Eu não fiz voto de silêncio

No seu livro Em Nome da Rosa, Umberto Eco fala sobre os monges que faziam votos de silêncio permanente. Isso sempre me pareceu uma tarefa difícil de cumprir, bem mais do que aquele outro voto de nunca rir, até mesmo porque me parecia correta a ideia de que o riso avilta a condição racional do ser humano
Sei que há divergências sobre este último conceito e ninguém precisa me lembrar de Chaplin e Wood Allen para mostrar como pode estar errada essa suposição.
O que me interessa discutir é se podemos, nós que não somos monges trapistas, cumprir voto de silêncio ou pior, ser condenado ao silêncio.
Para mim, aqui nesse exílio de Gramado, tem sido muito difícil.
Ontem, fiz apenas uma frase durante todo o dia, ao dar bom dia para a zeladora do prédio. Hoje,13 horas de um dia de chuva, continuo invicto no quesito conversação.
Eu tinha arranjado uma amiga aqui nessa cidade de pessoas sempre de passagem, mas ela deve ter cansado dos meus assuntos e partiu.
Em vez de falar, eu agora apenas escrevo. Pelo menos isso.
Desde pequeno, sempre fui um falador e na casa dos meus pais foi estimulado a falar.
Só não podia falar de boca cheia, segundo dizia minha mãe, porque era falta de educação.
Aos 6 anos, quando morávamos em São Sebastião do Caí, era o primeiro a chegar na agência dos Correios, na segunda feira, para não perder a edição da Folha Esportiva.
– É para o seu pai? 
Perguntava a moça do Correio.
Meu pai não se interessava muito por esportes. Era eu que queria saber tudo sobre futebol para ter mais assuntos durante a semana. Recordo até hoje que as notícias naquele ano não foram nada boas. Depois de seis campeonatos seguidos, o Inter perdeu o título para o grêmio no ano de 1946, na partida final por 2 a 1, dizem que com a ajuda do juiz que anulou injustamente um gol do Inter.  No ano seguinte recomeçamos a ganhar, 1947 e 1948. Em 1949, demos outra chance para o grêmio e retomamos nossa “senda de vitórias”, até 1954, quando apareceu o Renner.
Mas, não era sobre isso que queria falar, mas sim sobre voto de silêncio.
Para um falador inveterado, nada como se tornar um professor, primeiro de História, no Colégio Marechal Rondon de Canoas e depois nos cursos de Comunicação da PUCRS e UNISINOS.
Hoje, os professores estão cheios de recursos audiovisuais para poupar o seu latim e os ouvidos dos alunos. Na época, como dizia o Luís Augusto Cama, as aulas eram de professor e giz. Como o giz arrancava a pele dos meus dedos, eu enfrentava aqueles 50 alunos apinhados na sala de aula, apenas no gogó.
Pobres dos alunos.
Aposentado, as possibilidades de falar foram ficando cada vez mais escassas, até chegar a situação de hoje.
Fico pensando em pessoas obrigadas a não falar, como o Pepe Mujica, que ficou anos num buraco de chão na prisão de Punta Carretas, no Uruguai  e de Mandela, na África do Sul.
Mas estes eram verdadeiros heróis e seus algozes temiam suas palavras.
Das minhas, ninguém precisa ter medo.
Penso também naqueles caras que o juiz Moro trancafiou no Paraná.
Será que eles podem falar uns com os outros, ou só com os advogados? Será que têm acesso à internet e podem escrever como eu faço agora? Certamente que não. Senão seriam capazes de avisar o Lula das sacanagens que estão sendo tramadas contra ele.
Mas a Lava Jato não tem nada contra mim. Pelo menos espero que não, embora nunca se saiba até onde podem ir essas buscas da Polícia Federal.
Na época do Sarney atendi contas publicitárias em Brasília e já ouvia falar que existiam alguns tipos de negócios pouco ortodoxos, mas infelizmente nunca ninguém me convidou para alguma maracutaia.
Talvez pensassem que eu falava de mais e seria um delator premiado se caísse nas garras da lei.
Mas, voltando mais uma vez ao voto de silêncio.
 Robinson Crusoé, o personagem do livro da Daniel Defoe, ficou sem encontrar qualquer ser humano por 20 anos, perdido numa ilha, mas aí apareceu o Sexta Feira e ele pode estabelecer longos diálogos com o índio. Em que língua, eu não sei.
Mas, nos dias de hoje, quem faz e cumpre votos de silêncio?
O Temer e o Eduardo Cunha podiam calar a boca durante algum tempo, mas certamente não farão isso e continuarão disparando suas mentiras.
E as carmelitas?
Tem um convento delas em Porto Alegre e periodicamente, na falta de assunto, os jornais falam sobre seus hábitos.
Elas fazem voto de silêncio ou é só de castidade?
Eu aqui não fiz voto de castidade e pelo contrário me esforço, sem muito sucesso, diga-se de passagem, para não ser casto.
Nem de silêncio. Mas parece que estou condenado a cumprir os dois.
Acho que vou arranjar uma viagem a Porto Alegre, logo, logo, para por em dia minhas conversas, quebrando esse silêncio no qual não votei.
O de castidade, vai ser mais difícil, mas não perco as esperanças.

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