A verdadeira história de Enzo Ferregoto

A família Ferregoto, de Forqueta, como todas as famílias de origem italiana que viviam na região, era numerosa. Na velha casa de madeira, construída sobre grossos pilares, que permitiam a existência de um espaçoso porão, moravam, naquele distante ano de mil novecentos e cinquenta e poucos, a nona Augusta, chamada de Vó Guta, a filha Alcenira, apelidada de Nira, o marido Ferrônio, conhecido como Ferro e um grande número de filhos, que crescia todos os anos, pois o casal era adepto do que se chamava “à moda de São Bento”, um fora e outro dentro.
A família criava porcos, galinhas e tinha uma vaca leiteira, além de uma horta cuidada pela Dona Nira. Como todas aquelas famílias de descendentes de italianos, os filhos eram vistos mais como mão de obra para manter a renda familiar, do que qualquer outra coisa. Mesmo assim, como dizia o Ferro, um macho e uma fêmea eram reservados para o serviço de Deus. Um seria padre e outra freira.
O Ferro já tinha escolhido quem seria padre. Era o Edmar, garoto franzino, que detestava o trabalho pesado e gostava de brincar apenas com as irmãs. Uma vez chegaram a comentar com o Ferro que seu filho poderia virar um fresco, ao que ele respondeu
–  Se virar fresco, curo ele na hora com uma tunda de vara de marmelo.
Quem deveria escolher os que seriam enviados para o seminário, o macho e para o monastério, a fêmea, era o Padre Bonareli, que vinha de Caxias especialmente para isso. O Ferro não gostava muito do Padre porque ele tinha fama de promíscuo e pedófilo. Claro que na época não usavam essas palavras. No armazém, onde o Ferro participava dos jogos de truco nos sábados, Bonareli era o “garanhão” e o “boca-de-fogo”.
Quando, o padre botou o olho na filharada dos Ferregoto, escolheu de cara o Enzo, logo o Enzo, que o pai tinha decidido que seria o seu substituto, quando se aposentasse. Ele era um gringo forte, teimoso como uma mula segundo o Ferro, mas que não escolhia trabalho.
Não teve conversa. Arrumaram umas roupas novas para o Enzo e lá se foi ele, com o Padre Bonareli, para o seminário em Antônio Prado.
Um mês depois estava de volta, expulso do seminário. Tinha se metido numa briga e vivia dizendo “porco dio”, o tempo todo, apesar de advertido mais de uma vez de que isso era uma blasfêmia.
A alegria do Ferro pela volta do Enzo também durou pouco. Ele não queria mais trabalhar na colônia e com ajuda do padre Bonareli, arrumou um emprego numa firma de material elétrico em Caxias.
Iniciou-se aí a carreira profissional do Enzo. Por que entendia tudo de eletricidade, ajudava o pessoal da TV Caxias a consertar seus equipamentos e começou a participar de algumas produções locais de comerciais.
Como era muito forte, ajudava a carregar os cabos dum lugar para o outro. Todo mundo dizia que ele era um rapaz muito esperto e parece que era mesmo.
Em pouco tempo passou, em vez de carregar, a operar os equipamentos e se intitular  “cameraman”, com muito orgulho.
A etapa seguinte foi produzir um comercial para um supermercado. Nada muito complicado: uma série de imagens estáticas de latas de conserva, pedaços de carne e garrafas de bebidas, e uma gravação de um locutor dando os preços do produto.
Não importa. A partir de então, ele deixava de ser “cameraman” e passava a categoria de diretor de comerciais.
Deixou Caxias e foi tentar a sorte na Capital. Simpático, trabalhador e cobrando menos que os seus colegas, virou o plano B das agências de propaganda. 
Quando o cliente não queria pagar o que aquele famoso diretor pedia como cachê, mesmo contra a vontade do pessoal da criação, chamavam o Enzo Ferregoto, o filho do Ferro.
Chegou até a ganhar prêmios e tudo parecia ir nos melhores dos mundos, quando subitamente desapareceu de cena.
Cinco anos depois, com uma barba e cabelos enormes, reapareceu em Florianópolis. Não era mais diretor de comerciais. Dizia que estava iniciando uma vida de produtor de conteúdos de comunicação, seja lá o que isso pudesse significar.
É isso: quando alguém precisar de um produtor de conteúdos de comunicação, procure o Enzo Ferregoto, filho da Nira, ainda viva e do Ferro, há muitos anos morto e irmão mais velho do Padre Edmar, conhecido na zona italiana como o Padre Cantor, porque além de cuidar das suas ovelhas na paróquia em Monte Bérico, as embala com lindas canções religiosas, como bom pastor que é.
Enquanto espera pelos primeiros clientes, vai exercitando suas duvidosas qualidades de escritor, escrevendo textos que posta no seu facebook.
Se assume como um homem de direita, é a favor do Bolsonaro, contra o PT e pela volta dos milicos.
Como se pode ver, um tipo coerente.
Caso a sua biografia recente lhe interesse, e queira saber o endereço do Enzo Ferregoto, o produtor de conteúdos de comunicação, não existe nenhuma dificuldade.
Fácil. Ele está sempre na mesa de canto daquele boteco próximo da Ressacada, na Baia Norte de Florianópolis.
É só chegar.
Em tempo: ele atende agora pelo nome de E. Ferro, talvez em homenagem ao pai. 
Freud, certamente, explicaria.

(Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, é mera coincidência)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *