigos da pátria brasileira. Como hoje ocorre com os petistas, a mídia os transformou nos grandes agentes do mal.

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Dois eram os argumentos principais, já que nesse caso a acusação de corrupção não se sustentaria: o comunismo era uma doutrina exótica, distante dos sentimentos cristãos e ocidentais do povo e o comunismo era contra a religião e a existência da família.

O primeiro era um absurdo conceitual, já que os comunistas se inspiravam no marxismo, um sistema baseado num tripé: as ideias dos economistas inglesas, dos socialistas franceses e dos filósofos alemães, nada mais ocidental, portanto.

Segundo, os comunistas, por princípio, não incluíam a ideia de Deus na construção do mundo e da sociedade e em consequência disso, não admitiam uma religião de Estado, como temos hoje aqui, ainda que de forma disfarçada, mas por princípio democrático defendiam que cada um pudesse escolher a religião que quisesse.

Quanto à família, talvez fossem até conservadores demais.

O processo de desconstrução dos ideais pelos meios de comunicação a serviço dos interesses da grande burguesia foi tão eficiente que o Partido Comunista praticamente desapareceu como agente de influência na vida política brasileira.

Ainda que substituindo a bandeira revolucionária dos comunistas da foice e do martelo pela bandeira reformista da estrela, o PT é hoje o alvo a ser destruído, como o PCB foi no passado.

Os comunistas de hoje, para a grande mídia, são os petistas

 

 

 

O povo brasileiro nas telas do cinema

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Aquarius não é um filme fácil, principalmente para um público entorpecido pela estética das novelas da Globo. Mas, vale o esforço.

Após um certo estranhamento inicial, o espectador mais inteligente vai percebendo que, mais do que contar a vida de Clara (numa magnífica interpretação de Sônia Braga), o que o diretor Kleber Mendonça está nos mostrando é a história do próprio povo brasileiro.

A estrutura factual é simples: Clara, uma intelectual, viúva, mora sozinho no apartamento de um pequeno edifício ( o Aquarius, do título) na Praia da Boa Viagem, em Recife, que uma empresa construtora quer por abaixo para construir mais um espigão.

Dividido em três partes, como nas tragédias gregas, a primeira é a época da inocência. A família ainda está toda reunida e comemora esta união durante uma festa de aniversário. Clara está recuperada de uma grave doença e a vida parece correr tranquila ao som das alegres músicas nordestinas.

Na segunda parte, Clara já está sozinha no apartamento, procurando resistir ao assédio de empresários, que num primeiro momento tentam seduzi-la com propostas de muito dinheiro para comprar seu apartamento, mas que logo em seguida partem para uma retaliação selvagem.

O interessante nessa parte é que não são apenas os capitalistas que agem contra Clara, mas também seus antigos vizinhos, que venderam seus apartamentos, mas que não conseguem receber seu dinheiro porque a nova construção não começa.

É impossível não ver nesse comportamento, o procedimento alienado, típico da classe média brasileira oprimida, se colocando ao lado dos opressores, ao assumir a sua ideologia.

Na terceira parte, Clara assume decididamente a resistência e depois de esgotar todos os recursos convencionais, adota as mesmas armas dos opressores para lhes impor uma derrota final.

Além desse conteúdo “político” do filme, há uma outra constatação importante que está presente e que precisa ser ressaltada:  é uma cena antológica que mostra como a vida é o nosso único bem definitivo. Depois de contratar um jovem para satisfazê-la sexualmente, a viúva Clara vai levar uma flor ao túmulo do marido no cemitério.Antes de colocar a flor sobre a lápide, ela diz que escreveu algumas palavras que vai ler para ele. Procura na bolsa o texto que escreveu, mas em seguida muda de ideia, se vira e vai embora. Caminhando entre os túmulos, ela vê dois coveiros esvaziando um túmulo das poucos ossos que ainda restam no seu interior. Quando se perde a vida, se perde tudo.

É possível ser comunista nos dias de hoje?

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Por que ser comunista nos dias de hoje? Não está mais do que provado que, quando aplicado, este sistema não deu certo? Não é verdade que o ser humano é individualista por natureza e jamais se adaptaria a um sistema que privilegia o coletivo? Os exemplos da antiga União Soviética e de Cuba, hoje, não são suficientes para demonstrar que na prática o comunismo não funciona?

Você já tentou responder mil vezes a estas questões, ora usando argumentos históricos, ora se socorrendo do que disseram grandes pensadores, buscando mostrar aos seus inquisidores que simplificar as idéias faz mal para a inteligência, mas sempre recebeu em troca olhares de desaprovação, na maioria das vezes, ou ainda pior, outras vezes, de comiseração por insistir em defender uma filosofia morta e enterrada.

Mas, você insiste.

A crise atual do capitalismo é um bom argumento, mas fica longe de convencer os detratores do comunismo. Desde que a burguesia organizou de forma definitiva o sistema capitalista no final do século XVII, ele sempre enfrentou crises, mas sobreviveu, ao contrário do comunismo na União Soviética, que viveu pouco mais de 70 anos, dizem eles.

É verdade.

O capitalismo constrói e destrói tudo que cria num ritmo cada vez mais frenético, a um custo trágico para a humanidade, gerando miséria e destruição do meio ambiente.

Os mais tolerantes concordam com isso, mas perguntam: por que não teve êxito a experiência comunista na União Soviética?

Você começa a sua resposta mostrando a diferença entre o sistema imaginado por Marx e Engels de uma sociedade sem classes e o que ocorreu na Rússia depois de 1917: o socialismo, com sua proposta de economia planejada, como primeira etapa do processo para ser chegar ao estágio do comunismo, foi interrompido sem chegar ao seu final.

Depois, você tenta explicar porque isso ocorreu: houve um desvirtuamento da ideia inicial da ditadura de uma classe social, que se transformou na ditadura de um partido e depois de um homem (Stalin); a necessidade de investir em armamentos para enfrentar a ameaça americana, impediu a melhoria na qualidade de vida de todo o povo; a falta de uma democracia interna gerou grandes focos de oposição, contidas apenas pela coerção policial; o apoio internacional para a União Soviética, granjeado pela sua liderança na luta contra o nazismo e fascismo durante a segunda guerra mundial, se esvaiu pela ação permanente de desconstrução dessa imagem pelos Estados Unidos, pela mídia do mundo inteiro e pela Igreja.

É claro que seus adversários não vão concordar com isso.

Então, você pode acrescentar que a curta existência do chamado “socialismo real” na União Soviética deixou pelo menos duas heranças importantes para quem vive nos países do “ocidente democrático”: a derrota do nazismo, que sem a resistência do Exército Vermelho, possivelmente teria se consolidado na Europa e o advento dos chamados “estados do bem estar social”, uma concessão dos governos capitalistas para afastar os trabalhadores dos “maus exemplos” do comunismo igualitário.

Aí, você chega ao ponto principal: o fato de não ter dado certo lá, não nos impede de pensar que se pode tentar de novo. O capitalismo levou quantos séculos para sobrepujar os antigos sistemas, escravagista e depois feudal? Quantas idas e vindas? E mesmo hoje, quando parece solidificado na América do Norte e na Europa Central, que tipo de benefícios ele traz para a maioria da população?

Esta é grande pergunta que deve ser feita: o capitalismo é capaz de levar a felicidade para a maioria das pessoas?

Nossa resposta será também de milhões de outras pessoas: não!

E o comunismo?

Talvez possa, corrigindo os erros do passado.

Rosa Luxemburgo disse uma vez que o dilema a ser enfrentado é: “socialismo ou barbárie”, complementado hoje por István Mészáros  de que “barbárie … se tivermos sorte, porque  o extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital”.

Então, respondendo as primeiras perguntas desse texto: você é comunista porque você não quer viver na barbárie e pela mesma questão ética proposta, quando a Revolução Francesa já se encaminhava para consolidação da ordem burguesa, por Babeuf e os “Sans-Culottes”, de que “o fim da sociedade é a felicidade comum e a Revolução deve assegurar a igualdade dos usufrutos”.

Líder da Conspiração dos Iguais, Babeuf foi executado na guilhotina em 1797, mas muitos de suas idéias serviram de inspiração para Marx e Engels formularem as bases de uma sociedade comunista que Lênin e Trotsky tentaram colocá-la em prática na Rússia.

Será que estes argumentos vão convencer alguém que, a priori, não quer ser convencido?

Possivelmente, não, mas não custa continuar tentando

Quanto pode o nosso voto?

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Agora em outubro, estaremos votando novamente com a esperança de mudar alguma coisa para melhor nas nossas vidas.

Será que vale à pena ter alguma esperança?

Os que forem eleitos para as prefeituras têm ainda menos chances de melhorar as condições de vida dos eleitores, do que no caso de governadores, parlamentares e até mesmo do Presidente.

Em Porto Alegre, qualquer um dos representantes da esquerda, principalmente o Raul Pont e a Luciana Genro, têm uma tradição de defesa dos interesses populares que os credenciam muito mais ao voto dos eleitores esclarecidos do que quaisquer outros candidatos.

A pergunta é que, se nos seus discursos, tanto Raul quanto Luciana, não estão de certa forma, criando mais uma vez falsas expectativas entre os seus eleitores?

Eles falam sobre saúde, segurança, educação, uma melhor administração da coisa pública, mas será este o discurso que deve ser feito?

Ou melhor, além desse discurso, eles não deveriam começar a mostrar à população os limites de uma eleição dentro da nossa sociedade?

Não seria a hora de, além de pedir votos, mostrar como funciona o sistema político em que vivemos?

Não estaria faltando um discurso mais radical, dentro daquela visão de que radical é o que vai até à raiz das causas dos problemas da nossa sociedade?

Alguém que diga, por exemplo, que diz Slavoj Zizek em seu livro “O ano em que sonhamos perigosamente”: “ Hoje o que não nos falta é anticapitalismo; estamos assistindo até a uma sobrecarga de críticas aos horrores do capitalismo: livros, investigações profundas em jornais e matérias na televisão estão cheio  de empresas que poluem implacavelmente nosso ambiente, banqueiros corruptos que continuam recebendo bônus polpudos, apesar de os bancos precisarem ser salvos pelo dinheiro público, de fábricas clandestinas em que crianças fazem horas extras. No entanto, há uma armadilha nesse excesso de críticas: o que em geral não é questionado, por mais cruel que seja, é o quadro liberal democrata da luta contra esses excessos. O objetivo (explícito ou implícito) é democratizar o capitalismo, estender o controle democrático à economia por meio da pressão da mídia pública, dos inquéritos parlamentares, de leis mais rigorosas, de investigações políticas honestas, mas sem questionar o quadro institucional democrático do Estado de direito (burguês). Essa é ainda a vaca sagrada que nem mesmo as formas mais radicais de “anticapitalismo ético (o fórum de Porto Alegre, o movimento de Seattle) ousaram tocar”.

Os nossos candidatos de esquerda, ainda que enfrentando os problemas específicos da campanha eleitoral, não poderiam começar um processo de educação popular, lembrando, por exemplo, aquele ensinamento de Marx, de que as verdadeiras questões não estão apenas nas relações políticas, mas na mudança das relações sociais “apolíticas” de produção?

Nunca é bom esquecer aquela lição de Lenin, que no dia seguinte à vitória na Revolução de Outubro, dizia aos seus companheiros que não era hora de comemorar porque o processo revolucionário estava apenas começando e que a educação política democrática do povo era uma tarefa fundamental para o seu sucesso

No mundo inteiro, os exemplos de que mobilizações populares com palavras de ordem plenamente assimiláveis pelo sistema capitalismo se transformam em grandes frustrações.

O resultado da mobilização de milhares de egípcios na Praça Tahir, no Cairo, reclamando mais democracia, apenas redundou, primeiro na vitória eleitoral da Irmandade Muçulmana e em seguida num novo golpe militar, não mudando em nada o sistema implantado por Mubarak.

Na Grécia, a coligação de esquerda Syriza mobilizou o povo por mais democracia, mas foi obrigada a se render ao poder do capital internacional, porque na prática nunca contestou realmente o sistema capitalista que jogou o país numa crise econômica sem precedentes.

Nesse sentido é que precisa se entender a famosa frase de Alain Badiou de que “ Hoje, o inimigo não se chama império ou capital. O nome dele é democracia”.

Pode ser um tipo de análise complicada para se enquadrar nos espaços que os candidatos de esquerda dispõem para levar suas mensagens aos eleitores, mas seria interessante que, em algum momento começassem a pensar nisso.

Quem entende de eleições, até porque já concorreu a várias, ganhando e perdendo, como o ex-governador Tarso Genro, a quem respeito pela lucidez de suas observações, acredita que uma estratégia eleitoral baseada nas propostas de Zizek e Badiou não dialogaria com senso comum, inclusive para denunciar os limites do próprio processo.

Fica aberta a discussão.

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Foi apenas uma amizade colorida

Eu tinha um encontrado marcado com um diretor da Editora no Hotel Plaza. Iriamos discutir o lançamento de um novo romance meu, ainda sem título. Aliás, esse era um dos temas da reunião.

Depois de dois livros que alcançaram algum sucesso– Raul: Crime na Madrugada e Tudo começou em 1964 – me sentia preparado para escrever o romance definitivo de minha vida.

Como fazem aqueles escritores americanos, eu ficara recluso durante um ano inteiro num apartamento em Gramado, gastando praticamente tudo que havia ganho com os primeiros livros, para escrever a obra que deveria me consagrar nas letras brasileiras.

A ideia do romance, era mais uma tentativa de tentar entender o comportamento das mulheres e para fazer isso, além das lembranças de um antigo e devastador amor, eu subira para Gramado levando alguns autores que também tentaram, com pouco êxito, diga-se de passagem, buscar essa resposta.

Além dos inevitáveis Freud e Lacan, eu levara vários romances, como o clássico Madame Bovary, de Flaubert e as histórias daquele velho devasso, o Charles Bukowski; a trilogia de Henry Miller, Sexus, Plexus e Nexus, alguma coisa do Sartre, um livro de poemas do Drummond e alguns discos do Chico.

Todos eles, deveriam servir para estimular a linha criativa que pretendia desenvolver naquele meu exílio.

Foi assim que escrevi umas 300 páginas que deveria mostrar agora ao editor, faltando apenas o título, numa dedicação só interrompida quando precisava ver algum jogo do Internacional no Sky ou um filme no Netflix.

O ponto de partida para a história foi um relacionamento mal resolvido que tive como uma das minhas alunas no final da década de 70.

Naquela época, eu era professor de Comunicação em duas universidades em Porto Alegre e meu interesse maior não era as matérias que lecionava, mas a oportunidade de algumas conquistas amorosas.

Minha meta a cada semestre, nas quatro ou cinco turmas em que lecionava, era de conquistar pelo menos uma aluna em cada turma.

Conquistar era um eufemismo para o esforço de levar para a cama a mais interessante de todas as alunas ou, pelo menos, aquela que mostrava corresponder mais minha atenção.

Como, na época, era ainda um homem casado, todas essas histórias deveriam durar no máximo algumas semanas e, se possível, começar e terminar sem deixar mágoas de parte a parte.

Naquele semestre, pela primeira vez, eu daria aula para alunos de Administração de Empresas, bem diferentes do pessoal com os quais já estava acostumado. Enquanto na Comunicação havia uma predominância de mulheres, a maioria da classe média alta, no novo curso, os homens formavam a maioria e o nível dos alunos ficavam num padrão social mais baixo.

Desde as primeiras aulas, me chamou a atenção uma das poucas alunas do curso. Mais do que bonita, ela era uma mulher desafiadora, sempre pronta a enfrentar qualquer tipo de questionamento, se destacando numa turma onde a indiferença era a norma.

Ela é inspiradora desse livro ainda sem nome.

Ao contrário dos dois primeiros livros, cheios de cenas de sexo, esse pretende ser um ensaio psicológico sobre o comportamento feminino. Tento com ele, penetrar no que Freud chamou de “buraco negro”, a psique feminina.

Enquanto ocupo centenas de páginas para longas digressões sobre o que torna o comportamento feminino tão pouco previsível, o enredo, como se falava antigamente dos filmes e das novelas, é bastante curto e não ocupa mais do que algumas dezenas de folhas.

É mais um “livro-cabeça”, outra expressão possivelmente fora de uso, do que um livro de sacanagens, como alguém disse do meu último trabalho publicado.

O personagem, inspirado na minha história, como tinha feito com sucesso em outras ocasiões, tenta conquistar a aluna com suas armas de sedução que sempre funcionaram: um cultivado ar de abandono, atenção especial durante as aulas, a oferta de uma carona na saída e até mesmo o empréstimo daquele livro sempre denominado como “o livro de cabeceira”.

As vezes parecia que ia dar certo novamente, que tudo se encaminhava para um desfecho feliz, mas ela recuava no minuto final. Era um jogo de gato e rato. Ela se oferecia e depois negava.

O personagem (eu também na história real), estava quase desistindo, quando no último dia de aula, pronto para sair, ela chega com o seu melhor sorriso e diz

– Hoje é seu dia de sorte professor, quer tentar?

Claro que queria.

Próximo da universidade havia um cine drive, aqueles cinemas ao ar livre que no passado os casais usavam para fazer sexo dentro dos carros, com a desculpa de assistir um filme ao ar livre.

Foi aí que aconteceu o desastre.

Mal tinha conseguido penetrá-la, quando sobreveio o orgasmo inesperado com a tão famosa e temida ejaculação precoce.

Ela não consegue disfarçar a decepção, muito menos ele, o orgulho ferido.

Mal se falam, depois, até que ele a deixa em casa.

Ele não se considerava um grande amante, daqueles que contam histórias de sessões intermináveis de sexo com muitas mulheres, mas até então desempenhava bem seu papel de macho.

Mas, logo com aquela mulher com a qual passara quase um ano sonhando, acontecia aquilo

Por que?

Era a pergunta que fazia o tempo inteiro.

Na noite da formatura, quando era um dos professores homenageados, ela deve ter percebido essa pergunta, ainda que não verbalizada, pois, quando como uma das formandas apertou sua mão, sibilou entre os dentes

– Me esquece.

Eu – agora voltando ao autor do livro e deixando o personagem de lado – não a esqueci e por muitos anos acompanhei a sua vida e todas as vezes que a via nessas revistas de economia, sempre apontada como uma das mais importantes entre as mulheres de negócio do Brasil, perguntava:

– Por que?

Agora estava no Hotel Plaza para entregar ao meu editor aquele calhamaço com mais de 300 páginas e ainda sem nome, no qual eu achava estivesse a resposta.

Como sempre, havia chegado muito cedo e enquanto esperava pelo editor resolvi dar uma caminhada pelo hall do hotel. Numa das salas, havia uma conferência sobre economia e como nas histórias do cinema, aconteceu uma coincidência que parecia impossível, a conferencista era ela.

A conferência estava terminando e quando ela, ainda uma mulher carismática como tinha sido há 40 anos, me viu, apenas sorriu.

Eu me aproximei, com a pergunta pronta, mas ela se antecipou com a resposta.

– Foi apenas uma amizade colorida.

Bom, pelo menos eu já tinha um nome para o novo livro:

FOI APENAS UMA AMIZADE COLORIDA

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O novo livro de Marino Boeira, breve em todas as livrarias.