O que nos mantém vivos

Compartilhe este texto:

.
Estou velho, irremediavelmente velho. Nada de eufemismo idiotas, tipo terceira idade ou melhor idade. Apenas velho e pronto.
Aquele cara que já está superando o limite da expectativa de vida dos brasileiros e começa a ser sentir um escandinavo.
Como a gente sabe que passou para a categoria de velho? Não é tanto o espelho que diz isso. É o corpo que fala e como fala.
Lembra aquela virilidade que tanto dava orgulho no passado? E apenas passado. Agora você precisa do apoio da química moderna para não fazer feio nos embates sexuais.
O outro sinal é o esquecimento. Claro que você não esquece o nome da mãe, nem dos filhos (aí seria caso de internação), mas não lembra coisas e nomes que foram importantes em certos momentos da vida.
– Qual é mesmo o nome daquele diretor francês… aquele que fez aquele filme com aquela atriz…aquela que depois se casou com…. aquele sujeito que se envolveu num escândalo…aquele?
Contraditoriamente, você sabe que é velho quando se lembra de coisas que ninguém mais lembra.
Você fala no Dr. Getúlio e o presidente mais velho que as pessoas ainda conhecem é o Collor.
Você lembra a escalação do Internacional, hexa-campeão em 1945 (Ivo, Alfeu e Nena; Viana, Ávila e Abigail; Tesourinhas, Vilalba, Adãozinho, Fandiño ou Eliseu e Carlitos) e se duvidar, você cita até o trio final reserva (De Lorenzi, Tábua e Maravilha).
Ninguém está interessado, salvo o Roberto Pintaúde, mas está quase tão velho como você.
Claro que tem os ainda mais velhos, os que se lembram da Revolução de 30 e da passagem do Zepelin (não o conjunto musical) sobre Porto Alegre.
A maioria dos integrantes dessa classe, anterior a sua e a minha já morreram e viraram também memória: na Revolução de 30, meu pai estava de guarda no Catete quando o Getúlio tomou posse.
O que nos sustenta vivos então, a mim e a você?
Falo por mim.
Quando minha segunda mulher me mandou embora e eu tive que vir aqui para o exílio de Gramado, em que podia me apoiar?
Os filhos, claro. Mas cada um deles tinha a sua vida e as suas preocupações para tocar.
Quem me deu forças para sobreviver aqui em Gramado foi a Carmen Cecília, com o seu amor. Um amor de verdade numa cidade onde quase tudo é falso.
Foi ela e os amigos que ficaram em Porto Alegre.
É sobre eles, que quero falar um pouco.
Normalmente, os amigos são produtos de longos anos de convivência, são os tais amigos de infância ou no máximo da juventude.
Pois estes são – se assim posso dizer – amigos da velhice.
Velhos aposentados, que se recusam a entregar os pontos, velhos envolvidos pelo mesmo sonho de justiça social e humanismo. Velhos, que não esqueceram a paixão política da juventude.
Deles, gostaria de citar alguns nomes: o Mareu, o Luís Octávio, o Airton o Lenine, o Lantieri e o Franklin. Sobre este último me permito falar um pouco mais, passando por cima da modéstia que o caracteriza.
Há uns dois anos, depois de ler um texto meu no Sul21, o Franklin me ligou convidando a fazer parte de um grupo de médicos que editava um blog em favor do projeto Mais Médicos, e que ainda hoje existe defendo uma visão de esquerda da política brasileira. É o site Imagem Política.
No passado, afora as carreiras liberais, as duas grandes chances para garantir o sucesso financeiro de uma pessoa era fazer concurso e entrar no Banco do Brasil ou estudar na escola da Varig e virar piloto de avião.
O Franklin seguiu esse segundo caminho, mas em determinado momento da vida, teve coragem de largar essa carreira e começar tudo de novo, passando no vestibular de medicina.
Virou um médico de sucesso como ginecologista, casou-se com uma mulher maravilhosa com a qual vive até hoje, a médica pediatra Iole e se não fez fortuna, estabeleceu para ele e a família um ótimo padrão de vida.
Outro dia, o Franklin me fez a pergunta, que de certa forma motivou este texto.
O que nos leva a defender os interesses de uma classe, que objetivamente não é a nossa, ser mal visto por conhecidos e até familiares e no caso dele, ter até que defender suas posições num tribunal?
A resposta me ocorre agora, Franklin
É a paixão de viver. É a nossa recusa de envelhecer e abandonar os sonhos da juventude.
Pensando bem, Franklin, Mareu, Luís Octávio, Airton, Lantieri e Lenine, não somos velhos. Pelo contrário, somos muito mais jovens que muita gente que anda por aí.


Compartilhe este texto:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *