O que é feito de L.?

L. foi a minha primeira namorada. Tínhamos 18 anos. Ela era do tipo mignon, rosto lindo, meiga, doce e uma voz de criança para combinar com a sua figura. Eu era feio, magrela, espigado, dentuço e aquela namoradinha (tudo nela convidava aos diminutivos) era muito mais do que eu mereceria. Ela morava com os pais numa casa de madeira, com um pequeno jardim na frente e um pátio cheio de árvores nos fundos,lá pros lados do Partenon. O pai era um sargento aposentado da Brigada, sempre de mau humor e a mãe, como quase todas as mães da época, era uma senhora recatada, do lar, mas muito menos para formosa, do que para uma gorda patusca, como dizia o Nelson Rodrigues. Eu trabalhava em dois turnos e estudava à noite e ela trabalhava num escritório do centro. Nos encontrávamos aos sábados e as vezes aos domingos (quando não tinha futebol) na casa dela. Ficávamos no sofá da sala, avançando cada vez mais na troca de carícias, ela sempre preocupada com os país que deitavam cedo, num quarto que ficava separado da sala apenas por uma parede de madeira.. O pai ficava ouvindo um programa de trovas gauchescas no rádio e quando esquecidos da sua presença, ficávamos mais excitados, ele pigarreava forte. Era o sinal para diminuir a tesão.L. tinha uma irmã, casada com um oficial da Brigada e ela mesma fora noiva de um tenente. O pai, certamente teria preferido o jovem oficial ao novo namorado, apresentado como jornalista e estudante. A mãe, achava que era melhor ter um, que nenhum, até porque naquela idade, as moças já estavam prontas para o casamento e eu ainda não falara nisso. Uma noite, quando indiferente aos pigarros do pai, eu avançava destemido sobre os seios de L. numa excitação que parecia enlouquecer os dois, ela ingenuamente (ou seria eu o ingênuo) confessou que já tinha permitido essa liberdade ao ex-noivo. Esfriei na hora (ah…o machismo!) e cobrei um prêmio maior. Queria transar com ela. Claro que não se usava o verbo transar, mas a finalidade era a mesma. Ela concordou, com uma condição: eu teria depois que falar com o pai dela e dizer que logo iriamos casar. Como era comum na época, ela estava disposta a trocar a virgindade por uma promessa de casamento. Prometi pensar no assunto e dar uma resposta. Em vez disso desapareci. Dois ou três fins de semana sem visitar a casinha lá pros lados do Partenon e começara a esquecer L. Como a casa dela, nem a minha, tinha telefone, então não houve mais contato, até que, 30 anos depois a encontro no centro da cidade. A exceção de alguns traços de beleza no rosto, que ainda se conservavam, L. tinha se transformado numa gorda patusca como o mãe. A voz de criança continuava, mas ficava agora muito estranha naquele corpo. Os pais tinha morrido e ela morava com a irmã que ficara viúva. Não, não tinha casado. Não perguntei se continuava virgem. Nos despedimos para sempre e eu fiquei com uma sensação de culpa. Devia ter transado com ela antes de desaparecer.
O que será feito de L.?
CurtirMostrar mais reações

Comentar

As cidades têm alma

As cidades são como as pessoas. Algumas têm alma, são bonitas, hospitaleiras e acolhedoras. Outras não têm e por isso são feias, inóspitas e intolerantes.
Algumas se recusam a morrer, como Hiroshima, Berlim, Dresden e Moscou. Outras se entregam aos primeiros que chegam com um pouco de ouro nos bolsos, quais cortesãs, como Miami, Brasília e Gramado.
Umas ouviram o primeiro grito de milhares de pessoas em defesa de um novo mundo possível, como Porto Alegre, da Frente Popular.
Outras, jamais se ergueram contra algum tipo de injustiça, preferindo curtir seu mar azul e areais claras, como Florianópolis.
Algumas resistiram até a exaustão final, como Madri diante das tropas fascistas de Franco (“No passáran” – La Passionara), enquanto outras, como Roma, se declararam “cidade aberta”, para salvar seus tesouros.
Uma, se tornou um símbolo para a humanidade, porque foi a capital da grande revolução do século XVIII e da primeira experiência comunista, no século XIX, Paris.
Outra, guarda a mancha de ter sido acolhedora para as primeiras experiências nazistas da história, Munique.
Algumas cidades são cantadas em prosa e verso pelos poetas e outras são esquecidas.
Carlos Drummond de Andrade, o nosso maior poeta, falou de Stalingrado e Moscou e não de Estocolmo e Oslo.
“Aqui se chamava e se chamará sempre Stalingrado”
“A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos”.
André Filho, saudou o Rio de Janeiro e não Belo Horizonte
“Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil”
Caetano Veloso lembrou de São Paulo e não de Salvador
“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas”
Como em relação as pessoas, podemos discordar quantas as cidades. Alguém pode gostar mais de Florianópolis do que o Rio, de Salvador mais do que São Paulo, mas nenhuma pessoa de bom gosto vai discordar que a cidade mais sem alma do Brasil é Curitiba.
Capital de um estado que não existe – o Paraná é metade paulista, metade gaúcho –  somente em Curitiba poderia vicejar uma figura tão asséptica e sem alma como esse juiz Moro.

