Jantar em família

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O pai cobrara tantas vezes que ele acabou concordando em participar. Seria um jantar de toda a família.
– Como nos velhos bons tempos, disse o pai.
Ele não se lembrava de que tivesse havido alguma vez bons tempos naquela família.
O irmão viria de São Paulo com a mulher e a filha.
A mãe insistira que eu  levasse a Norma, a nova companheira, que ela ainda não conhecia.
Mas, ela não queria ir de jeito nenhum
– O teu irmão milionário ainda passa, mas a mulher dele é insuportável.
Esse era o problema de Norma e também meu: como sentar na mesa com aquela mulher.  Judite era o nome dela. Estava casada com meu irmão há quase 10 anos. No início parecia uma mulher igual a tantas outras. Preocupada em cuidar da filha que nascera logo depois do casamento, não gostava de cinema, nem de leitura. Seu assunto preferido era a novela da 8 na Globo. Quando a menina cresceu, ela se revelou uma pessoa extremamente rígida, preocupada em transformar a filha num modelo de comportamento.
Até a minha mãe, que sempre fugia de qualquer crítica à nora, achava que as vezes ela exagerava,
– Parece que quer a minha neta seja uma freira.
Meu irmão, mais velho 5 anos, tinha uma carreira em ascensão numa multinacional e além da novela que assistia com a mulher, era também torcedor do Inter, o único ponto que nos identificava e que nos dava algum assunto para conversas.
Há pouco mais de um ano, um drama envolveu a família de meu irmão. Depois de muito tentarem, finalmente eles teriam um filho homem. Só que o menino nasceu com graves deficiências físicas e logo morreu.
Pouco depois desse triste episódio, fui com a Norma visitar Judite.
Ficamos surpresos com a sua aparente tranquilidade.
Ela se referia ao filho morto, como o Anjo Gabriel
– Deus o levou para o céu para fazer parte das legiões do outro Gabriel. Ele era bom demais para viver entre os pecadores aqui na terra.
Ela se incluía entre estes pecadores:
– A filha que Deus nos deu já era suficiente. Mas nós continuamos nos entregando aos prazeres da carne, com a desculpa de ter um filho homem. Foi muita soberba de nossa parte. Devia ser suficiente o que Ele já nos tinha dado, mas queríamos mais, por isso fomos punidos.
Disse que como penitência nunca mais faria sexo com o seu marido.
Em seguida, nos transformou em alvo de suas críticas.
– Sei que vocês vivem em pecado. Fazendo sexo só pelo prazer. Deus vai castigar vocês também.
Meu irmão interviu, tentando justificar o comportamento da mulher pelo trauma da perda, o que na hora me pareceu aceitável.
Nos encontramos, outra vez, rapidamente numa missa de sétimo dia de um parente. Pouco falamos, mas na saída, ela não perdeu a oportunidade de me advertir quando viu que a Norma estava ao meu lado na porta da igreja
– Então, ainda vivendo em pecado? Aqui é a casa de Deus e ele enxerga tudo e tem horror dos fornicadores.
Meses depois, quando já moravam em São Paulo, para onde meu irmão tinha sido transferido ao passar para a diretoria da empresa, vi uma foto dela numa reportagem da Veja sobre as novas igrejas pentecostais que se multiplicavam pelo País. Ela era criadora de uma igreja chamada Morada do Anjo Gabriel e pregava abstinência sexual total para os solteiros e dizia que aos casais, o sexo só era permitido para a procriação.
Será que meu irmão seguia essa orientação?
Meu pai achava que não e comentava com ironia:
– Ele não quer brigar com ela por causa da filha, mas certamente deve ter seus casos. Ele vive viajando para o Exterior e lá as leis da Judite não devem valer.
O tal jantar seria a oportunidade para reunir novamente a família, depois que meu irmão e a mulher se mudaram para São Paulo
A mãe havia dito que Judite estava mais tranquila. Que continuava extremamente religiosa, principalmente agora que se transformara na pastora de uma nova igreja, mas que na vida privada não tentava convencer os outros de suas ideias.
É o que iríamos ver no tal jantar da família.
De início, pareceu que a mãe tinha razão.
Judite parecia calma, perguntou a Norma se já tinha concluído a faculdade de artes e a mim, como estava a vida nos jornais.
Meu irmão, lembrou a vitória do Inter sobre o Palmeiras, em São Paulo e disse que tinha visto o jogo.
O clima parecia tranquilo, mas tenso. Ninguém arriscava entrar em algum assunto que pudesse provocar um tipo de polêmica.
De repente, a tempestade se abateu sobre a mesa vindo de um lugar onde ninguém esperava.
A filha do meu irmão, de 12 anos, perguntou à Norma onde ela me conhecera.
Norma, sem se dar conta da fúria que iria desencadear, respondeu.
– Eu era casada com um colega de jornal do teu tio.
Judite não disse absolutamente nada. Apenas pegou a filha pelos braços e saiu quase correndo da mesa. Meu irmão, depois de alguns segundos de hesitação. saiu atrás e me minha mãe, se voltando para Norma, cobrou rispidamente
– Precisa contar isso na frente da Judite?
Está claro porque não aceito mais convite para jantar de família?

De qualquer família.

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