Uma brecha no mundo

O mundo está muito chato.
Nós o criticamos e ele não dá a mínima importância.
Mas, quem é o mundo?
É o mundo em que vivem aquelas pessoas que, por alguma razão obscura, gostaríamos de influenciar.
Nossos amigos, os brasileiros, os pobres, os oprimidos.
E quem somos nós?
Somos aqueles sujeitos nascidos a partir da segunda metade do século passado.
Somos aquelas pessoas que se dizem intelectuais, porque leram alguns livros.
Somos os que pensam ser de esquerda, só porque costumavam votar no Partidão, quando ele ainda existia e que agora votam no PT.
Somos aqueles que, em algum momento, pensaram que poderiam ajudar a melhorar o mundo para os nossos amigos, para os brasileiros, para os pobres, para os oprimidos.
Quanto fizemos em relação a isso?
Pouco, muito pouco.
Possivelmente, nada.
Talvez, como agora, apenas escrever uma crítica que poucos vão ler.
Queríamos mudar esse mundo, mas sempre o tratamos com um certo desprezo, como se fôssemos os únicos que conhecem a porta de saída.
No mais das vezes, olhamos com indiferença esse mundo em que não queríamos entrar, pois como no inferno de Dante, a condição para entrar é deixar toda a esperança do lado de fora.
Mas desde quando o mundo ficou assim tão chato para o nosso gosto?
Num artigo que escreveu esta semana, Tarso Genro, ao comentar o livro de Schiller, “ A educação estética do homem”, deu uma pista.
O mundo ficou assim porque não soubemos seguir a proposta do filósofo alemão, segundo a qual, a sabedoria e o sentimento – corretamente ajustados para saber contemplar de maneira adequada uma obra de arte – possibilitariam aos seres humanos chegarem a um estado moral que permitiria exercer todas suas virtudes cidadãs.
Vamos pensar um pouco na história do Brasil dentro dessa ótica que Tarso pinçou no livro de Schiller.
Até 1964, vivíamos uma época de intensa agitação cultural, que partindo dos segmentos mais intelectualizados da sociedade brasileira, de alguma forma contaminava toda a população.
Basta fazer um paralelo com os dias de hoje para percebemos a diferença.
Os meios de comunicação e principalmente o teatro e o cinema punham na ordem do dia a discussão sobre o melhor sistema social e político em que deveríamos viver.
A favor do socialismo ou contra, todos (pelo menos pensavam que era assim) tinham espaço para expor suas opiniões.
Hoje as redes sociais, como o facebook, são espaços cativos para toda sorte de banalidades. O que chama a atenção é aquele vídeo da cadela que alimenta sete gatinhos, do “nude” daquele cantor de rock ou aquela frase profundamente idiota, mas na qual muitos enxergam um pensamento profundo, tipo “sempre existirá um amanhã”.
Quem falava de ética e compromisso social era, no passado, Jean Paul Sartre. Hoje é juiz Sérgio Moro. Um abismo intelectual imenso separa as duas figuras, mas são elas que, ontem e hoje, servem como referências.
Para toda uma geração de brasileiros, a última oportunidade foi dada em 1964. Um divisor, que deixou na esquerda os que não aceitaram o golpe; na direita, os que o aplaudiram, e num imenso espaço no meio, os que, não concordando, preferiram a omissão.
Dilma Rousseff, com todos os erros de sua ação como Presidente, tem uma glória que nunca é demais lembrar: ela tomou em armas contra os estupradores da nossa frágil democracia de então.
Ela fez aquilo que Karl Marx disse uma vez que era a missão dos novos filósofos: não mais explicar o mundo, mas tentar mudá-lo.
Nós, os que agora acham o mundo muito chato, preferimos mudar nossas vidas pessoais, alguns ganhando muito dinheiro, outros apenas sobrevivendo, concentrando nossos esforços e alegrias nas vitórias dos nossos times de futebol.
Os que conseguiram ganhar dinheiro, honestamente ou nem tanto assim, puderam justificar suas omissões com a desculpa que, enquanto foi possível, tentaram fazer sua parte.
Um deles, disse uma vez com certa ironia, quando sua conta bancária começou a crescer: “eu lutei muito pela chegada do comunismo, mas agora que começo a ficar rico, ele pode, já que demorou tanto a chegar, esperar mais um pouco”.
Voltando as conclusões de Tarso sobre sua leitura de Schiller: não é possível construir uma sociedade democrática, tendente à igualdade social, sem conhecimento, sem educação, sem uma cultura que democratize o conhecimento para todas as classes sociais.
Existe outra questão que o texto otimista de Tarso não aborda: como romper a imensa conspiração de silêncio de todos os meios de comunicação sobre qualquer proposta de ruptura da atual “pax americana?
Ao lado de uma imensa massa de conformados, o que se vê em oposição a uma ordem, injusta socialmente, é o desespero das absurdas ações terroristas sob o ponto de vista coletivo ou a ação deletéria de delinquentes, sob a ótica individual.
Nenhuma das duas gera algum tipo de avanço social. Pelo contrário, aumentam a força dos poderosos de hoje.
Resta o campo da ação política.
Mas um olhar sobre essa área (e estamos voltando ao ponto de partida desse texto), nos mostra que são poucas as possibilidades de mudar este mundo chato em que vivemos.
No caso brasileiro, as opções políticas parecem se restringir hoje ao “Volta Dilma”, para provavelmente repetir todos os seus erros do passado, ou “Fica Temer”, para completar sua obra de entrega das riquezas do Brasil ao capital internacional.
Tarso diz no seu texto que o mais importante é a defesa de uma forma democrática (poder-se-ia dizer uma estética democrática), que inaugure uma nova hegemonia no âmbito das soluções para as crises da democracia representativa: elas devem ser resolvidas, sempre, com mais democracia, não com menos democracia.
Mas, quem quer mais democracia? Não serão Temer e o que Tarso chama com ironia de Confederação de Investigados e Denunciados. Não serão os grandes veículos de comunicação que comungam de uma visão muito peculiar do que chamam de democracia. Não serão os banqueiros, nem os empresários, nem os políticos conservadores. 
Como pós 64, será novamente uma pequena minoria.

Acreditar que ela possa mudar a realidade brasileira pode ser uma utopia, mas parece ser a única opção que nos restar para tentar abrir uma brecha nesse mundo chato.

Os fodidos

Bertold Brecht disse que o pior analfabeto é o analfabeto político porque ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem de decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Existe um espécime ainda pior do que o alienado político, definido tão magistralmente por Brecht: são aqueles sujeitos que defendem os interesses contrários a classe a qual pertencem.
Eles são motoristas de taxi, vendedores de seguros, caixeiros de lojas, garçons, autônomos, biscateiros, militares e aposentados.
Estão em dezenas de profissões.
No passado eram apenas homens, mas hoje não existe mais uma distinção de sexo na categoria.
Nunca foram operários que acordam cedo e dão duro no trabalho durante o dia inteiro, lutando por um salário mínimo, mas também não chegaram a conhecer a boa vida de alguns profissionais liberais e muito menos conviveram com grandes empresários.
Eles fazem parte da grande família da classe média que Marilene Chauí, uma vez definiu como os grandes representantes do reacionário brasileiro.
Hoje, eles são contra o PT, mas no passado eram assombrados com o perigo comunista.
Eles falam alto no restaurante a quilo que frequentam, na lotação e nas filas dos supermercados.
Deles, você jamais ouvirá um pensamento original. Repetem apenas o que ouviram à noite passada no Jornal Nacional ou leram na Zero Hora.
Quando você ousa defender uma posição de esquerda diante deles, gritam em uníssono: “vá para Cuba”, ou na versão mais atual, “vá para a Venezuela”.
São viciados nos jogos dos celulares e o último livro de que são capazes de citar o nome, embora possivelmente também não tenham lido, é o Pequeno Príncipe.
Nas eleições votam sempre naqueles candidatos que conheceram na televisão ou no rádio, independente de que partido sejam, ou naquele jogador de futebol que foi ídolo do seu time
São moralistas e a favor do combate à corrupção, mas só a praticada – verdadeira ou não – pelos petistas. Nunca ouviram falar em sonegação de impostos feita pelos empresários, mas se soubessem, aprovariam porque acham que não pagar o que se deve ao governo é uma ação correta
Se dizem patriotas, vestem verde e amarelo e vão para as praças bater panela, quando, pelo menos uma vez na vida, são tratados como iguais pelos grandes “coxinhas” e suas mulheres dondocas, mas logo que a manifestação termina voltam de ônibus para a casa, enquanto aquele “amigo” e sua bela mulher, que descobriram na praça, voltam no carrão estacionado logo ali.
Como poderíamos chamar esses caras que adoram ser chamados de povo, mas que vegetam num limbo, entre o povo de verdade e a elite exploradora?
Depois de muito procurar na língua portuguesa o termo mais adequado que respeitasse normas de boa educação que devem reger as relações entre quem escreve e quem lê, chega-se à conclusão que só no linguajar chulo se poderá encontrar a palavra adequado para definir estas pessoas.

São uns fodidos, com o perdão do termo

Remember

Israel só existe hoje por causa de Auschwitz. Foi a revelação das atrocidades praticadas pelos nazistas nesse campo de extermínio, na Polônia, que levou as grandes potências da época –  Estados Unidos, União Soviética e Inglaterra – a aceitar a formação do Estado de Israel em terras de maioria árabe na Palestina.
Embora já no final do século XIX, Theodore Herzl tenha lançado o programa sionista de retorno dos judeus à Palestina e em 1917, Lord Balfour, Secretário Britânico de Assuntos Estrangeiros tenha concordado com a existência de “um lar nacional ”para os judeus na Palestina, foi somente a revelação das atrocidades cometidas pelos nazistas nos campos de concentração contra os judeus, que consolidou a ideia da existência de Israel.
Segundo Elizabeth Roudinesco (A parte obscura de nós mesmos – uma história dos perversos) , “a singularidade de Auschwitz, diferente de todos os outros atos de barbárie do século XX, está no fato de que o nazismo inventou um modo de criminalidade que perverte não apenas a razão de Estado, como mais ainda, a própria pulsão criminal, uma vez que, em nome de tal configuração, o crime é cometido em nome de uma norma racionalizada e não enquanto expressão de uma transgressão de uma norma não-domesticada”.
Tudo que aconteceu em Auschwitz, registrado em milhares de documentos, só pode ser melhor percebido em todo seu horror, por incrível que pareça, não pela narração dos fatos reais, mas pela sua leitura pela arte.
É assim que ele surge em Zona de Interesse, o livro de Martin Amis, que ao narrar de forma literária os acontecimentos de Auschwitz parece se inspirar na conclusão de Hanna Arendt sobre as práticas nazistas: “é a banalização do mal”.
Primo Levi, que esteve preso em Auschwitz durante um ano, escreveu: “Os criadores de Auschwitz são aplicados, tranquilos e superficiais. Suas discussões, declarações, testemunhos – presentes e póstumos – são frios e vazios” ao se referir o que os nazistas disseram, depois, durante seus julgamentos.
Para Levi, a aparência modesta e banal dos genocidas coincide plenamente com a racionalidade anônima e cega das grandes instituições modernas.
 No livro de Martins Amis, a “Zona de Interesse” é o local onde os judeus, que chegam a Auschwitz, são recebidos ao som de instrumentos musicais e passam por uma triagem, processo que determinava se seriam destinados inicialmente aos trabalhos forçados ou enviados diretamente ás câmaras de gás.
O inferno de Auschwitz terminou em 1945, mas até quando suas consequências permanecem? A resposta a esta pergunta é o tema do último filme do diretor Atom Egoyam, nascido no Egito e naturalizado canadense, de 2015, Remember – Memórias Secretas.
O filme, disponível no Netflix, conta a história de Zev (numa interpretação magistral de Christopher Plummer*), que aos 80 anos, sofrendo do mal de Alzheimer, percorre boa parte dos Estados Unidos e Canadá, a procura de um a nazista, responsável pela morte de sua família em Auschwitz, que teria fugido da Alemanha após a guerra e viveria sob outro nome na América..
Nessa peregrinação em busca da memória perdida, Zev se orienta por uma carta escrita por outro sobrevivente, Max Zucker (Martin Landau), seu antigo companheiro num asilo de velhos judeus.
A engenhosa (talvez engenhosa demais) solução final do filme, não invalida a importância de que os eventos de Auschwitz sejam sempre lembrados para que não se repitam mais no futuro

*Com dezenas de filmes em seu currículo, Christopher Plummer será sempre lembrado como o Capitão Trapp, do filme A Noviça Rebelde de 1965.

E o povo onde fica?

Estará o povo brasileiro assistindo mais uma vez indiferente meia dúzia de pessoas decidirem seu futuro sem exigir que seja ouvido?
No dia 18 de novembro de 1989, Aristides Lobo escreveu no Diário Popular uma avaliação que ficou famosa sobre a proclamação da República por Deodoro da Fonseca, três dias antes:
“ O povo assistiu aquilo bestializado, atônito, surpreso sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada”.
Em outros momentos cruciais da vida brasileira, foram as elites que decidiram o futuro da Pátria e dos brasileiros, sem ouvi-los ou, quando muito, dizendo estar agindo em seu nome, como foi na Revolução de 30 ou no Golpe de 64.
Agora, novamente o País se encontra numa encruzilhada. Oitenta e um senadores, muitos dos quais nem sequer são conhecidos por uma boa parte dos brasileiros, que não sabem seus nomes nem suas ideais, se encaminham, a que tudo indica, para revogar uma decisão da maioria da população que, em 2014, elegeu Dilma Rousseff Presidente da República.
Um simples passar de olhos sobre os nomes dos senadores que vão este mês completar o processo de golpe parlamentar contra a Presidente Dilma Rousseff, cassando o mandato que lhe foi atribuído pelo povo, mostra o alta grau de comprometimento ético a que chegou o parlamento brasileiro.
Daqueles senadores que votaram pela admissibilidade do impeachment no primeiro turno se destacam de uma forma negativa diversos nomes, começando pelo presidente da casa, o senador Renan Calheiros.
 Na eleição de Fernando Collor para a Presidência foi o seu principal cabo eleitoral e depois porta-voz, a quem abandonou mais tarde em função das disputas eleitorais em seu estado, Alagoas. Já foi aliado de Lula e acusado de corrupção, renunciou à presidência do Senado em 2007.  Agora, finge adotar uma postura mais distante da questão, mas é voto certo a favor do impeachment.
Seu ex-aliado político, Fernando Collor, hoje no PTC, dispensa apresentações.
No bloco dos senadores investigados pela justiça por corrupção e que se alinham entre os que pretendem retirar o mandato de Dilma, pontificam nomes como Romero Jucá, José Agripino e Fernando Bezerra Coelho.
O senador Zezé Perrella, envolvido no caso do helicóptero apreendido em Minas com uma carga de cocaína, protegido de Aécio Neves é outro que vota pelo impeachment.
Um dos casos mais representativos da falta de compostura de alguns senadores, foi mostrado pela imprensa na semana passada, quando o senador do PMDB, Hélio José, agraciado por Temer com o poder de nomear um diretor da Secretaria de Patrimônio da União, afirmou que era dono do serviço e “nomeava a melancia que quisesse”.
Hélio José ficou conhecido em Brasília como o Hélio da Gambiarra, desde 1995, quando ofereceu uma festa a políticos em sua casa e depois se descobriu que fizera um “gato” na rede pública de eletricidade. O senador, provando que não costuma ser fiel aos partidos, já foi até do PT, passou pelo PSD, depois pelo PMB, o folclórico Partido da Mulher Brasileira e hoje está no PMDB
Outras figurinhas carimbadas em Brasília por um conservadorismo exacerbado são Ronaldo Caiado e Blairo Maggi, inimigos de qualquer avanço na questão agrária do Brasil e por isso velhos inimigos do PT.
Dos senadores do Rio Grande do Sul, dois estão desde o início com votos definidos e não esconderam este fato: Ana Amélia, a favor e Paulo Paim, contra.
Resta saber a posição de Lasier Martin, embora por suas declarações passadas, quando afirmou que Dilma não roubou, mas foi conivente, tudo indica que ficará ao lado do golpe.
Seu partido, o PDT< já expulsou um deputado que votou a favor do impeachment na Câmara, mas isso não deve tirar o sono do senador, que a rigor não foi eleito pelos trabalhistas. Seu partido tem outra sigla. Se chama RBS, a poderosa rede de comunicação que já teve três senadores entre seu quadro de funcionários: Zambiaze, Ana Améilia e Lasier.
O senador Cristovam Buarque, hoje no PPS, já foi no passado um quadro importante, primeiro do PT e depois do PDT . É apontado como criador da Bolsa Família, quando governador do Distrito Federal, foi ministro da Educação no Governo de Lula, mas durante sua trajetória política foi cada vez mais abandonando posições de esquerda e se aliando com o centro, o que serve para justificar seu voto a favor do impeachment.
Caso mais emblemático de uma clara traição à vontade dos seus eleitores é o da senadora Marta Suplicy, eleita pelo PT em 2010, que ocupou o cargo de Ministra da Cultura, de Dilma e que depois de passar para o PMDB, votou a favor da admissibilidade do impeachment.
Certamente, além das vantagens de passar para um partido que, ao que tudo indica, vai herdar a máquina administrativa do Brasil, Marta de certa forma está se vingando de Dilma por ter sido a escolhida por Lula nas eleições de 2010, e não ela e ao partido que escolheu Haddad como candidato a Prefeito de São Paulo, preterindo novamente o seu nome.
Essa semana, seu ex-marido o também ex-senador Suplicy fez um apelo público para que ela lembrasse que representa os eleitores do PT no Senado, mas seu apelo certamente não vai modificar o voto de Marta.
E o povo, como disse Aristides Lobo, vai assistir mais uma vez bestializado, atônito e surpreso, sua vontade ser desconsiderada por estes senhoras e senhores, preocupados em defender apenas seus interesses, algumas vezes políticos, mas quase sempre pessoais?
As manifestações contra o golpe parlamentar das últimas semanas parecem ter sido movimentos pró-forma, destinados a marcar presença de grupos de ativistas, mas sem nenhuma força para modificar o que já foi decidido em Brasília.
Ao que tudo indica, o governo Temer vai se transformar de provisório em permanente, ganhando o status necessário para cumprir os objetivos a que veio: privatizar o que for possível, promover um forte arrocho salarial, fazer o ajuste financeiro que vai permitir que os grandes investidores continuem lucrando e acabar com os programas sociais que durante algum tempo asseguraram ganhos reais à população mais carente.
Tudo isso será feito com o apoio fundamental da imprensa monopolista, que promoveu o golpe e a quem cabe agora justificar para a população o tal ajuste econômico como uma medida necessário e que dará seus frutos no futuro. Futuro no qual, certamente, estaremos todos mortos.
O que fazer então?
Qual a tarefa das esquerdas nos dias escuros que se avizinham?
As propostas reformistas do PT e seus aliados se mostraram incapazes de abrir uma brecha no monopólio de poder que as elites brasileiras detém há décadas e só permaneceram vivas enquanto essas elites puderam usufruir dos principais ganhos que o surgimento de uma nova classe de consumidores trouxe para o País.
Quando o modelo econômico baseado no incentivo ao consumo se esgotou e uma crise internacional abalou as estruturas econômicas do País, essas elites trataram de se afastar do governo, seguindo o exemplo do que já estava ocorrendo em outros países da América do Sul.
Com o fim da proposta reformista do PT, talvez tenha chegado a hora de se voltar novamente a pensar no velho caminho revolucionário que aponta para a edificação do socialismo como única alternativa para o modelo do capitalismo dependente sob o qual vivemos.

