Gorbatchov, o que sabemos dele?

Entro na livraria e pergunto ao atendente se ele tem alguma coisa sobre Gorbatchov.
-É um escritor russo?
Menos mal, o cara pensou num russo, embora tenha errado a atividade do personagem.
Uma vez, perguntei, em outra livraria, sobre Graciliano Ramos.
Como atendente fez uma cara de que eu poderia estar falando grego, resolvi ajudar
– É o autor de Vidas Secas.
Seu rosto se iluminou, então
– A estante de livros de autoajuda fica lá no fundo.
Na faculdade de comunicação da PUCRS, onde fui professor muitos anos, falava que na década de 50, quando a população do Brasil não era nem a metade do que é hoje, a revista O Cruzeiro tirou uma edição de 500 mil exemplares na cobertura da morte de Francisco Alves.
– Quem?
Perguntou um aluno lá do fundo da sala
– Francisco Alves, o Rei da Voz, o grande cantor brasileiro da época.
Ele disse que nunca tinha ouvido falar.
Expliquei que era a década de 1950 no Brasil, antes do advento da televisão, e que sua voz chegava ao País inteiro pelas ondas da Rádio Nacional.
O aluno sorriu e me respondeu com desdém:
– Como é que o senhor quer que eu saiba sobre um personagem que viveu em 1950?
Para não perder a viagem, retruquei
– E Jesus Cristo, você já ouviu falar?
– Claro, respondeu ele meio espantado com a comparação.
– Pois é, Jesus Cristo é um personagem que nem existe certeza que tenha existido mesmo e se se fosse verdadeira sua existência, viveu bem longe do Brasil há quase 2 mil anos.
Certamente não era a melhor comparação que um professor de escola marista poderia fazer, mas como os tempos eram outros, passei incólume por isso.
Agora, voltando ao presente.
Estava, quando entrei na livraria, atrás de uma biografia que explicasse como foi possível que esse personagem – Mikhail Gorbatchov – pudesse em tão pouco tempo liquidar com a primeira tentativa de construção de uma sociedade socialista no mundo, a União Soviética.
Certamente um assunto que interessa a poucos hoje.
Um deles, o escritor italiano Luciano Canfora não faz por menos ao dizer que Gorbatchov tramou diretamente com o Cardeal Vojtyla, o Papa João Paulo II, a saída da Polónia da área de influência soviética, primeiro passo para o esboroamento do mundo socialista do Leste europeu.
Acabei levando da livraria o livro O Último Império, do professor de História da Ucrânia, da Universidade de Harvard, Serhii Plokhy.
O início do livro não é muito animador por causa do anticomunismo explicito do escritor. Em todo o caso, alguns indícios nas primeiras páginas, mostram até que ponto, o espírito dos fundadores da União Soviética de dedicação à criação de uma sociedade socialista foi se pervertendo, na medida em que uma pequena parcela de líderes começou a usufruir de vantagens inatingíveis para a maioria da população.
Só um exemplo: a casa de verão de Gorbatchov no mar Negro era uma mansão imensa, construída sobre uma grande rocha, com uma esteira rolante destinada a levar os hóspedes até a beira do mar.
Plokhy concentra os primeiros capítulos da sua narração nos esforços do Presidente Bush, pai, em tentar salvar o mandato de Gorbatchov na União Soviética, visto como um reformador moderado, em oposição aos aventureiros como Bóris iéltzin, a direita e a linha dura do Partido Comunista, à esquerda.
Mais tarde voltarei ao livro.

Quem sabe exista mais alguém interessado no homem que lançou duas palavras que foram moda em certa época: perestroika e glasnot.

Caí por causa do Camus

Existem quedas simbólicas e quedas físicas. As primeiras podem dar origem tratados de filosofia. As segundas, apenas provocam dores. Albert Camus, o escritor nascido na Argélia, mas francês pela apropriação que fez da cultura e dos valores europeus, escreveu em 1956 um livro de aproximadamente 80 páginas, chamado A Queda (La Chute), até hoje citado, ao lado de Sartre, como um dos grandes nomes do existencialismo moderno.
Para Camus, de certa forma a queda de todos os valores e expectativas do ser humano no futuro era a única forma de liberdade. 
O homem para ele seria um estrangeiro (por sinal nome de outro livro seu) no mundo, solitário, destituído de qualquer moral, sem qualquer verdade.
Talvez eu estivesse pensando em Camus, quando me pus a realizar meu obrigatório exercício matinal, que terminaria também numa queda.Simbolicamente, no seu livro, a queda do personagem, o juiz Jean-Baptiste Clamence, significa a busca da liberdade.
Se foi isso, talvez ele possa ser o culpado do que me aconteceu.
A quinta-feira, dia 18 de agosto, amanheceu ensolarada em Gramado e sem nenhuma nuvem no céu. Uns 15 graus ao sol. É o que as pessoas de pouca imaginação chamariam de um dia glorioso.
 Eu, pessoalmente, prefiro aqueles dias de céu púmbleo e uma chuvinha fina. Deve ser porque eu sou do contra. Talvez seja mesmo.
Com o tal dia glorioso não havia justificativa para não cumprir meu castigo diário: caminhar a passos rápidos durante 30 minutos, receita para impedir um presumível enfarte e oxigenar o cérebro. Dizem que caminhar ou correr têm essas virtudes. Sei que há divergências, mas tenho seguido a receita religiosamente e o termo cai bem para um ateu.
O local do sacrifício é o Lago Joaquina Rita Bier, em frente ao meu apartamento, escolhido porque a monotonia da passagem impede que o caminhante seja distraído por algo mais interessante.
Mal dei meus primeiros passos rápidos, quando prendo o pé numa saliência da pista e lá vou eu direto para o chão. Não uma daquelas quedas em que você ainda tenta se equilibrar. Não.
Caí duro no chão. Só houve tempo para com as palmas das mãos abertas, impedir dar de cara na laje.
Tento me levantar rápido para passar despercebido dos demais habitués do parque, mas não consigo evitar que duas pessoas me ofereçam ajuda.
 Pior do que o tombo é a vergonha dos outros. Faço um sinal com as mãos de que está tudo bem e tento sair na direção oposta em que vinha. As duas pessoas continuam me chamando.
Volto, já meio irritado com tanta solidariedade, e então percebo que elas agitam uma chave. Na queda havia deixado cair no chão as chaves do apartamento.
Agradeço constrangido e decido então que mesmo com as mãos e os joelhos ralados devo cumprir minha missão: 30 minutos caminhando a passos largos no lago para não morrer de enfarte e continuar com a mente mais ou menos lúcida.
Não morrerei de enfarte, mas talvez de uma queda no lago Joaquina Rita Bier.
Na próxima vez não vou pensar no Albert Camus.

Como encontrar um democrata no Brasil, em vez de um pokemon no parque

Na religião existe um mandamento de que não se deve tomar o nome de Deus em vão.

Na política devia existir também um preceito de que não devia se usar de forma abusiva a palavra democracia.

Os gregos, que inventaram o termo, explicaram que significava o governo do povo, mas só que o conceito de povo para eles era muito restrito. Mulheres, menores e escravos ficavam de fora.

Era, portanto, uma democracia para poucos.

Hoje, todos parecem ser a favor dela, embora cada um a enxergue de um modo particular.

O único político de renome nos últimos 100 anos que a detestava e dizia que ela era uma criação do ocidente decadente, foi Adolfo Hitler e todos sabem como ele acabou.

Stalin também não tinha muitas simpatias por ela, embora dissesse respeitar a democracia interna do Partido Comunista. A história mostrou que não era bem assim, o que não significa que ele também nas se considerasse, como os gregos, que estava praticando a democracia.

Truman mandou jogar duas bombas atômicas no Japão quando a guerra estava praticamente terminada, dizendo que o fazia em nome da democracia.

Os japoneses, possivelmente, divergiam desse pensamento.

Bush, pai e filho massacraram o povo do Iraque dizendo defender a democracia.

 Winston Churchill era um defensor fervoroso da democracia e até escreveu livros falando bem dela mas em seu nome justificou a política colonialista inglesa na África e na Ásia e nunca perguntou para asiáticos e africanos se era isso que eles queriam.

Churchill fez sobre a democracia uma frase que políticos do mundo inteiro a repetem até hoje como papagaios: “ A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos”

Claro que Churchill pensava na sua Inglaterra, onde depois de Cromwell, os ingleses podem democraticamente decidir se querem ser governados por trabalhistas ou conservadores, assim como os americanos podem escolher entre republicanos e democratas, o que na prática deixa tudo sempre igual.

