Brecht e a violência em Porto Alegre

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A violência nas ruas de Porto Alegre assusta as pessoas e as vezes até perturba seus julgamentos sobre suas causas e consequências.
Uma amiga, que sempre foi inteligente e educada, preocupada com esta violência, compartilhou em sua página no facebook, um pôster em que se diz que Porto Alegre está de luto pela violência e fez um comentário que me pareceu inadequado. Pediu que o Governador e o Prefeito peçam a intervenção do exército na cidade.
Lembrei a ela que a última vez que o exército interviu na vida do País ficou vinte anos comandando uma ditadura impiedosa que torturou e matou por razões políticas e que nem de longe evitou que os crimes comuns diminuíssem.
É lógico que ela não estava pregando a volta da ditadura, apenas defendendo a presença de militares ajudando a polícia no combate ao crime.
Todos sabem que os militares são preparados para a guerra e não para o combate a delinquentes. O uso de táticas militares nas grandes cidades iria acabar as transformando em novas Bagdá ou Damasco, com confrontos de proporções cada vez maiores.
Como ela me cobrou então uma solução, disse que ela se engajasse na campanha que pede Fora Temer.
-Que absurdo, respondeu, o Temer está na Presidência (aliás, usurpada, digo eu) há apenas três meses e a violência é bem mais antiga.
Vou tentar explicar então o que diz dizer ao repetir o bordão de Fora Temer.
O golpe parlamentar e jurídico que levou Temer à Presidência faz parte da longa tradição da elite brasileira de sufocar qualquer movimento destinado a recuperar a dignidade de vida de milhões de brasileiros, há séculos marginalizados da vida pública por um sistema concentrador de renda nas mãos de poucos.
A tentativa de uma reforma, ainda que tímida, dos governos de Lula e Dilma, seria o início de um longo caminho para melhorar as condições de vida do povo e evitar a violência que, na sua essência é fruto da pobreza.
Quando uma pessoa diz que não se interessa pela política (ou seja, não se assume nem a favor, nem contra do bordão Fora Temer) está ajudando a manter a atual situação social do Brasil que gera toda essa violência que ela depois condena.
Nessas horas é sempre bom lembrar o que disse Bertold Brecht sobre essas pessoas.
Foi o que fiz, correndo o risco de que minha amiga ficasse ofendida por ser chamada de ignorante política, mas foi o grande dramaturgo alemão que disse.
“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem de decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.
Foi Bertold Brecht que disse isso. Eu apenas repeti.


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