Blecaute e o pedreiro Waldemar

Como a minha amiga Vera Spolidoro não conhecia o cantor Blecaute, resolvi relembrar minha época de professor de História e explicar o que Segunda Guerra teve a ver com ele. Acontece que preocupado com um possível ataque alemão à costa brasileira, o governo decidiu instruir a população no uso de máscaras contra gases e fazer exercícios de blackout em toda a orla marítima do país.
Em setembro de 1942, por segurança, o bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, ficou três noites na mais completa escuridão. Obviamente, como havia escassez de energia o governo matava dois coelhos com uma só cajadada (novo esse ditado, hein?).
Na época, fazia sucesso um cantor negro como carvão ou como diria José de Alencar sobre Iracema, a virgem dos lábios de mel, tinha os cabelos negros como a asa da graúna, que aproveitou sua cor para se apelidar de BLECAUTE (Otávio Henrique de Oliveira – 1919/1983), facilitando a pronúncia.
Ele teve grande destaque defendendo marchinhas de carnaval, duas das quais ficaram famosas, ambas de 1949, o Pedreiro Waldemar, de Wilson Batista e o General da Banda, de Tancredo Silva, Sátiro Melo e José Alcides.

O Pedreiro Waldemar, antecessor de Pedro Pedreiro, do Chico Buarque, tinha forte conteúdo de denúncia social:

“Você conhece o pedreiro Waldemar?
Não conhece?
Mas eu vou lhe apresentar
De madrugada toma o trem da Circular
Faz tanta casa e não tem casa pra morar
Leva marmita embrulhada no jornal
Se tem almoço, nem sempre tem jantar
O Waldemar que é mestre no oficio
Constrói um edifício
E depois não pode entrar”

Já o General da Banda, era em tom de galhofa:
“Chegou o general da banda,he he
Chegou o general da banda,he a,he a
Chegou o general da banda,he he
Chegou o general da banda,he a,he a
Mourão mourão
Vara madura que não cai
Mourão,mourão,mourão
Catuca por baixo que ele vai
Mourão mourão
Vara madura que não cai
mourão,mourão,mourão”

Engraçado que, no golpe de 64, quem desfechou o primeiro movimento militar para derrubar o Presidente Goulart foi o General Mourão, Olímpio Mourão Filho, que se intitulava A Vaca Fardada.

Melhor que fosse o General da Banda e não o General do Golpe como uns que outros ainda vivos.

George Clooney, Tarso Genro e o “ajuste”

O único cinema de Gramado (contraditoriamente a cidade do Festival de Cinema) é parcimonioso na apresentação de algum filme interessante, mas nesse fim-de-semana (quando a sala é aberta) abriu uma exceção e exibiu um filme que me fez sair da minha zona de conforto e comprar um ingresso (meia entrada para sênior – eufemismo de velho) para assistir O Jogo do Dinheiro (Money Monster).
O filme, longe de ser lembrado pelas suas qualidades, nos faz pensar mais uma vez sobre como o capitalismo, na sua versão financeira, se tornou nocivo para a sociedade e totalmente inútil como gerador de riquezas, como já foi no passado.
Quem viu o trailer do filme, já conhece praticamente tudo, ficando apenas a dever a sua conclusão, aliás facilmente perceptível desde as primeiras cenas.
Quem dirige o Jogo do Dinheiro é a antiga e boa atriz Jodie Foster, tem a sempre bela Julia Roberts no elenco, mas quem manda no filme é George Clooney, cada vez mais histriônico e canastrão, fazendo caras e bocas no papel de Lee Gates, um enlouquecido apresentador de um programa de televisão sobre a bolsa de valores.
Um dia, alguém que perdeu todo seu dinheiro acreditando nos conselhos de Clooney, invade armado o estúdio, ameaçando tudo explodir. Como sua exigência é de que as imagens não sejam cortadas, o drama se desenrola ao vivo para milhões de expectadores.
Tudo isso em meio a um roteiro quase inverossímil, mas que de qualquer maneira nos ajuda a entender que o mundo das grandes finanças é intrinsicamente desonesto e os pequenos investidores ingênuos e egoístas, restando como salvação para a humanidade, a conversão de Clooney e de uma improvável relações públicas da bolsa de valores aos bons costumes americanos.
O Jogo do Dinheiro está longe em qualidade e força de denúncia de a A Grande Aposta (The Big Short) de Adam McKay, com Christian Bale, Steve Carrel, Ryan Gosling e Brad Pitt, quase uma obra prima na denúncia das manipulações de bancos e financeiras responsáveis pela explosão da chamada “Bolha Imobiliária”, nos Estados Unidos, em 2008.
Agora, o que o George Clooney tem a ver com Tarso Genro e o “ajuste”, anunciado no título?
É que os dois filmes mostram algo que já aconteceu nos Estados Unidos e que Tarso está prevendo que possa acontecer no Brasil, segundo texto que publicou essa semana em seu blog no Sul21, ou seja, a liquidação da base econômica construída à duras penas no Brasil e a adoção em definitivo de um modelo de capitalismo cada vez mais antissocial.
Pode ser também que a minha leitura esteja equivocada e o ex-governador não se referia a isso quando diz: “ aqui, (no Brasil) o que bloqueia a democracia é a radicalização da “exceção”. Dentro da crise, a “exceção” se completa, para poder promover o “ajuste” por fora das instituições tradicionais do Estado de Direito”
Enquanto as democracias burguesas mais antigas definham, de acordo com Tarso, mas têm em suas organizações políticas ainda sólidas, uma garantia contra o “ajuste”, aqui no Brasil, a “exceção” se infiltra no tecido constitucional com um apoio social bastante amplo, pelos “resultados” que oferece, imediatamente, na luta contra a corrupção. O seu objeto, porém, não é a luta contra a corrupção, mas estabelecer um nexo, entre a corrupção e a necessidade do “ajuste”, ele mesmo a suprema corrupção das funções públicas do Estado. E o “ajuste” não pode ser feito sem esta decomposição, que passa pela manutenção do sistema político, ofertante gracioso de uma Confederação de Investigados e Denunciados, dispostos – pela sua situação penal precária- a cumprirem a trajetória do “ajuste”
O resultado desse “ajuste” de que fala Tarso, se faz fundamentalmente no plano econômico. São as primeiras imagens de uma nova sociedade que o Jogo do Dinheiro e A Grande Aposta nos antecipam em forma de espetáculos cinematográficos.

Marino Boeira é professor universitário

Saudades dos velhos casamentos

Ligo para o amigo que não vejo há muito tempo e pergunto pela família.
– Estou separado há mais de um ano, me responde ele.
Mais um. Pensei que fosse só eu.
Parece que o casamento é uma instituição que não está dando mais certo, ou ao contrário, é algo tão bom que as pessoas estão querendo experimentá-lo mais de uma vez, com parceiros diferentes.
Diga-se de passagem, que são as mulheres que estão pondo fim àquelas velhas e longevas uniões.
Eu, por exemplo, já fui dispensado duas vezes.
O casamento parecia ser uma instituição tão sólida como a Igreja Católica e o Partido Comunista, mas fazendo justiça ao que disse Marx uma vez, tudo que é sólido está se desmanchando no ar.
Foram as mulheres se cansaram do casamento ou pelo menos do seu parceiro da vez, na maioria das vezes argumentando que ele, o casamento, se tornou uma rotina monótona e desinteressante.
Elas acham a rotina monótona, quando era a rotina que sustentava o casamento. Nada melhor que uma boa rotina doméstica. Almoço e janta na hora certa, o chinelo confortável, o futebol na televisão e até mesmo sessões de sexo vez que outra.
O macho, é claro, tinha seus passatempos fora de casa (nada muito profundo), enquanto a fêmea cuidava do lar. Pelo menos, era isso que os machos ingênuos pensavam que fosse verdade.
Enquanto os homens achavam que estava “tudo igual como dantes no quartel de Abrantes”, um movimento sedicioso para acabar com aquela paz estava em andamento.
Visão machista? Claro, o macho só pode pensar como macho, salvo aqueles sujeitos alternativos que dizem valorizar seu lado feminino.
Mas, isso são outros quinhentos e falar sobre esse tipo de comportamento pode ser considerado politicamente incorreto.
As fêmeas, enquanto os machos dormiam em berço esplêndido, já tinham iniciado a sua revolução de hábitos e costumes
Então, as mulheres foram para a rua e começaram a tirar seus homens da zona de conforto. Muito justo. Bom para elas, embora haja alguma divergência sobre isso.
O certo é que o casamento tradicional dançou. Sobraram as uniões por tempo limitado, aproximação de corpos, as vezes alguma interação cultural, mas dentro daquela nova ordem: eu na minha casa e tu, na tua.
Antigamente (hoje, tudo virou antigamente) se falavam em amizades coloridas, ou seja, amizades que envolviam mais do que olhares e sorrisos, mas não pressupunham compromissos para a vida inteira. Hoje o termo da moda é relacionamentos.
Os relacionamentos podem ser múltiplos ou aos pares, dependendo do gosto e das condições financeiras dos interessados, porque numa sociedade capitalista tudo tem custo.
Antes você comia feijão com arroz durante a semana inteira com a sua cara-metade (outra expressão que saiu de moda) e no domingo partia para um churrasco como muita cerveja.
Hoje, um relacionamento que se preze exige um bom investimento: restaurante com toalhas de linho, luz de velas e vinho importado, de preferência um espumante cheio de gás.
Qual o melhor para o futuro? Há 50 anos atrás Sartre e Simone Beauvoir já pregavam o casamento livre. Cada um na sua, as vezes juntos, outras separados. Parceiros múltiplos e todos amigos entre si.
Não sei não, se está alternativa é viável. Imagina a tua ex te apresentando para o novo parceiro (por favor, não chame o cara de Ricardão). O sujeito é vegetariano, não bebe, votou na Marina, acha o Moro a salvação da lavoura e além de tudo é gremista.
Falar o quê, com um cara destes?
Saudades dos velhos e bons casamentos.

