Carta a Sérgio Gonzales

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Publicitários arrependidos
O Sérgio Gonzales é um dos mais lúcidos publicitários brasileiros. Durante anos ele dirigiu o Departamento de Criação da MPM, conquistando a todos com base numa liderança que misturava uma alta dose de criatividade pessoal com uma extrema tolerância em relação às fraquezas dos outros.
Por alguns anos, tive a sorte de trabalhar ao seu lado e muito aprendi.
Agora, ele traz, dos seus arquivos implacáveis, um velho anúncio dos tempos anteriores a MPM, de enaltecimento da função da Propaganda (vou discutir isso mais adiante) e por tabela do regime militar da época.
Publicitário, com boa formação política (entenda-se por boa formação, ser de esquerda), Sérgio não se furta de um mea-culpa e de uma justificativa: fazíamos isso para ganhar nosso pão e ironicamente, como uma pessoa inteligente que é, diz que também para o uísque de fim da tarde. Não lembro se ela fala uísque ou outra qualquer bebida, o que dá no mesmo.
Pois, é, Sérgio. Naquela época, havia outros jovens como nós, talvez até mais talentosos, que em vez de fazer anúncios pegaram em armas contra o regime. Certo ou errado, eles morreram e nós sobrevivemos pelas escolhemos que fizemos.
O Julio Ribeiro, ícone da propaganda brasileira, disse uma vez que o publicitário brasileiro era um jagunço das multinacionais, o que não o impediu de ganhar muito dinheiro com a conta da Fiat e claro com o seu talento.
Nós, que sobrevivemos airosamente aos anos de chumbo (não me lembro de nenhum publicitário que tenha sido preso e na época, eles prendiam por qualquer coisa) hoje somos todos de esquerda.
Todos não, alguns. No meu modo de ver, os mais inteligentes. Ou melhor, os mais sensíveis aos valores humanos (acho que faltou testosterona nessa última frase, mas vá lá).
Agora, me diz uma coisa, Sérgio, ou melhor duas:
1 – Por que não assumimos nossa velha canalhice e admitamos que ajudamos com atos, palavras e pensamentos (era assim que começavam nossas confissões antes de nos tornamos ateus praticantes) a manter esse velho status quod que ainda hoje nos incomoda? Éramos os divulgadores da face risonha e franca do capitalismo predador. Eu, confesso, fiz pior. Além de fingir acreditar nele, vendi este peixe (mal cheiroso) durante anos na universidade.
2 – O que é um publicitário de esquerda? Existe esta categoria?  Os dois Roberto, por exemplo, o Callage e o Philomena.  Gente, pessoalmente, do maior valor. Cheios de talento e criatividade. Pelo que escrevem, hoje, parecem ser de esquerda. Pode? Eles ficaram ricos fazendo anúncios coloridos, bonitos, emocionantes para empresários que ganharam ou ainda ganham dinheiro, ficando com a “mais valia” dos empregados. Quem é de esquerda sabe o que é isso.  O Marx inventou o termo e todos nós, os de esquerda, o tomamos como verdade. Quem sabe, o “ser de esquerda” é tão amplo que permite ser a favor do sistema capitalista e continuar sendo de esquerda, esquecendo os ensinamentos de Marx.
Então, onde nos classificamos?  Socialistas? O partido socialista, aqui no Brasil vota com a direita e até com a extrema direita. Depois, não podemos esquecer que a sigla  NAZI significava nacional-socialismo. Comunista, então? A Manoela é comunista e a gente nunca votou nela. Nos governos do Lula e da Dilma, o PCdoB, ficava quase no centro.
Quem sabe anarquistas?
E aí, Sérgio Gonzales, como dirimir tantas dúvidas?
Certo estavam aqueles publicitários que, aparentemente, sempre estiveram felizes com a condição de ser assim chamados. Lembro de alguns e espero não colocar mais alguns esquerdistas nesta lista. Acho que não. O João Satt (grande vencedor nessa área), o Luís Augusto Cama (capaz de teorizar horas inteiras sobre os grandes valores da publicidade), o Marcos Eizerick (um talento como criador), o Itamar Graven (um homem prático), o Laerte Martins (que emprestou o nome para uma agência de sucesso), o Antônio D´Álessandro (que rompeu a hegemonia da MPM no mercado local), o Faveco ( que me abriu as portas para esta festa), a Bárbara Openheimer ( bonita e inteligente) o Eduardo Willrich ( que me despediu duas vezes das suas agências), o Dick Schertel ( o destemido) e o Zeca Honorato ( uma pessoa de fino trato – nunca ninguém me chamou assim – e que preside com brilho a ARP) e tantos outros, cujos nomes me escapam agora. Todos assumidamente publicitários, com muito orgulho.
Então, Sérgio, ficamos assim:
Ou assumimos a inutilidade social do que fizemos como profissionais de publicidade e como nos velhos expurgos da União Soviética, confessamos nossas culpas ou cinicamente, admitamos que estamos usando esta capa de esquerdistas para aliviar nossas culpas.

Pelo que escrevi até agora, amigo Sérgio, parece que estou escolhendo o primeiro caminho, embora nada seja definitivo na vida.

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