A Vizinha

A VIZINHA
Quem deu a notícia foi a minha mulher, a Natália
– Temos vizinhos novos.
No condomínio de prédios populares em que morávamos, o apartamento de frente para a janela da nossa sala estava vazio há muitos meses. Agora segundo a Natália, ele iria ser ocupado por um jovem casal e eu fiquei pensando que talvez pudesse recuperar aquelas sessões de sexo explícito que eu assistia todas as tardes, quando o apartamento era ocupado pela Dona Mercedes e o seu Francisco.
Dona Mercedes era uma mulata gorda, já adiantada nos anos, mas ainda muito interessada nas batalhas do sexo. À tarde, quando seu Francisco saia para o trabalho, ela levava sempre algum garoto para lhe fazer companhia. Acho que por uma questão de respeito com o leito conjugal, ela se divertia com os meninos sempre na sala.
Bastava eu chegar na janela e lá estava Dona Mercedes fazendo sexo de todas as maneiras imagináveis com seus pequenos convidados. As três da tarde, invariavelmente, começava meu programa vespertino. Naquela época, já desempregado, eu me aproveitava daquele espetáculo gratuito que terminava para mim sempre com o consolo da masturbação.
Um dia, a polícia bateu no apartamento e levou Dona Mercedes. Um vizinho a havia denunciada por aliciamento de menores. Dizem que o seu Francisco ficou tão abalado com o fato que morreu pouco depois.
Agora, com os novos inquilinos, talvez voltasse as minhas sessões de voyeurismo.
Por alguns dias, as janelas ficaram com as cortinas baixadas, até que numa segunda feira, elas se abriram novamente e pude conhecer a nova vizinha. O seu parceiro, eu imaginava ser o rapaz que me perguntou onde havia uma padaria no bairro quando eu saia para a minha caminhada matinal.
Agora conhecia a mulher. Era uma morena bem joveme pelo que pude observar também muito bonita. Fingindo que olhava alguma coisa no horizonte mais distante, levei alguns segundos para fixar os olhos nela. Surpreendentemente, ela sorriu e me cumprimentou.
Confesso que na hora fiquei tão perturbado que nem respondi e fui me abrigar num canto da sala onde ela não pudesse me ver. Ali permaneci, por alguns segundos, tomando coragem, até que voltei a olhar diretamente para a janela, esperando que ela já tivesse desaparecido.
Em vez disso, lá estava ela ainda sorrindo para mim. Ela havia se afastado alguns passos para trás e pude ver então que ela estava praticamente despida e parecia me fazer um gesto.
Estou sonhando, pensei, mas não. Com as mãos, ela me fazia aquele gesto inconfundível me chamando até ela.
 Não era sonho. Ela estava lá, sorria quase desnuda e me chamava.
Ela deve ter percebido que eu ainda estava indeciso. Então levantou um pequeno cartaz onde estava escrito
Apto. 204. Venha logo!
Era agora ou nunca. Sai quase correndo, desci as escadas aos pulos e corri para o prédio vizinho. O apartamento 204 ficava no segundo andar. Cheguei ofegante e antes de tocar a campainha esperei alguns segundos para me recuperar.
Depois toquei rapidamente a campainha para não chamar a atenção de ninguém no prédio.
Ao primeiro toque, ninguém atendeu. Desesperado, toquei várias vezes. Ouvia a campainha soar no interior do apartamento, mas a porta não se abria.
A porta que se abriu foi do apartamento ao lado, o 206. Uma senhora de avental e uma panela na mão, me perguntou se eu procurava alguém.
_ A senhora que mora no apartamento 204

– Não mora ninguém nesse apartamento. Desde que a Dona Mercedes foi presa o apartamento está vazio.

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