Getúlio Vargas, quando assumiu o poder como líder da Revolução de 30, chamava os representantes da “democracia do café com leite”, de carcomidos.

Quando brasileiros, argentinos e uruguaios se uniram para formar a Tríplice Aliança e praticamente destruir o Paraguai, disseram que era para acabar com a ditadura de Solano Lopes.

Perguntem ao professor Mário Maestri se há um pingo de verdade nessa história.

Os estados do leste europeu, que se libertaram da dominação nazistas se intitulavam democracias populares”.

Os generais que deram o golpe em 64 diziam estar agindo contra os comunistas que queriam acabar com a democracia. Deu no que deu: um fechamento nos direitos políticos como o Brasil ainda não tinha vivido.

Nas masmorras em que torturavam e matavam, diziam estar eliminando os adversários da democracia.

Hoje se fala em democracia social em oposição a democracia representativa, que seria dominada pelo poder econômico e por isso excluiria os mais pobres.

As esquerdas falam em radicalização da democracia.

Os golpistas de hoje, que tiraram do poder uma Presidente legitimamente eleita, juram que são democratas.

Cá entre nós, olhando para as caras do Temer, do Padilha, do Eduardo Cunha, do Renan Calheiros e outros que hoje se dizem donos do poder, o que podemos pensar deles como novos guardiões da democracia brasileira?

Cesare Lombroso, com a sua antropologia criminal e Franz Joseph Gall , com a  frenologia, diziam ser capazes de identificar o caráter das pessoas pelo estudo do seu cérebro.

Nos meus tempos de redator de notícias da TV Piratini, havia uma versão mais popular das teses de Lombroso e Gall por parte do Lauro Schirmer, chefe do departamento.

Se referindo a um apresentador de notícias, ele dizia que o sujeito tinha a burrice estampada na face.

O que então Temer e seus companheiros têm estampadas em suas faces?

Boa coisa, certamente não é.

E a Dilma?

Eu acho que ela tem estampada a imagem de uma mulher honesta e séria. Talvez não muito inteligente, mas honesta e séria, sim.

E o Lula?

O Ciro Gomes disse que ele era honesto, mas sua moral um pouco frouxa.

A Graça Craidy, que conheci como excelente redatora de publicidade e que agora se diz pintora, atividade sobre a qual não tenho como avaliar sua qualidade, fez uma exposição com quadros onde afirma retratar a corrupção em Brasília.

Um dos quadros (o que vi) mostra uma figura que só pode ser o Lula, misturada com aves de rapina. Será que a Graça escolheu, o Lula como representante de todo um processo de rapina (vou aproveitar sua imagem) que o Brasil vive há 500 anos?

Seria isso então a essência da democracia? Poder dizer o que se quer, sem qualquer compromisso com a história?  Sermos seletivos em nossa indignação, como a Graça parece ter sido?

Precisamos urgentemente chegar a um acordo para estabelecer as regras de como definir um democrata no Brasil, tarefa talvez mais importante que procurar Pokemons nos parques da cidade.

Como sugestão, proponho o primeiro artigo:

Só pode ser dizer democrata, a pessoa que comprove ter lido mais de um livro de História (com agá maiúsculo) do Brasil e que se disponha a debater o que aprendeu com outros leitores.

O Brasil, de Havelange a Elke Maravilha

Coincidentemente morreram no mesmo dia, na mesma cidade, duas pessoas que representaram, enquanto vivas; duas maneiras diametralmente opostas de ser brasileiras.
João Havelange, que morreu aos 100 anos, vítima de uma infecção generalizada, representava a elite branca que há 500 anos comanda a vida do Brasil.
Elke Maravilha, que morreu aos 71 anos, após uma cirurgia para tratar de uma úlcera, era diabética e representava o lado debochado e irreverente do sofrido povo brasileiro.
A rigor, nem um dos dois era realmente brasileiro de pai e mãe.
Jean-Marie Goedefroid de Havelange, João Havelange, nasceu por acaso no Brasil. Seu pai era um belga, comerciante de armas, que estabeleceu no Rio de Janeiro uma base para venda de armamentos para as ditaduras sul-americanas.
Elke Georgievna Grunnupp, mais conhecida como Elke Maravilha, de origem alemã, nasceu na antiga Leningrado, hoje São Petersburgo, na Rússia e veio ainda criança para o Brasil.
Havelange se destacou como atleta, tendo participado dos Jogos Olímpicos de 1926, na Antuérpia, como nadador e de 1952, em Helsinki, como jogador de polo aquático.
Elke Maravilha foi modelo e se tornou conhecida no Brasil inteiro como jurada nos programas de calouros do Chacrinha e Sílvio Santos.
Havelange era um homem flegmático, quase um racista, na medida em que sempre mostrou desprezo pelo futebol, o esporte dos pretos e mulatos, quando era nadador do Fluminense. Ele gostava de água limpa para nadar, mineral para beber, queijo fresco, nada de álcool.
Elke Maravilhaconfessou que já havia usado drogas, mas o que realmente gostava era de cachaça.  
“Experimentei crack três vezes, mas na minha geração usávamos drogas para autoconhecimento e hoje é para fuga. Minha única droga é a cachaça”,
Num programa de televisão relembrou seus antigos relacionamentos. “Tive oito casamentos e o mais curto durou dois meses, porque ele era psicopata. Eu acordava de madrugada e ele estava no sofá, vestido de Elke, com uma faca na mão”, contou ela, que falou ainda que morou dentro de um carro por um ano na Alemanha com o primeiro marido.
No seu currículo está escrito que morou em Porto Alegre entre 1966 e 1969, quando cursou algumas cadeiras da Faculdade de Filosofia da UFRGS.
Havelange, nunca foi preso, mas toda a sua carreira como empresário da área de transportes e presidente de entidades esportivas, foi manchada por uma série de denúncias sobre suas práticas de corrupção.
Elke Maravilha foi presa uma vez, por um motivo que só honra sua biografia. Ela, que se considerava anarquista, enfrentou a tortura da ditadura e chegou a ficar presa por seis dias após se indignar, em 1972, contra um cartaz de procurados políticos que viu no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Nele, estava a foto de Stuart Angel, filho de Zuzu Angel, para quem já desfilara como modelo.  Elke, que tirou o cartaz da parede e o rasgou, foi acusada de prejudicar as investigações e teve sua cidadania brasileira cassada pelo governo militar.
Havelange, de escândalo em escândalo, se transformou de dono da Empresa de Ônibus Cometa, no mais poderoso dirigente do futebol, primeiro do Brasil, como presidente da CBF e depois da FIFA, durante 24 anos, de 1974 a 1998, tudo isso sem abandonar o negócio de venda de armas, agora para o continente africano.
Com o apoio dos militares durante a ditadura, que viam no futebol uma forma de promover o país, se locupletou com algumas das maiores negociatas, principalmente depois que se tornou um dos sócios da ISL – International Sports Leisure, entidade que, segundo se diz, distribuiu mais de 150 milhões de dólares em propinas, subornando dirigentes esportivos do mundo inteiro.
Elke Maravilha ganhou a vida como bancária, modelo de moda, artista da televisão e cinema e também como tradutora, já que falava várias línguas.
Havelange, que ao morrer, ainda era membro vitalício do Comitê Olímpico Internacional, certamente será homenageado com honras de grande estadista, como sempre se dizia sentir, enquanto Elke Maravilha deverá ter um enterro discreto e pouco espaço na mídia.

Nós e os chineses

Por que somos socialistas?
Primeiro, porque somos profundamente solidários com todas as pessoas, independentemente de sexo, raça e cor, que sejam discriminadas social e economicamente.
Segundo, porque abominamos qualquer tipo de opressão, seja ela política ou econômica.
Terceiro, porque acreditamos que é preciso gerar um desenvolvimento econômico que respeite a natureza e divida suas benesses entre todos e não apenas entre um grupo de privilegiados.
A síntese dessas posições nos leva a lutar por um sistema político que atribua a todas às pessoas oportunidades iguais de desenvolvimento pessoal e que as diferenças entre cada uma delas, que sempre existirão, sejam devidas apenas as suas capacidades físicas e intelectuais.
Atualmente, não existem outras formas de organização da sociedade a não ser o modelo capitalista, sob o qual vive a maior parte da humanidade e o socialismo, ainda hoje uma meta a ser alcançada.
Como disse Rosa Luxemburgo há 100 anos, ou caminhamos para o socialismo ou para a barbárie capitalista.
Ser um socialista é uma construção pessoal. Você pode ser contra as injustiças sociais e a favor da igualdade de oportunidades para todos, sem ser um socialista.
Para isso, você precisa se armar de uma estrutura ideológica que possa lhe dar uma explicação racional, que o ajude a entender porque vivemos sob um sistema capitalista e porque ele precisa ser substituído por outro, mais humano e solidário, mas fundamentalmente, mais eficiente economicamente.
Poderíamos até retomar o mito do bom selvagem de Rousseau e admitirmos que nascemos, intrinsicamente bons, mas que fomos pervertidos pela sociedade capitalista.
A volta ao bom caminho – a senda do socialismo – seria então fruto do esforço pessoal de cada um em identificar as fontes da perversão e substitui-las por modelos mais humanos.
No meu caso, e é apenas um exemplo, foi a leitura de um romance – Les Thibault, de Roger Martin du Gard – que, ao narrar a saga do pacifista Jacques Thibault, às vésperas da primeira guerra, mostrou a existência de um novo caminho.
Os textos de Marx, Lenin, Trotsky, Plenakanov, Caio Padro Júnior, Nelson Werneck Sodré e Jacob Gorender, entre outros, apenas organizaram esse processo, dando a ele os argumentos racionais necessários para se justificar.
Toda essa declaração de princípios está sendo feita em resposta a um excelente artigo de Tarso Genro no site Sul 21 a propósito de socialismo, diferenças entre esquerda e esquerdismo e ajuste econômico.
Diz Tarso, refutando o título de esquerdismo que o jornal Zero Hora atribuiu a uma tentativa de reagrupamento das forças de esquerda do País, face ao movimento golpista de direita que está se apropriando do mandato da Presidente Dilma, que a palavra foi exorcizada por Lenin quando lhe atribuiu a pecha de ser uma doença infantil do socialismo.
O que existe são várias tendências de esquerda no País que devem ser agrupar contra o inimigo comum, até porque a esquerda é sempre plural, ao contrário da direita que é singular, autoritária e dogmática.
Basicamente, o que pretenderia esse movimento?
Numa resposta simples, construir um modelo de desenvolvimento democrático que assegure iguais oportunidades para todos, liberdade para o crescimento pessoal de cada um e uma estrutura material do País que permita esses avanços.
Embora Tarso não tenha sido explicito no caso, certamente estaria pensando na construção de uma sociedade socialista. Não numa sociedade socialista já, mas na construção dela.
Em 1917, logo depois da Revolução Soviética, Lenin não falou também em socialismo já, mas na sua construção. Lenin, como um profundo conhecedor do seu povo, dizia sempre que isso seria um processo longo e que seria preciso investir muito na educação das pessoas. Ao contrário do que muitos podem pensar, Lenin não era um autoritário e sempre desconsiderou o caminho da imposição de qualquer tipo de ideia, defendendo a opção do convencimento pelo uso da razão e dos bons exemplos.
Mas, mesmo Lenin em 1921, quando as consequências da guerra civil e as invasões estrangeiras pareciam estar prestes a destruir a revolução, optou por um regime econômico – o NEP – Nova Política Econômica, substituindo o comunismo de guerra por um sistema que estimulava o desenvolvimento de iniciativas capitalistas em alguns segmentos da economia.
Seria um passo atrás para dar dois à frente, quando as pessoas estivessem convencidas que o sistema de planejamento econômico governamental era mais eficiente que o privado. Infelizmente Lenin não viveu para completar sua obra e seu sucessor Stalin, optou em 1928 pela imposição ditatorial do desenvolvimento a qualquer custo e no caso soviético foi ao custo de milhares de vidas humanas perdidas.
No seu artigo, Tarso lembra que Deng Xiaoping, quando disputou a liderança do Partido Comunista Chinês, convenceu seus pares que plano e mercado são apenas instrumentos e não distinções fundamentais entre socialismo e capitalismo, retomando algumas ideias dos mencheviques russos e hoje comanda um país com os mais altos índices de crescimento do mundo, fazendo sair da pobreza mais de 500 milhões de chineses.
Essa ideia de incorporar as noções de mercado ao planejamento socialista, há algum tempo vem sendo discutida pelos defensores de um novo modelo econômico, mas o modelo chinês parece não ser o melhor exemplo a ser seguido.
De uma forma bem evidente, ele preserva a velha divisão de classe, separando ricos e pobres. E não são apenas alguns mais ricos que outros, o que parece ser uma condição humana em todo o tipo de organização social, mas sim alguns extraordinariamente ricos e outros ainda muito pobres, como mostra, por exemplo, os investimentos de alguns de seus milionários, comprando times de futebol, como já fazem os xeiques árabes e os reis do petróleo da Rússia.
Além disso, uma sociedade desse tipo, ainda que seja capaz de assegurar o crescimento econômico que beneficia, mesmo que de forma desigual, a maioria da população, só pode ser mantida por um sistema político autoritário e pouco democrático.
Seria esse o modelo de ajuste econômico que as esquerdas, se um dia tiverem novamente o poder de decidir alguma coisa no Brasil, proporiam?
Será possível compatibilizar desenvolvimento acelerado com democracia, seguindo a receita chinesa?
Esta é realmente, no meu modo de ver, uma proposta que dificilmente poderia ser chamada de socialista, mas como disse Tarso no seu artigo, a riqueza da esquerda é representada pelas suas múltiplas visões da realidade e uma delas talvez pudesse se basear na experiência chinesa.



Marino, meu personagem inesquecivel

Sozinho em Gramado, devo com urgência encontrar algumas coisas para passar o tempo, além dos jogos de futebol na televisão, as palavras cruzadas e os livros que, mesmo com centenas de páginas, duram muito pouco.
Quem sabe, escrever em muitos capítulos, a história de algum personagem que desperte interesse nos leitores, se, por acaso, essa história puder um dia se transformar num livro.
Diga-se de passagem, que publicar um livro sempre foi uma obsessão para mim e para muitas pessoas que, como eu, em algum momento, se acharam em condições de escrever algo que pudesse interessar outras pessoas.
Quem sabe, com o objetivo inicial de passar o tempo, eu não alcance esse objetivo?
Bom, está decidido, vou escrever uma história de um personagem que seja bastante interessante, digamos para um leitor comum, obviamente alguém que leia mais que os jornais diários, mas que não avalie o que for escrito pelos mesmos critérios estéticos que lê uma obra do Gabriel Garcia Marques, do Érico Veríssimo ou até mesmo do Fernando Gabeira.
Primeira tarefa seria então, encontrar o tal personagem, alguém cuja vida seja cheia de aventuras, alguém cujos feitos provoquem a admiração das pessoas.
Nada de um livro com personagens pensadores e cheios de filosofia. Parece que nessa nova sociedade de consumo, os leitores querem ação, aventuras, que não encontram nas suas vidas reais.
Um aventureiro, um herói, um grande esportista, um grande ator, um milionário excêntrico, qualquer um desses personagens ajudaria a chamar a atenção para a história, mas quantos desses personagens, conheço com algum grau de profundidade, para me atrever a contar suas vidas?
Poucos, talvez nenhum.
Teria que fazer uma longa pesquisa, conhecer a fundo este personagem, saber de sua vida em todos os detalhes, algo que exigiria muito tempo, atenção e, também, dinheiro para financiar este trabalho, coisa que, vamos deixar claro, não tenho.
Além disso, não atenderia o objetivo inicial de passar o tempo aqui em Gramado. Exigiria viagens, estudos, pesquisas de campo.
Mas, fazendo uma revisão da memória, será que não encontraria um personagem pronto, acessível ao que pretendo?
Quem é a pessoa que conheço mais profundamente no mundo, pessoa sobre a qual tenho uma memória completa, cheia de detalhes e curiosidades?
Obviamente, eu mesmo.
Embora isso possa parecer uma impossibilidade sob o ponto de vista freudiano, acho que conheço bem e me lembro dos principais momentos da minha vida, salvo alguns lapsos de memória que possam ser atribuídos a indícios de uma senilidade precoce.
Então, o personagem eu tenho, mas isso não resolve totalmente o problema. Quais seriam os fatos desse personagem que pudessem caracterizar uma vida de aventuras capaz de interessar a hipotéticos leitores, algo que fizesse dele um personagem inesquecível?
Já disse antes que sou uma pessoa comum, sem grandes acontecimentos na vida.
E, então?
Fazendo uma rápida retrospectiva na minha vida, veja que em alguns momentos, se tivesse tomado uma decisão diferente da que tomei, ou melhor se tivesse tomado uma decisão e não deixado as coisas correr no seu curso normal, poderia ter sido um guerreiro no Oriente Médio, um jogador de futebol de prestígio internacional, um advogado famoso, um rico empresário ou, quem sabe, um ator reconhecido nacionalmente.
Como o que pretendo escrever é uma obra de ficção, nada impede de que no último segundo antes da decisão que me fez ser mais uma pessoa comum no mundo, eu tivesse seguido outro caminho.
O que aconteceria então com este personagem que chamaremos apenas de Marino?
A primeira oportunidade, eu a desperdicei, ao nascer num dia 15 de agosto, do distante ano de 1939. Como naquela época, as crianças nasciam nas casas de suas mães, assistidas por uma velha e prática parteira, eu perdi a oportunidade de ser trocado na maternidade.
Não posso contar uma história de uma troca ao nascer, porque fui o único a nascer, naquele dia de inverno, naquela casa da Avenida Veneza, nome que trocaram para Buarque de Macedo por causa da guerra.
Depois, supondo que tivesse nascido na Beneficência Portuguesa e não em casa, não estaria sendo nenhum um pouco original. Já se contaram várias histórias dessa troca em maternidades, fazendo com que filhos de ricos, fossem condenados a viver como pobres e filhos de pobres chegassem à riqueza.
Eu seria o filho de casal pobre, que viveria como rico, até o dia em que inesperadamente conheceria a mãe biológica, por uma inexplicável atração dos sentidos.
Algo difícil de acreditar, hoje em dia.
Vamos então esquecer essa possibilidade, primeiro porque nasci numa casa da Avenida Veneza, no bairro São João, em Porto Alegre e segundo porque seria um terrível dramalhão, no qual nem aquelas senhoras da Vila do IAPI, ainda acreditam
Vamos começar então essa história 16 anos depois, tendo como cenário Porto Alegre, e um bairro, Menino Deus, onde ficava o Estádio do Internacional.
Advirto aos meus poucos prováveis leitores que este é um exercício de fantasia, onde eu serei sempre o grande herói e os demais personagens, simples coadjuvantes e que poderei a qualquer momento modificar os fatos reais e introduzir personagens fictícios sem qualquer aviso prévio.
Como condutor dessas histórias, terei sobre elas o domínio completo, nada me obrigando a respeitar, quando interferirem em situações já conhecidas, a verdade do que aconteceu realmente.
Vamos então à esta primeira aventura, abrindo as portas da fantasia, sem qualquer compromisso com pessoas e fatos reais.

(Caso algum leitor descuidado tenha chegado até aqui e ficou interessado na continuação da história, aguarde a publicação do livro, que espero não seja póstumo)

A dúvida existencial do Dr. Franklin

O Dr. Franklin não se cansa de me perguntar: o que ganhamos em sonhar com uma revolução socialista?
Depois de velhos, o Franklin e eu, não nos cansamos das mesmas perguntas sem respostas.
Por que, pessoas razoavelmente resolvidas na vida, com o futuro mais ou menos garantido, apoiam um movimento que pode por tudo de cabeça para baixo?
Pessoas como eu, o Franklin, o Mareu, o Luiz Octávio, o Lantieri e o Airton, gente com título universitário, casa própria, carro na garagem, muitas viagens à Europa, filhos criados e netos, quase lá, querem mudar uma vida, que no computo geral e considerando que vivemos no Brasil, pode ser considerada muito boa.
Somos solidários com os pobres e oprimidos, mas será que eles sabem disso ou se importam com isso?
Não vamos falar daquela classe média, razoavelmente alfabetizado que bate panelas no Parcão, lê a Veja, assiste a Rede Globo e acha o juiz Moro um herói nacional.
Essa gente, ou uma parte delas, defende seus interesses particulares, que imaginam que os governos do PT possam ter prejudicado.
Nunca ganharam tanto como naquele mundo de fantasia criado pelo Lula e que a Dilma não conseguiu manter, mas sempre tiveram um pé atrás com o barbudo operário e sua discípula.
Essa classe média, imortalizada naquele bordão do Chico Anísio, tem horror de pobre, essa gente que ela enaltece quando fica na sua pobreza, mas, quando, por obra e graça das pequenas medidas reformistas do Lula, começa a comer melhor e – suprema audácia – quer férias em Gramado com direito a viagem de avião, ela abomina.
O Dr. Franklin e eu, não queremos nada com essa gente. Nosso público seria o operário que trabalha duro por um salário mínimo e que é potencialmente um revolucionário?
Será?
A nossa visão embasada nos ensinamentos do marxismo não teria ficado embotada?
Alguma vez, chegamos a falar com a gente em carne e osso?
Lembro sempre uma história que me contava o Dr. Werner, dos seus tempos de estudante, ainda cheio de espinhas no rosto, mas com veleidades revolucionárias.
Uma de suas missões era discursar num bonde cheio de pessoas que iam para o trabalho, nas primeiras horas da manhã, denunciando o capitalismo selvagem.
Nem bem começou sua fala, foi interrompido por alguém que deveria ser o mais interessado no seu discurso
– Cai fora punheteiro. Não atrase o bonde.
E, nós, estamos atrasando o quê?
Nos consolamos com aquele ensinamento de Lenin de que cabe aos intelectuais tomarem a dianteira das lutas sociais, já que os operários, diretamente interessados nisso, não têm consciência ainda dos seus direitos.
Conscientizar as massas, sempre repetimos como um mantra essa frase, mas será que editar um site de esquerda ajuda nessa tarefa?
Não ajuda muito, Franklin. Talvez um pouco. Mas tem outra utilidade muito importante, fundamental para as nossas vidas.
Nos dá o consolo de estarmos do lado certo da história e até poderíamos repetir aqui o discurso de Fidel Castro, depois do atentado frustrado ao quartel de Moncada:
“A História nos dará razão”.

Pode demorar, Franklin, mas esse dia chegará.

O que fazer com os velhos?

Nas últimas páginas do livro Le Thibault, de Roger Martin de Gard, o personagem principal, Jacques Thibault, tenta um ato desesperado para interromper a Primeira Grande Guerra que começava entre a França e a Alemanha: a bordo de um pequeno avião, lança panfletos pedindo aos soldados que deponham suas armas.
O avião é abatido, e Jacques, muito ferido, é resgatado por uma patrulha de soldados franceses.  Durante algum tempo, ele é carregado nas costas pelos soldados. Inerte e sem qualquer reação física, ele é apelidado pelos seus salvadores de Pacote. Em determinado momento, o soldado que carrega Jacques às costas, começa a ficar para trás dos seus companheiros e pergunta desesperado o que fazer.
– Larga o Pacote, respondem os outros
Sem olhar para trás, ele larga o Pacote num canto qualquer e corre para alcançar seus companheiros.
Essa sempre foi uma dúvida para a humanidade, o que fazer com seus velhos, doentes, deficientes físicos e loucos?
São os novos pacotes, sem serventia na guerra e na paz.
A resposta mais desumana e perversa foi dada na Alemanha nazista com o desenvolvimento de um terrível plano de eugenia humana. Não eram apenas com os judeus, os ciganos, os polacos, os comunistas e os homossexuais que Hitler queria acabar.
Acreditando na falácia da raça pura, ele e seus asseclas pretenderam acabar com todas as pessoas que nasceram com deficiências físicas ou mentais ou que as adquiriram na velhice.
Joseph Mengele, que conseguiu fugir da Alemanha depois da guerra e veio a morrer no Brasil vinte anos mais tarde, era o grande teórico e também o terrível prático dessas medonhas experiências.
Adepto da higiene racial, sua tese de medicina em 1939 já revelava suas preferências, um estudo de famílias sob o ângulo da fissura lábios-maxilar (lábio leporino). Alistado mais tarde na Waffen SS, realizou pesquisas a partir de1943, subvencionado pela Deutsche Forschungs-gemeinschaft (Comunidade Alemã de Pesquisas) em Auschwitz-Birkenau, principalmente sobre patologias hereditárias.
Mais do que pesquisas, foi responsável por experiências terríveis com seres humanos, como a sua tentativa de fabricar siameses, atando entre si, cirurgicamente as veias de dois gêmeos ou a de injetar substâncias químicas nos olhos de bebês na tentativa de mudar sua coloração.
No seu livro A Parte Obscura de Nós Mesmo, Elizabeth Roudinesco diz que Mengele tinha paixão pelos anões.
“Sentia prazer em selecioná-los pessoalmente entre famílias inteiras, obrigando-os a se maquiar e se vestir de maneira grotesca a fim de reinar no meio deles, qual um monarca de opereta, cigarro na boca, deleitando-se em observá-los durante horas. À noite, após empanturrar-se com tantas bufonarias, conduzia-os a pé, até o crematório”.
Obviamente, nem de longe é isso que as famílias modernas querem fazer com seus velhos, doentes e deficientes físicos e mentais.
Mas, os velhos, porque um dia não foram velhos, parecem ser aqueles cujas presenças mais causam incômodo.
Podemos ser capazes de grandes sacrifícios para ajudar alguém com algum tipo de deficiência física ou mental, parente ou não, porque nunca fomos assim e certamente também nunca o seremos.
Os velhos, não. Eles mostram, com suas mazelas físicas e mentais, qual será o nosso futuro.
Então, apesar de muitas juras de gratidão, os queremos bem longe de nós, de preferência nesses depósitos humanos aos quais se dão nomes tão amenos como Lar e Casa de Repouso. O nome real de Asilo, fica reservado para aqueles que, a rigor, sempre viveram em algum tipo de asilo desde que nasceram.
Sob a estreita ótica capitalista, está certo. Como eles não produzem, apenas consomem, estão dificultando o progresso da sociedade.
Os governos, usando sempre eufemismos para não chocar algumas pessoas mais sensíveis, lamentam que o aumento na expectativa de vida das pessoas esteja acabando com a possibilidade de que continuem dando assistência aos mais velhos.
Fernando Henrique Cardoso, quando presidente, talvez pensando em sua aposentadoria precoce, disse que os brasileiros querendo se aposentar muito cedo, não passavam de vagabundos.
Temer, também aposentado muito cedo, pensa da mesma maneira.
Talvez tenham razão. Precisamos botar todos os nossos velhos no trabalho para o bem da Pátria.
Só um problema: está faltando trabalho até para os mais novos.
Para os velhos, então nem se fala.

É preciso saber o que fazer com os velhos que insistem em continuar vivos, antes que alguém tenha mais uma vez alguma ideia maluca, própria de um darwinismo social que parece voltou a ser moda em alguns lugares.

Em nome do Pai.

Dia 15 de agosto faço 77 anos.
Meu pai morreu em 1969, com 62 anos.
São quase 50 anos, tempo suficiente para fazer um ajuste de contas com o passado e ver o que sobrou da sua presença na minha vida.
Minha primeira lembrança dele e também da minha vida, é do inverno de 1942, em Farroupilha, onde morava a nossa pequena família, meu pai, seu Alcides, minha mãe, dona Alzira, o irmão Maurício, sete anos mais velho e eu, Marino, então quase completando três anos.
Num gramado perto da casa de madeira onde vivíamos, vultos de roupas pesados e luvas nas mãos jogavam bolas de neve, um contra os outros, no que parecia ser uma alegre brincadeira.
Para mim, não foi assim. A neve ardia nas mãos desnudas, provocando muita dor e choro.  Nesse momento, meu pai entrou na minha vida. Ele me carregou no colo para casa, pôs água quente numa bacia onde submergi minhas mãos, provocando uma onda de prazer.
Estava aprendendo na prática uma lição que meu pai certamente não teve a intenção de me ensinar, a que de uma dor pode ser o caminho para um grande prazer depois.
O que sei de antes dele, ouvi pelas narrações da minha mãe.
Em Porto Alegre, ele tinha sido um jovem que pelos padrões da família de imigrantes alemães de minha mãe, podia ser considerado rico ou pelo menos, bem encaminhado na vida.
Na provinciana capital dos últimos anos da década de 20, ele tinha uma carroça e um cavalo, com os quais vendia verduras pelos bairros da cidade.
Podia ter sido o início de uma carreira de um empresário do comércio, como nos acostumamos a ouvir tantas vezes, mas aquela rotina não interessava ao meu pai.
Em 1930, ele largou tudo para acompanhar as tropas de Getúlio Vargas na revolução e depois contava com orgulho que estava de guarda no Palácio do Catete quando Getúlio assumiu a Presidência.
Em 1932, já casado, voltou a se alistar para uma nova revolução, que para o seu desgosto não se consumou.
Foi getulista até o fim da vida. Em 1950, Farroupilha transpirava catolicismo, mas nem ele, nem minha mãe iam a missa. Minha mãe porque a família dela era dividida, metade católica, metade protestante. Meu pai, porque era mais anticlerical que ateu. Naquele ano, Getúlio concorria à Presidência tendo Café Filho como vice. A Liga Eleitoral Católica, poderosa na época como formadora de opiniões, fez campanha contra Café, dizendo que ele era comunista.  Na escola, durante uma aula de religião, o irmão-professor disse que era para avisar as famílias que quem votasse em Café Filho seria automaticamente excomungado. Foi o que fiz, mas meu pai disse que agora mesmo é que iria votar no Café.  Durante muito tempo fiquei preocupado com a possibilidade que, excomungado fosse parar no inferno, mas depois esqueci.
Voltando no tempo. Em 1932, sem o cavalo e carroça, que tinha vendido, meu pai foi trabalhar como padeiro. Contava que era uma profissão que não pagava muito, mas que rendia sempre um quilo de pão que levava quentinho para casa todas as manhãs.
Pouco depois, optou por uma profissão que lhe pareceu mais segura: entrou para a polícia e foi ser guarda civil.
Também pagava pouco, mas não tinha o risco de demissão. Além disso, o revólver na cintura e a força física do seu quase 1 metro e 90 de altura, lhe garantiam o respeito das demais pessoas.
Essa preocupação em ter algum tipo de poder, o levou a aceitar transferências para cidades do interior, onde muitas vezes era a principal autoridade.
Primeiro foi Lajeado, para onde fui levado com apenas alguns meses, depois Farroupilha, onde começam minhas lembranças dele, um pequeno tempo em São Sebastião do Cai, depois a volta a Farroupilha, uma curta passagem por Caxias e a volta a Porto Alegre para a aposentadoria.
Minha história com ele começa então em Farroupilha
Ele era muito pouco presente em casa. Passava o dia na delegacia e a noite era reservada para o encontro com os amigos no café.
Nossos breves encontros serviam para que ele fizesse muitas cobranças. Tinha que estudar muito, ajudar a mãe em casa e andar sempre de sapatos limpos e engraxados.
Até o fim da vida ele conservão essa obsessão com a limpeza dos sapatos.
Ele era uma autoridade, quase sempre ausente fisicamente, mas sempre lembrada por minha mãe quando eu não cumpria o que ela imaginava que eram meus deveres.
Quando, por ventura, estávamos todos em casa, sua autoridade enchia todos os espaços.
– Não faz barulho – dizia minha mãe – teu pai está reinando.
Durante anos, o verbo reinar ficou associado a este comportamento paterno e demorou muito para que, só muitos anos depois, pudesse conhecer outras facetas mais suaves do seu caráter.
Minha referência permanente era minha mãe, já que o irmão mais velho tinha outros interesses.
A vida se resumia ao tempo da escola e o tempo da bola nos campinhos que abundavam em torno da casa.
Uma rotina que seria quebrada, pelo que posso entender agora, no ano de 49, quando ele se envolveu numa briga com um grande empresário local.
Decidido a prender o sujeito, que se recusava a aceitar uma multa por uma infração de trânsito, se viu cercado por um grupo de seus empregados e disparou contra eles dois ou três tiros.
Felizmente, não acertou ninguém, mas o fato foi suficiente para que fosse removido para Caxias do Sul.
Então, nos dois anos seguintes, ele passou a morar em Caxias, nos visitando apenas na quarta feira de tarde e nos fins de semana, quando chegava no trem que levava mais de uma hora para ligar as duas cidades.
Livre da presença autoritária dele, sinto dizer agora, foram estes os dias mais felizes da minha infância.
Longe dele, podia esquecer os sapatos engraxados e me dedicar nas peladas de pés descalços que nunca tinham hora para acabar.
Uma vez, na Copa do Mundo de 1950, vi uma foto na revista O Cruzeiro da planta dos pés dos jogadores da seleção brasileira. Me espantou como aqueles pés eram tão lisos, enquanto os meus tinham um cascão permanente que não havia água e sabão que o eliminasse.
O que mais lembro dele?
Sua capacidade incrível de contar histórias. As minhas preferidas eram as de assombração. E as melhores eram as ocorridas em Lajeado, onde segundo dizia e minha mãe confirmava, tínhamos morado numa casa mal assombrada, na entrada do cemitério. A casa tinha ruídos, sopros, batidas na porta e passos perdidos por suas dezenas de peças. Na medida em que ele contava as histórias, eu as revivia em todos seus detalhes. Não importa que depois fosse difícil dormir com a luz apagada, mas na hora, elas eram imperdíveis.
Uns 30 anos depois fui a Lajeado tentar encontrar a casa, mas ela não existia mais e ninguém nunca soubera de tais assombrações.
No ano de 1950, praticamente todos os meninos de Farroupilha tinham uma bicicleta aro 28 e com muito sacrifício, meu pai comprou uma, mas que deveria servir a mim e a meu irmão, sete anos mais velho, o que provocou muitas brigas entre nós.
Numa comemoração da Semana da Pátria, a Prefeitura promoveu uma corrida de bicicletas para os garotos da cidade e eu acabei ficando em terceiro lugar, entre uma dezena de concorrentes e ganhei um prêmio de 20 cruzeiros.
Não lembro se meu pai me cumprimentou ou criticou pelo desempenho, mas penso agora que ele esperava mais de mim.
Durante muito tempo guardei uma foto do momento da largada da corrida, numa rua sem calçamento em frente à Prefeitura. No canto esquerdo da foto, meu pai aparecia fardado, certamente cuidando para que os expectadores não se aproximassem muito dos corredores.
Essa é uma perda com a qual até hoje não me conformo, as fotos dos tempos de Farroupilha – a da corrida, da formatura sobre a qual vou falar mais adiante  – e muitas outras  que ele guardava como lembrança do seu passado.
Uma delas me chamava a atenção. Era uma foto montada sobre uma moldura muito grossa, quase um papelão e nela meu pai, bastante jovem, aparecia num grupo de atletas, de calça comprida e uma camiseta sem mangas. Ele, identificando alguns companheiros, explicava que era o grupo de lutadores de box da academia de polícia. Contava que levava jeito para o esporte, mas que teve que desistir porque precisaria quebrar o osso do nariz para poder continuar lutando e não quis fazer isso.
Numa época que as fotografias não eram muito comuns, ele gostava de guardá-las como lembrança dentro de caixas de charuto.  Além das fotos, ele mantinha nessas caixas, de forma muito bem organizada, os seus documentos, incluindo o seguro de vida que ele pagava religiosamente. Quando morreu, vimos que o dinheiro não servia sequer para pagar o seu caixão.
Numa dessas caixas, ele conservava um pequeno saquinho de pano, sobre o qual nunca quis falar. Um dia, depois que prometi não falar para ninguém, a mãe contou que quando foi para à revolução, meu pai ganhou da sua mãe, minha vó portuguesa, que não conheci, uma página com orações, como forma de proteção. Com o passar do tempo, a página ficou em frangalhos e minha mãe precisou costurar o que sobre dentro daquele saquinho.