Pelo menos, não tinham surpresas desagradáveis

A imagem do capitalismo numa campanha publicitária

Quando se tornou hegemônico na Europa, principalmente na Inglaterra e França, a partir da segunda metade do século 18, o capitalismo foi um extraordinário fator de progresso, rompendo as amarras do feudalismo, que prendia o desenvolvimento econômico do mundo civilizado
Ele rompeu barreiras nacionais, trouxe a secularização dos costumes, a igualdade política das pessoas dentro de uma democracia formal consubstanciada no formato republicano (ainda que a Inglaterra continuasse um reino) e criou um novo modelo de busca de felicidade para os homens, representado pela sua realização econômica como indivíduo.
Ao lado desse lado positivo, trouxe também grandes malefícios para a humanidade, como guerras, exploração de populações inteiras fora do seu centro de poder e a destruição sistemática da natureza.
Há muito tempo, o modelo capitalista esgotou sua capacidade de gerar progresso e seus aspectos negativos se tornam cada vez mais dominadores.
Para se manter vivo,ele dispõe de muitas armas, desde a coerção armada das populações descontentes, à manipulação permanente da opinião pública através dos meios de comunicação, divulgando a ideia de que o modelo capitalista é o único possível e que o máximo de aspiração possível para a humanidade é o seu aprimoramento dentro da lógica da democracia representativa em que vivemos.
Nessa última tarefa, cumpre papel fundamental a Publicidade, ao transformar produtos nocivos ao ser humano em em objetos de desejo. É ela quem promove a destruição sistemática de bens de consumo ainda válidos, para que novos produtos possam ser consumidos. É ela, a Publicidade, que, a serviço de negociantes inescrupulosos, cria ilhas de prosperidade em meio a um mar de necessidades. É finalmente ela, que financiando com seus anúncios os meios de comunicação, permite a existência de um sistema de voltado fundamentalmente para a manutenção intacta do status quod injusto atual.
Um bom exemplo de como isso é processado pode ser visto, analisando um dos comerciais de televisão de maior sucesso no País nas últimas décadas do século passado e que até hoje pode sintetizar o que pretende o capitalismo: levar vantagem em tudo.
Trata-se de uma campanha publicitária para o cigarro Vila Rica, da multinacional J. Reynolds, criado pelo publicitário José Monserrat Filho, da agência Caio Domingues Associados em 1976. O comercial usava o testemunho do jogador Gerson, que tinha sido campeão do mundo em 1970 e que na época era comentarista de futebol. Uma frase dita no comercial de TV, por Gerson, acabou como símbolo de quem age sem escrúpulos, sempre querendo ter lucro a qualquer custo (ideia básica do capitalismo): “Gosto de levar vantagem em tudo. Certo?” O interessante é que o criador do comercial, José Monserrat, era um homem de esquerda, vindo de uma longa temporada de estudos na Universidade Patrice Lumumba, de Moscou.
Dizem que Gerson se arrependeu depois de ter feito esta campanha publicitária que reforçou no brasileiro o conceito de que é preciso levar vantagem em tudo, enquanto o seu criador, o então publicitário José Monserrat, explicou que a ideia não era de valorizar quem passa os outros para trás, mas quem sai na frente, embora admitindo que o espírito popular, na sua sabedoria, entendeu do primeiro jeito.