A história como farsa

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Naquela manhã do dia 24 de agosto de 1954, com 15 anos completados uma semana antes, eu tomara o bonde Floresta na parada da rua Marquês do Alegrete, onde morava e descia 10 minutos depois na frente da Igreja São Pedro. Caminhava, então, duas quadras pela Rua Conde de Porto Alegre, até chegar na esquina da Travessa Azevedo, onde ficava a tornearia do Elmo Mohor, um parente distante da família.
Ali, durante as manhãs, eu ajudava nos serviços de escritório da firma, para ganhar alguns trocados e auxiliar no orçamento da família.
Aquela, porém, seria uma manhã diferente. Por volta das 8,30, o Repórter Esso da Rádio Nacional, anunciava o suicídio do Presidente Getúlio Vargas, no Palácio do Catete. Em poucas horas, Porto Alegre se transformou num inferno. A população, que parecia assistir com indiferença a longa agonia do Governo Vargas, acusado de corrupção pelos seus inimigos, saiu às ruas dispostas a fazer justiça.
Em poucas horas o consulado norte-americano na Marechal Floriano, esquina Andradas foi invadido e saqueado. Sedes dos veículos dos Diários Associados, que comandaram junto com a Tribuna de Imprensa de Carlos Lacerda, a campanha de ódio contra Vargas, foram incendiados. Qualquer estabelecimento comercial que fizesse alguma referência aos Estados Unidos, não era poupado. Assim aconteceu com a Importadora Americana, uma revenda de carros na Avenida Farrapos e dizem até com a American Boate, na Voluntários da Pátria.
Sessenta e dois depois, a data parece ter sido esquecida pelos jornais. Zero Hora, talvez não querendo que alguém se lembrasse de ligar a campanha contra Vargas, com a que se faz hoje contra Dilma, não citou o suicídio de Vargas nem no seu obituário.
A comparação, porém, é inevitável, ainda mais que o processo de impeachment, a versão light do golpe estado, começa no dia 25, um dia depois do aniversário da morte e Vargas em Brasília.
Desde que assumiu, eleito por uma maioria de votos, em 1950, Getúlio teve que enfrentar uma campanha feroz dos seus adversários, muitos dos quais tinham sido seus aliados durante o período ditatorial, que não se conformavam com a sua política nacionalista.
Quando ainda era apenas um senador, prestes a se transformar em candidato à presidência, Getúlio recebeu da Carlos Lacerda este comentário, que ficou registrado na história: “ O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência; se candidato, não deve ser eleito; se eleito, não deve tomar posse; se empossado, devemos recorrer a uma revolução para não eixá-lo governar.
O povo não concordou com Lacerda e preferiu seguir o conselho de uma marchinha de carnaval de 1950, cantada por Francisco Alves, que dizia:
Bota o retrato do velho outra vez,
Bota no mesmo lugar,
O retrato do velhinho
Faz a gente trabalhar.
Hoje, os golpistas, com Temer a frente, devem repetir contra Dilma o mesmo discurso de Lacerda. Como os tempos são outros, a história agora terminará sem mortos, nem feridos e nem mesmo haverá uma carta-testamento como deixou Vargas, estimulando o povo a resistir:
“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém”.
Quando o golpe de 2016 se consumar, restará saber como o povo reagirá a mais este esbulho dos seus direitos, mesmo sem nenhuma carta testamento.
A comparação entre o golpe de 54 e o 2016 é inevitável, como também é inevitável não lembrar aquela famosa frase de Marx no seu livro sobre o 18 Brumário de Luís Bonaparte, dizendo que “a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.
Marx dizia que não era possível comparar Caussidièri, por Danton, Luis Blanc por Robespierre, a Montanha de 1845- 1851 pela Montanha de 1793-1795, o sobrinho pelo tio.
Hoje poderíamos dizer, ainda que um certo exagero, que não é possível comparar Padilha, por Tancredo Neves, Romero Jucá por João Goulart, o PMDB de 2016 pelo PTB de 1954 e Michel Temer por Getúlio Vargas.
Afinal, como disse Marx, os homens fazem sua própria história, mas não fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas que defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.


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