Matar ou morrer em Brasília

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Embora a vida seja complexa, há certos momentos nela, em que o homem tem apenas duas alternativas na sua frente e sua escolha vai definir sua coragem, seu caráter e seu valor como ser humano.
Essa semana, em Brasília, 81 senadores vão decidir, não apenas o destino da Presidente Dilma Rousseff, mas se apoiarão um golpe ou se terão a coragem de assumir a postura que se espera de parlamentares eleitos para cumprir o juramento que fizeram de defender a Constituição.
Diz a imprensa comprometida com o golpe, usando uma linguagem esportiva, que é um jogo jogado: o impeachment será aprovado,
É bem possível que seja assim, até porque nenhum deles se sentirá chamado para assumir suas responsabilidades. A maioria, esconderá a covardia de cada um.
Quantos repetirão a frase desafiadora dos espartanos no Desfiladeiro das Termópilas, quando os persas avisaram que tinham tantas flechas que, se disparadas simultaneamente, cobririam a luz do sol?
– Melhor, combateremos à sombra, responderam os corajosos e arrogantes gregos.
Poucos.
Quantos lembrarão a frase de Leonel Brizola, quando os militares quiseram impedir a posse de Joao Goulart em 1961?
– Não vou aceitar um golpe pelo telefone.
Certamente muito poucos.
Nos grandes momentos, a complexidade dos acontecimentos se afunila numa só postura, simples e definitiva: é matar ou morrer.
Como sempre é nas artes que podemos buscar com mais impacto a representação precisa desses grandes momentos.
Em 1952, no auge do macarthismo, quando uma grande caça às bruxas, produzia nos Estados Unidos uma perseguição ideológica como nunca tinha sido vista, o diretor Fred Zinnemann produziu em Hollywood um dos filmes mais marcantes da história do cinema em defesa da dignidade do ser humano.
E só poderia ser um faroeste.
Zinnemann, nascido em Viena em 1907 e morto em Londres, em 1997, já havia feito grandes filmes antes, como o drama de pós guerra, Perdidos na Tormenta, com Montgomery Clit  e faria depois outros clássicos do cinema americano, como A Um Passo da Eternidade, com Burt Lancaster, Montgomery Clift, Debora Kerr e um surpreendente Frank Sinatra como ator e Espíritos Indômitos, com Marlon Brando, mas será lembrado sempre por Matar ou Morrer(High Noon), filme baseado num roteiro de Carl Foremann, um dos grandes nomes do cinema norte-americano, perseguido pelo macarthismo.
Matar ou Morrer seria depois apontado equivocadamente por John Wayne, que nunca escondeu seu anticomunismo militante, como “the most un-American thing I’ve ever seen in my whole life” (A coisa mais antiamericana que eu alguma vez vi em toda a minha vida)
Um verdadeiro ícone dos faroestes do cinema norte-americano, John Wayne nunca se destacou pela qualidade de suas avaliações políticas, mas parece, no caso, ter percebido a alegoria contra o macarthismo desenvolvida por Zinnemann e Foremann.
Na pequena cidade de Hadleyville, o xerife Wiill Kane (Gary Cooper) está prestes a abandonar a cidade, recém-casado com a quaker Amy (Grace Kelly), quando recebe a notícia que o bandido Frank Miller (Ian MacDonald), que ele havia prendido tempos atrás, estava chegando pelo trem do meio dia para se vingar, com o apoio da sua gang que o espera na estação. O xerife pede apoio da população, mas todos, com uma desculpa ou outra, se omitem, deixando-o sozinho.
O xerife não é mais corajoso do que ninguém, tem medo de morrer, pensa em fugir, mas sabe que em certos momentos na vida, não existe outro caminho e é preciso escolher um lado.
É Matar ou Morrer.

Tomara que alguns dos atuais senadores da República tenham visto o filme e na última hora tenham a coragem de assumir um lado, de preferência o do mocinho, rejeitando o impeachment,

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