Nos tempos da Piratini

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Em 1957, com 17 anos, eu fui ao Rio pela primeira, cumprindo aquela sina dos gaúchos de olhar para o Rio de Janeiro como a cidade dos sonhos, que depois, quando sobrou algum dinheiro no bolso, passou a ser Paris.
Um dos programas que não poderia deixar de ser cumprido, além da praia de Copacabana, o bondinho do Pão de Açúcar e o trenzinho para o Corcovado, era ir ao Maracanã.
Durante aquele mês de julho que passei no Rio, vi todos os jogos possíveis –  Benfica e Flamengo; Benfica e América: Vasco e Fluminense e o mais importante de todos, Brasil e Argentina, pela Copa Roca, no Maracanã.
A Argentina ganhou por 2 a 1 com gols de Labruña e Juárez. Pelé, que entrara no segundo tempo no lugar do Mazola, descontou para o Brasil. Com apenas 17 anos, este jogo marcou a estreia de Pelé na seleção e eu estava lá no Maracanã para assistir. Outra curiosidade: os dois laterais do Brasil eram jogadores formados no Inter: Paulinho, que então jogava no Vasco e Oreco, no Corinthians.
Três dias depois, Brasil e Argentina voltaram a se encontrar em São Paulo, no Pacaembu, e o Brasil ganhou por 2 a zero ficando com a Copa Roca. Marcaram Pelé e Mazola, mas quem acabou com o jogo foi o meia Luizinho, do Corinthians, que não participara do primeiro jogo.
Conto tudo isso para dizer que vi o jogo pela televisão, no Rio. O que hoje é algo extremamente comum, naquela noite foi saudado como uma conquista tecnológica importante.
Usando o seu caminhão de externas, estacionado no meio da rodovia Rio-São Paulo, como estação repetidora, a TV Tupi, pela primeira vez ligou os expectadores das duas cidades numa transmissão instantânea de futebol.
É sobre essa época heroica da televisão que vou falar, lembrando um pouco da minha experiência no jornalismo da TV Piratini de Porto Alegre na década de 60.
Minha tarefa principal era redigir, junto com Luís Vicente Soares, o Seu Repórter Esso, experiência que já contei em detalhes para ajudar o professor Luciano Klockner na sua tese de doutorado sobre esse primeiro grande noticiário da televisão brasileira na PUCRS.
Gostaria de falar agora sobre outro noticiário, bem menos conhecido e feito com muito menos recursos, o Atualidades Catarinenses.
Fugindo da repressão ao levante húngaro de 1956, vivia em Porto Alegre um ex-cameraman do cinema da Hungria e de agências internacionais de notícias, conhecido por Buza. Seu primeiro nome perdi na minha memória, mas certamente o Batista Filho deve lembrar.
Na época, o sinal de TV Piratini chegava a Florianópolis através de repetidoras, montadas nas partes mais altas das cidades de Osório, Torres, Tubarão, Laguna e Criciúma, por iniciativa das comunidades locais. O Buza logo se deu conta que poderia ganhar algum dinheiro misturando reportagens jornalísticas com matérias pagas sobre estas cidades, editadas depois num pequeno telejornal.
Então comprou espaço no horário mais barato da televisão – sábados à noite – escolheu seus representantes nas principais cidades catarinenses, entre jornalistas e publicitários, deixando com cada um deles uma câmera de 16 milímetros e com material arrecadado durante a semana, produzia o tal Atualidades Catarinenses, que de atualidades tinha muito pouco.
Por causa de uma dificuldade que ainda tinha com a língua portuguesa, éramos para o Buza, o MÁrino e o BÁtista, pronunciando nossos nomes como se fossem palavras proparoxítonas.
O MÁrino escrevia o noticiário e o BÁtista apresentava.
Quem sabe o Luciano se interesse em escrever sobre isso, aprofundando a sua tese sobre a comunicação jornalística dos primórdios da nossa televisão.


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