O agente provocador

Em determinado momento de suas vidas, as pessoas estabelecem determinadas certezas. São elas que vão lhes garantir uma certa tranquilidade para enfrentar as incertezas do futuro e permitir que usem suas energias para construir seus projetos de vida.
São certezas que precisam, de alguma maneira, ser fundadas ser em cima de algumas escolhas que tenham alguma justificativa racional, mesmo que as vezes venham envolvidas por outros elementos mais fantasiosos que reais.
Baseados nesses fundamentos mais ou menos racionais, as pessoas escolhem sua linha de pensamento político, suas preferências culturais, seu entendimento do sentido da vida e seus valores éticos e morais.
Ao lado delas, existem outras escolhas puramente emocionais, como o clube pelo qual vai torcer e às pessoas as quais vai dedicar seus interesses amorosos.
Como nesses casos, quase sempre inexiste uma base racional para a escolha, elas são mais sólidas, por incrível que pareça, que as escolhas que têm componentes racionais predominantes.
Então, um torcedor do Internacional, por exemplo, por mais poderosos que sejam os argumentos de um gremista sobre a inadequação de sua escolha, eles nunca vão abalar os sentimentos de lealdade ao clube que escolheu por razões puramente emocionais.
Já nas escolhas que exigem uma certa base de racionalidade, certos argumentos bem colocados podem abalar certezas e gerar indesejadas inseguranças.
Assim, alguém que acredita em alguma divindade ou tem fé que uma vida correta na terra vai lhe garantir, depois da morte, um prêmio no paraíso, não quer ouvir argumentos de um ateu sobre a inexistência de outras dimensões para a vida do ser humano.
Não se trata de uma opção meramente emocional, como no caso da escolha do time de futebol. O torcedor do Inter não explica porque escolheu esse time. Simplesmente, ele escolheu, ou as vezes, foi escolhido para ser um torcedor do Inter.
Já no caso de quem acredita na vida depois da morte, mesmo que haja componentes emocionais atávicos nessa escolha, existem também aspectos racionais que a sustentam, desde os primeiros ensinamentos dos país, as aulas de catecismo e o exemplo dos mais velhos que seguem esse caminho.
Alguém, por exemplo, que defende o golpe de estado contra o PT, não está disposto a considerar argumentos contrários por que eles podem abalar suas posições assumidas.
E as pessoas não fecham os ouvidos para argumentos contrários por nenhuma outra razão, senão que o medo da desestabilização emocional que as interrogações sobre algo que antes eram certezas, sempre trazem.
A maioria das pessoas foge dessas discussões porque isso as obriga em recolocar em discussão todos os temas que já deram como resolvidos.
Elas até inventaram aquele ditado que diz que política e religião não se discutem.
Obviamente, quem cunhou esse dito sabe muito bem que, estes são temas fundamentais de qualquer sociedade humana e que por isso mesmo , pô-los em discussão mais uma vez, exige uma grande disponibilidade em aceitar as inevitáveis mudanças que ela sempre traz.
Como, grande parte dos seres humanos já construiu seus projetos de vida, o pior que pode acontecer com eles, é encontrar alguém que queira discutir se os pilares que sustentam a construção ideológica que fizeram com muito sacrifício, são realmente sólidos e resistem a um debate.
Então, eles fogem como o diabo da cruz, das poucas pessoas que parecem se deleitar em levar dúvidas para onde antes havia certezas.
Eu já desconfiava há algum tempo que sou um desses agentes provocadores, mas tive essa certeza essa semana, quando produzi um pequeno texto, não apenas lamentando a minha demissão da PUCRS há 10 anos atrás, mas atribuindo a culpa disso para terceiros.
As mensagens de solidariedade que recebi de alguns amigos, professores e ex-alunos, muitas extremamente gentis, como as do Pintaúde, do Boanova, do Meira, da Rosa Maria e do Gonzales, enaltecendo meu desempenho como professor, apenas reforçaram o sentimento de que as razões foram outras.
Eu estava agindo como um agente provocador e por melhor que fossem minhas intenções, eu estava pondo em risco as certezas de outras pessoas, no caso, infelizmente para mim, pessoas com poder de decisão.
Lembrei então que as minhas experiências com as principais agências de propaganda de Porto Alegre – Standard, Marca, MPM, Módulo e Símbolo –  sempre terminaram em conflitos, um pouco por falta de talento da minha parte, mas muito mais pela minha obsessão em acreditar naquela surrada máxima de que da discussão nasce a luz.
O caso da MPM é exemplar.  O João Alberto Soares, que era meu amigo antes e continuou meu amigo depois, quando assumiu uma das direções de criação da agência, a primeira coisa que fez foi pedir minha demissão, com a justificativa, talvez um pouco exagerada de que “se eu pedir para as pessoas saltarem pela janela, tu vais ser o único a querer saber o porquê disso”
As pessoas, de um modo geral, têm horror às discussões, sofrem quase fisicamente com isso e procuram fugir daqueles que gostam de provocá-las.
Pena que eu tenha descoberto isso agora quase no fim da vida, quando não tenho mais tempo, nem vontade de mudar.

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