A direita que não quer ser chamada de direita

Nem todos os reacionários gostam de ser chamados assim. É o caso, por exemplo, do jornalista Léo Gerchmann, de Zero Hora, que se disse ofendido por que o qualifiquei dessa maneira numa postagem que fiz no facebook, a respeito da sua indicação para um prêmio da Associação Gaúcha de Editores, pelo seu livro Somos Azuis, Pretos e Brancos, da LPM.
A história começou quando Clô Barcelos, querida e respeitada, editora de livros, publicou na sua página no facebook uma mensagem de parabéns a Léo Gerchmann pela sua indicação. Como também sou amigo da Clô no facebook, publiquei no mesmo espaço, um comentário dizendo que me recusava a dar parabéns a um reacionário empedernido como ele.
A resposta dele foi extremamente agressiva e não poupou até o uso de um palavrão (Que horror! Ah, talvez seja porque alguns dos meus textos sejam críticos a países bolivarianos. Tá, sou um baita reacionário, infelizmente (porque acho horrível) e tu deve ser um sujeito brilhante. Bah, Clô, que merda ter que ler um troço desses de um sujeito assim).
Respondi no mesmo espaço que, se reacionário era uma palavra muito forte, poderia trocá-la por outra mais amena, como um jornalista que defende as posições de direita e que não via motivos para que ele não assumisse essa posição, afinal essa é a postura do jornal em que ele trabalha.
Sua resposta foi, então, num tom mais civilizado, mas reafirmando suas críticas aos tais países bolivarianos e dizendo ser uma pessoa quer respeita todas as posições, com exceção dos “fascistas, homofóbicos, nazistas e racistas de todo o tipo’.
Ótimo, uma pessoa pode ser contra fascistas, homofóbicos, nazistas e racistas de todo o tipo e continuar sendo uma pessoa de posições políticas de direita.
Como eu pretendo ser de esquerda, Léo Gerchmann não ficaria mal com seus leitores, se assumisse que suas críticas a Morales, Chavez, Maduro, Correa, partem de posições de direita. Poderia se dizer, talvez até com algum exagero, que há um certo viés racista nas suas críticas, na medida em que olha, principalmente para Morales e Chavez, como os representantes de segmentos mestiços da população e não de brancos, como por exemplo, o presidente Macri, da Argentina, sobre quem escreveu um artigo laudatório.
Ele que despreza tanto estes “bolivarianos” (referência ao grande libertador Simon Bolivar), deveria ler o que disse deles o filósofo esloveno Slavoj Zizek, numa conferência na Bolívia:
“A América Latina é a única esperança de que, invocar tradições ancestrais não seja parte de um projeto nacionalista de direita e reacionária. Eu amo isso”, depois de classificar a experiência de Evo Morales na Bolívia como a mais popular e efetiva da revolução bolivariana.
Sobre Hugo Chavez, a quem já criticara pelas suas aproximações com Ahmadenejad, do Irã e Lukashenko, da Belarus, disse; “As limitações de Chávez foram as limitações do momento presente, mas é preciso deixar bem claro que ele era um de nós”
Provocado pelas afirmações do Léo Gerchmann, de que o seu livro sobre o Grêmio prova que ele não é um reacionário, fui tentar analisar se, historicamente, o que afirma no livro é totalmente verdade
O fato de ser torcedor do Internacional não me impede de constatar algumas contradições no que se divulgou sobre as provas de que o Grêmio, como instituição, nunca teve práticas racistas.
Vamos deixar de lado, a torcida, onde sempre existem elementos que não se conformam com a ideia de que todas as pessoas devem ser iguais independentemente da cor, como provou aquele episódio da torcedora chamando o goleiro Aranha, do Santos, de macaco.
Primeiro, as fotos do time do Grêmio de 1926 com dois jogadores que não poderiam ser considerados brancos.
Meu pai, já me alertara há muitos anos atrás, que enquanto os negros jogavam apenas na chamada “Liga das Canelas Pretas”, havia outros, que por não terem a pele tão escura, podiam jogar na liga dos brancos, o que para ele caracterizava uma forma de racismo porque estes jogadores não se assumiam como negros.
Parece ser o caso dos jogadores que aparecem na fotografia. Os dois estão agachados, um deles, realmente com a pele mais escura, tem o cabelo escondido por uma boina e o outro é realmente um mulato e não um negro.
Mas, vamos supor que sim, que o Grêmio foi o primeiro time a admitir negros no seu time, mesmo antes que o Internacional.
Então, por que, em 1952, o Presidente Saturnino Vanzeloti, anunciou que a contratação do negro Tesourinha, multi campeão pelo Internacional, servia para quebrar um preconceito, que como diz a nota da diretoria do Grêmio, ainda existia.
Diz a nota publicada na imprensa no dia 5 de março de 1952:
A Diretoria do Grêmio resolve por unanimidade tornar insubsistente a norma que vinha sendo seguida de não incluir atletas de cor na sua representação de futebol”.
Mais revelador de que o preconceito ainda existia, é um pedido veiculado no Correio do Povo por um grupo de associados do Grêmio reclamando que essa decisão não poderia ser tomada isoladamente pela diretoria porque ela deveria passar pelo Conselho Deliberativo, “uma vez que não se tratava da simples contratação de um jogador”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *