O comunismo morreu?

 O marxismo, apontado muitas vezes como uma doutrina exótica, é um produto genuíno da cultura ocidental. Suas três vertentes formadoras são as idéias humanistas dos socialistas utópicos franceses, as teses sobre a economia do escocês Adam Smith e a visão dialética do alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel. A partir de 1948, com a edição do Manifesto Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels lançaram as bases teóricas e práticas para a construção de uma sociedade socialista, sonho até então utópico da humanidade.
Em 1917, contrariando as idéias de Marx e Engels, que imaginavam esse evento acontecendo na Inglaterra, na Alemanha ou na França, foi realizada na Rússia a primeira tentativa de edificação de um estado baseado nos princípios marxistas, graças à liderança de dois dos maiores revolucionários do século XX, Lenin e Trotsky.
Com o passar dos anos, a premissa marxista de que seria preciso um período de ditadura da classe trabalhadora para o enfrentamento dos contra-revolucionários – e no caso da nova União Soviética, eles foram tantos internos, como externos – convergiu para uma ditadura de um único partido, depois para um pequeno grupo dentro do partido e finalmente para a de um só homem, Josef Stalin.
Mesmo assim, com muitas adulterações nos pressupostos lançados por Marx e Engels, a União Soviética conseguiu se tornar uma grande potência e num curto período, após a segunda guerra mundial, parecia se aproximar do sonho de uma sociedade socialista mais humana e justa.
A chamada Guerra Fria e o bloqueio econômico norte-americano, porém, debilitaram a economia da União Soviética e nem o último esforço de Mikhail Gorbatchov de instituir a Perestroika – reconstrução econômica – e a Glasnost- transparência política – não foram capazes de salvar o regime que desapareceu em 1991. Com o fim da União Soviética, políticos e intelectuais burgueses do mundo inteiro decretaram o fim do comunismo e o domínio perene do capitalismo na sua versão neoliberal.
 Toda essa recuperação histórica se faz necessária no momento em que despontam no mundo inteiro movimentos no sentido de recuperar as propostas de Marx e Engels para a edificação de uma sociedade socialista, obviamente aperfeiçoadas pelos novos conhecimentos adquiridos nas últimas décadas nas áreas de sociologia, da economia e da política.
Os contínuos fracassos econômicos do capitalismo, com suas devastadoras crises cíclicas, colocaram na ordem do dia novamente a possibilidade de edificação de uma sociedade baseada em valores mais humanos.
Dentro dessa nova perspectiva, é que renovadas correntes marxistas estão surgindo para propor uma pergunta que certamente vai assombrar muita gente: o comunismo está realmente morto? 
Um dos filósofos franceses mais importantes da atualidade, Alain Badiou (79 anos) professor na École Normale Supérieure, de Paris, lançou o livro “L’Idée du Communisme” (A Hipótese Comunismo , disponível em língua portuguesa), que reúne textos de  conferências feitas em Londres por ele e mais 14 pensadores europeus sobre o tema.
Na apresentação do livro, Badiou justifica o seu lançamento como “uma maneira de repor em circulação esse velho vocábulo magnífico (comunismo) e não deixar os partidários do capitalismo liberal globalizado imporem um balanço pessoal de sua utilização.
Relançar a discussão sobre as etapas e os desvios inevitáveis da emancipação histórica da humanidade é uma tarefa necessária para o que hoje se mostra dramaticamente ausente: uma independência total de pensamento diante do consenso ocidental “democrático” que apenas organiza universalmente sua própria e deletéria continuação desprovida de sentido”.
Outro participante do livro, o filósofo Jacques Rancière, diz: “A crise atual é de fato o freio da utopia capitalista que reinou sozinha durante os 20 anos que se seguiram à queda do império soviético: a utopia da autorregulação do mercado e da possibilidade de reorganizar o conjunto das instituições e das relações sociais, de reorganizar todas as formas de vida humana segundo a lógica do livre mercado”.

Tomara que essa saudável discussão ocupe também os interesses dos intelectuais brasileiros, que hoje parecem apenas interessados em questões também importantes, mas menores em sua significação humana, como direitos de minorias e hábitos de consumo. Seria importante que nos voltássemos também para questões macros porque são elas que vão decidir os caminhos que a humanidade vai seguir nesse novo século. 

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