O retrato do velho quando jovem

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Você está velho. Cada dia mais velho.  Suas forças vitais diminuem a cada dia que passa. Você esquece os nomes das coisas e das pessoas. Sabe o que isso significa? Significa que você está se aproximando, cada vez mais rapidamente, da morte.
Você cuida da saúde, faz exercícios, vai a dezenas de médicos, mas não adianta muito. O máximo que você consegue é adiar a chegada da morte por algum tempo. Meses, anos talvez.
Enquanto isso, as pessoas em volta estão cada vez mais jovens. Pelo menos, é assim que você vê. E cada vez, dão menos importância para a sua experiência de vida. Se pensa que eles estão interessados nas coisas que você sabe, esqueça.
Quem quer saber que os Estados Unidos já tiveram campos de concentração dentro do seu território durante a guerra; quais as divergências entre Stalin e Trotsky e por que o golpe de 64 no Brasil foi apoiado pelos americanos?
Ninguém.
É bullshit.
Isso você sabe o que é, de tanto ouvir nos filmes americanos.  Mas não vai adiantar para facilitar uma conversa com os jovens. Ao contrário de você, que decorou algumas palavras ouvidas nos matinés do Imperial, os jovens falam inglês fluentemente. Pelo menos aqueles que você pensa que teriam interesse em suas histórias.
Você, que ainda usa o celular para falar, como fazia com o velho telefone, está séculos atrasado. Até no nome do aparelho, que agora é chamado de smart phone e serve para que os jovens façam milhões de coisas, inclusive telefonar.
Quando você, não aguentar mais a solidão e quiser lembrar o bonde Floresta, o cinema Vogue, a Legalidade e os gols do Bodinho, vá procurar a sua turma.
Só não olhe para aquele seu retrato de quando tinha 20 anos.
Mas, você não resiste e vai olhar.
O sujeito que você vê com aquela cara de idiota, é realmente um idiota.
Foi um idiota, mas tinha uma vantagem enorme sobre o que você é hoje.
Ele tinha esperanças.
Esperança de ser um intelectual conhecido, um jogador de futebol famoso ou um político respeitado.
Essa é a diferença: ele tinha esperanças e você, no máximo, conformismo.
Mesmo que todas suas esperanças fossem vagas promessas, quase impossíveis, de ser feliz no futuro, ele tinha o que você agora, por mais que se esforce, não pode ter mais, esperança.
O retrato do velho quando jovem é a prova que tudo que tinha para dar certo, não deu.
O que fazer, então?
Quem sabe você se console, lembrando alguns versos do nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade.
E agora, José? 
A festa acabou, 
a luz apagou, 
o povo sumiu, 
a noite esfriou, 
e agora, José? 
e agora, Você? 
Você que é sem nome, 
que zomba dos outros, 
Você que faz versos, 
que ama, protesta? 
e agora, José?
Está sem mulher, 
está sem discurso, 
está sem carinho, 
já não pode beber, 
já não pode fumar, 
cuspir já não pode, 
a noite esfriou, 
o dia não veio, 
o bonde não veio, 
o riso não veio, 
não veio a utopia 
e tudo acabou 
e tudo fugiu 
e tudo mofou, 
e agora, José?
Ponha seu nome no lugar do José e vá vivendo em quanto der.


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