No mundo inteiro, filósofos como Slajov Zizez, Alain Baldiou, Jacques Ricieri e Istvan Meszaros, levantam novamente a bandeira do socialismo, porque como disse este último filósofo, parafraseando Roxa Luxemburgo, a opção é Socialismo ou Barbárie.

O que Zero Hora tem a ver com Il Gattopardo?

O QUE ZERO HORA TEM A VER COM IL GATTOPARDO?
Em 1958 é publicado na Itália, o romance O Leopardo (Il Gattopardo), de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (Palermo 1896/ Roma 1957), quase dois anos depois da morte do autor. Lampedusa conta no seu livro a história da decadência de uma família de nobres sicilianos durante o Risorgimento italiano.
O livro não obteve inicialmente uma acolhida maior dos críticos e só ganhou repercussão mundial depois que o grande diretor italiano Luchino Visconti o transformou num filme memorável em 1963, reunindo em seu elenco Burt Lancaster, como Don Fabricio Corbera, Príncipe de Salina, Alain Delon, como Tancredi Falconieri,  a belíssima Claudia Cardinale, como Angélica Sedara e o grande ator italiano Paolo Stoppa, como Don Calogero.
Além de ser uma das obras mais importantes de Visconti, o filme tornou famosa uma frase de Tancredi Falconieri, sobrinho do Príncipe de Salina, que depois foi milhares de vezes repetida, para mostrar como, na época, a nobreza, e hoje o capitalismo dominante, promovem mudanças aparentes para manter viva a sua dominação.
Tudo deve mudar para que tudo permaneça como está
A lembrança da citação nos remete para um episódio provinciano, de muito menos importância, mas que de alguma maneira reproduz a máxima do nobre siciliano
O jornal Zero Hora anunciou nesse fim-de-semana, com grande destaque em suas páginas, que está mudando sua linha editorial. A mudança no jornal ocorre a partir de uma visão estritamente mercadológica dos seus dirigentes e como sempre pode ser traduzida por um slogan bastante redutor: “Perto para entender, junto para transformar”.
No material de divulgação da pretendida mudança, se diz que ela é fruto de uma profunda pesquisa junto aos leitores e parece indicar que o jornal vai se dedicar com mais intensidade aos temas locais, abandonando de vez o que parece ter sido uma pretensão de abordar, como os grandes jornais, temas mais universais.
Por trás desse direcionamento, deve ter pesado o custo das investidas jornalísticas em acontecimentos internacionais e a falta de profissionais capacitados para descobrir fatos que as agências internacionais de notícias não tenham antes divulgados.
Dentro dessa perspectiva, uma boa notícia para os leitores de ZH: eles parecem que ficarão livres daquelas matérias, ora superficiais como as coberturas das guerras no Oriente Médio e os atos terroristas na Europa, ora comprometidas pela visão míope dos jornalistas sobre os eventos na Venezuela e Argentina.
A má notícia é que o jornal vai continuar usando o que ainda resta de influência junto aos seus leitores para divulgar sua visão conservadora, quase sempre e muitas vezes bastante retrógrada, sobre o que acontece no Estado.
Certamente não deixará de usar seus espaços para tentar construir uma imagem positiva de políticos que lhe são fieis e negativa para aqueles que ousarem criticar suas posturas.
Para começar vai tentar eleger mais uma vez um político que lhe pareça confiável para a Prefeitura de Porto Alegre, como fez no caso do Governo do Estado.

Ou seja, como disse o Príncipe Tancredi, vai mudar, para permanecer igual.

Frases para esquecer

Muitas das frases a seguir, se pudessem, seus autores gostariam de ver riscadas de suas biografias.
Feliz ou infelizmente, elas ficaram registradas na História.
Da Presidente Dilma, na última campanha eleitoral sobre seu vice, Michel Temer:
“É muito sério, uma pessoa competente e um homem capaz”.
De Temer, sobre o PT:
 “Conflito sempre existe, mas tenho um diálogo muito tranquilo com os companheiros petistas”
Do então candidato Sartori, sobre a reivindicação dos professores de um piso salarial:
 “O piso, vou lá no Tumelero e te dou um melhor, lá tem piso bom”.
De Lula sobre a crise econômica que abalou o mundo a partir de 2008:
“É só uma marolinha”.
De Paulo Maluf, sobre como são os políticos:
“No Brasil, o político é veado, corno ou ladrão. A mim, escolheram como ladrão”.
Ainda de Paulo Maluf, num conselho aos estupradores:
“Se está com desejo sexual, estupra, mas não mata”.
Da então ministra do Turismo, Marta Suplicy, ao rebater às críticas ao caos aéreo, em 2007, adaptando a frase “se o estupro é inevitável, relaxa e goza” à nova situação:
“Relaxa e goza, porque depois você vai esquecer todos os transtornos”
O presidente Fernando Henrique Cardoso, que se aposentou na USP aos 37 anos, depois de 12 anos como professor, em 1998:
“Fiz a reforma da Previdência para aqueles que se locupletam da Previdência não se locupletem mais, não se aposentem com menos de 50 anos, não sejam vagabundos em um país de pobres e miseráveis”
Do então Presidente Figueiredo sobre suas preferências:
“Prefiro cheiro de cavalo ao cheiro do povo”.
Do craque Claudiomiro, ao chegar a Belém do Pará, para um jogo do Inter:
“Estou feliz em estar no local onde nasceu Jesus Cristo”.
De Winston Churchill, sobre Adolf Hitler, antes da guerra:
“Aqueles que tem se encontrado com Herr Hitler, cara a cara, em negócios públicos ou em termos sociais, têm encontrado uma pessoa altamente competente, coloquial, bem informado, com uma agradável maneira, um sorriso irresistível e poucos não são afetados por seu sutil magnetismo”.
Do general Medici, em 1969, no seu discurso de posse como Presidente, no período mais negro da ditadura militar no Brasil
“Homem do povo, conheço a sua vocação de liberdade, creio no poder fecundo da liberdade”.
De Eduardo Cunha, quando ainda Presidente da Câmara, defendendo os deputados que agora ameaçam cassar seu mandato:
“Foi o povo que elegeu cada um dos 513 deputados da Câmara. É para o povo que vamos continuar trabalhando”.
Do ministro Gilmar Mendes, em 2010, então Presidente do STF, depois que um habeas corpus ao médico Roger Abdelmassih fora negado pela ministra Ellen Gracie, justificando sua decisão de conceder o benefício:
“ Não vejo elementos concretos e individualizados, aptos a demonstrar a necessidade da prisão cautelar do ora paciente”.
Beneficiado pelo habeas corpus, Abdelmassih, condenado a 270 anos de prisão pelo estupro de 52 pacientes de sua clínica, fugiu para o Paraguai e só foi preso um ano depois.