A cidade e ele se merecem.

Carta a Sérgio Gonzales

Publicitários arrependidos
O Sérgio Gonzales é um dos mais lúcidos publicitários brasileiros. Durante anos ele dirigiu o Departamento de Criação da MPM, conquistando a todos com base numa liderança que misturava uma alta dose de criatividade pessoal com uma extrema tolerância em relação às fraquezas dos outros.
Por alguns anos, tive a sorte de trabalhar ao seu lado e muito aprendi.
Agora, ele traz, dos seus arquivos implacáveis, um velho anúncio dos tempos anteriores a MPM, de enaltecimento da função da Propaganda (vou discutir isso mais adiante) e por tabela do regime militar da época.
Publicitário, com boa formação política (entenda-se por boa formação, ser de esquerda), Sérgio não se furta de um mea-culpa e de uma justificativa: fazíamos isso para ganhar nosso pão e ironicamente, como uma pessoa inteligente que é, diz que também para o uísque de fim da tarde. Não lembro se ela fala uísque ou outra qualquer bebida, o que dá no mesmo.
Pois, é, Sérgio. Naquela época, havia outros jovens como nós, talvez até mais talentosos, que em vez de fazer anúncios pegaram em armas contra o regime. Certo ou errado, eles morreram e nós sobrevivemos pelas escolhemos que fizemos.
O Julio Ribeiro, ícone da propaganda brasileira, disse uma vez que o publicitário brasileiro era um jagunço das multinacionais, o que não o impediu de ganhar muito dinheiro com a conta da Fiat e claro com o seu talento.
Nós, que sobrevivemos airosamente aos anos de chumbo (não me lembro de nenhum publicitário que tenha sido preso e na época, eles prendiam por qualquer coisa) hoje somos todos de esquerda.
Todos não, alguns. No meu modo de ver, os mais inteligentes. Ou melhor, os mais sensíveis aos valores humanos (acho que faltou testosterona nessa última frase, mas vá lá).
Agora, me diz uma coisa, Sérgio, ou melhor duas:
1 – Por que não assumimos nossa velha canalhice e admitamos que ajudamos com atos, palavras e pensamentos (era assim que começavam nossas confissões antes de nos tornamos ateus praticantes) a manter esse velho status quod que ainda hoje nos incomoda? Éramos os divulgadores da face risonha e franca do capitalismo predador. Eu, confesso, fiz pior. Além de fingir acreditar nele, vendi este peixe (mal cheiroso) durante anos na universidade.
2 – O que é um publicitário de esquerda? Existe esta categoria?  Os dois Roberto, por exemplo, o Callage e o Philomena.  Gente, pessoalmente, do maior valor. Cheios de talento e criatividade. Pelo que escrevem, hoje, parecem ser de esquerda. Pode? Eles ficaram ricos fazendo anúncios coloridos, bonitos, emocionantes para empresários que ganharam ou ainda ganham dinheiro, ficando com a “mais valia” dos empregados. Quem é de esquerda sabe o que é isso.  O Marx inventou o termo e todos nós, os de esquerda, o tomamos como verdade. Quem sabe, o “ser de esquerda” é tão amplo que permite ser a favor do sistema capitalista e continuar sendo de esquerda, esquecendo os ensinamentos de Marx.
Então, onde nos classificamos?  Socialistas? O partido socialista, aqui no Brasil vota com a direita e até com a extrema direita. Depois, não podemos esquecer que a sigla  NAZI significava nacional-socialismo. Comunista, então? A Manoela é comunista e a gente nunca votou nela. Nos governos do Lula e da Dilma, o PCdoB, ficava quase no centro.
Quem sabe anarquistas?
E aí, Sérgio Gonzales, como dirimir tantas dúvidas?
Certo estavam aqueles publicitários que, aparentemente, sempre estiveram felizes com a condição de ser assim chamados. Lembro de alguns e espero não colocar mais alguns esquerdistas nesta lista. Acho que não. O João Satt (grande vencedor nessa área), o Luís Augusto Cama (capaz de teorizar horas inteiras sobre os grandes valores da publicidade), o Marcos Eizerick (um talento como criador), o Itamar Graven (um homem prático), o Laerte Martins (que emprestou o nome para uma agência de sucesso), o Antônio D´Álessandro (que rompeu a hegemonia da MPM no mercado local), o Faveco ( que me abriu as portas para esta festa), a Bárbara Openheimer ( bonita e inteligente) o Eduardo Willrich ( que me despediu duas vezes das suas agências), o Dick Schertel ( o destemido) e o Zeca Honorato ( uma pessoa de fino trato – nunca ninguém me chamou assim – e que preside com brilho a ARP) e tantos outros, cujos nomes me escapam agora. Todos assumidamente publicitários, com muito orgulho.
Então, Sérgio, ficamos assim:
Ou assumimos a inutilidade social do que fizemos como profissionais de publicidade e como nos velhos expurgos da União Soviética, confessamos nossas culpas ou cinicamente, admitamos que estamos usando esta capa de esquerdistas para aliviar nossas culpas.

Pelo que escrevi até agora, amigo Sérgio, parece que estou escolhendo o primeiro caminho, embora nada seja definitivo na vida.