Por alguma razão que ele nunca explicou, esse era um assunto sobre o qual não se devia falar.
Mas voltando as fotos: em 1951, os três homens da casa passavam boa parte do dia fardados. O pai, como guarda de trânsito – quando veio para Porto Alegre passou da polícia civil para a de trânsito – meu irmão, cumprindo o período de soldado do exército e eu com aquele uniforme caqui de aluno do Julinho.
Meu pai queria uma foto para registrar aquela situação, mas meu irmão resistia. Não gostava da ideia. Para mim, era indiferente. Um dia, ele decidiu que a foto teria que ser feita e seria na Galeria Chaves, onde havia todos os dias um fotógrafo de plantão.
E lá fomos nós para a tal foto. Como o fotógrafo normalmente acendia as luzes, mas só batia a chapa quando pressentia que os fotografados comprariam a foto, ficamos, eu e o pai, do lado de fora da Galeria, na Rua da Praia, enquanto meu irmão foi lá dentro negociar com o fotógrafo.
Feitos os arranjos, saímos os três caminhando em direção ao fotógrafo que registrou para sempre aquele histórico momento. Cada de um de nós ficou com uma cópia. A minha me acompanhou por muitos anos, mas em alguma de minhas mudanças de vida, desapareceu.
Voltando mais uma vez no tempo, de novo para Farroupilha, no final de 1950. Acho que a primeira grande alegria que proporcionei ao meu pai e da qual tenho lembrança, foi nesse ano. Eu havia passado em primeiro lugar, na primeira turma do curso de admissão ao Ginásio São Tiago e a entrega solene das medalhas foi no cinema Guarani.
Quando ele foi chamado ao palco para me entregar o prêmio, me preparei para um solene aperto de mão, mas em vez disso, ele me abraçou e afagou a cabeça. Lembro, garoto idiota que era, que me decepcionei com o seu gesto afetuoso, que me pareceu inadequado para o formalismo que a situação exigia.
Vinte e cinco depois, devo ter lhe renovado essa alegria, quando recebi o canudo de formado em História pela Faculdade de Filosofia da URFRGS e ele estava na plateia. Nessa vez não houve apertos de mão, nem afagos na cabeça, mas tenho certeza que ele estava muito feliz porque atingira um dos seus objetivos de vida, o de ver os filhos formados na universidade.
Apesar disso, acho que ele nunca entendeu o que eu queria com um diploma de História. Para ele, profissões de verdade, que traziam dinheiro e respeito das pessoas, eram Medicina e Direito
Nessa época, eu já trabalhava como jornalista na televisão e isso, apesar de não ser o mesmo do que ser um médico ou um advogado, era uma profissão que ele achava importante e imagino que por isso valorizasse o meu trabalho.
O que não impediu que ele desprezasse solenemente o presente que comprei para ele e para mãe com um dos primeiros salários na televisão. Obviamente um aparelho de televisão que, nos primeiros anos da década de 60, começava a se tornar comum nas casas das pessoas, substituindo o rádio.
O primeiro programa que, os então três membros da família iriam assistir, era um show do Frank Sinatra transmitido pela TV Piratini, a única existente em Porto Alegre.
Mesmo com o Bombril na ponta da antena, a transmissão era péssima e o cantor dizia muito pouco para o meu pai. Ele aguentou não mais do que cinco minutos e quando reclamei que ele não estava valorizando o meu presente, disse que eu podia levar a televisão embora.
Não levei e mais tarde ele se transformou num telespectador inveterado, mas nunca me agradeceu pelo presente.
Pouco mais do que alfabetizado, meu pai periodicamente punha na cabeça que precisava aprimorar seus conhecimentos da língua portuguesa e me escalava como seu professor, embora nunca abrisse mão de dizer como queria que a aula fosse ministrada.
Usando como livro de estudos uma obra do professor Álvares Cardoso, que fora professor de português no Julinho, lá estava eu pronto para tentar explicar o pouco que sabia. O aluno, porém, não era nada obediente ao mestre.  Primeiro, levava longo tempo afinando a ponta dos diversos lápis que iria usar. Depois tinha que colocar tudo no seu devido lugar, a folha em branco, a borracha. A lição nunca começava e quando isso logo acontecia, o aluno queria fazer tudo do seu jeito. Nunca passamos da primeira aula.
Aliás, essa relação dele com as letras sempre foi algo que marcou nossa convivência.
Aos 12 ou 13 anos descobri, não sei como, o que seria um grosso livro de sacanagens. Só mais tarde vim a descobrir que aquelas narrações de sacanagens entre padres e freiras faziam parte de um clássico do pré-renascimento italiano. Era o Il Decameron, do Giovanni Bocaccio . Meu pai se orgulhava de ver o filho com um livro com mais de 500 páginas debaixo do braço, mas nunca ficou sabendo das minhas motivações
Quando eu já tinha 18 anos e ela estava aposentado, resolveu que seria comerciante e ganharia algum dinheiro. Usando suas parcas economias, comprou um ponto na rua Hoffmann. Era um pequeno bar, com uma vantagem de localização. Ficava em frente a fábrica de cigarros Sudan e seus empregados gastavam um pouco do que ganhavam no bar. Minha mãe, extremamente simpática com todos, se dispôs a servir almoço aos empregados da fábrica e logo o negócio prosperou.
Não deu certo porque o pai alternava momentos de grande simpatia com outros de extrema rabugice. Um dia, quando um sujeito, já um pouco bêbado aumentou o tom de voz e ordenou agressivamente – bota uma cachaça aí – ele perdeu as estribeiras e além de botar o bêbado para a rua, fechou o bar.
– Onde já se viu um vagabundo como estes me dando ordens, explicou depois.
Não podia dar certo mesmo. Ele acabou vendendo o bar e comprando uma pequena casa no bairro Cavalhada. Foi a única vez na vida que ele e minha mãe moraram em casa própria e não mais de aluguel.
O que mais lembro dele?
Do seu esforço de não ser igual aos outros. Sem querer sem melhor ou pior, não queria apenas ser igual. No futebol se dizia torcedor do São José, embora nos últimos anos de vida, certamente por influência dos filhos, passou a ser torcedor do Inter.
Graças ele é que comecei a assistir futebol. Em Caxias, primeiro e depois em Porto Alegre, com o seu uniforme de policial, punha as mãos em meus ombros e assim íamos entrando nos jogos. Sem pagar pelos ingressos, sobrava sempre uns trocados para o indefectível mandolate.
De repente, chegou sorrateiramente a doença.
Estava aposentado, mas fazia uns bicos como segurança durante o dia, num prédio do IPE.
Ao primeiro enfarte, sobreviveu. Ao segundo, um ano depois, não resistiu.
Este ano, entre um e outro enfarte, foi acima de tudo de revolta. Não aceitava a doença, não aceitava gastar seus parcos recursos com médicos e medicamentos. O cardiologista que o atendia, precisava dizer que o tratamento não custava nada, que fazia isso porque era meu amigo. Nem que eu pagasse as consultas ele aceitava.
O primeiro que o atendeu fez uma frase que desagradou profundamente meu pai, que disse não ia mais permitir que ele entrasse em sua casa.
A frase, bem inocente foi dita depois que o médico lhe passou uma dieta rígida
– O senhor, seu Alcides, vai ficar com um corpinho de bailarino espanhol.
Em fevereiro de 1969, ele decidiu que voltaria a trabalhar como padeiro nas praias para ganhar algum dinheiro e ninguém conseguiu tirar essa ideia de sua cabeça.
Morreu nos primeiros dias de março.
Ele havia passado uma semana muito ruim, com dores no peito, mas naquela segunda-feira parecia bem melhor.
Ao voltar das aulas na Unisinos, passei para vê-lo, na casa da Avenida Ceará. Ele havia vendido a casa da Cavalhada e morava novamente de aluguel. Naquela noite me pareceu rejuvenescido. Havia feito a barba de uma semana e pediu que trouxesse a neta no dia seguinte, já que agora estava com uma boa aparência e não iria assustá-la.
No outro dia, logo que cheguei para trabalhar na agência de propaganda – havia trocado o jornalismo pela publicidade para ganhar um pouco mais – me avisaram que havia um recado da minha mãe.
Quando cheguei, minha mãe me abraçou na porta e disse uma frase que nunca mais esqueci
– Teu pai se foi.
Não tinha ido em definitivo ainda. O corpo ainda estava estendido sobre o sofá da sala, onde sofrera o colapso fatal.
Naquelas primeiras horas, atarefado com as funções de conseguir um atestado de óbito, de comprar o caixão, de alugar o túmulo no cemitério e de avisar meu irmão que então morava no Rio de Janeiro, praticamente me esqueci do meu pai morto na sala de visitas.
O velório foi em casa, porque minha mãe dizia que era muito triste o velório à noite no cemitério.
Vieram os parentes, os poucos amigos dele e alguns meus e de meu irmão.
No dia seguinte, o cortejo para o Cemitério São João tinha apenas o carro fúnebre na frente e o meu fusca atrás, eu dirigindo, meu irmão ao lado e minha mãe no banco de trás
Então, pela primeira vez na vida e por enquanto a última, eu chorei de sentir as lágrimas correndo pelas faces.
Naquele caixão em frente ia o corpo de um homem, que sempre fora um inconformado com tudo e que agora seria enterrado para sempre eu não podia fazer nada a não ser chorar.
No cemitério perguntaram se queria que abrisse a tampa do caixão para último olhar.
Recusei. Acho que queria simplesmente esquecê-lo. Como se isso fosse possível.

Em nome do pai

Dia 15 de agosto faça 77 anos. 
Meu pai morreu em 1969, com 62 anos. 
São quase 50 anos, tempo suficiente para fazer um ajuste de contas com o passado e ver o que sobrou da sua presença na minha vida.
Minha primeira lembrança dele e também da minha vida, é do inverno de 1942, em Farroupilha, onde morava a nossa pequena família, meu pai, seu Alcides, minha mãe, dona Alzira, o irmão Maurício, sete anos mais velho e eu, Marino, então quase completando três anos.
Num gramado perto da casa de madeira onde vivíamos, vultos de roupas pesados e luvas nas mãos jogavam bolas de neve, um contra os outros, no que parecia ser uma alegre brincadeira.
Para mim, não foi assim. A neve ardia nas mãos desnudas, provocando muita dor e choro.  Nesse momento, meu pai entrou na minha vida. Ele me carregou no colo para casa, pôs água quente numa bacia onde submergi minhas mãos, provocando uma onda de prazer.
Estava aprendendo na prática uma lição que meu pai certamente não teve a intenção de me ensinar, a que de uma dor pode ser o caminho para um grande prazer depois.
O que sei de antes dele, ouvi pelas narrações da minha mãe.
Em Porto Alegre, ele tinha sido um jovem que pelos padrões da família de imigrantes alemães de minha mãe, podia ser considerado rico ou pelo menos, bem encaminhado na vida.
Na provinciana capital dos últimos anos da década de 20, ele tinha uma carroça e um cavalo, com os quais vendia verduras pelos bairros da cidade.
Podia ter sido o início de uma carreira de um empresário do comércio, como nos acostumamos a ouvir tantas vezes, mas aquela rotina não interessava ao meu pai.
Em 1930, ele largou tudo para acompanhar as tropas de Getúlio Vargas na revolução e depois contava com orgulho que estava de guarda no Palácio do Catete quando Getúlio assumiu a Presidência.
Em 1932, já casado, voltou a se alistar para uma nova revolução, que para o seu desgosto não se consumou.
Sem o cavalo e carroça, que tinha vendido, foi trabalhar como padeiro. Contava que era uma profissão que não pagava muito, mas que rendia sempre um quilo de pão que levava quentinho para casa todas as manhãs.
Pouco depois, optou por uma profissão que lhe pareceu mais segura: entrou para a polícia e foi ser guarda civil.
Pagava pouco, mas não tinha o risco de demissão. Além disso, o revólver na cintura e a força física do seu quase 1 metro e 90 de altura, lhe garantiam o respeito das demais pessoas.
Essa preocupação em ter algum tipo de poder, o levou a aceitar transferências para cidades do interior, onde muitas vezes era a principal autoridade.
Primeiro foi Lajeado, para onde fui levado com apenas alguns meses, depois Farroupilha, onde começam minhas lembranças dele, um pequeno tempo em São Sebastião do Cai, depois a volta a Farroupilha, uma curta passagem por Caxias e a volta a Porto Alegre para a aposentadoria.
Minha história com ele começa então em Farroupilha
Ele era muito pouco presente em casa. Passava o dia na delegacia e a noite era reservada para o encontro com os amigos no café.
Nossos breves encontros serviam para que ele fizesse muitas cobranças. Tinha que estudar muito, ajudar a mãe em casa e andar sempre de sapatos limpos e engraxados.
Até o fim da vida ele tinha essa obsessão com a limpeza dos sapatos.
Ele era uma autoridade,quase sempre ausente fisicamente, mas sempre lembrada por minha mãe quando eu não cumpria o que ela imaginava que eram meus deveres.
Quando, por ventura, estávamos todos em casa, sua autoridade enchia todos os espaços.
– Não faz barulho – dizia minha mãe – teu pai está reinando.
Durante anos, o verbo reinar ficou associado a este comportamento paterno e demorou muito para que, só muitos anos depois, pudesse conhecer outras facetas mais suaves do seu caráter.
Minha referência permanente era minha mãe, já que o irmão mais velho tinha outros interesses.
A vida se resumia ao tempo da escola e o tempo da bola nos campinhos que abundavam em torno da casa.
Uma rotina que seria quebrada, pelo que posso entender agora, no ano de 49, quando ele se envolveu numa briga com um grande empresário local.
Decidido a prender o sujeito, que se recusava a aceitar uma multa por uma infração de trânsito, se viu cercado por um grupo de seus empregados e disparou contra eles dois ou três tiros.
Felizmente, não acertou ninguém, mas o fato foi suficiente para que fosse removido para Caxias do Sul.
Então, nos dois anos seguintes, ele passou a morar em Caxias, nos visitando apenas na quarta feira de tarde e nos fins de semana.
Livre da presença autoritária dele, sinto dizer agora, foram estes os dias mais felizes da minha infância.
Longe dele, podia esquecer os sapatos engraxados e me dedicar nas peladas de pés descalços que nunca tinham hora para acabar.
Uma vez, na Copa do Mundo de 1950, vi uma foto na revista O Cruzeiro da planta dos pés dos jogadores da seleção brasileira. Me espantou como aqueles pés eram tão lisos, enquanto os meus tinham um cascão permanente que não havia água e sabão que o eliminasse.
O que mais lembro dele?
Sua capacidade incrível de contar histórias. As minhas preferidas eram as de assombração. E as melhores eram as ocorridas em Lajeado, onde segundo dizia e minha mãe confirmava, tínhamos morado numa casa mal assombrada, na entrada do cemitério. A casa tinha ruídos, sopros, batidas na porta e passos perdidos por suas dezenas de peças. Na medida em que ele contava as histórias, eu as revivia em todos seus detalhes. Não importa que depois fosse difícil dormir com a luz apagada, mas na hora, elas eram imperdíveis.
Uns 30 anos depois fui a Lajeado tentar encontrar a casa, mas ela não existia mais e ninguém nunca soubera de tais assombrações.
No ano de 1950, praticamente todos os meninos de Farroupilha tinham uma bicicleta aro 28 e com muito sacrifício, meu pai comprou uma, mas que deveria servir a mim e a meu irmão, sete anos mais velho, o que provocou muitas brigas entre nós.
Numa comemoração da Semana da Pátria, a Prefeitura promoveu uma corrida de bicicletas para os garotos da cidade e eu acabei ficando em terceiro lugar, entre uma dezena de concorrentes e ganhei um prêmio de 20 cruzeiros.
Não lembro se meu pai me cumprimentou ou criticou pelo desempenho, mas penso agora que ele esperava mais de mim.
Acho que a primeira grande alegria que proporcionei ao meu pai e da qual tenho lembrança, foi nesse mesmo ano. Eu havia passado em primeiro lugar, na primeira turma do curso de admissão ao Ginásio São Tiago e a entrega solene das medalhas foi no cinema Guarani.
