Entre Tarso e Zizek, você fica com quem?

A possível saída do Reino Unido da União Europeia continua provocando críticas dos setores políticos mais progressistas do mundo inteiro e o silêncio constrangido dos partidos de direita na Europa, que teoricamente seriam os grandes apoiadores da medida.
A maioria das críticas são feitas a partir de um viés que corresponde ao pensamento político de um setor da intelectualidade que, mesmo se dizendo representante dos interesses da esquerda, defende, em última análise, uma espécie de depuração da democracia liberal em que vive o mundo ocidental, por acreditar que a alternativa a ele seria um sistema político mais autoritário, beirando ao fascismo ou uma ditadura do tipo stalinista.
Uma das exposições mais coerentes e inteligentes dessa visão, é o texto publicado pelo ex-governador Tarso Genro, no Sul 21. Embora admita que a formação da União Europeia foi um movimento de integração de cima para baixo, comandado pelas grandes empresas e bancos continentais, ressalva que ela “traz consigo a possibilidade de unificação “por baixo”, entre aqueles setores, estamentos e classes, cujas relações de solidariedade “autorregulada” pode se tornar “grande política” -com a Europa Social- a única que pode dar estabilidade e convivência democrática ao Continente”.
Ao examinarmos quais foram as áreas onde se concentraram os votos a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, vamos ver que elas correspondem aos setores mais pobres da população, onde se localizam as massas de empregados que se sentem ameaçados pela chegada de estrangeiros que põem em risco seus já poucos empregos.
Obviamente, ainda que sejam eleitores intoxicados pela propaganda xenófoba dos partidos de direita, eles percebem que existe uma clara ameaça ao seu padrão de vida, representado pela massa de pessoas que oriundas do leste europeu e das regiões conflagradas do Oriente Médio, oferece sua mão de obra a preços aviltados.
Se estão corretos na avaliação de uma das causas das suas dificuldades econômicas, se equivocam na escolha das soluções. Não será fechando fronteiras que a crise econômica vai desaparecer. Ela é cíclica e faz parte da essência do sistema capitalista,
Numa aparente contradição, enquanto os governos europeus ameaçam fechar suas fronteiras, é do interesse dos grandes capitalistas permitir a entrada de trabalhadores imigrantes, porque assim pressionam à classe trabalhadora com mais competição e provocam a baixa dos salários.
Aparente contradição, porque os governos das grandes potências europeias, sejam oriundos de quaisquer partidos (até mesmo os que levam os nomes de socialista ou trabalhista) representam no final os interesses dos grandes capitais.
Não é à toa que as lideranças conservadoras importantes da Europa – principalmente Cameron e Merkel – defendem a continuidade da unidade europeia nos moldes atuais, porque ela dá uma certa estabilidade econômica aos países mais ricos Alemanha, Inglaterra, e talvez a França, ainda que traga dificuldades cada vez maiores para os países da periferia como Grécia, Espanha e Portugal.
Qual seria a alternativa, então?
No seu artigo, Tarso chama a atenção para o perigo da defesa da ideia do “quanto pior melhor”, ao dizer que “algumas pessoas me responderam que à longo prazo isso é ” bom”, pois a crise social que advirá, vai causar a longo prazo uma nova revolução na Europa. Respondo que as pessoas vivem, as crianças morrem, os aposentados se suicidam, o terrorismo aumenta, no curto, não no longo prazo. E que da miséria e da pobreza -numa época que carece de paradigmas para montar ordens mais justas- têm nascido rebeliões sem rumo, não revoluções libertárias”
Embora pareça representar um pensamento equilibrado e correto, ele denota também uma certa crença naquela visão histórica, que ficou famosa ao ser proclamada por Francis  Fukuyama, de que a sociedade democrática ocidental seria o último grande degrau na evolução política e que ela só é passível de aprimoramento e não de superação por outro modelo.
Ainda que possa parecer uma resposta um pouco acima do tom civilizado de um debate, podemos opor a esta visão, o desabafo do filósofo esloveno, hoje bastante na moda, Slavoj Zizek, quando ele diz: “Estou farto dessa esquerda que, não só sabe que nunca chegará ao poder, mas que secretamente não deseja isso”.
Para ele, a exemplo da China e também da Rússia, o mundo se encaminha para uma nova forma autoritária de fascismo, onde as liberdades privadas (direito de viajar, da circulação da pornografia, etc) serão mantidas, mas a estrutura de poder será essencialmente autoritária.
“Só a esquerda radical pode nos salvar desse fundamentalismo”, diz Zizek
Ao contrário do que diz Tarso de que “a Europa Social- é única que pode dar estabilidade e convivência democrática ao Continente”, Zizek pensa que todos os valores conquistados nas lutas contra a teocracia, pelas liberdades pessoais, o feminismo e a ecologia, foram incorporados ao capitalismo que se tornou hedonista e permissivo.
Ao criticar a esperança na democratização do capitalismo (pressão sob os meios de comunicação, investigações parlamentares, leis mais severas) como metas impossíveis (citando em suas críticas inclusive o Fórum Social Mundial de Porto Alegre), Zizek diz que a intuição fundamental de Marx continua pertinente hoje: “ a questão da liberdade não deve ser colocada na esfera política (ao dizer coisas como eleições livres, poder judicial independente, imprensa livre, respeito aos direitos humanos) porque a verdadeira liberdade está na rede apolítica das relações sociais, desde o mercado até a família, porque realizar melhorias não é uma reforma política e sim uma mudança nas relações sociais de produção”.
Qual a alternativa melhor, a de Tarso ou a de Zikek?

A radicalização da democracia dentro das estruturas capitalistas ou uma revolução social, ainda que de consequências imprevisíveis? 

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