Stalin vive

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Até 1956, quando Nikita Kruchiov apresentou seu famoso relatório secreto no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Stalin ( Iossif Vissarionovitch Djugahiovili), morto três anos antes, era o “o genial guia dos povos”, o homem que consolidou o poder dos comunistas em boa parte do mundo e o grande vencedor da Segunda Guerra Mundial destruindo, os até então invencíveis, exércitos nazistas.
A partir daí passou a ser o líder inepto, que comandou uma ditadura sanguinolenta, que traiu seus companheiros de partido, que comandou complôs contra todos seus oponentes, que levou milhões de russos à morte pela coletivização forçada da agricultura e pelos seus planos de desenvolvimento acelerado da indústria.
Até mesmo sua liderança no combate ao nazismo foi posta em cheque. O pesado preço que os russos pagaram em vidas humanas e destruição de suas cidades, seria culpa de Stalin que demorou a reagir antes os sinais de que os alemães se preparavam para invadir seu país.
Infâmia máxima, foi colocado ao lado de Hitler como um dos maiores malfeitores da humanidade e mesmo depois da queda de Kruchiov e a ascensão de Brejnev, a recuperação da imagem de Stalin foi feita muito timidamente dentro da União Soviética.
O fim do regime comunista acelerou a devassa nos arquivos da União Soviética e os documentos dado à luz, pareciam a confirmar a imagem de Stalin como o traidor dos ideais dos antigos revolucionários, processo que Trotsky havia iniciado, quando comandou a oposição de esquerda a Stalin, ainda dentro da Rússia e depois nos seus vários exílios.
O inglês Simon Sebag Montefiore, no seu livro a Corte do Tzar vermelho, deu o aval acadêmico a todas essas críticas, numa obra que mostra Stalin como uma figura diabólica, preocupado em se manter no poder a qualquer custo, urdindo intrigas que fariam invejas aos cortesãos das casas dos Medicis e dos Bórgias, no Renascimento italiano.
Agora, surge alguém disposto a discutir todos esses fatos, que pareciam indiscutíveis para comunistas e anti-comunistas, Domenico Losurdo, professor de história e filosofia na Universidade de Urbino, na Itália, a partir de uma constatação verdadeira, de que os historiadores não devem absolutizar nenhuma verdade, mas problematizar todas.
É o que ele tenta fazer num livro de quase 400 páginas, ‘Stalin, a história crítica de uma lenda negra”(Storia e critica di uma legenda nera), da Editora Revan.
Losurdo examina detidamente todas as ações de Stalin, desde sua ascensão à direção do Partido Comunista após a morte de Stalin, mas concentra sua análise no período mais crucial da vida na União Soviética, a partir dos planos quinzenais de desenvolvimento e da segunda guerra
O livro é as vezes um pouco maçante pela preocupação do autor de examinar os mínimos detalhas de qualquer fato, mas essa é também a sua qualidade. Tudo o que diz, Losurdo busca comprovar com documentos e frases dos autores mais diversos. A bibliografia no final do livro inclui 19 páginas com citações de políticos, historiadores e jornalistas europeus e americanos.
Delas, emergem algumas revelações interessantes, além daquelas usadas para posicionar de uma maneira bastante positiva a figura de Stalin, como as que envolvem dois importantes dirigentes do mundo ocidental, sempre vistos de maneira positiva.
Churchill é lembrado por várias de suas citações em defesa da supremacia da raça branca, principalmente nas questões envolvendo os conflitos coloniais da Inglaterra na Índia e na África e como um admirador de Mussolini e Hitler.
Sobre Mussolini: “ Seria uma loucura perigosa para o povo britânico subestimar a posição duradoura que Mussolini ocupará na história mundial e admiráveis qualidades de coragem, inteligência, autocontrole e perseverança que ele personifica”.
Sobre Hitler, em 1937: “Não aprecio nele apenas o político extremamente competente, mas também seus modos gentis, o sorriso desarma seu interlocutor e o sutil magnetismo pessoal, do qual é difícil fugir”.
Outro personagem, Franklin Delano Roosevelt é lembrado como o presidente que autorizou a abertura de vários campos de concentração dentro dos Estados Unidos onde foram internados milhares de descendentes de japoneses durante a guerra e sua autorização para os selvagens bombardeios aéreos de cidades indefesas alemãs nos últimos anos do conflito.
Mesmo que Stalin não seja um herói para o autor, o que fica da leitura do livro é que, sem ele, possivelmente o regime soviético não teria se consolidado a ponto de poder fazer frente à liderança exercida pelos Estados Unidos no mundo inteiro a partir do fim da segunda guerra.
Mas, se o livro de Losurdo é difícil de ler, o ensaio sobre Stalin (De Satalin a Gorbatchov: como acaba um império) de Luciano Canfora, colocado nas últimas 15 páginas, compensa todas as dificuldades do leitor
Canfora, professor de Clássicos na Universidade de Bari, Itália, mostra num estilo literário de primeira qualidade, que Stalin esteve do lado certo da história em três dos momentos mais dramáticos na vida da União Soviética: na paz de Brest-Litovsk, em 1918, quando se colocou ao lado de Lenin e contra Trotsky, em defesa de um acordo de paz de qualquer maneira; no pacto russo-alemão, em agosto de 1939 e no acordo de Ialta, em 1945.
O primeiro, garantiu a continuidade da experiência comunista na Rússia, em meio a uma guerra civil que não dava tréguas ao novo regime; o segundo, quando fracassaram todas as tentativas soviéticas de uma frente comum dos países europeus contra o nazismo, permitiu que o conflito envolvesse inicialmente as potências colonialista (França e Inglaterra) contra a Alemanha, dando fôlego a União Soviética para se preparar para uma guerra inevitável; o terceiro, finalmente, definindo o respeito às fronteiras resultantes da guerra, assegurou um longo período de paz na Europa, que só hoje começa a ser ameaçado com a volta das reivindicações territoriais de muitos países.
Para Canfora, tudo isso seria obra de Stalin.
No encerramento do seu ensaio, Canfora levanta uma questão interessante: qual o papel de Gorbatchov no esfacelamento da União Soviética?
O autor – a partir de depoimentos do próprio Gorbatchov, feitos ao jornal italiano La Stampa, mostra que sob inspiração do presidente americano Ronald Reagan, ele teria armado como o polonês Wojtyla (o Papa João XXIII) a saída da Polônia da órbita soviética, primeiro passo para o fim da União Soviética.

Si non e vero e ben trovato

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