As cidades têm alma

As cidades são como as pessoas. Algumas têm alma, são bonitas, hospitaleiras e acolhedoras. Outras não têm e por isso são feias, inóspitas e intolerantes.
Algumas se recusam a morrer, como Hiroshima, Berlim, Dresden e Moscou. Outras se entregam aos primeiros que chegam com um pouco de ouro nos bolsos, quais cortesãs, como Miami, Brasília e Gramado.
Umas ouviram o primeiro grito de milhares de pessoas em defesa de um novo mundo possível, como Porto Alegre, da Frente Popular.
Outras, jamais se ergueram contra algum tipo de injustiça, preferindo curtir seu mar azul e areais claras, como Florianópolis.
Algumas resistiram até a exaustão final, como Madri diante das tropas fascistas de Franco (“No passáran” – La Passionara), enquanto outras, como Roma, se declararam “cidade aberta”, para salvar seus tesouros.
Uma, se tornou um símbolo para a humanidade, porque foi a capital da grande revolução do século XVIII e da primeira experiência comunista, no século XIX, Paris.
Outra, guarda a mancha de ter sido acolhedora para as primeiras experiências nazistas da história, Munique.
Algumas cidades são cantadas em prosa e verso pelos poetas e outras são esquecidas.
Carlos Drummond de Andrade, o nosso maior poeta, falou de Stalingrado e Moscou e não de Estocolmo e Oslo.
“Aqui se chamava e se chamará sempre Stalingrado”
“A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos”.
André Filho, saudou o Rio de Janeiro e não Belo Horizonte
“Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil”
Caetano Veloso lembrou de São Paulo e não de Salvador
“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas”
Como em relação as pessoas, podemos discordar quantas as cidades. Alguém pode gostar mais de Florianópolis do que o Rio, de Salvador mais do que São Paulo, mas nenhuma pessoa de bom gosto vai discordar que a cidade mais sem alma do Brasil é Curitiba.
Capital de um estado que não existe – o Paraná é metade paulista, metade gaúcho –  somente em Curitiba poderia vicejar uma figura tão asséptica e sem alma como esse juiz Moro.

A cidade e ele se merecem.

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