O vidente


Havia apenas um letreiro meio desbotado na fachada, Bar do Manoel. Uma verdadeira espelunca, mas era exatamente o que eu estava esperando.
Prudentemente, havia deixado o carro estacionado a uma quadra adiante e acabara caminhando pela rua Piauí, no Passo da Areia, até chegar na frente do bar.
Como eu imaginava, naquela hora da manhã o bar estava ainda vazio. Atrás do balcão, com cara de poucos amigos, estava aquele que deveria ser o Manoel, que dava o nome ao bar. Um homem gordo, aparentando uns 50 anos, quase careca e com um enorme bigode, o típico português das piadas. Além dele, apenas um empregado, que com uma vassoura, tratava de empurrar pedaços de papel e tocos de cigarro para a soleira da porta.
Eu já tinha vivido situações parecidas e sabia quais os problemas que haveria de enfrentar, mas o que fazer, teria que ir em frente.
Dei um bom dia e recebi de volta um resmungo.
– Seu Manoel, preciso saber se o senhor recebeu uma encomenda, um engradado de bebidas finas, champanha, vinhos, uísques, conhaques.
Com uma visível irritação, o seu Manoel em vez de responder, me fez outra pergunta.
– O que o senhor quer saber? É vendedor de bebidas? Então não estou interessado. A bebida que mais vendo aqui é cachaça.
Usando a melhor diplomacia possível tentei informar ao seu Manoel que recebera um aviso que essa encomenda tinha sido entregue no seu bar e precisava apenas saber se ele a recebera.
O seu Manoel parecia agora a beira de um ataque de fúria. 
– Não tem nada de encomenda e o melhor é o senhor não brincar comigo
Pus uma nota de 50 reais sobre o balcão e pedi uma dose de cachaça, logo eu que nunca bebia cachaça, mas achei que isso acalmaria o homem.
Realmente parece ter funcionado um pouco. Seu Manoel serviu a cachaça num pequeno copo, jogou o dinheiro na gaveta e dela retirou umas moedas de troco.
– Não se preocupe, seu Manoel, pode ficar com o troco. É uma paga pelo incômodo.
O clima ficou então bem melhor e ele quis saber, porque eu estava interessado numa encomenda que disse que não tinha chegado
– É difícil de explicar, mas o senhor me faria um grande favor se verificasse se não tinha mesmo chegado a encomenda.
O empregado que varria o chão, parou um momento e entrou na conversa
– Seu Manoel, chegou um engradado de bebidas esta manhã e eu pensei que o senhor tinha encomendado. Está naquele canto, embaixo do balcão.
– Quem trouxe?
– Ninguém trouxe – quer dizer – quando cheguei para abrir o bar, estava do lado de fora, encostado na porta, o engradado.
Tinha alguma nota, um recibo de entrega ou pagamento?
– Nada, seu Manoel, só o engradado
Seu Manoel se voltou para mim, novamente ríspido.
– O senhor colocou na minha porta. Por quê? Eu já lhe disse que não vendo essas porcarias aqui. Agora pegue o seu engradado e dê o fora.
Não teve explicação. Tive que pegar o engradado e levá-lo nas costas até o meu carro, estacionado quase na Assis Brasil. Pelo menos essa vez, eu tinha tirado alguma vantagem do episódio: ficaria com um estoque de bebidas finas.
Nas outras vezes, não ganhara nada, só incômodos.
Repentinamente, eu ficava sabendo que havia uma encomenda nos Correios em nome de Fulano de Tal, morador em tal endereço e ele não sabia disso. Podia ser algo importante, eu procurava o sujeito e ele só faltava chamar a polícia. Tinha que insistir muito para que ele procurasse os correios. Talvez, até para se livrar de mim, o sujeito acabava ligando para a agência do correio e realmente tinha uma encomenda lá para ele. Alguns ficavam interessados na maneira como eu ficara sabendo do fato e eu explicava que não sabia, subitamente, aparecia na minha mente uma mensagem com nome e endereço. Na maioria das vezes, surgia sempre aquela brincadeira: quando lhe informarem os números da mega sena, me avisa. Isso nunca havia aparecido naquelas visões, nem os números da loteria, se o Inter iria ser campeão ou se a Dilma voltaria à Presidência.
Agora, eu estava sendo diante do Dr. Franklin, psicanalista, tentando lhe explicar o que ocorria comigo. Ele, felizmente, me ouvia com atenção, possivelmente porque já me enquadrara numa das categorias dos distúrbios da mente estudados por Freud e costumava não se espantar com nada que seus pacientes pudessem dizer.
Essa vez, porém, seria diferente.
– Depois desse episódio do bar do seu Manoel, o senhor teve outra visão?
– Pois é, doutor, uma das razões para eu estar aqui é que tive uma visão de um fato que vai acontecer com o senhor;
– O Dr. Franklin não conseguiu disfarçar um sorriso irônico, mas me mandou seguir em frente.
– O senhor vai fazer 52 anos amanhã, não é verdade?
Ele sorriu novamente e disse que sim, provavelmente imaginando que eu havia procurado antes me informar de seu aniversário em algum almanaque médico.
– O problema, Dr. Franklin é que o senhor não vai completar os 52 anos e eu vim aqui para lhe avisar que hoje é o seu último dia de vida.
Embora ainda conservasse o sorriso irônico no rosto, ele pareceu ficar um pouco preocupado com a minha informação.
– O que o senhor quer dizer com isso?
– Esses nomes – Dr. Infante e Dra. Lorena – lhe dizem alguma coisa?
Agora ele estava muito atento.
– O Dr. Infante foi meu companheiro de faculdade e a Dra. Lorena é sua esposa e divide esse consultório comigo. Ela é também psicanalista.
– E o senhor tem um caso com a Dra. Lorena?
Ele enrubesceu um pouco e negou o fato sem muita convicção
– Foi caso do passado. Um relacionamento rápido. Mas como o senhor sabe disso?
– Não sei como, mas sei. Esse é o problema. O outro problema é que o Dr. Infante também sabe disso e quer acabar com tudo.
– Como acabar com tudo? O que senhor viu na sua imaginação?
– Infelizmente acho, pelas minhas experiências passadas, que não é apenas imaginação. Eu vi que ele entra no seu consultório e lhe dá um tiro na cabeça. O senhor está sentado nessa cadeira, exatamente como está agora, atendendo um paciente, no caso eu, ele abre a porta, entra e não fala uma palavra, apenas lhe dá um tiro na cabeça.
O Dr. Franklin, nesta altura já bastante pálido, ia dizer alguma coisa, quando tocou o telefone e eu ouvi a secretária, com uma voz aflita, avisando.
– O Dr.Infante passou voando por aqui e está entrando diretamente no seu consultório

Entre Tarso e Zizek, você fica com quem?

A possível saída do Reino Unido da União Europeia continua provocando críticas dos setores políticos mais progressistas do mundo inteiro e o silêncio constrangido dos partidos de direita na Europa, que teoricamente seriam os grandes apoiadores da medida.
A maioria das críticas são feitas a partir de um viés que corresponde ao pensamento político de um setor da intelectualidade que, mesmo se dizendo representante dos interesses da esquerda, defende, em última análise, uma espécie de depuração da democracia liberal em que vive o mundo ocidental, por acreditar que a alternativa a ele seria um sistema político mais autoritário, beirando ao fascismo ou uma ditadura do tipo stalinista.
Uma das exposições mais coerentes e inteligentes dessa visão, é o texto publicado pelo ex-governador Tarso Genro, no Sul 21. Embora admita que a formação da União Europeia foi um movimento de integração de cima para baixo, comandado pelas grandes empresas e bancos continentais, ressalva que ela “traz consigo a possibilidade de unificação “por baixo”, entre aqueles setores, estamentos e classes, cujas relações de solidariedade “autorregulada” pode se tornar “grande política” -com a Europa Social- a única que pode dar estabilidade e convivência democrática ao Continente”.
Ao examinarmos quais foram as áreas onde se concentraram os votos a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, vamos ver que elas correspondem aos setores mais pobres da população, onde se localizam as massas de empregados que se sentem ameaçados pela chegada de estrangeiros que põem em risco seus já poucos empregos.
Obviamente, ainda que sejam eleitores intoxicados pela propaganda xenófoba dos partidos de direita, eles percebem que existe uma clara ameaça ao seu padrão de vida, representado pela massa de pessoas que oriundas do leste europeu e das regiões conflagradas do Oriente Médio, oferece sua mão de obra a preços aviltados.
Se estão corretos na avaliação de uma das causas das suas dificuldades econômicas, se equivocam na escolha das soluções. Não será fechando fronteiras que a crise econômica vai desaparecer. Ela é cíclica e faz parte da essência do sistema capitalista,
Numa aparente contradição, enquanto os governos europeus ameaçam fechar suas fronteiras, é do interesse dos grandes capitalistas permitir a entrada de trabalhadores imigrantes, porque assim pressionam à classe trabalhadora com mais competição e provocam a baixa dos salários.
Aparente contradição, porque os governos das grandes potências europeias, sejam oriundos de quaisquer partidos (até mesmo os que levam os nomes de socialista ou trabalhista) representam no final os interesses dos grandes capitais.
Não é à toa que as lideranças conservadoras importantes da Europa – principalmente Cameron e Merkel – defendem a continuidade da unidade europeia nos moldes atuais, porque ela dá uma certa estabilidade econômica aos países mais ricos Alemanha, Inglaterra, e talvez a França, ainda que traga dificuldades cada vez maiores para os países da periferia como Grécia, Espanha e Portugal.
Qual seria a alternativa, então?
No seu artigo, Tarso chama a atenção para o perigo da defesa da ideia do “quanto pior melhor”, ao dizer que “algumas pessoas me responderam que à longo prazo isso é ” bom”, pois a crise social que advirá, vai causar a longo prazo uma nova revolução na Europa. Respondo que as pessoas vivem, as crianças morrem, os aposentados se suicidam, o terrorismo aumenta, no curto, não no longo prazo. E que da miséria e da pobreza -numa época que carece de paradigmas para montar ordens mais justas- têm nascido rebeliões sem rumo, não revoluções libertárias”
Embora pareça representar um pensamento equilibrado e correto, ele denota também uma certa crença naquela visão histórica, que ficou famosa ao ser proclamada por Francis  Fukuyama, de que a sociedade democrática ocidental seria o último grande degrau na evolução política e que ela só é passível de aprimoramento e não de superação por outro modelo.
Ainda que possa parecer uma resposta um pouco acima do tom civilizado de um debate, podemos opor a esta visão, o desabafo do filósofo esloveno, hoje bastante na moda, Slavoj Zizek, quando ele diz: “Estou farto dessa esquerda que, não só sabe que nunca chegará ao poder, mas que secretamente não deseja isso”.
Para ele, a exemplo da China e também da Rússia, o mundo se encaminha para uma nova forma autoritária de fascismo, onde as liberdades privadas (direito de viajar, da circulação da pornografia, etc) serão mantidas, mas a estrutura de poder será essencialmente autoritária.
“Só a esquerda radical pode nos salvar desse fundamentalismo”, diz Zizek
Ao contrário do que diz Tarso de que “a Europa Social- é única que pode dar estabilidade e convivência democrática ao Continente”, Zizek pensa que todos os valores conquistados nas lutas contra a teocracia, pelas liberdades pessoais, o feminismo e a ecologia, foram incorporados ao capitalismo que se tornou hedonista e permissivo.
Ao criticar a esperança na democratização do capitalismo (pressão sob os meios de comunicação, investigações parlamentares, leis mais severas) como metas impossíveis (citando em suas críticas inclusive o Fórum Social Mundial de Porto Alegre), Zizek diz que a intuição fundamental de Marx continua pertinente hoje: “ a questão da liberdade não deve ser colocada na esfera política (ao dizer coisas como eleições livres, poder judicial independente, imprensa livre, respeito aos direitos humanos) porque a verdadeira liberdade está na rede apolítica das relações sociais, desde o mercado até a família, porque realizar melhorias não é uma reforma política e sim uma mudança nas relações sociais de produção”.
Qual a alternativa melhor, a de Tarso ou a de Zikek?

A radicalização da democracia dentro das estruturas capitalistas ou uma revolução social, ainda que de consequências imprevisíveis? 

Quando prender pessoas vira um bom negócio

Os defensores da privatização das penitenciárias do Estado (balão de ensaio lançado por ZH na semana passada) devem ler o que escreveu Luís Antônio Araújo (é, as vezes tem o que ler em ZH) sobre a experiência nos Estados Unidos, o país do mundo onde mais se prende pessoas.

Dos 2,2 milhões de encarcerados no mundo inteiro, 25% são de americanos. O jornalista cita matéria de outro jornalista americano, que disfarçado de guarda carcerário, permaneceu durante algum tempo na penitenciário de Winnfield, na Louisina, estado onde de 86 pessoas, uma está presa.
O que ele relata é sem tirar nem por o que ocorre nas nossas prisões: tráfico de drogas, violências, inclusive sexuais, contrabando de celulares e muita corrupção.

Como se trata de um negócio, a empresa que administra a prisão, a Corretions Corporation of American a CCA, tem interesse em ter cada vez mais presos.

Desde 1983, a CCA faz parte do seleto grupo de empresas que administram as prisões americanas, recebendo 200 dólares, diariamente do Tesouro Americano para cada preso que tem em suas inúmeras penitenciárias.

O maior complexo penitenciário da CCA, em Lumpkin, Geórgia, rendeu à empresa um lucro de 50 milhões de dólares por ano.

Um dos diretores da CCA explica a sua filosofia: “ A nossa companhia foi fundada no princípio, sim, que poderíamos vender prisões. Da mesma formo como se vendem carros, imóveis ou hamburgues”.

Além das verbas federais que recebe, a empresa potencializa seus lucros cobrando 5 dólares por minuto, pelas ligações telefônicas dos presos, enquanto paga aos presos que trabalham no local – não importa quantas horas – 1 dólar por dia.

Não é estranho, por isso, que a população carcerária dos Estados Unidos teve em crescimento de mais de 500% desde que a privatização de algumas prisões foi implantada.
Dessa imensa população carcerária, 50% dela é composta por negros, enquanto que apenas 12% de toda a população dos Estados Unidos é composta pelos chamados afrodescendentes.

Ou seja, além de ser uma discutível fonte de lucros para determinadas empresas, o sistema reforça o preconceito racial, ainda muito significativo nos Estados Unidos.

Por que a Bélgica?

O Edgar Ferreti publicou um texto em sua página no facebook falando sobre os atentados terroristas de Bruxelas, condenando estas ações, com o que certamente concordam todas as pessoas civilizadas.
O terrorismo, apesar de largamente praticado em muitos momentos da história, nunca foi uma forma de luta política que possa ser aceita, mesmo quando se dirige contra governos autoritários, porque pune pessoas inocentes e raramente afeta aqueles que seriam os alvos principais.
E mais: quando atingem esses alvos, aumentam a brutalidade da reação daqueles que se pretendia atingir.
O professor Voltaire Schilling fez um apanhado dos principais grupos terroristas no mundo inteiro e mostra que eles são tão antigos como a história da humanidade.
Os zelotes, por exemplo, lutaram contra os romanos que ocuparam a Palestina do século 1 antes de Cristo, até o século 2, depois de Cristo, matando os invasores e os seus colaboradores entre os próprios hebreus.
Os norodniks infernizaram a vida da nobreza russa e acabaram por assassinar o Tzar Alexandre II em São Petersburgo em 1881.
O assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austríaco em Sarajevo, precipitou a primeira guerra mundial
O espetacular atentado a bomba em 1973, contra o general Carrero Blanco, em Madri, feito pelo ETA, não impediu a continuidade do governo franquista, nem ajudou na independência do País Basco.
O que chama a atenção agora nos atentados terroristas na Europa é que eles se dirigem principalmente a três países – França, Inglaterra e Bélgica – deixando de lado outros grandes países do centro da Europa, como Alemanha, Itália, Espanha e Portugal.
O que teriam em comum estes três países e no que são diferentes dos demais países europeus?
 Alemanha e Itália, por se unificarem tardiamente em relação aos demais países, chegaram atrasados no processo de colonização na Ásia e principalmente na África; Portugal e Espanha, que também tiveram suas colônias na África, há muito haviam perdido força como países poderosos economicamente.
Para se ter uma ideia do tamanho dessa colonização na África, basta relacionar os países que nasceram dos antigos impérios coloniais francês e inglês.
O antigo domínio francês deu origem aos seguintes países: Marrocos, Tunísia, Guiné, Camarões, Togo, Senegal, Madagascar, Benin, Níger, Burkina Faso, Costa do Marfim, Chade, República Centro Africana, República do Congo, Gabão, Mali, Mauritânia, Argélia, Camarões e Djibuti.
Do império inglês, nasceram os seguintes países: Egito, Sudão, Gana, Nigéria, Somália, Serra Leoa, Tanzânia, Uganda, Quênia, Malavi, Zâmbia, Gâmbia, Lesoto, Maurícia, Suazilândia, Seicheles e Zimbawe. 
A independência desses países se fez em muitos casos após um longo período de lutas, algumas vezes extremamente sangrentas, como foram os casos da Argélia e do Quênia, o que certamente criou uma grande animosidade entre os antigos dominadores e dominados
A Bélgica, teve possessões menores na África – o Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, Ruanda e Burundi – mas se destacou pela violência dos colonizadores contra os nativos.
O Congo Belga era uma possessão pessoal do Rei Leopoldo, da Bélgica, que em 1909 a transferiu para à Coroa Belga.
Em Ruanda, a pior herança dos colonizadores, foi a divisão do país em duas etnias – os tutsis, protegidos dos colonizados e os hutus – o que gerou um verdadeiro genocídio em 1994, depois da independência do País com mais de 800 mil mortos, no que ficou conhecido como o Genocídio de Ruanda.
Estima-se que mais de 25 milhões de africanos tenham sido assassinados durante todo o período em que o Congo foi ocupado pelos belgas, principalmente no período em que o país era uma propriedade pessoal do rei, num procedimento que chocou até mesmo os ingleses, que também sabiam ser impiedosos com os seus nativos.
Isso, se está longe de justificar, de certa maneira ajuda a entender porque a Bélgica se tornou um alvo preferencial dos terroristas.

Os moralistas de cuecas e a banda podre do PT

A reunião de um grupo de fanáticos e puritanos, os Procuradores da República no Paraná, com um Juiz sedento de fama, criou a ‘República de Curitiba’ e dela nasceu esse monstrengo jurídico chamado Operação Lava Jato, alimentado pelas delações premiadas de corruptos assumidos e promovido por uma imprensa pouco ética.
O problema é que depois que soltaram os demônios, eles não querem mais voltar para o seu antigo inferno. Os golpistas, que estimularam suas primeiras denúncias, estão vendo agora elas se voltarem contra o seu centro de decisão, hoje encastelado no governo de Temer.
Mas quem são esses grandes atores que mantém aceso o fogo destruidor da Lava Jato, os Procuradores da República?
Nascidos de uma decisão política, tomada na Constituição de 1998 de garantir a independência dos Procuradoria da República na fiscalização dos atos do Executivo, eles abominam a política e se regem por seus próprios códigos, onde a lei é vista como algo imutável e eterno.
Seu Alcorão é composto pelos códigos civil e criminal. Sonham com uma versão ocidental da “sharia”, esquecidos que vivem numa sociedade capitalista movida pela busca do lucro a qualquer custo e onde a política se mistura perigosamente com os negócios.
Em vez de usar seus poderes para buscar uma depuração desse processo, usando os mecanismos da lei para punir os infratores, sem por em risco as instituições, eles preferem histericamente destruir o nosso tênue sistema democrático, ao disseminar a ideia de que todos os políticos são corruptos e que o Brasil pode viver sem eles.
O lema que eles defendem e que segmentos alienados da população repetem nas ruas, de que é preciso passar o País a limpo, tem uma inequívoca conotação fascista, na medida que pretende por na lata do lixo todos os avanços democráticos penosamente conquistados nos últimos anos.
Ao mirar no PT como seu alvo principal, eles não estão fazendo apenas uma opção ideológica, eles estão dando um recado preconceituoso de que, um partido que pretende representar os trabalhadores, não pode ser valer, dentro de uma sociedade burguesa, dos mesmos instrumentos que durante décadas permitiram aos outros partidos chegarem ao poder.
O jogo de influências numa sociedade capitalista não prescinde do dinheiro. Na forma direta do papel moeda passado de mão em mão, das transferências eletrônicas para bancos suíços ou de oferta de posições de poder que vão gerar vantagens logo adiante, é o dinheiro que rege todas as relações que movem um país para frente.
E não é apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, que alguns ainda apelidam de “A Grande Democracia do Norte” estamos vendo agora mesmo, na disputa Hillary Clinton X Donald Trump, uma pública e contabilizada conta de chegar, entre as duas candidaturas, para ver quem arrecada mais dinheiro dos grandes empresários. Obviamente, lá como aqui, não será um dinheiro dado, mas um dinheiro emprestado que deve voltar com juros e correção aos seus donos.
Todo mundo está cansado de saber que nem os empresários, nem a maioria dos políticos, nem os partidos, querem acabar com esse sistema, aprovando, por exemplo, o financiamento estatal das campanhas políticas.
Assim como está, todos têm chances de ganhar.
Diante desse quadro, quem são os moralistas de cuecas?  São os procuradores, com o seu jacobinismo fora de época, que agem como analfabetos políticos, no dizer de Bertold Brecht; são os empresários sonegadores que financiam as campanhas dos alienados que repetem nas ruas os slogans fascistas de passar o País à limpo e são, ainda, os veículos da imprensa venal que transforma tudo isso em grandes manchetes.
Falta falar agora sobre banda podre do PT.
Quando concorreu pela quarta vez à Presidência, Lula deixou bem claro que, dessa vez, iria à disputa para ganhar. Isso significou um grande acordo com partidos de centro e com empresários e obviamente, significou também a necessidade de abrir mão, pelo menos durante algum tempo, das bandeiras mais radicais do PT.
Lula cumpriu o trato, ao mesmo tempo, que conseguiu realizar algumas das promessas que fez aos seus eleitores. Foi reeleito e elegeu Dilma duas vezes. Foram campanhas milionárias (como também foram as dos demais partidos) e ninguém é ingênuo para supor que elas pudessem ser possíveis sem grandes verbas, sem o investimento de muito dinheiro.
Como ocorreu com todos os principais candidatos (aqueles com chances de ganhar), foi um dinheiro que entrou por vias legais e também por outras nem tanto. Agora mesmo, está se comprovando que a campanha do falecido Eduardo Campos e da vestal Marina Silva, foi turbinada com dinheiro desviado de órgãos públicos.
Errado?
Claro.
Mas como mudar esse quadro?
Talvez começando por fechar a torneira maior que irriga a famosa Caixa 2: o financiamento empresarial.
Ocorre que nos 14 anos de governo do PT, como na Rússia stalinista, criou-se também uma “nomenklatura”, que não resistiu à tentação de por no bolso uma parte de tanto dinheiro que circulava nos negócios, teoricamente destinados a apoiar o partido.
E não foi apenas o PT e seus políticos que se beneficiaram. Todos os demais partidos que se integraram às campanhas de Lula e Dilma, disputaram com unhas e dentes uma parte nesse butim. Como disse recentemente o Ministro Barroso do Supremo, ninguém é ingênuo para supor que os cargos de mando nos órgãos públicos eram disputados por pessoas que queriam apenas servir o País.
Muitos dos nomes, que participaram dos governos do PT, como Padilha, Geddel, Jucá e Moreira Franco, sempre vistos como suspeitos de negócios pouco éticos, estão agora no governo de Temer, comprovando que, nesse jogo, existe pouca fidelidade ideológica.
Agora surge com destaque o nome de Paulo Bernardo, ex-ministro do Planejamento e das Comunicações, acusado de receber propinas através de um contrato fictício de prestação de serviços
Independentemente de que muitas das acusações que estão sendo feitas a políticos do PT, possam não ser verdadeiras, parece pouco provável que todas sejam falsas.

O mais provável é que esses longos anos junto às fontes do poder na República criaram uma banda podre no PT, que agora permite que uma boa parte da opinião pública, insuflada por uma mídia interessada em destruir o partido, enxergue nesse fato o fim de qualquer possibilidade de, através de um partido de inspiração popular, mudar o centenário quadro de dominação das elites brasileiras sobre todo o País.

Monsenhor Bombardeli, o mistério da Santíssima Trindade, os comunistas e a escola marista de Farroupilha

Quem não foi educado na tradição católica de um mundo de faz de conta, talvez não saiba que 1950 foi um Ano Santo. No dia 24 de dezembro de 1949 foram abertas pelo Papa Pio XII, a chamada Porta Santa da Basílica de São Pedro em Roma, anunciando o início das celebrações do Jubileu (continuação da tradição judaica de a cada 25 não trabalhar a terra) que ocupariam todo o ano seguinte.
Precisamente em 1950, eu estudava no Colégio Marista São Tiago, de Farroupilha, fazendo o preparatório para admissão ao ginásio, com uma bolsa de estudos paga pela prefeitura.
Essa introdução serve para montar o pano de fundo para a tese que pretendo desenvolver sobre as dificuldades da religião em explicar determinados fatos, quando eles se confrontam com a razão.
Naquele ano, os “irmãos” fizeram correr entre os alunos, todos crédulos como eu, então nos meus 10 anos, que os comunistas estavam se aprontando para tomar o poder no mundo inteiro e que um dos seus objetivos, logo que começassem a mandar, era condenar à morte todos os padres e religiosos.
Eu, pessoalmente, não achava má ideia acabar com alguns daqueles religiosos, exceção é claro do Irmão Ignácio, um velho a quem destinavam apenas as aulas de religião, mas que sempre pareceu a todos os alunos, o único entre todos que acreditava no que pregava. Talvez porque já estivesse senil.
Obviamente, aos 10 anos, cheio de energia infantil, eu não devia ser um aluno aplicado e disciplinado. Claro que não era, tanto que não consegui a medalha de bom comportamento no final do ano.
Apesar disso, fui o primeiro colocado no exame de admissão, superando os alunos internos que eram sempre os que mais estudavam, dando ao meu pai – um estranho naquela Farroupilha da época –  uma alegria a qual ele referiu, depois, até a sua morte prematura (para mim, pelo menos, foi prematura, aos 60 anos) como um dos melhores momentos da sua vida.
Uma vez por mês, o pároco da cidade, o Monsenhor Tiago Bombardeli, comparecia à escola para uma aula especial de religião, que terminava sempre com a distribuição de santinhos, um presente renhidamente disputado por todos os alunos.
Lembro especialmente de uma aula dele.
Contava o Monsenhor Bombardeli, que Santo Agostinho, o doutor da igreja, caminhava um dia pela praia, absorto nos seus pensamentos sobre os mistérios da sua religião, quando encontrou um menino que colocava a água do mar num pequeno balde.
Quando Agostinho perguntou a ele porque fazia isso, ele respondeu.
– Quero colocar toda a água do mar dentro desse balde
– Isso é impossível
Ao que o menino (certamente um pequeno anjo) respondeu
– É mais fácil eu colocar toda a água do mar dentro desse baldinho, do que você entender
o mistério da Santíssima Trindade.
Era a primeira defesa que eu ouvia de como é importante sermos ignorantes.
Possivelmente naquele momento, concordei com o Monsenhor Bombardeli, mas não levou muito tempo para que eu passasse a questionar essa postura e buscasse explicações para todos esses mistérios, inclusive o da Santíssima Trindade. Senão explicações, pelo menos o porquê de tantas pessoas abrirem mão de sua racionalidade e aceitarem essas versões mágicas da vida.
Começamos por onde terminou Santo Agostinho, a Santíssima Trindade.
O triângulo equilátero (aquele tem todos os ângulos congruentes, isso é, iguais) é uma figura geométrica simples, mas perfeita e está presente na simbologia de várias religiões, desde os antigos judeus com a sua estrela de Davi (dois triângulos, um deles invertido), até o pentagrama, símbolo da alquimia, passando inclusive pela maçonaria.
As pirâmides do Egito antigo têm a forma triangular.
O sumidouro de barcos e aviões no Caribe é chamado de Triângulo das Bermudas e segundo alguns mais crentes, seria o portal para outros mundos.
As religiões e os mitos apostam na simbologia de uma figura da matemática, aparentemente uma ciência sem conotações materiais, imediatas, para tentar racionalizar aquilo que é fruto da ignorância que a humanidade sempre teve e da qual, penosamente, alguns buscam fugir.
A Santíssima Trindade é mais um triângulo em cujos vértices se assentam os símbolos da religião cristã: o Pai, gerador de tudo e imortal em sua essência, o Filho que o nega, ao optar por ser um mortal e o chamado de o Espírito Santo, em que alguns enxergam a superação dessa contradição, ou seja a igreja institucionalizada
É uma primorosa construção dialética de tese, antítese e síntese, mas apenas uma obra nascida de uma elocubração humana, comprovando que o homem cria os deuses à sua imagem e semelhança e que a Santíssima Trindade é mais uma obra do engenho humano.
Monsenhor Bombardeli nunca deve ter pensado nisso e morreu na sua santa ignorância convencido de que ela lhe abriria ás portas do céu.
Ou ele seria apenas um aprendiz de marqueteiro antecipando, já na década de 50 as técnicas de cooptação de corações e mentes para o mundo da fantasia?

Você, para encerrar esse texto, pode escolher a sua versão para o que foi na verdade o Monsenhor Bombardeli, um crente e ignorante ou um ladino aprendiz de marqueteiro.

É a política, idiotas

Quem não é a favor da democracia?
Todos são.
Até mesmo os tiranos, que a negam na prática, dizem ser a favor.
Episódio famoso, que confirma essa tese, se deve ao espírito crítico de Millôr Fernandes, que, convidado para um evento de escritores em Passo Fundo, no período mais negro da ditadura, fez um discurso inflamado sobre liberdade, democracia e direitos humanos. Foi ovacionado de pé pela plateia. Quando os aplausos cessaram, informou que acabara de ler o discurso de posse do general Garrastazu Médici como presidente do Brasil.
Vejam só, o que o dizia o homem que negou com mais veemência os princípios democráticos durante seu governo: “Homem do povo, conheço a sua vocação de liberdade, creio no poder fecundo da liberdade”
Os gregos de Atenas, a quem a história reserva o direito de ser os inventores da palavra e da prática da democracia, só a permitiam a poucos na sua cidade-estado.
As decisões na grande reunião em praça pública – a Eclésia – eram tomadas apenas pelos homens livres, nascidos em Atenas. Delas, não participavam os estrangeiros (metecos), os escravos, os menores e as mulheres.
Foi somente após as grandes revoluções burguesas, a partir do século XVIII, principalmente na França e na Inglaterra, que este conceito foi parcialmente universalizado.
Surgia a república, com a ideia de representatividade, onde a comunidade através de um processo eleitoral escolhia seus líderes, embora ainda sujeita a restrições importantes, com a exclusão, em muitas sociedades, do voto das mulheres, dos analfabetos e dos despossuídos materialmente, sem contar com os escravos, que não dispunham de nenhum direito.
É sob esse sistema que, com mais eficiência em alguns lugares e menos em outros, vive hoje a maior parte da humanidade: a democracia representativa, onde cada pessoa é um voto e qualquer um – teoricamente – pode chegar ao poder, desde que seja escolhido pelos seus pares.
O poder de uma pessoa ou grupo é transitório e deve ser confirmado tempos em tempos por um processo eleitoral.
Diante desse sistema, se colocam hoje duas possibilidades. Negá-lo, com uma proposta de que alguns grupos – ou uma pessoa – se auto proclamem os representantes da vontade de todos e o exerçam o poder como se escolhidos fossem por outro processo que não o eleitoral.
Caso típico foi a ditadura militar brasileira iniciada em 1964.
A outra possibilidade, é o aprimoramento do atual sistema, retirando dele os entraves que hoje o maculam, como a influência exercida sobre os eleitores pelas mais variadas formas de alienação política.
Seria uma radicalização da democracia. Dentro dessa linha, Tarso Genro, é hoje o único político com representatividade no cenário nacional e intelectualmente preparado, que a defende com coerência e vigor essa linha.
 Em seus artigos, infelizmente restritos à veiculação na imprensa alternativa, ele tem defendido a radicalização da democracia brasileira, extremamente ameaçada nos últimos meses pelo golpe desfechado contra o governo da presidente Dilma, pelo poder exagerado assumido pelo poder judiciário e pela corrupção endêmica do Congresso Nacional.
Como Tarso não defende uma revolução social que altere a divisão de classes no Brasil, nem o fim do regime capitalista, podemos dizer, correndo o risco de ser infiel ao pensamento do autor, que o processo de radicalização democrática que ele prega, precisará ser realizado dentro dos quadros políticos atuais, com a efetivação de pelo menos duas medidas: a reforma política, principalmente com fim da intervenção do poder econômico no processo eleitoral através do financiamento estatal das campanhas políticas e a regulação da mídia, com o estabelecimento de um sistema de responsabilidades, que impeça o que ocorre hoje, quando os veículos de comunicação se transformaram em partidos políticos, quase sempre a serviço de causas impopulares.
A grande questão é saber se existe realmente a possibilidade, dentro de uma democracia representativa como a nossa,  de se alcançar estes objetivos (para não falar de outros mais ousados como as reformas agrária e urbana) através dos mecanismos democráticos do chamado estado de direito em que vivemos.
Marx, e quando se fala em política é inevitável não voltar a ele, diz que o sentido verdadeiro da democracia se revela apenas quando ela se liberta do Estado e de toda forma de mediação política.
Para ele, não poderia haver democracia em uma sociedade de classes e a superação dela, começaria com uma proposta aparentemente contraditória, o estabelecimento de uma ditadura provisória de uma maioria da população.
Na visão dele, essa ditadura seria exercida durante algum tempo pelo proletariado, nascido com o advento da dominação burguesa dos meios de produção.
Seria essa classe revolucionária, a única capaz de descontruir a sociedade capitalista, como a capitalista havia feito com a feudalista e essa, com a escravagista, num processo dialético de teses e antíteses, até se chegar a uma síntese, ainda que também precária, da sociedade comunista.
Todos nós sabemos que a tentativa de dar vida ás teses de Marx, acabaram por fracassar na União Soviética, depois de pouco mais de 70 anos de existência, mas suas teses – na falta de outra teoria – começam novamente a ser discutidas por filósofos e pensadores preocupados com o futuro da humanidade.
A ideia da ditadura do proletariado, proposta por Marx como ponto inicial de uma revolução democrática, parecer hoje superada até mesmo pelo esfacelamento do conceito de proletariado.
Mas, se o proletariado desapareceu como uma classe social homogênea, não desapareceram as incompatibilidades intrínsecas entre os grupos sociais e econômicos que hoje participam do jogo político.
Por isso, é fundamental que os principais jogadores se apresentem para a disputa e façam suas propostas, como está fazendo Tarso Genro.
Na disputa eleitoral entre Clinton e Bush, pai, James Carville, o principal assessor de comunicação de Clinton, explicando as razões para a derrota de Bush, lançou aquele famoso bordão: “ É a economia, idiota”.
Talvez hoje, o que precisa ser dito para todos que pretendem mudar o Brasil e sintam perdidos: o caminho é a política, idiotas

Stalin vive

Até 1956, quando Nikita Kruchiov apresentou seu famoso relatório secreto no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Stalin ( Iossif Vissarionovitch Djugahiovili), morto três anos antes, era o “o genial guia dos povos”, o homem que consolidou o poder dos comunistas em boa parte do mundo e o grande vencedor da Segunda Guerra Mundial destruindo, os até então invencíveis, exércitos nazistas.
A partir daí passou a ser o líder inepto, que comandou uma ditadura sanguinolenta, que traiu seus companheiros de partido, que comandou complôs contra todos seus oponentes, que levou milhões de russos à morte pela coletivização forçada da agricultura e pelos seus planos de desenvolvimento acelerado da indústria.
Até mesmo sua liderança no combate ao nazismo foi posta em cheque. O pesado preço que os russos pagaram em vidas humanas e destruição de suas cidades, seria culpa de Stalin que demorou a reagir antes os sinais de que os alemães se preparavam para invadir seu país.
Infâmia máxima, foi colocado ao lado de Hitler como um dos maiores malfeitores da humanidade e mesmo depois da queda de Kruchiov e a ascensão de Brejnev, a recuperação da imagem de Stalin foi feita muito timidamente dentro da União Soviética.
O fim do regime comunista acelerou a devassa nos arquivos da União Soviética e os documentos dado à luz, pareciam a confirmar a imagem de Stalin como o traidor dos ideais dos antigos revolucionários, processo que Trotsky havia iniciado, quando comandou a oposição de esquerda a Stalin, ainda dentro da Rússia e depois nos seus vários exílios.
O inglês Simon Sebag Montefiore, no seu livro a Corte do Tzar vermelho, deu o aval acadêmico a todas essas críticas, numa obra que mostra Stalin como uma figura diabólica, preocupado em se manter no poder a qualquer custo, urdindo intrigas que fariam invejas aos cortesãos das casas dos Medicis e dos Bórgias, no Renascimento italiano.
Agora, surge alguém disposto a discutir todos esses fatos, que pareciam indiscutíveis para comunistas e anti-comunistas, Domenico Losurdo, professor de história e filosofia na Universidade de Urbino, na Itália, a partir de uma constatação verdadeira, de que os historiadores não devem absolutizar nenhuma verdade, mas problematizar todas.
É o que ele tenta fazer num livro de quase 400 páginas, ‘Stalin, a história crítica de uma lenda negra”(Storia e critica di uma legenda nera), da Editora Revan.
Losurdo examina detidamente todas as ações de Stalin, desde sua ascensão à direção do Partido Comunista após a morte de Stalin, mas concentra sua análise no período mais crucial da vida na União Soviética, a partir dos planos quinzenais de desenvolvimento e da segunda guerra
O livro é as vezes um pouco maçante pela preocupação do autor de examinar os mínimos detalhas de qualquer fato, mas essa é também a sua qualidade. Tudo o que diz, Losurdo busca comprovar com documentos e frases dos autores mais diversos. A bibliografia no final do livro inclui 19 páginas com citações de políticos, historiadores e jornalistas europeus e americanos.
Delas, emergem algumas revelações interessantes, além daquelas usadas para posicionar de uma maneira bastante positiva a figura de Stalin, como as que envolvem dois importantes dirigentes do mundo ocidental, sempre vistos de maneira positiva.
Churchill é lembrado por várias de suas citações em defesa da supremacia da raça branca, principalmente nas questões envolvendo os conflitos coloniais da Inglaterra na Índia e na África e como um admirador de Mussolini e Hitler.
Sobre Mussolini: “ Seria uma loucura perigosa para o povo britânico subestimar a posição duradoura que Mussolini ocupará na história mundial e admiráveis qualidades de coragem, inteligência, autocontrole e perseverança que ele personifica”.
Sobre Hitler, em 1937: “Não aprecio nele apenas o político extremamente competente, mas também seus modos gentis, o sorriso desarma seu interlocutor e o sutil magnetismo pessoal, do qual é difícil fugir”.
Outro personagem, Franklin Delano Roosevelt é lembrado como o presidente que autorizou a abertura de vários campos de concentração dentro dos Estados Unidos onde foram internados milhares de descendentes de japoneses durante a guerra e sua autorização para os selvagens bombardeios aéreos de cidades indefesas alemãs nos últimos anos do conflito.
Mesmo que Stalin não seja um herói para o autor, o que fica da leitura do livro é que, sem ele, possivelmente o regime soviético não teria se consolidado a ponto de poder fazer frente à liderança exercida pelos Estados Unidos no mundo inteiro a partir do fim da segunda guerra.
Mas, se o livro de Losurdo é difícil de ler, o ensaio sobre Stalin (De Satalin a Gorbatchov: como acaba um império) de Luciano Canfora, colocado nas últimas 15 páginas, compensa todas as dificuldades do leitor
Canfora, professor de Clássicos na Universidade de Bari, Itália, mostra num estilo literário de primeira qualidade, que Stalin esteve do lado certo da história em três dos momentos mais dramáticos na vida da União Soviética: na paz de Brest-Litovsk, em 1918, quando se colocou ao lado de Lenin e contra Trotsky, em defesa de um acordo de paz de qualquer maneira; no pacto russo-alemão, em agosto de 1939 e no acordo de Ialta, em 1945.
O primeiro, garantiu a continuidade da experiência comunista na Rússia, em meio a uma guerra civil que não dava tréguas ao novo regime; o segundo, quando fracassaram todas as tentativas soviéticas de uma frente comum dos países europeus contra o nazismo, permitiu que o conflito envolvesse inicialmente as potências colonialista (França e Inglaterra) contra a Alemanha, dando fôlego a União Soviética para se preparar para uma guerra inevitável; o terceiro, finalmente, definindo o respeito às fronteiras resultantes da guerra, assegurou um longo período de paz na Europa, que só hoje começa a ser ameaçado com a volta das reivindicações territoriais de muitos países.
Para Canfora, tudo isso seria obra de Stalin.
No encerramento do seu ensaio, Canfora levanta uma questão interessante: qual o papel de Gorbatchov no esfacelamento da União Soviética?
O autor – a partir de depoimentos do próprio Gorbatchov, feitos ao jornal italiano La Stampa, mostra que sob inspiração do presidente americano Ronald Reagan, ele teria armado como o polonês Wojtyla (o Papa João XXIII) a saída da Polônia da órbita soviética, primeiro passo para o fim da União Soviética.

Si non e vero e ben trovato

A direita que não quer ser chamada de direita

Nem todos os reacionários gostam de ser chamados assim. É o caso, por exemplo, do jornalista Léo Gerchmann, de Zero Hora, que se disse ofendido por que o qualifiquei dessa maneira numa postagem que fiz no facebook, a respeito da sua indicação para um prêmio da Associação Gaúcha de Editores, pelo seu livro Somos Azuis, Pretos e Brancos, da LPM.
A história começou quando Clô Barcelos, querida e respeitada, editora de livros, publicou na sua página no facebook uma mensagem de parabéns a Léo Gerchmann pela sua indicação. Como também sou amigo da Clô no facebook, publiquei no mesmo espaço, um comentário dizendo que me recusava a dar parabéns a um reacionário empedernido como ele.
A resposta dele foi extremamente agressiva e não poupou até o uso de um palavrão (Que horror! Ah, talvez seja porque alguns dos meus textos sejam críticos a países bolivarianos. Tá, sou um baita reacionário, infelizmente (porque acho horrível) e tu deve ser um sujeito brilhante. Bah, Clô, que merda ter que ler um troço desses de um sujeito assim).
Respondi no mesmo espaço que, se reacionário era uma palavra muito forte, poderia trocá-la por outra mais amena, como um jornalista que defende as posições de direita e que não via motivos para que ele não assumisse essa posição, afinal essa é a postura do jornal em que ele trabalha.
Sua resposta foi, então, num tom mais civilizado, mas reafirmando suas críticas aos tais países bolivarianos e dizendo ser uma pessoa quer respeita todas as posições, com exceção dos “fascistas, homofóbicos, nazistas e racistas de todo o tipo’.
Ótimo, uma pessoa pode ser contra fascistas, homofóbicos, nazistas e racistas de todo o tipo e continuar sendo uma pessoa de posições políticas de direita.
Como eu pretendo ser de esquerda, Léo Gerchmann não ficaria mal com seus leitores, se assumisse que suas críticas a Morales, Chavez, Maduro, Correa, partem de posições de direita. Poderia se dizer, talvez até com algum exagero, que há um certo viés racista nas suas críticas, na medida em que olha, principalmente para Morales e Chavez, como os representantes de segmentos mestiços da população e não de brancos, como por exemplo, o presidente Macri, da Argentina, sobre quem escreveu um artigo laudatório.
Ele que despreza tanto estes “bolivarianos” (referência ao grande libertador Simon Bolivar), deveria ler o que disse deles o filósofo esloveno Slavoj Zizek, numa conferência na Bolívia:
“A América Latina é a única esperança de que, invocar tradições ancestrais não seja parte de um projeto nacionalista de direita e reacionária. Eu amo isso”, depois de classificar a experiência de Evo Morales na Bolívia como a mais popular e efetiva da revolução bolivariana.
Sobre Hugo Chavez, a quem já criticara pelas suas aproximações com Ahmadenejad, do Irã e Lukashenko, da Belarus, disse; “As limitações de Chávez foram as limitações do momento presente, mas é preciso deixar bem claro que ele era um de nós”
Provocado pelas afirmações do Léo Gerchmann, de que o seu livro sobre o Grêmio prova que ele não é um reacionário, fui tentar analisar se, historicamente, o que afirma no livro é totalmente verdade
O fato de ser torcedor do Internacional não me impede de constatar algumas contradições no que se divulgou sobre as provas de que o Grêmio, como instituição, nunca teve práticas racistas.
Vamos deixar de lado, a torcida, onde sempre existem elementos que não se conformam com a ideia de que todas as pessoas devem ser iguais independentemente da cor, como provou aquele episódio da torcedora chamando o goleiro Aranha, do Santos, de macaco.
Primeiro, as fotos do time do Grêmio de 1926 com dois jogadores que não poderiam ser considerados brancos.
Meu pai, já me alertara há muitos anos atrás, que enquanto os negros jogavam apenas na chamada “Liga das Canelas Pretas”, havia outros, que por não terem a pele tão escura, podiam jogar na liga dos brancos, o que para ele caracterizava uma forma de racismo porque estes jogadores não se assumiam como negros.
Parece ser o caso dos jogadores que aparecem na fotografia. Os dois estão agachados, um deles, realmente com a pele mais escura, tem o cabelo escondido por uma boina e o outro é realmente um mulato e não um negro.
Mas, vamos supor que sim, que o Grêmio foi o primeiro time a admitir negros no seu time, mesmo antes que o Internacional.
Então, por que, em 1952, o Presidente Saturnino Vanzeloti, anunciou que a contratação do negro Tesourinha, multi campeão pelo Internacional, servia para quebrar um preconceito, que como diz a nota da diretoria do Grêmio, ainda existia.
Diz a nota publicada na imprensa no dia 5 de março de 1952:
A Diretoria do Grêmio resolve por unanimidade tornar insubsistente a norma que vinha sendo seguida de não incluir atletas de cor na sua representação de futebol”.
Mais revelador de que o preconceito ainda existia, é um pedido veiculado no Correio do Povo por um grupo de associados do Grêmio reclamando que essa decisão não poderia ser tomada isoladamente pela diretoria porque ela deveria passar pelo Conselho Deliberativo, “uma vez que não se tratava da simples contratação de um jogador”.

A verdadeira história de Enzo Ferregoto

A família Ferregoto, de Forqueta, como todas as famílias de origem italiana que viviam na região, era numerosa. Na velha casa de madeira, construída sobre grossos pilares, que permitiam a existência de um espaçoso porão, moravam, naquele distante ano de mil novecentos e cinquenta e poucos, a nona Augusta, chamada de Vó Guta, a filha Alcenira, apelidada de Nira, o marido Ferrônio, conhecido como Ferro e um grande número de filhos, que crescia todos os anos, pois o casal era adepto do que se chamava “à moda de São Bento”, um fora e outro dentro.
A família criava porcos, galinhas e tinha uma vaca leiteira, além de uma horta cuidada pela Dona Nira. Como todas aquelas famílias de descendentes de italianos, os filhos eram vistos mais como mão de obra para manter a renda familiar, do que qualquer outra coisa. Mesmo assim, como dizia o Ferro, um macho e uma fêmea eram reservados para o serviço de Deus. Um seria padre e outra freira.
O Ferro já tinha escolhido quem seria padre. Era o Edmar, garoto franzino, que detestava o trabalho pesado e gostava de brincar apenas com as irmãs. Uma vez chegaram a comentar com o Ferro que seu filho poderia virar um fresco, ao que ele respondeu
–  Se virar fresco, curo ele na hora com uma tunda de vara de marmelo.
Quem deveria escolher os que seriam enviados para o seminário, o macho e para o monastério, a fêmea, era o Padre Bonareli, que vinha de Caxias especialmente para isso. O Ferro não gostava muito do Padre porque ele tinha fama de promíscuo e pedófilo. Claro que na época não usavam essas palavras. No armazém, onde o Ferro participava dos jogos de truco nos sábados, Bonareli era o “garanhão” e o “boca-de-fogo”.
Quando, o padre botou o olho na filharada dos Ferregoto, escolheu de cara o Enzo, logo o Enzo, que o pai tinha decidido que seria o seu substituto, quando se aposentasse. Ele era um gringo forte, teimoso como uma mula segundo o Ferro, mas que não escolhia trabalho.
Não teve conversa. Arrumaram umas roupas novas para o Enzo e lá se foi ele, com o Padre Bonareli, para o seminário em Antônio Prado.
Um mês depois estava de volta, expulso do seminário. Tinha se metido numa briga e vivia dizendo “porco dio”, o tempo todo, apesar de advertido mais de uma vez de que isso era uma blasfêmia.
A alegria do Ferro pela volta do Enzo também durou pouco. Ele não queria mais trabalhar na colônia e com ajuda do padre Bonareli, arrumou um emprego numa firma de material elétrico em Caxias.
Iniciou-se aí a carreira profissional do Enzo. Por que entendia tudo de eletricidade, ajudava o pessoal da TV Caxias a consertar seus equipamentos e começou a participar de algumas produções locais de comerciais.
Como era muito forte, ajudava a carregar os cabos dum lugar para o outro. Todo mundo dizia que ele era um rapaz muito esperto e parece que era mesmo.
Em pouco tempo passou, em vez de carregar, a operar os equipamentos e se intitular  “cameraman”, com muito orgulho.
A etapa seguinte foi produzir um comercial para um supermercado. Nada muito complicado: uma série de imagens estáticas de latas de conserva, pedaços de carne e garrafas de bebidas, e uma gravação de um locutor dando os preços do produto.
Não importa. A partir de então, ele deixava de ser “cameraman” e passava a categoria de diretor de comerciais.
Deixou Caxias e foi tentar a sorte na Capital. Simpático, trabalhador e cobrando menos que os seus colegas, virou o plano B das agências de propaganda. 
Quando o cliente não queria pagar o que aquele famoso diretor pedia como cachê, mesmo contra a vontade do pessoal da criação, chamavam o Enzo Ferregoto, o filho do Ferro.
Chegou até a ganhar prêmios e tudo parecia ir nos melhores dos mundos, quando subitamente desapareceu de cena.
Cinco anos depois, com uma barba e cabelos enormes, reapareceu em Florianópolis. Não era mais diretor de comerciais. Dizia que estava iniciando uma vida de produtor de conteúdos de comunicação, seja lá o que isso pudesse significar.
É isso: quando alguém precisar de um produtor de conteúdos de comunicação, procure o Enzo Ferregoto, filho da Nira, ainda viva e do Ferro, há muitos anos morto e irmão mais velho do Padre Edmar, conhecido na zona italiana como o Padre Cantor, porque além de cuidar das suas ovelhas na paróquia em Monte Bérico, as embala com lindas canções religiosas, como bom pastor que é.
Enquanto espera pelos primeiros clientes, vai exercitando suas duvidosas qualidades de escritor, escrevendo textos que posta no seu facebook.
Se assume como um homem de direita, é a favor do Bolsonaro, contra o PT e pela volta dos milicos.
Como se pode ver, um tipo coerente.
Caso a sua biografia recente lhe interesse, e queira saber o endereço do Enzo Ferregoto, o produtor de conteúdos de comunicação, não existe nenhuma dificuldade.
Fácil. Ele está sempre na mesa de canto daquele boteco próximo da Ressacada, na Baia Norte de Florianópolis.
É só chegar.
Em tempo: ele atende agora pelo nome de E. Ferro, talvez em homenagem ao pai. 
Freud, certamente, explicaria.

(Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, é mera coincidência)