 

Oprimidos e opressores no cinema

Dois impérios, duas lutas de oprimidos contra os opressores, dois filmes para serem lembrados. Os impérios; o norte-americano atual e o otomano do início do século passado. As lutas: dos árabes contra os americanos e a dos gregos contra os turcos. Os filmes: “Guerra ao Terror” (The Hurt Locker) de 2009 e Aquele que Deve Morrer (Celui Qui Doit Mourir) de 1956. Uma diferença: no primeiro filme, temos a visão dos opressores; no segundo, dos oprimidos.
Guerra ao Terror, dirigido por Kathryn Biglow, ganhou o Oscar de melhor filme em 2010 e Kathryn, o de melhor diretora. O filme acompanha um grupo de soldados norte-americanos, especializados em desmontar as bombas que os iraquianos, ainda inconformados com a dominação americana, espalham pelas ruas das suas cidades. A rigor são apenas três pessoas e um robô que atuam diretamente na operação.
No início do filme assistimos um a uma dessas operações, comandada pelo sargento Guy Pearce (Matt Thompson) extremamente cauteloso, que obedece a todas as regras do manual para o desarme das bombas, mas que mesmo assim acaba morrendo quando uma delas explode, acionada a distância por um insurgente.
Para o seu lugar é enviado outro militar, o oposto do primeiro em relação aos cuidados que devem ser tomados. Extremamente individualista, o sargento Willian James (Jeremy Renner) despreza o uso do robô, das roupas protetoras e do apoio dos seus companheiros.
Quase um suicida, ele parece brincar o tempo todo com a possibilidade de morrer na explosão. Apesar disso tem sempre sucesso e conquista a admiração dos seus superiores. A ação se desenvolve linearmente, entrecortada apenas por alguns momentos destinados a mostrar que este herói militar não se relaciona mais com a mulher e o filho nos Estados Unidos e suas companhias permanentes são o cigarro e o uísque.
As brincadeiras com os outros dois componentes do grupo se resumem a socos e tapas para mostrar quem tem mais resistência à dor.
O sucesso do filme nos Estados Unidos se deve talvez a isso: um herói solitário, que resolve as coisas sempre do seu jeito, como nos velhos filmes do faroeste.
No Iraque, o inimigo está sempre oculto e é incapaz de enfrentar de peito aberto o ranger americano, o que transforma o filme em mais uma história de mocinhos e bandidos.
 Os mocinhos são os americanos e os bandidos, os iraquianos que adoram espalhar os artefatos explosivos no caminho dos sobrinhos do Tio San.
Essa maneira simplista de ver a guerra, livre de qualquer conotação política, ajuda a classe média americana a suportar a dor de ver seus filhos morrerem distante da pátria numa guerra, que não tem qualquer sentido, a não ser a defesa dos interesses econômicos dos Estados Unidos. 
Aquele Que Deve Morrer” (Celui Qui Doit Mourir), foi dirigido por Jules Dassin, um norte-americano que teve que trabalhar fora do seu país, perseguido pelo macarthismo dos primeiros anos da década de 50.
O filme, baseado no livro de Nikos Kazantzákis O Cristo Recrucificado, conta como os gregos, oprimidos pelos turcos, se revoltam sob a liderança de um pastor, motivados pela representação da Paixão de Cristo durante a Semana Santa.
Trata-se de uma parábola sobre a história de Cristo, visto como um revolucionário.
– Eu não vos trago a paz, mas a espada da guerra, diz em certa altura o padre, vivido pelo grande ator francês, Jean Servais, que lidera um grupo de famílias expulsas de sua aldeia pelos turcos, citando a Bíblia.
Como fazem todos os anos, com o consentimento do governador turco, os gregos da aldeia recontam a história da Paixão de Cristo, numa montagem teatral, só que dessa fez o pastor gago Manolios, interpretado por Pierre Waneck, acaba acreditando ser o Cristo redivivo, que vê nos otomanos, os novos romanos e transforma sua pregação numa guerra contra os opressores.
Melina Mercouri, que foi casada 20 anos com Dassin e que além de atriz seria mais tarde deputada e Ministra da Cultura da Grécia. é a prostituta da aldeia, que incorpora o papel de Maria Madalena.
Jules Dassin, que morreu em 2008, em Atenas, com 96 anos, ficou famoso na década de 40, nos Estados Unidos, ao realizar Brutalidade (Brute Force), com Burt Lancaster e “Cidade Nua” (The Naked City), com Barry Fitzgerald.
Na década de 50, acusado de ser comunista, se obrigou a viver na Europa, onde realizou, pelo mais, dois ou três clássicos do cinema, além de Aquele Que Deve Morrer: Sombras do Mal (Night in the City) na Inglaterra, com Richard Widmark e Gene Tierney;  o policial Rififi ( Du riifi che les hommes) com Jean Servais na França e que conta um assalto a uma joalheria de uma maneira que faria escola no cinema e Nunca aos Domingos  (Never on Sunday) na Grécia, com Melina Mercouri.

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Um livro para se ler e pensar

A longa crise em que vive o sistema capitalista no mundo do inteiro desde a última década do século passado, tem levado inúmeros pensadores a voltar a cogitar de uma sociedade socialista como remédio para os males da humanidade.
Istvan Meszaros recuperou aquele famoso dito de Rosa Luxemburgo de há praticamente 100 anos, de que a opção ao socialismo é a barbárie, a qual Meszaros acrescentou ainda um adendo: na melhor das hipóteses.
Slavoj Zizek, Alain Bandiou e Jacques Rancieri, cada um a sua maneira, têm escrito e falado no mundo inteiro, alertando que o capitalismo, financeiro e globalizado, perdeu aquele vigor antigo de destruir o velho para construir o novo e hoje é apenas uma força que destrói a natureza e empregos no mundo inteiro, transformando milhões de pessoas em não-vivos ou semivivos.
Ao lado desses pensadores europeus, nessa análise, se destaca um brasileiro, Jacob Gorender, que infelizmente morreu em 2013, com o seu livro Marxismo sem Utopia, editado em 1999 pela Ática.
O livro pode ser dividido em três etapas. Na primeira, Gorender faz uma revisão de alguns conceitos de Marx, reforçando o papel do acaso nas transformações sociais e defendendo a impossibilidade de extinção do Estado, como propunha o autor do Manifesto Comunista.
Na segunda parte do seu livro, analisa o fracasso da experiência soviética a partir de duas variáveis: as dificuldades materiais da União Soviética, oriundas dos erros de sua política de planejamento econômico e a falta de democracia interna do país, onde o chamado “centralismo democrático” substituiu a participação popular em quase todos os seus níveis. Nem por isso, é um descrente na possibilidade de reconstruir o ideal socialista a partir dos ensinamentos de Marx e Engels e mesmo das experiências dos mais de 70 anos de vida na União Soviética.
Diz Gorender: “Sendo uma possibilidade, o socialismo não decorrerá de leis históricas inelutáveis. Tão pouco decorrerá de um imperativo ético, como propunha Bernstein, pois será uma possibilidade inscrita objetivamente na história. O objetivo socialista se colocará como opção para as tendências anticapitalistas radicais, que os próprios males do capitalismo suscitarão. Este objetivo se implementará sob a forma e conteúdo muito variados, de acordo com as peculiaridades históricas de cada povo”
Para a consecução desse objetivo revolucionário, Gorender se aproxima de uma das teses fundamentais de Lenin, quando em 1917 dizia que o proletariado não estava ainda preparado para fazer a revolução, que deveria então ser liderada por intelectuais comprometidos com as aspirações dos trabalhadores.
As modificações profundas que ocorreram nas relações de trabalho desde o Manifesto Comunista, levou Gorender a sintetizar como poderá ser este novo mundo socialista:
Permanência da divisão do trabalho entre físico e intelectual, sob a hegemonia de assalariados intelectuais.
Socialismo como objetivo abrangido em uma única fase, deixando de lado a visão utópica de Marx sobre o comunismo.
Permanência do Estado, sob o controle socialista ao invés de sua extinção.
Um sistema de democracia pluralista no socialismo.
A combinação de planejamento e mercado na economia socialista.