Quando ele foi chamado ao palco para me entregar o prêmio, me preparei para um solene aperto de mão, mas em vez disso, ele me abraçou e afagou a cabeça. Lembro, garoto idiota que era, que me decepcionei com o seu gesto afetuoso, que me pareceu inadequado para o formalismo que a situação exigia.
Vinte e cinco depois, devo ter lhe renovado essa alegria, quando recebi o canudo de formado em História pela Faculdade de Filosofia da URFRGS e ele estava na plateia. Nessa vez não houve apertos de mão, nem afagos na cabeça, mas tenho certeza que ele estava muito feliz porque atingira um dos seus objetivos de vida.
Acho que ele nunca entendeu o que eu queria com um diploma de História. Para ele, profissões de verdade, que traziam dinheiro e respeito das pessoas, eram Medicina e Direito
Nessa época, eu já trabalhava como jornalista na televisão e isso, apesar de não ser o mesmo que um médico ou um advogado, o jornalismo era algo que ele achava importante e imagino que valorizasse um pouco.
Isso, entretanto não impediu que ele desprezasse solenemente o presente que comprei para ele e para mãe com um dos primeiros salários na televisão. Obviamente um aparelho de televisão que, nos primeiros anos da década de 60, começava a se tornar comum nas casas das pessoas, substituindo o rádio.
O primeiro programa que, os então três membros da família iriam assistir, era um show do Frank Sinatra transmitido pela TV Piratini, a única existente em Porto Alegre.
Mesmo com o Bombril na ponta da antena, a transmissão era péssima e o cantor dizia muito pouco para o meu pai. Ele aguentou não mais do que cinco minutos e quando reclamei que ele não estava valorizando o meu presente, disse que eu podia levar a televisão embora.
Não levei e mais tarde ele se transformou num telespectador inveterado, mas nunca me agradeceu pelo presente.
Pouco mais do que alfabetizado, meu pai periodicamente punha na cabeça que precisava aprimorar seus conhecimentos da língua portuguesa e me escalava como seu professor, embora nunca abrisse mão de dizer como queria que a aula fosse ministrada.
Usando como livro de estudos uma obra do professor Álvares Cardoso, que fora professor de português no Julinho, lá estava eu pronto para tentar explicar o pouco que sabia. O aluno, porém, não era nada obediente ao mestre.  Primeiro, levava longo tempo afinando a ponta dos diversos lápis que iria usar. Depois tinha que colocar tudo no seu devido lugar, a folha em branco, a borracha. A lição nunca começava e quando isso logo acontecia, o aluno queria fazer tudo do seu jeito. Nunca passamos da primeira aula.
Aliás, essa relação dele com as letras sempre foi algo que marcou nossa convivência.
Aos 12 ou 13 anos descobri, não sei como, o que seria um grosso livro de sacanagens. Só mais tarde vim a descobrir que aquelas narrações de sacanagens entre padres e freiras faziam parte de um clássico do pré-renascimento italiano. Era o Il Decameron, do Giovanni Bocaccio . Meu pai se orgulhava de ver o filho com um livro com mais de 500 páginas debaixo do braço, mas nunca ficou sabendo das minhas motivações
Quando eu já tinha 18 anos e ela estava aposentado, resolveu que seria comerciante e ganharia algum dinheiro. Usando suas parcas economias, comprou um ponto na rua Hoffmann. Era um pequeno bar, com uma vantagem de localização. Ficava em frente a fábrica de cigarros Sudan e seus empregados gastavam um pouco do que ganhavam no bar. Minha mãe, extremamente simpática com todos, se dispôs a servir almoço aos empregados da fábrica e logo o negócio prosperou.
Não deu certo porque o pai alternava momentos de grande simpatia com outros de extrema rabugice. Um dia, quando um sujeito, já um pouco bêbado aumentou o tom de voz e ordenou agressivamente – bota uma cachaça aí – ele perdeu as estribeiras e além de botar o bêbado para a rua, fechou o bar.
– Onde já se viu um vagabundo como estes me dando ordens, explicou depois.
Não podia dar certo mesmo. Ele acabou vendendo o bar e comprando uma pequena casa em no bairro Cavalhada. Foi a única vez na vida que ele e minha mãe moraram em casa própria e não mais de aluguel.
O que mais lembro dele?
Do seu esforço de não ser igual aos outros. Sem querer sem melhor ou pior, não queria apenas ser igual. No futebol se dizia torcedor do São José, embora nos últimos anos de vida, certamente por influência dos filhos, passou a ser torcedor do Inter.
Graças ele é que comecei a assistir futebol. Em Caxias, primeiro e depois em Porto Alegre, com o seu uniforme de policial, punha as mãos em meus ombros e assim íamos entrando nos jogos. Sem pagar pelos ingressos, sobrava sempre uns trocados para o indefectível mandolate.
De repente, chegou sorrateiramente a doença.
Estava aposentado, mas fazia uns bicos como segurança durante o dia, num prédio do IPE.
Ao primeiro enfarte, sobreviveu. Ao segundo, um ano depois, não resistiu.
Este ano, entre um e outro enfarte, foi acima de tudo de revolta. Não aceitava a doença, não aceitava gastar seus parcos recursos com médicos e medicamentos. O cardiologista que o atendia, precisava dizer que o tratamento não custava nada, que fazia isso porque era meu amigo. Nem que eu pagasse as consultas ele aceitava.
O primeiro que o atendeu fez uma frase que desagradou profundamente meu pai, que disse não ia mais permitir que ele entrasse em sua casa.
A frase, bem inocente foi dita depois que o médico lhe passou uma dieta rígida
– O senhor, seu Alcides, vai ficar com um corpinho de bailarino espanhol.
Em fevereiro de 1969, ele decidiu que voltaria a trabalhar como padeiro nas praias para ganhar algum dinheiro e ninguém conseguiu tirar essa ideia de sua cabeça.
Morreu nos primeiros dias de março.
O velório foi casa, alugada novamente na Avenida Ceará, porque minha mãe dizia que era muito triste o velório à noite no cemitério.
Vieram os parentes, os poucos amigos dele e alguns meus e de meu irmão.
No dia seguinte, o cortejo para o Cemitério São João tinha apenas o carro fúnebre na frente e o meu fusca atrás, eu dirigindo, meu irmão ao lado e minha mãe no banco de trás
Então, pela primeira vez na vida e por enquanto a última, eu chorei de sentir as lágrimas correndo pelas faces.
Naquele caixão em frente ia o corpo de um homem, que sempre fora um inconformado com tudo e que agora seria enterrado para sempre eu não podia fazer nada a não ser chorar.
No cemitério perguntaram se queria que abrisse a tampa do caixão para último olhar.

Recusei. Acho que queria simplesmente esquecê-lo. Como se isso fosse possível.