Monsenhor Bombardeli, o mistério da Santíssima Trindade, os comunistas e a escola marista de Farroupilha

Compartilhe este texto:

Quem não foi educado na tradição católica de um mundo de faz de conta, talvez não saiba que 1950 foi um Ano Santo. No dia 24 de dezembro de 1949 foram abertas pelo Papa Pio XII, a chamada Porta Santa da Basílica de São Pedro em Roma, anunciando o início das celebrações do Jubileu (continuação da tradição judaica de a cada 25 não trabalhar a terra) que ocupariam todo o ano seguinte.
Precisamente em 1950, eu estudava no Colégio Marista São Tiago, de Farroupilha, fazendo o preparatório para admissão ao ginásio, com uma bolsa de estudos paga pela prefeitura.
Essa introdução serve para montar o pano de fundo para a tese que pretendo desenvolver sobre as dificuldades da religião em explicar determinados fatos, quando eles se confrontam com a razão.
Naquele ano, os “irmãos” fizeram correr entre os alunos, todos crédulos como eu, então nos meus 10 anos, que os comunistas estavam se aprontando para tomar o poder no mundo inteiro e que um dos seus objetivos, logo que começassem a mandar, era condenar à morte todos os padres e religiosos.
Eu, pessoalmente, não achava má ideia acabar com alguns daqueles religiosos, exceção é claro do Irmão Ignácio, um velho a quem destinavam apenas as aulas de religião, mas que sempre pareceu a todos os alunos, o único entre todos que acreditava no que pregava. Talvez porque já estivesse senil.
Obviamente, aos 10 anos, cheio de energia infantil, eu não devia ser um aluno aplicado e disciplinado. Claro que não era, tanto que não consegui a medalha de bom comportamento no final do ano.
Apesar disso, fui o primeiro colocado no exame de admissão, superando os alunos internos que eram sempre os que mais estudavam, dando ao meu pai – um estranho naquela Farroupilha da época –  uma alegria a qual ele referiu, depois, até a sua morte prematura (para mim, pelo menos, foi prematura, aos 60 anos) como um dos melhores momentos da sua vida.
Uma vez por mês, o pároco da cidade, o Monsenhor Tiago Bombardeli, comparecia à escola para uma aula especial de religião, que terminava sempre com a distribuição de santinhos, um presente renhidamente disputado por todos os alunos.
Lembro especialmente de uma aula dele.
Contava o Monsenhor Bombardeli, que Santo Agostinho, o doutor da igreja, caminhava um dia pela praia, absorto nos seus pensamentos sobre os mistérios da sua religião, quando encontrou um menino que colocava a água do mar num pequeno balde.
Quando Agostinho perguntou a ele porque fazia isso, ele respondeu.
– Quero colocar toda a água do mar dentro desse balde
– Isso é impossível
Ao que o menino (certamente um pequeno anjo) respondeu
– É mais fácil eu colocar toda a água do mar dentro desse baldinho, do que você entender
o mistério da Santíssima Trindade.
Era a primeira defesa que eu ouvia de como é importante sermos ignorantes.
Possivelmente naquele momento, concordei com o Monsenhor Bombardeli, mas não levou muito tempo para que eu passasse a questionar essa postura e buscasse explicações para todos esses mistérios, inclusive o da Santíssima Trindade. Senão explicações, pelo menos o porquê de tantas pessoas abrirem mão de sua racionalidade e aceitarem essas versões mágicas da vida.
Começamos por onde terminou Santo Agostinho, a Santíssima Trindade.
O triângulo equilátero (aquele tem todos os ângulos congruentes, isso é, iguais) é uma figura geométrica simples, mas perfeita e está presente na simbologia de várias religiões, desde os antigos judeus com a sua estrela de Davi (dois triângulos, um deles invertido), até o pentagrama, símbolo da alquimia, passando inclusive pela maçonaria.
As pirâmides do Egito antigo têm a forma triangular.
O sumidouro de barcos e aviões no Caribe é chamado de Triângulo das Bermudas e segundo alguns mais crentes, seria o portal para outros mundos.
As religiões e os mitos apostam na simbologia de uma figura da matemática, aparentemente uma ciência sem conotações materiais, imediatas, para tentar racionalizar aquilo que é fruto da ignorância que a humanidade sempre teve e da qual, penosamente, alguns buscam fugir.
A Santíssima Trindade é mais um triângulo em cujos vértices se assentam os símbolos da religião cristã: o Pai, gerador de tudo e imortal em sua essência, o Filho que o nega, ao optar por ser um mortal e o chamado de o Espírito Santo, em que alguns enxergam a superação dessa contradição, ou seja a igreja institucionalizada
É uma primorosa construção dialética de tese, antítese e síntese, mas apenas uma obra nascida de uma elocubração humana, comprovando que o homem cria os deuses à sua imagem e semelhança e que a Santíssima Trindade é mais uma obra do engenho humano.
Monsenhor Bombardeli nunca deve ter pensado nisso e morreu na sua santa ignorância convencido de que ela lhe abriria ás portas do céu.
Ou ele seria apenas um aprendiz de marqueteiro antecipando, já na década de 50 as técnicas de cooptação de corações e mentes para o mundo da fantasia?

Você, para encerrar esse texto, pode escolher a sua versão para o que foi na verdade o Monsenhor Bombardeli, um crente e ignorante ou um ladino aprendiz de marqueteiro.

Compartilhe este texto:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *